A Duel of Minds - Sherlock Holmes vs Arsène Lupin
11 Os Irregulares
Londres, Inglaterra. 3 de Dezembro de 1911.
221-B, Baker Street.
Sovar pão era uma tarefa braçal, mas Yolanda Hudson a desempenhava com grande facilidade. Havia feito isso por anos, durante todos os dias em seus tempos de escrava, de modo que uma das coisas que deixara de fazer já em liberdade foi deixar de fazer pão. Até porque, não havia qualquer razão para tal. Londres tinha padarias em quase todas as ruas, com pães para todos os gostos, e seu esposo Don fazia questão de ir à padaria todos os dias, aproveitando a caminhada para também comprar jornal, tabaco, e às vezes um chocolate para mimar os rapazes. Pouco a pouco, começavam a se acostumar com a cidade e estavam animados para começar a praticar esportes em um clube. Já Don começara a fazer os preparativos para enviá-los a boas faculdades, e assim dar continuidade aos estudos. Só faltava definir o que cada um estudaria.
Yolanda atirou mais farinha à massa, e continuou a sová-la sobre a mesa. Pouco a pouco a vida começava a parecer normal, muito embora ainda recebesse olhares desconfiados quando andava pelas ruas, mas como sempre fazia isso quando em companhia de Don, os olhares eram discretos. Mas ainda assim, perceptíveis. Sabia porque aqueles homens e mulheres olhavam para ela com estranheza ou asco. Porque era mulher negra vestida em roupas elegantes, que para muitos estava no lugar errado, em um mundo que não lhe pertencia. E assim deveriam pensar também de seus filhos. Mas precisava escutar mais a Don. Ele disse que ela não deveria se abater por esses olhares preconceituosos, e era o que tentava fazer. Pouco a pouco, conquistar seu lugar.
-Resolveu fazer pão hoje, amor? – perguntou-lhe Don, com um sorriso estampado no rosto. Adorava a forma como ela fazia pão, de modo que era quase um acontecimento.
-Não sei porquê, mas hoje fiquei com vontade de comer um pão assado por mim. Espero que os inquilinos gostem. Daqui a pouco estará pronto para o café.
A massa ficou no forno por um tempo, e quando o pão já estava assado, Yolanda a retirou do forno. Era hora de preparar o café da manhã. Os inquilinos do 221-A estavam de férias e só retornariam depois da virada do ano, e do 221-C avisou-lhe estaria de serviço, de modo que só restava dar café a Mr. Sherlock Holmes.
-Holmes ainda está envolvido no caso do francês? – perguntou Yolanda a Don, que havia acabado de retornar da rua. Não precisava comprar pão, mas não conseguia deixar de comprar seu bom e velho jornal de todas as manhãs.
-O jornal não fala nada sobre isso há uns bons dias, mas acho que sim. Por sinal, precisamos falar com ele a respeito daquelas, er... Crianças.
Yolanda rolou os olhos.
-Já conversei com ele, Don. Ele disse que se trata de seus “associados”.
-Aqueles moleques de rua, sujos? Por Deus! Minha mãe tinha razão a respeito dessas esquisitices dele! Faz-se ideia do que aquela garotada não deve fazer para ele, talvez afanar alguma carteira... Contou a prataria dele, Yolanda? Não quero que ele nos culpe se algo sumir!
-Contei, e está tudo no lugar. Aqueles meninos não levaram um talher sequer, absolutamente nada! Só deixaram o carpete meio sujo. Mas não fique nervoso por isso, Don. Mr. Holmes paga a mais do que os demais inquilinos justamente por causa desses incidentes. Ele é um inquilino bom demais para perdermos por causa de implicância.
Don bufou, um tanto impaciente.
-Tem razão. Bom, é melhor subir logo esse café da manhã para ele.
Yolanda terminou de preparar a bandeja e subiu as escadas do apartamento. Bateu à porta, no que Holmes a abriu prontamente. Era como se já a esperasse.
-Sua pontualidade é de fazer inveja a muitos britânicos, Yolanda. – comentou o detetive, enquanto sua senhoria deixava o café sobre sua mesa. Notou que havia pelo menos uns três jornais diferentes sobre ela, inclusive um deles era o mesmo comprado por Don. Yolanda olhou ao redor, para ver se o apartamento precisava de alguma limpeza ou arrumação em específico, mas notou que nada seria necessário. Pelo menos, não naquele momento. Holmes estava sentado em sua escrivaninha, inspecionando pastas e mais pastas, como se estivesse à procura de algo, mas a pouca convivência fazia Yolanda saber que ele colocaria tudo em seu devido lugar depois, por isso não precisava se preocupar.
-Se o senhor precisar de mais alguma coisa, Mr. Holmes...
-Na verdade – começou o detetive – sim, talvez eu precise. Uma pergunta, para ser mais específico.
-Mas seria ótimo poder ajuda-lo de alguma forma! – disse a mulher.
Holmes sentou-se à poltrona, pensativo. Por mais que não conhecesse muito bem, algo dizia a Yolanda que ele estava um tanto hesitante. Entretanto, nada disse.
