Londres, Inglaterra. 26 de Novembro de 1911.
Residência do Dr. Watson.
Era domingo, dia livre no consultório, à exceção dos casos urgentes que vez ou outra apareciam à sua porta, e mesmo com todas as opções de lazer à sua mão, como o convite para um sarau na residência de seu velho amigo de profissão, o Dr. Lennington, ou uma ida a um de seus restaurantes favoritos ou quem sabe um raro passeio no parque com direito a um piquenique na companhia de seus filhos – há muito tempo não fazia isso, apercebeu-se! – o Dr. Watson decidiu ocupar-se naquele momento dia de folga para trabalhar.
Estava desde cedo mexendo em seus muitos arquivos relacionados a Sherlock Holmes. Trabalhava em uma parceria com o detetive há décadas e havia organizado em seu arquivo muitos casos. Muitos deles eram simples demais para merecer um conto, mas outros... Watson temia que jamais seriam publicados, pelas mais diversas razões. E todas divididas em pastas.
Havia a pasta azul, com casos que estavam diretamente relacionados à Realeza Britânica, a tal ponto que nem mesmo a mudança de nomes ou de casas europeias seriam o suficiente para ocultar a identidade dos envolvidos. A pasta amarela continha histórias que, talvez, poderiam ser publicadas um dia. Já a pasta vermelha...
Havia poucos casos nessa pasta, e a julgar pela natureza deles, nem mesmo deveriam estar redigidos ali, mas o conduzir dos casos foi tão envolvente que Watson não conseguiu impedir-se de simplesmente ir até sua máquina de datilografar e escrevê-los, por mais proibido que fosse. E os malditos contos estavam tão bem escritos, pensou... E agora, graças à última ousadia de Arsène Lupin, deveriam ser queimados. Apesar de sua caixa estar em um cofre, Watson não se sentia mais seguro para guarda-los, nem mesmo em sua casa. Se o ladrão conseguiu invadir Baker Street e roubar o violino de Holmes, sua casa poderia ser seu último alvo, e a última coisa que seu amigo precisasse era ter documentos tão valiosos de posse de um inimigo dessa magnitude. Nem nos tempos de Moriarty Watson sentiu-se tão ameaçado, tão vulnerável assim, e olha que ele era ninguém menos que o Napoleão do Crime! Impressionante os feitos que esse jovem ladrão estava conseguindo.
Retirou todos os papéis de suas respectivas pastas, e colocou-os dentro de uma caixa. Melhor seria reduzi-lo a cinzas, e a ideia de simplesmente deixa-los queimar na lareira de sua casa lhe soava muito arriscada, por isso optou por queimá-los nos fundos de sua casa. Separou um barril e ateou fogo. Quando as chamas já estavam altas, começou a lança-los, um a um.
-Papai, o que está fazendo? – era Agnes, surpresa por vê-lo ateando fogo em alguma coisa nos fundos de casa. Watson suspirou, jogando mais um caso ao fogo.
-Esses são alguns casos que escrevi ao papel quando não deveria. Alguns eu ainda tinha a esperança de lança-los, mas outros... São confidenciais demais para estar de minha possessão. Dado os últimos acontecimentos, é melhor destruí-los.
-Mas papai... Está destruindo seu próprio trabalho... – comentou Agnes, com a voz triste. Watson era o desânimo em pessoa, por ver o fruto de horas e horas atrás de sua máquina de escrever virando brasas.
-Não posso correr o risco de prejudicar Holmes ainda mais, minha filha.
Agnes olhou para os papéis que ainda não tinham sofrido esse destino. O primeiro que vi chamou-lhe a atenção pelo título incomum. Chamava-se “Charles Augustus Milverton”. Seu pai não tinha o costume de intitular seus contos com o nome de alguém. Sinal de que deveria ser um nome muito marcante ou importante.
-E esse aqui? Qual a razão deste estar destinado às chamas? – apontou a jovem, no que fez Watson deixar escapar uma cara de desgosto.
-Acho que nunca enfrentamos um ser mais repugnante do que Charles Augustus Milverton, o Mestre da Chantagem em Londres.
-Imagino a quantidade de segredos proibidos que esse caso deve conter...
-Não exatamente. Era muito fácil ocultá-los, e até mesmo ocultar o nome do cliente para publicá-los. Quanto a Milverton, está morto há uns bons vinte anos, bem na época quando tudo isso aconteceu. Mas há um fato que me deixa reticente quanto à publicação desse caso.
