Londres, Inglaterra. 27 de Novembro de 1911.

Residência do Dr. Watson.



Era segunda-feira, e mais uma semana prometia a Watson. Estava com a agenda de seu consultório lotada, e para completar, seu filho Peter iria participar de um torneio de football, um esporte que estava amando. Era tudo muito novo a Watson, mas o que pôde compreender era que era jogado com os pés, com uma bola de couro, e vencia o time que pontuava mais fazendo a bola passar por uma espécie de cercado. Lembrava vagamente o rúgby, mas com menos pancadaria.

-Papai, o jogo é hoje de tarde, e se meu time vencer, teremos mais uma partida na quarta-feira. Será a final! – comentou Peter, enquanto devorava com apetite seu café da manhã. À mesa estava o típico café da manhã britânico, com linguiça, tomate, feijão branco e bacon, servido pela empregada da casa.

-Que bom, Peter! Mas por favor, jogue com cuidado! Não quero ter que atender ninguém durante o meu raro momento de lazer! E pode deixar que estarei presente em todas as partidas! – respondeu o médico, no que deixou seu filho contente.

Subitamente, Watson olhou para a cadeira vazia ao seu lado. Era de Agnes. A menina não havia descido para jantar na noite passada, e pelo visto, também não estaria à mesa no momento do café da manhã. Isso começava a preocupar Watson. Uma jovem como ela não poderia se abster de comida por tanto tempo.

-Nancy. – chamou o doutor pela empregada. – Chegou a chamar por Agnes?

-Sim, Dr. Watson, mas ela me respondeu dizendo que estava sem apetite.

O médico limitou-se a assentir. Talvez não quisesse apenas estar à mesa com ele, e acreditava que assim que fosse embora dali, ela sairia de seu quarto para comer alguma coisa. Deveria ser apenas birra, ainda reflexo da briga da noite passada. Mais tarde, quando retornasse para casa, teria uma conversa séria com ela e pediria desculpas. Talvez tenha se excedido, precisava reconhecer.

-Papai, por quanto tempo esses policiais irão ficar na nossa porta como se fossem cães de guarda? – perguntou Charles.

Watson suspirou. – Pelo tempo que for necessário, meu filho. Por que? Algum deles te incomodou ou foi desrespeitoso contigo?

-Não. Mas acho que sinto um pouco de medo. É por causa do cara que está perseguindo tio Sherlock, não é? O tal de Arsênico...

O médico riu da confusão de seu filho. Não poderia culpa-lo, pois ele era jovem demais para saber francês adequadamente.

-O nome dele é Arsène Lupin, e não “Arsênico”. Se bem que está mais para arsênico mesmo, em especial para Holmes... Bom, vocês já terminaram com o café da manhã? Vou levar vocês dois para a escola, e de lá seguir para o consultório.

Os meninos alegraram-se. Adoravam chegar acompanhados do pai, que era uma verdadeira celebridade graças aos feitos do tio Sherlock. Estavam prestes a se levantar quando foram surpreendidos pela presença de Sherlock Holmes na sala de jantar, ao lado da empregada que havia permitido sua entrada naquela casa.

-Holmes! Está tudo bem? – questionou Watson. Claramente o detetive estava mais pálido que o usual, e parecia muito esbaforido para seu feitio.

-Onde está Agnes, Watson?

-Ela está trancada no quarto dela.

-Ora, mas por quê?! – questionou o detetive, estranhando a explicação de seu amigo. – Tudo isso é pela segurança dela?

-Infelizmente não é o caso. Tivemos uma pequena discussão ontem, mas nada de muito grave. Coisa dessa juventude, sabe...

-Não, não faço ideia. Enfim, posso vê-la?

Watson estranhou o senso de urgência de Holmes.

-Mas é claro! Me acompanhe, por favor. – disse, subindo as escadas em direção aos aposentos de Watson. Quando diante da porta dela, pôs-se a chama-la.

-Agnes! Abra a porta, minha filha! – disse, em meio a batidas na porta, porém sem resposta. – Seu tio Sherlock está aqui para vê-la. Ele deseja falar com você!

Watson sabia o quanto Holmes era querido por Agnes, e estranhou o contínuo silêncio dela, mesmo com ele avisando da presença de Holmes ali.

-Você tem certeza de que ela está realmente nesse quarto? – perguntou Holmes, num tom apreensivo.

-A empregada a chamou para o café da manhã e ela respondeu dizendo que estava sem apetite.

-Isso tem quanto tempo?!

-Talvez uns quinze a vinte minutos... Holmes, o que está fazendo?! – assustou-se Watson, ao ver seu amigo começar a dar chutes na porta, com o intuito de arromba-la.

