Um soco na barriga. E outro soco. E mais uma vez, pressionado contra a parede. Puxado pelo colarinho, mas agora chegava a ser erguido do chão, quase que como seu agressor, que era levemente mais baixo que si, estivesse possuído de uma força sobrenatural. Estava furioso, com seus olhos azuis arregalados, quase esbugalhados de raiva, saltando da órbita a defrontá-los. Ocultado por seu bigode, o lábio distorcido em fúria. Estava há poucos anos na polícia como um guarda da Scotland Yard, mas Finn DeBruce jamais se imaginou sendo agredido por aqueles vistos como heróis de metade daquele corpo policial.

-Eu vou repetir, e dessa vez será pela última vez... – começou o doutor, ainda espumando em raiva. – Quem contou a você sobre o nome Luís Perenna?

-Eu não faço ideia do que o senhor está falando, Dr. Watson! – insistiu o rapaz, e mais uma vez foi agredido. Dois socos, outra vez. E viria um terceiro, se Holmes não intervisse. O detetive estava o tempo todo ao seu lado, assistindo à agressão como mero espectador, e também à procura de uma resposta. Apesar de sua postura passiva, acabava por impedir que Watson se excedesse naquela agressão.

-O Inspetor Lestrade Jr. disse que quem entrou na delegacia falando desse tal português pianista foi você! Basta olhar para essa sua cara de pateta para perceber que recebeu a dica de alguém! Pois quero que me conte: quem?! Quem assoprou em seu ouvido o nome Luís Perenna?

Watson esbravejou mais uma vez. Por sorte, estavam em um beco escuro em Whitechapel, um lugar onde agressividade era coisa rotineira.

-Está bem, eu conto... Eu... Foi a minha namorada, Suzan!

A confissão fez Watson soltar o policial pelo colarinho.

-Não foi tão difícil assim, foi? Pois bem, onde eu encontro essa sua namoradinha?!

Finn estava a recuperar fôlego, tentando rearrumar a gravata esgaçada.

-Ela é camareira do Hotel Thames, aquele perto da Ponte de Londres. Foi um dos hóspedes que disse. Ele perguntou se ela namorava um guarda da Scotland Yard e disse que tinha uma pista muito quente, e que poderia ajudar na minha promoção, desde que eu fizesse tudo parecer ter sido uma investigação própria! Então, ele citou o nome Luís Perenna, disse que era um português e trabalhava como pianista.

-Por isso a Scotland Yard chegou tão rápido no nome dele. Porque o próprio Arsène Lupin colocou vocês no rastro errado. Tal como imaginei. – retrucou Holmes. – E em nenhum momento você não pensou que esse tal hóspede poderia ser ninguém menos que Arsène Lupin?

O rapaz engoliu em seco. – Não.

-Se a estratégia de depender de pistas falsas para obter sua promoção junto à Scotland Yard é tudo que pretende fazer, meu caro DeBruce, penso que o melhor seja procurar outro ofício, pois vejo que não tem o menor tino para ser policial. Agora, vamos deixa-lo, Watson.

O médico voltou seus olhos para Holmes.

-Não vai contar nada para o Inspetor Lestrade Jr.?

A menção ao nome de seu chefe fez Finn estremecer.

-Por favor, não contem! Ele vai me demitir no mesmo instante pela minha burrice! Ele pensa que fui eu mesmo quem investiguei e cheguei no nome, mas se souber que alguém me deu tudo de bandeja, e pior, que esse alguém tem a chance de ser Arsène Lupin, meu nome estará na lama!

Holmes bufou, impaciente.

-Tem muita sorte, Mr. DeBruce. Não vou contar pois há algo de nosso interesse que requer nossa atenção imediata, e inclusive de seu chefe, mas é bom que saiba que sua incompetência acabará por ser revelada cedo ou tarde, mesmo que de outra forma. Agora, faça-nos o favor de desaparecer de nossas vistas. – ordenou o detetive, no que foi obedecido prontamente pelo policial.

Com o sujeito já fora de vista, Holmes e Watson saíram do beco.

-Aquele tempo que esteve sumido... Foi para tratar disso?

-Exatamente, meu caro Watson. Estava tentando descobrir qual dos oficiais entregou o nome do pobre português preso injustamente ao Inspetor Lestrade Jr. Como o nosso jovem inspetor não quis me dizer qual de seus subordinados o colocou na pista falsa, penso que por orgulho, eu precisei investigar pessoalmente, e depois de um dia inteiro disfarçado, consegui chegar no nome de Mr. DeBruce como sendo o policial que adentrou à Scotland Yard completamente esbaforido e sabendo tudo a respeito de Luís Perenna, um pobre diabo que teve o desfortuno de nascer com um anagrama de Arsène Lupin. Um ou dois dias a mais de investigação e teria obtido o nome dessa tal namorada dele... Ah, meu caro Watson. Em geral, não gosto de recorrer aos métodos que foram empregados por você, mas dada as atuais circunstâncias, temo que não houve melhores alternativas...