-E que fato é esse? – perguntou Agnes. Ao notar a curiosidade de sua filha, Watson logo separou-o dos demais e imediatamente o ateou ao fogo.
-Só o que posso dizer, minha filha, é que meu amigo Holmes utilizou uma tática muito repugnante para derrotar Milverton. Mas ao menos aprendeu a lição e nunca mais fez isso. Bom, ao menos eu espero que sim.
-E você me conta isso depois de jogá-lo ao fogo?! Mas que pertinente!
Watson riu. Era engraçado ver Agnes curiosa, mas dessa vez não seria possível saciar sua curiosidade. Mesmo o assunto foi delicado demais para escrever, e era impróprio tratar desses temas com uma filha, mesmo com idade o suficiente para entender algumas coisas da vida.
-Talvez eu o publique depois, quem sabe? Cortando algumas coisas...
-Não será a mesma coisa que o conteúdo na íntegra. – retrucou Agnes, decepcionada por ver o nome “Charles Augusus Milverton” já enegrecido pelo fogo.
De repente, ouviram o sinete tocar. Agnes bufou. Watson havia dado folga aos empregados naquele domingo, o que lhe restava ter de conferir quem batia à porta. Afastou de seu pai e foi até o portão, para ver quem chamava. Era um jovem rapaz, notou. Usava costeletas e um terno azul marinho, quase que escondido sobre um pesado-sobretudo. Tinha profundas olheiras e pareceu abobado ao vê-la, talvez porque não esperasse ser atendido por ela. O estado de apoplexia durou pouco, entretanto.
-Bom dia, senhorita. Gostaria de falar com o Dr. Watson. Ele está?
-Está, sim. Quem gostaria?
O rapaz retirou educadamente seu chapéu, revelando seus cabelos castanhos curtos.
-Meu nome é Inspetor Lestrade Jr. às suas ordens. – disse, mostrando seu característico distintivo da Scotland Yard, oculto atrás da lapela de seu sobretudo.
Agnes pensou em deixa-lo entrar, mas recordou-se da orientação que recebeu de seu pai desde o roubo à residência de Holmes. Não deveria, sob hipótese alguma, permitir a entrada de estranhos, e apesar daquele rapaz ter exibido um distintivo da polícia, era melhor não contrariá-lo. Lera nos jornais que esse tal Arsène Lupin tinha muitos disfarces. Quem não poderia dizer que esse era só mais um deles?
-Um momento, vou chama-lo. – disse, recolhendo-se.
Ao avisar a Watson, notou em seu pai clara consciência de quem se tratava o tal inspetor. Claramente o conhecia. Menos mal, pensou. Só de pensar que esse ladrão já estivera tão perto de nós...
-Boa tarde, Lestrade Jr. Queira entrar, por favor. – cumprimentou Watson, deixando o jovem adentrar à sua casa. O rapaz aceitou o convite, entrando e deixando o sobretudo e chapéu no cabideiro perto da porta. Sentou-se após o doutor.
-A que devo sua visita, inspetor?
-Seu amigo está aqui? – perguntou Lestrade Jr., diretamente.
-Não. Na verdade, não vejo Holmes há uns dois dias.
-Exatamente o mesmo devo dizer, ao menos é o que diz o relato de um de meus homens, que mais uma vez foi expulso quase que aos pontapéis de Baker Street.
Watson suspirou, desolado.
-Imaginei que Holmes não iria querer nenhum guarda da Scotland Yard plantado na porta de sua casa, nem mesmo depois de tudo que aconteceu.
-Pois deveria. Arsène Lupin entrou e saiu de Baker Street com enorme facilidade, sinal de que a segurança por lá é bastante falha. Pedi que ele se hospedasse em algum hotel, fosse para outro lugar, mesmo para sua residência em Sussex Downs, mas ele recusou. Disse que não sai de Baker Street, muito menos de Londres...
O inspetor interrompeu-se, ao ver a mesma jovem que lhe cumprimentara ao chegar adentrando à sala de estar do Dr. Watson. Dessa vez, carregando uma bandeja com um bule de chá e biscoitos. Poderia não ser um grande mestre da dedução como Holmes, mas sabia reconhecer que ela, com suas refinadas vestimentas, estava muito longe de ser uma mera empregadinha daquele lugar. Deveria ser filha do Dr. Watson, concluiu.