A porta veio abaixo com poucos chutes, e para surpresa de Watson, Agnes não estava mais no quarto. Sua cama estava arrumada, mas havia algumas peças de roupa desordenadas, espalhadas sobre ela. Pendurado à janela, estava uma corda improvisada com lençóis amarrados. Mas o que mais chamou a atenção de Watson foi um bilhete, em sua penteadeira.

-“Papai, não sou a filha que esperava. Quero ser livre e seguir meu próprio caminho, e não será um casamento que me...” Ah, não estou acreditando nisso! – desesperou-se Watson, ao ver que sua filha simplesmente fugira de casa.

-Parece que ela levou algumas roupas consigo, Watson. Vejo cabides vazios no chão, e uma das malas menores está em falta. – concluiu Holmes, com um leve suspiro. – Menos mal.

-Menos mal?! – horrorizou-se Watson. – Minha filha foge de casa, e você diz “menos mal”?! Como ousa?!

-Watson, ao que parece, isso é só o rompante de uma filha indignada com um casamento arranjado, mas se não agirmos a tempo, poderá se tornar algo bem mais grave. E tenho bons motivos para crer nisso. Sabe o que encontrei em minha gaveta, no lugar onde costumava deixar o retrato de Irene Adler? Isso!

Holmes entregou a Watson uma espécie de folheto.

-Mas que diabos é isso, Holmes? Um Clube de Feministas? Mas o que isso tem a ver com a minha Agnes?

Holmes suspirou. Bastou abrir algumas gavetas de sua penteadeira, e de lá retirou um folheto exatamente idêntico ao que havia sido encontrado em Baker Street.

-Absolutamente tudo, meu caro Watson.

Watson estava boquiaberto, catatônico. Parecia viver um pesadelo.

-Minha doce menina Agnes... Uma sufragista! Não pode ser...

-Watson, acalme-se. Não é momento de nos irritarmos com divergências políticas. Esse folheto é distribuído em um Clube de Sufragistas, que fica a poucas quadras daqui. Creio que Lupin está atrás de Agnes, mas ao mesmo tempo, pode ser apenas mais uma de suas pistas falsas para nos tirar o verdadeiro foco. Agora, vamos até lá. Devemos encontra-la primeiro que Lupin.



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Holmes e Watson seguiram a pé, em direção ao tal Clube Sufragista. Não ficava longe de sua casa, o que tornava tudo ainda pior. Como ele não havia percebido isso antes? E como ela arranjava tempo para ir a esse lugar? Agnes ia à Igreja, à casa de algumas amigas, e só. A não ser que estivesse mentindo sobre um desses lugares... Como pôde ter sido tão cego?

-Como Lupin sabia desse clube?

-Penso que ele estava vigiando Agnes durante esses dias em que esteve em silêncio. Tenho uma forte teoria de que Lupin começa a maquinar seus planos quando está quieto demais, e cada vez mais acredito que a melhor forma de detê-lo é antecipando seus movimentos.

-Mas como fazer isso, Holmes? Não há um padrão visível, e a cada “desafio” que ele te impõe, o alvo é mais e mais aleatório! Sequestrar minha Agnes... Por que não a mim? Afinal, sou seu amigo de longa data!

Holmes estava reflexivo.

-Acredito que Arsène me vigiou nos primeiros dias, e que ele viu as visitas sucessivas de Agnes à Baker Street e pensou... Erroneamente, devo ressaltar... Que ela fosse minha amante.

-Que repulsivo!

-Ou, na ausência de uma amante para me atribuir, escolheu a pessoa de sexo feminino mais próxima a mim. Se Mrs. Hudson estivesse viva, certamente seria seu alvo agora. De todo modo, não podemos ignorar aquele folheto sufragista plantado na minha gaveta. Torçamos para encontra-la por aqui. – disse, já diante do clube.

Havia um grupo de mulheres panfletando. Era o mesmo folheto que estava em suas mãos. Ao ver o detetive e o doutor, se assustaram. Pareciam já esperar pelo pior, pois obviamente a visita de homens àquele lugar não deveria ser das mais amistosas. Mas quando Holmes mostrou o folheto e mencionou o nome de uma tal Miss Grant, elas o deixaram passar.

-Você conhece uma delas, Holmes?

-A líder, na verdade. Eu a ajudei com um pequeno problema ano passado, nada que seja digno de um de seus contos. Uma coisa tão simples que resolvi sozinho. Nem valia a pena atrapalhar suas consultas. Mas para Miss Grant, foi significativo o bastante para que ela possa nos ajudar.

-Miss Grant... Por que algo me diz que estamos prestes a falar com uma dessas solteironas feministas absolutamente raivosas? – zombou Watson.