Watson tentou tranquilizar Holmes. Já estava na calçada da Rua Whitechapel, que era a rua mais movimentada daquele bairro, e acenou para um cabriolé vazio parar. Pediram ao cocheiro para seguirem até o Hotel Thames.

-Nem sempre dá para fazer as coisas seguindo as regras, Holmes, em especial quando é a vida de um filho que está sob risco. Pelo menos conseguimos uma boa pista. Esse tal hotel, perto da Ponte de Londres. Acha que Arsène Lupin pode estar escondido por lá?

-Ele contou com o silêncio de alguém que tinha muito a perder se revelasse a origem de sua fonte, por isso penso que sim. Assim que colocarmos os pés nesse hotel, vamos até a recepção investigar os nomes que estão hospedados por lá. E principalmente, verificar se sua filha esteve por perto.

Watson assentiu. Retirou do bolso do terno seu velho revólver de guerra, e conferiu os tambores. Todos carregados com balas. Em muitas ocasiões, acompanhou Holmes armado, e algumas inclusive a pedido do próprio detetive, e por sorte, colocou aquele seu velho revólver dos tempos do Exército em ação pouquíssimas vezes. Mas dessa vez, era diferente. Se antes ficava aliviado ao ver um caso terminar sem que um só tiro fosse disparado, não era mais por essa perspectiva que Watson olhava a essa situação. Arsène Lupin havia desonrado sua reputação, raptando sua filha para o que quer que fosse, e a cada passar de minuto no relógio, as chances de impedir aquele canalha de cometer alguma monstruosidade com Agnes diminuíam.

-Watson... Como te disse, o estupro não está no modus operandi de Arsène Lupin.

O médico, entretanto, não conseguia se tranquilizar com as palavras de seu amigo.

-Eu li o dossiê dele, Holmes. Seduzir mulheres ingênuas é uma expertise daquele patife. O que o impediria de fazer o mesmo com Agnes?

-Só estou pedindo a você para não tomar nenhuma atitude precipitada.

-Se aquele maldito ladrão encostar um só dedo em minha filha Agnes... Eu vou enfiar uma bala na cabeça dele, e nem mesmo você me impedirá de fazer isso, Holmes.

Holmes negativou com a cabeça.

-Não posso deixar que se torne um assassino a sangue frio, Watson.

-Se tivesse tido filhos, seria capaz de me compreender minha revolta. – retrucou Watson, guardando o revólver, e ansioso para que o cabriolé chegasse logo ao tal Hotel Thames. Holmes nada preferiu dizer.

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Londres, Inglaterra. 28 de Novembro de 1911.

Hotel Thames.


-Eu não sabia que a senhora morava em um hotel, Miss Paulinne!

Agnes Watson estava deslumbrada com o luxo e requinte daquela suíte de hotel. Havia visto muitos hotéis de luxo enquanto caminhava pelas calçadas da cidade, mas nunca adentrara em nenhum deles como hóspede. Mas apesar de todo o luxo que lhe cercava, uma grande inquietação lhe tomava. Desde que adentrara aquele hotel, Agnes sentiu-se ressabiada. Pois Miss Paulinne havia dito que a levaria para casa, não a um hotel. Alguma coisa em toda aquela história não soava certa.

-Na verdade, eu não moro, minha doce criança. – explicou a idosa, em seu tom de voz calmo. – É que a minha residência está em obras e... Bem, acabei precisando me hospedar nesse hotel!

-Eu fico muito contente por isso, mas... Não sei se mereço estar hospedada em um hotel tão caro desses! – disse a jovem, a olhar imponente vista que havia no horizonte. Dava para ter uma visão privilegiada da Ponte de Londres e de parte da cidade de Londres. Estavam no mais alto andar daquele prédio, de modo que o horizonte cinzento de Londres mais parecia tomado de prédios, com o rio Tâmisa a cortar a cidade.

-A senhorita merece todo o conforto, Miss Watson.

Agnes olhou para a pequena mesa disposta no quarto e de imediato notou estar posta ali uma mesa de café. Havia um bule de chá, pão, torradas, uma cesta de fruta e... Brioches. Mas o que lhe chamou a atenção foi a quantidade de itens disposta sobre a mesa. Aquele era claramente um café da manhã para... Duas pessoas?! Sim, pois havia duas xícaras, dois conjuntos de talheres, dois guardanapos... Como Miss Paulinne poderia já saber que ela ficaria hospedada ali, se só havia tido ciência de seus problemas há menos de uma hora?!