Uma filha, por sinal, muito bonita.
-É muita gentileza sua, senhorita...
-Agnes. Agnes Watson. – apresentou-se Agnes, deixando a bandeja sobre a mesa de centro e saindo da sala.
Watson, que era muito versado no assunto mulheres, percebeu os olhares lançados do jovem inspetor sobre sua filha. Era verdade que Agnes já estava na idade certa de se casar, mas esse assunto ainda não ocupava sua mente. Talvez já estivesse passando do momento de ocupar, concluiu. Sua filha já não era mais uma menininha, uma triste constatação que o olhar de interesse do inspetor sobre ela o fazia chegar.
-É sua filha, presumo?
-Sim, a mais velha. – explicou o doutor. – A única filha de meu segundo casamento com minha falecida esposa Mary. Tenho outros dois filhos, mais jovens que ela, que se chamam Charles e Peter, frutos de meu terceiro e último casamento. Mas voltando ao assunto... Está procurando Holmes?
-Sim. Segundo a empregada dele...
-Holmes é na verdade inquilino de Mrs. Yolanda Hudson, não patrão. Mas continue, por favor. – interrompeu Watson, indignado com a conclusão indevida do inspetor a respeito da mais nova senhoria de Baker Street só por causa da cor de pele dela.
-Enfim, o fato é que ele simplesmente está desaparecido há mais de quarenta e oito horas. Pensei que o senhor tivesse notícias dele ou que fosse possível encontra-lo aqui, mas pelo visto este não é o caso. Sabe dizer onde ele pode estar?
Watson refletiu um pouco.
-Quando há um caso em andamento e Holmes desaparece, com certeza é por um bom motivo. Não se preocupe, inspetor. Pode ter certeza de que ele está bem e, além disso, homicídio é algo que está fora dos métodos de Arsène Lupin.
O inspetor parecia discordar de Watson.
-Para tudo sempre há uma primeira vez, doutor. Bom, caso receba notícias de seu amigo, não hesite em mandar um telegrama à Scotland Yard informando e...
O policial interrompeu-se, ao ver o soar do sinete. Foi a vez de Watson levantar-se e verificar quem estava à porta. Era Sherlock Holmes.
-Holmes! Estávamos justamente aqui, a conversar sobre o seu sumiço! – espantou-se Watson, ao ver seu amigo deixando chapéu e casaco junto ao cabide, ao lado dos pertences de Lestrade Jr. Não estava disfarçado dessa vez.
-Foi absolutamente necessário. Minha ausência nos últimos dias foi necessária para que eu pudesse tomar algumas precauções, e julgando o cheiro de papel queimado a vir em minhas narinas, presumo que esteve fazendo o mesmo, não é, meu caro Watson?
O inspetor Lestrade Jr. voltou seus olhos a Watson. De fato, sentiu cheiro de algo queimando, mas jamais imaginou que fosse papel, como disse o detetive. Só bruxaria explicava isso.
-Fiz uma faxina, apenas. – limitou-se a dizer Watson.
-Lupin entrou em contato comigo novamente. Ao menos poupou a vidraça de Baker Street dessa vez e optou por deixar esse bilhete dentro da caixa de correios. – retrucou o detetive, entregando a Lestrade Jr. um pequeno pedaço de papel.
O inspetor analisou a letra e percebeu ser um papel completamente diferente dos outros, bem como com uma tinta de cor diferente, e até mesmo letra com caligrafia bem diferente! Dificilmente parecia ter sido escrito pela mesma pessoa.
-Tem certeza de que se trata mesmo de um recado de Lupin? O conteúdo realmente parece ser uma gozação daquele patife à sua pessoa, mas a letra é bem diferente da última vez!
-Ele é ótimo em falsificar caligrafias. Com certeza está se utilizando desse artifício para reduzir as minhas chances de investiga-lo. Poderia ler para nós em voz alta, inspetor?
O inspetor pigarreou. Olhou para Holmes mais uma vez, reticente.
Que bela melodia um Stradivarius possui
Nem parece que um dia teve um dono como tu
Precisei banhá-lo em perfume francês
Para tirar um pouco do seu cheiro de burguês
-Só estou reproduzindo o que ele disse, Mr. Holmes... – interrompeu-se o inspetor Lestrade Jr., claramente constrangido.
-Compreendo, inspetor. Continue, por favor.
O inspetor pigarreou mais uma vez, dando continuidade.