-As mulheres estão ocupando cada vez mais espaço na sociedade, Watson. – disse Holmes, caminhando para dentro do lugar. – Em breve, terão direito ao voto e poderão ser eleitas ao Parlamento Britânico. Na verdade, aposto que não demorará muito e competirá consultas com mulheres médicas.

-Por Deus, Holmes! – exclamou Watson, assombrado. – Não tenho nada contra o mais belo sexo, e até me apetece a ideia que elas possam trabalhar... Mas como enfermeiras, professoras... Não médicas! Há desafios no ramo da Medicina que elas simplesmente não saberiam lidar!

-Está sendo deveras limitado a respeito do que as mulheres podem fazer, meu caro Watson. Sugiro que não externe essa opinião quando estivermos diante de Miss Grant. Ah, essa é a sala!

Holmes pôs-se a bater à porta, que imediatamente se abriu. Tal como previra Watson, foram recebidos por uma mulher claramente idosa, bem-vestida e semblante de poucos amigos, que reconheceu Holmes de imediato.

-Mr. Holmes, é um prazer revê-lo!

-Miss Grant, eu penso o mesmo! Espero que esteja tudo bem com o seu papagaio.

-Oh, o Paco está mais esperto a cada dia que passa. – respondeu a idosa, no que causou estranheza em Watson. Então, o caso era sobre um... Papagaio?! Sem dúvida, mais um dos estranhos casos de Holmes, e dos estranhos demais até para serem dignos de um conto escrito por ele!

-Infelizmente temo que os motivos de minha visita não sejam dos mais agradáveis. Gostaria de falar com uma jovem moça, que pertence a esse clube... Ela se chama Agnes Watson.

A mulher assentiu.

-Mais um pouco e a encontrariam aqui. Pobre moça! Tão jovem e já cheia de problemas. Esteve aqui essa manhã aos prantos, carregando uma mala pequena, dizendo que precisou fugir de casa porque o pai queria arranjar um casamento com um homem qualquer! Ela disse que tinha muito medo, pois parece que é um inspetor de polícia!

-É mesmo? – surpreendeu-se Holmes, olhando em resposta a Watson, que limitou-se a ficar calado, apesar de seu rosto avermelhado denunciar raiva, bastante raiva. Mas sabia que nem poderia se defender, se quisesse realmente achar Agnes.

-Mas porquê ela teria medo de se casar com um inspetor de polícia? – perguntou Watson, um tanto temeroso com a resposta que receberia daquela sufragista.

-Ora, porque ela quer seguir a carreira da Medicina! E nós sabemos como são truculentos os policiais da Scotland Yard! Uma sufragista, casada com um inspetor de polícia.. Que par improvável seria! Não à toa a pobre moça preferiu fugir a ter que seguir com esse destino...

-Medicina... por Deus...

-Está tudo bem, senhor? – perguntou a sufragista, preocupado com a sua palidez. – Mr. Holmes, penso que seria bom chamar um médico, pois este homem está quase desmaiando... Não deve estar bem de saúde...

-Vou leva-lo ao hospital, sim. Mais tarde. Mas me diga, você sabe para onde ela foi? Como fugiu de casa por esses motivos, penso que não irá recorrer à casa de nenhuma amiga próxima, muito menos voltar para casa, com medo de que o pai a encontre e a obrigue a esse fatídico destino...

-Uma das nossas a acolheu. Ofereceu abrigo a ela em sua casa, até que possamos lhe oferecer meios de se sustentar com suas próprias pernas, sem mais contar com um pai opressor. Foi uma senhora, recém-ingressa ao clube, mas que já demonstrou muita força de vontade em ajudar com a nossa causa! Fez inclusive uma doação de um belo quadro de Joana D’Arc ontem...

-Holmes! – exclamou Watson, apavorado. – Será que...?

-Acalme-se, meu caro. – pediu o detetive. – Qual era o nome dessa senhora, Miss Grant?

-Um momento, eu anotei o nome dela em meu caderno de contabilidade. Tudo que recebemos de doações para nossa causa é devidamente contabilizado, como devem imaginar... Ah sim. Aqui está. Paulinne R.S.E.

-R.S.E... Uma sigla, não é? Acaso sabe o verdadeiro sobrenome dela?

-Infelizmente, não. Algumas de nós optamos por não identificar nossos verdadeiros sobrenomes, para não... Comprometermos nossas famílias, e também nossa própria segurança.

-Holmes... Isso é...

-Um maldito anagrama de Arsène Lupin, sem dúvida! – exclamou o detetive. – Parece que chegamos tardes demais, meu caro Watson.