-Quanto tempo a senhora demorou para perceber que estava grávida?
Yolanda não conseguiu deixar de se sentir surpresa. De tantas perguntas na face da Terra, esperava qualquer uma, menos essa. Mas até que fazia sentido. Holmes era um solteirão convicto, e segundo Don, não era o mais versado no assunto mulheres. Talvez a informação fosse crucial para alguns de seus casos.
-Bom, isso varia muito de mulher para mulher por conta de, bem... Alguns detalhes.
-Períodos menstruais, você quer dizer?
Yolanda não conseguiu deixar de se corar. Jamais havia falado tão abertamente a respeito desse assunto com um homem, muito menos ouvir essa palavra sair da boca de um deles com tão relativa facilidade. Até mesmo Don em seus anos e anos de casado tinha dificuldade em entitular aqueles dias complicados pelo qual ela atravessava todos os meses.
-Sim. Em algumas mulheres, é tão regrado que notam algo errado em poucos dias de atraso. Já outras, atrasam com tanta frequência que demoram a se aperceber da gravidez.
-Então, essas que atrasam com frequência, por exemplo... Poderia se passar dois meses ou mais, e elas demorariam a perceber?
-Er, sim... Creio que sim. Não foi o meu caso, mas creio que sim.
-Obrigada pela elucidação, Yolanda. Não vou mais constrangê-la com o assunto. – comentou o detetive, ainda sentado em sua poltrona e agora a acender um cachimbo. Ainda abismada com o assunto que acabara de tratar com o detetive, Yolanda desceu as escadas carregando a bandeja vazia. Era melhor não comentar com Don o que tinham conversado, pensou. Do contrário, ele poderia se irritar, e sem qualquer motivo. Ao que tudo indicava, deveria ser nada mais que uma curiosidade, típica de alguém que decerto era pouco conhecedor da alma feminina.
Quando já terminando de descer as escadas, ouviu a campainha tocar. Outra vez, aquelas crianças, pensou. Abriu a porta, e de imediato a escada tomou-se delas, todas a correr daquele seu jeito costumeiro e agitado. Mais parecia um enxame de abelhas. Subiram imediatamente ao andar de Sherlock Holmes, que não demorou a abrir a porta.
As crianças rodearam Holmes, ainda sentado à poltrona a fumar.
-Reporte, Wiggins. – pediu o detetive, absorto em seu fumo.
O mais velho deles tirou de sua cabeça uma boina remendada, revelando um cabelo ruivo desgrenhado e sujo.
-Tem um gatuno novo na área, chefe. Em Whitechapel, como o senhor pensou. Está roubando na City e vendendo tudo no penhor da Batty Street.
-E descobriu onde ele mora?
O menino negativou com a cabeça.
-O penhor disse que não faz perguntas sobre quem lhe vende, chefe. Mas se o senhor quiser, a gente continua atrás dele.
-Muito bem. Wiggins, preciso que passe a vigiar as ruas mais tumultuadas da City. Você tem olhos de lince. Se disfarce como engraxate, vendedor de jornal, o que for. Dê seu jeito e preste atenção ao movimento. Estamos à procura de um homem de minha estatura, com o cabelo escuro bastante curto, quase raspado, e olhos cinzentos, não se esqueçam.
-Quanto a vocês, meninos...
As crianças arregalaram os olhos, felizes. Sabia que era momento da recompensa.
-Aqui está, um guinéu por dia de serviço.
As crianças se enfileiraram, e cada uma recebeu um guinéu das mãos do detetive. Um dos meninos, notou Holmes, olhava sem parar para sua mesa de café da manhã, em especial para aquela que parecia ser uma apetitosa fatia de pão caseiro. Deveria estar faminto, pensou o detetive. Gostaria de entrega-lo, mas logo pensou nos demais meninos, tão famintos quanto ele, que não conseguiriam comer igualmente. Seria um tanto injusto dar comida apenas àquele menino, fora que poderia dar uma confusão generalizada nos demais. Na próxima visita, pediria a Yolanda que lhes servisse um breve lanche a todos, pensou.
-Lembrem-se, eu entregarei um soberano a quem o encontrar! – avisou Holmes, após pagar a última criança, no que animou a todos. – Agora, tenho mais uma tarefa especial para vocês... Preciso encontrar uma mulher em específico, e o nome dela é...
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Londres, Inglaterra. 3 de Dezembro de 1911.
Bairro de Whitechapel.
O badalar do sino o despertou, poupando-lhe do que muito provavelmente seria a patética cena de um homem adormecido sobre um prato de comida vazio. Pudera. Ainda não havia se acostumado às suas novas “instalações”, se era possível chamar aquela pocilga nojenta que agora estava escondido, o que tornava suas noites de sono mais difíceis. Mas foi o que o dinheiro pôde pagar, dinheiro este que por sinal estava já acabando.