Mas agora terei de deixa-lo de tocar um pouco
Pois em breve estarei ocupado com um novo roubo
Um soberano por seu tempo, imagine o que farei
Algo muito precioso de ti eu levarei
Watson levantou-se imediatamente. Parecia ter adivinhado algo.
-Soberano, algo... Estaria ele falando do retrato de Irene Adler que você guarda até hoje em sua gaveta?
Holmes suspirou, um tanto abnegado por ter que tocar nesse assunto.
-Se sim, então eu antecipei seu passo e o derrotei. Arsène Lupin pode revirar Baker Street de ponta cabeça que não o encontrará. Já tomei as devidas providências para deixar o retrato d’A Mulher em segurança, junto a outras coisas que ele poderia usar contra mim. Mas algo me diz que não se trata disso, Watson. Penso que invadir Baker Street de novo atrás de outra coisa minha seria por demais previsível.
-Mas então, o que poderia ser? – pôs-se a pensar Watson. Foi a vez de Lestrade Jr. levantar-se.
-Só sei que não estou gostando nada disso. Para mim, isso é o aviso de um sequestro! Mr. Holmes, o senhor possui familiares? Parentes, mesmo distantes?
-Apenas o meu irmão Mycroft, mas acredite em mim, ele está mais seguro do que todos nós.
-Então só pode ser o Dr. Watson! – exclamou Lestrade Jr.
-Eu?!
-Mas é claro, doutor. Você é o melhor amigo de Mr. Holmes. E se esse tal roubo que Lupin anunciou se tratar na verdade de um sequestro à sua pessoa?! Não, não podemos arriscar. Vou pedir que meus melhores homens guardem essa casa. Você e sua família ficarão à salvo das garras desse patife. Quanto ao senhor, Mr. Holmes, temo que terei de insistir mais uma vez para que aceite que os meus homens guardem a sua residência e...
-Sem mais insistências, Lestrade Jr.! – retrucou Holmes, impaciente. – Não quero os buldogues da Scotland Yard esparramados em minha calçada. Isso só vai servir para atrapalhar a comunicação de Arsène Lupin comigo. Já disse, esse patife não vai me matar. Até porque, se quisesse, já teria conseguido. O jogo dele é de outra natureza.
Lestrade Jr. parecia inconformado, mas sabia que não tinha outra escapatória senão acatar o pedido de Holmes. Bem que seu pai havia avisado que ele era muito teimoso!
-Espero que o senhor não recuse a ajuda de meus homens, Dr. Watson.
-De forma alguma! – retrucou o doutor. – Penso que será melhor assim, ao menos até que Holmes consiga resolver esse caso. Mas concordo com Holmes quanto às intenções de Lupin. Não creio que ele deseje nos matar propriamente.
-A única coisa que Arsène Lupin deseja matar é a minha reputação. – retrucou Holmes, com o ar aborrecido.
-E a minha paciência também! – respondeu Lestrade Jr., igualmente aborrecido.
Os dois se despediram de Watson, deixando sua residência. Com a saída deles, Agnes retornou à sala, recolhendo a bandeja com chá e biscoitos. Ao vê-la retirar as coisas da mesa, Watson sentiu desejo de fazer uma pergunta.
-O que achou do Inspetor Lestrade Jr, Agnes?
A jovem parou o que estava fazendo, um tanto surpresa.
-Bom... Estive por um breve momento com ele, mas senti que ele era um rapaz gentil.
-Hm... Sabe, ele é filho de um Comissário da Scotland Yard, na verdade, alguém muito próximo de ser um amigo de longa data, dado os anos de parceria que tive com o bom e velho Inspetor Lestrade antes dele assumir a cadeira de Comissário. Não vem de uma família muito abastada, mas sem dúvida possui no horizonte uma carreira promissora na Scotland Yard...
-Por que está falando isso, papai?! – retrucou Agnes, claramente aborrecida.
-Eu notei os olhares que ele lançou a você, mas tive dúvidas do que você pensa a respeito dele.
-Será que eu não posso simplesmente ser educada com um homem que o senhor já faz mal juízo de mim? – resmungou a moça, recolhendo sua bandeja e levando-a até a cozinha. Foi, entretanto, seguida por seu pai.
-Não é fazer mal juízo, minha filha. É só que... Bom, acho que já é hora de conversamos a respeito de seu futuro casamento, e pensei que talvez o inspetor Lestrade Jr...
-Papai! Pelo amor de Deus, eu mal troquei um cumprimento com aquele rapaz e o senhor já está pensando em casamento?! – vociferou a jovem, colocando a louça na pia.
-Você pode conversar com ele mais vezes. Ele pode te fazer à Corte também.
A menina rolou os olhos, começando a lavar os talheres.
-Papai, eu não quero me casar.
O aviso de Agnes espantou Watson.
-Como assim, minha filha?! Uma moça de sua idade e posição social, com um futuro brilhante pela frente, quer acabar solteirona?! Olhe para seu tio Sherlock!
-Ele me parece ser muito feliz do jeito que é! Por que eu também não posso ser?! Ah, mas é claro. Eu sou mulher, não é mesmo? Estou destinada a casar, ter uma dúzia de filhos, e só! Os homens, não. Podem simplesmente levar a vida do jeito que mais lhe desejarem! Podem casar, podem ter amantes, podem se separar...
-Filha... – retrucou Watson, contrariado. – Meu divórcio com Lucy é uma situação bem diferente. Nós não nos amamos mais e decidimos que era melhor nos divorciarmos.
-Ah, mas adivinha só quem caiu em desgraça perante a sociedade? Quem sofre julgamentos toda vez que anda na rua? É você, papai?! Ou é Lucy, a “separada”?! Não é assim que a chamam?!
Watson bufou. Não imaginava estar tendo aquele tipo de conversa com sua filha. Imaginava para ela um bom e feliz casamento, com um homem que ela amasse e respeitasse, e que em consequência teria filhos. Uma dúzia talvez fosse exagero, mas talvez uns três filhos seria de bom tamanho. Não essa rebeldia toda.
-Seu tio Sherlock tem uma profissão. E você, viverá do quê depois que eu morrer? Pois tenho poucas propriedades e terá de dividi-las com seus irmãos. E então? Como viverá sem um marido?!
-Eu tenho braços, pernas e cérebro, não? Pois vou trabalhar!
Suas palavras deixaram Watson ainda mais indignado.
-Trabalhar?! Mas que sandice sem tamanho! Não te dei uma boa educação para que trabalhasse como uma operária qualquer! E com que diabos irá trabalhar? Agnes! Agnes, estou falando com você!
Mas a jovem não respondeu, subindo as escadas completamente calada e com o semblante emburrado. Entrou em seu quarto, fechando a porta pesadamente, além de trancá-la. Ao ver que não mais conseguiria falar com sua filha, ao menos não por hora, Watson suspirou. Talvez fosse melhor assim. Quem sabe trancada em seu quarto sua filha não teria mais tempo para refletir a respeito das sandices que acabara de dizer. Quem sabe, não? Pois amanhã teria uma conversa muito séria com ela. Talvez, com os ânimos mais calmos, ele pudesse convencê-la do quão absurdo era a mera hipótese de uma moça como ela, que poderia ter um ótimo partido, simplesmente acabar solteirona como Sherlock Holmes. Que tola seria ela. Muita coisa poderia ser dita de Holmes, mas... Feliz?! Nem o próprio deveria acreditar nisso. Morfina, cocaína, seus clientes... Todas essas alternativas para que ele pudesse preencher o enorme vazio que sentia em sua vida. Vazio esse que poderia ter sido ocupado com uma família, se não fosse tão fechado aos sentimentos humanos.
-Papai, tem um guarda parado no nosso portão! – avisou-lhe seu filho Peter, que segurava uma bola.
Decerto já deveria ser algum guarda da Scotland Yard, tal como o inspetor Lestrade Jr. havia prometido. Uma coisa era inegável, ele realmente estava preocupado com sua segurança... Ou seria com a de Agnes? Pois ele que ficasse tranquilo, afinal Agnes estava agora bastante segura, trancada em seu quarto. Na próxima vez que o encontrasse, abordaria mais a respeito de suas reais intenções com Agnes. Se ela permanecesse assim, com tais pensamentos rebeldes, talvez fosse melhor casá-la o quanto antes. Não era o que gostaria, pensou Watson. Queria ver sua filha casada com alguém de sua escolha, mas era melhor isso do que vê-la solteirona, difamada por Londres. E o amor vem com o tempo, diziam. O casamento de seus pais foi arranjado, e mesmo assim foram felizes. Porque, no fim das contas, o amor também pode ser construído.
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