Arsène Lupin fora pego completamente desprevenido por Holmes, e merecia dar crédito ao detetive por ter conseguido apanhar sua “central de operações”. Agora, estava com uma mão na frente e outra atrás, com sua rica coleção de disfarces trancafiada na sede da Scotland Yard, mas o que mais doía era o dinheiro. Como um bom ladrão, não gostava de deixar rastros, por isso andava sempre com dinheiro em espécie, mas agora esse também estava de posse da polícia, de modo que a única alternativa que lhe restava era retornar à França. Todas as suas posses que carregara consigo em Londres estavam naquele quarto de hotel, e o ladrão não tinha um só disfarce sequer para ajuda-lo a se recompor.
“Do luxo ao lixo, Arsène Lupin. Literalmente.”, pensou, após dar um último gole naquela cerveja barata, que ainda estava sobre a mesa. Quis consultar o relógio, mas recordou-se com pesar de que precisara penhorá-lo para conseguir alugar um quarto para se instalar. Saíra daquele hotel vestido elegantemente, mas sabia que permanecer a usar essas roupas seria suicídio, por isso as trocou com o primeiro pobre desesperado que encontrou com uma altura semelhante a si. É bem possível que aquele sujeito jamais tenha recebido uma roupa tão elegante, ria agora o ladrão, tentando encarar com algum humor o fato de estar apenas com a roupa do corpo e nada mais.
Precisava sair daquela situação. Levantar uma grana e se colocar outra vez no jogo. E não conhecia uma forma melhor de fazer isso senão roubando.
Seu pai de criação, Théodore Lupin, certa vez lhe contou que passara boa parte de sua juventude como um vulgar batedor de carteiras em Paris, e depois tornou-se ladrão de residências. Arsène não queria chamar atenção, por isso achou melhor levantar recursos da forma mais rápida e discreta possível, roubando alguns transeuntes. Whitechapel estava longe de ser o melhor lugar para isso, pois só o que havia por ali era gente de bolso vazio. Por isso, preferiu ir até a City, buscar por ruas tumultuadas, onde afanou relógios de bolso, carteiras, dinheiro e todo tipo de coisa valiosa que poderia conter em um bolso de grãfino. Ao fim do dia, vendia tudo em um penhor na Batty Street, que fazia vista grossa quanto à real procedência daqueles itens de valor.
Estava assim, vivendo como um ladrão clandestino, há quase três dias. Mesmo assim, não conseguira o suficiente para se reerguer, para não dizer o risco de acabar sendo notado tentando ficar incógnito. Havia em seu quarto dinheiro o suficiente para pegar um trem e retornar à França. Cada vez mais a ideia lhe parecia encantadora.
Ouviu alguém entrar no pub. Sempre que alguém entrava, Arsène ajeitava a boina velha que lhe cobria a cabeça, tentando tampar mais os olhos. Estava sem disfarce, o que não era de todo ruim, pois ninguém sabia seu verdadeiro rosto, mas não conseguia deixar de se sentir vulnerável. Nem mesmo a barba que propositalmente estava deixando por fazer para conferir-lhe um ar mais humilde parecia convencê-lo de não ser reconhecido. Tudo isso porque o problema não era reconhece-lo como Arsène, e sim com... Ele.
Olhou para o balcão, com o canto do olho. Era uma mulher, em seus quarenta anos. Amarrava o avental e tinha os cabelos presos em um coque. Parecia já sentir o pesar dos anos de uma vida dura de labuta, algo que Arsène jamais sentiu na vida graças a proteção que sempre teve de seu pai, e posteriormente, de Josephine. Quando em Whitechapel, tão perto dessas mulheres pobres de Londres, não conseguia deixar de pensar em sua mãe. Tudo que sabia dela era que era muito pobre, que fora enganado por seu pai, como muitas mocinhas na vida, e que caíra em desgraça. E Whitechapel parecia ter muitas delas, assim como aquela garçonete, que parecia ter idade para ser sua mãe. Que tipo de vida teria levado ele se... Não. Procurou afastar seus pensamentos. Aprendera com Josephine que era tolice conjecturar que tudo poderia ter sido diferente. O tempo não volta atrás, jamais.
-Ettie, vá ver aquele rapaz. Está sentado ali há um tempão e não pediu mais nada. Não pode ficar ocupando a mesa por tanto tempo assim, sem comer ou beber nada! Se quer ficar sentado, pois que vá procurar um banco de praça! – reclamou um dos balconistas, no que fez Lupin estremecer. Estava começando a ser notado. Hora de dar o fora dali.
Jogou algumas moedas na mesa, o suficiente para pagar pela refeição, e levantou-se. Buscou nem olhar para trás, saindo apressado do pub. Sequer pôde ver o estado abismado daquela mulher, que por longos segundos ficou estática no meio do pub, como se ainda tentasse compreender o que havia acabado de processar.
-Deu para servir de decoração do pub agora, Ettie? – reclamou o homem, no que fez a mulher se aperceber do que estava fazendo.
-Tive a impressão de ter visto uma pessoa que não vejo há muito tempo, só isso. Mas deve ser só confusão da minha cabeça, é claro. – explicou a mulher.
-Esqueça aquele sujeitinho estranho, Ettie. Já foi embora e pagou a conta. Vamos, há outras mesas a servir! – ordenou o homem, em um tom nervoso.
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