-Aposto que deve estar com fome... – comentou Miss Paulinne, ao notar o olhar de Agnes sobre a mesa de café. – Pode tomar café, se quiser.

O pedido para comer alguma daquelas apetitosas iguarias soou quase que como um alarme na cabeça de Agnes, que se afastou da mesa quase que como se ela estivesse em chamas. Seu gesto foi visto com notável surpresa pela idosa Miss Paulinne.

-Algum problema, Miss Watson?

-Essa mesa de café é para duas pessoas. Se está hospedada aqui sozinha, o hotel não lhe serviria um café desses. Só serviria se a senhora pedisse. E como a senhora saberia que eu estaria aqui, se apenas nos conhecemos há uns minutos?!

-Muito perspicaz de sua parte, mademoiselle. – respondeu a idosa, mas não mas com sua voz calma e tranquila. Era, dessa vez, a voz de um homem, e com forte sotaque francês, o que fez Agnes Watson tomar-se de pânico. Com o coração disparado e afundado em terror por agora estar trancado no mesmo quarto no que provavelmente era o ladrão Arsène Lupin, a jovem entrou em desespero. Com rapidez, correu para a primeira arma que tinha à vista, puxando um dos talheres da mesa e erguendo-o, como sinal de resistência.

-Acha que consegue matar alguém com uma faca de manteiga, Miss Watson?! – respondeu a idosa com voz de homem. Estava agora rindo genuinamente. Mesmo com as mãos trêmulas de pavor, Agnes não se deteve de se proteger.

-Tente tocar em mim, e terá de pagar para ver o que uma faca de manteiga é capaz de fazer quando em minhas mãos! – ordenou a jovem.

-Não se preocupe, mademoiselle. Não vou tocar em você. – respondeu a idosa, sentando-se agora diante da escrivaninha. Havia sobre a escrivaninha uma pequena bacia com água e toalha. Nada que chamasse a atenção de Agnes antes de descobrir toda a verdade, mas que agora fez a jovem presumir que aquele era o local onde o dito ladrão assumia os disfarces que o tornavam uma incógnita aos olhos humanos.

Diante do espelho e com um suspiro, o ladrão retirou a peruca de cabelos grisalhos, revelando uma cabeça de cabelo negro, mas bastante curto, quase careca. Decerto usava o cabelo assim para facilitar os disfarces, pensou Agnes enquanto limitou-se a assisti-lo se desfazer, pouco a pouco, da indumentária de velha idosa do Clube de Sufragistas. Ouvira de Holmes que ninguém, absolutamente ninguém, tinha certeza de seu verdadeiro rosto. E agora, que estava a assistir o ladrão a se “descascar” de um de seus disfarces, bem a olhos vistos, curiosidade parecia toma-la. Por isso, olhava-o com atenção.

E o resultado a surpreendeu. Pois conhecia muito bem aquele rosto, e de todos os rostos que poderia pressupor, aquele seria o último a imaginá-lo ali, estampado no que seria o maior ladrão de todos os tempos. Não aqueles traços, o nariz, o queixo, e principalmente... Os olhos cinzentos.

-O que foi?! Parece que viu um fantasma... – zombou Arsène Lupin de sua reação.


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-Tem certeza de que esse realmente é o quarto?

Holmes já estava irritado com a maneira como o Inspetor Lestrade Jr. parecia o tempo todo duvidar de suas capacidades. Havia visto a lista de todos os hóspedes do Hotel Thames. Como era de se esperar, Arsène Lupin não se utilizou de nenhum de seus falsos codinomes ou anagramas para se hospedar, sinal de que realmente estava usando aquele hotel de luxo como base de operações de suas atividades de ladrão em Londres. O uso de anagramas era apenas uma espécie de assinatura, uma forma de deixar sua marca em seu trabalho. Mas seria tolice demais usar desse mesmo artifício para se esconder.

-A recepcionista reconheceu Miss Watson através dessa fotografia.

-Mas ela disse que ela estava acompanhada de uma idosa...

-Apenas um dos muitos disfarces de Arsène Lupin.

-Não temos tempo a perder com especulações, inspetor! – esbravejou Watson, irritado pela hesitação no oficial de polícia. – Minha filha pode estar nesse quarto, e acompanhada desse monstro!

-Está bem, Dr. Watson. Vou confiar nas suspeitas de seu amigo.

Os demais guardas da Scotland Yard começaram a tentar arrombar a porta daquele quarto de hotel aos pontapés. Ao terceiro chute, a porta veio abaixo. Um grito de susto pôde ser escutado do outro lado. Um grito feminino.

-Agnes, minha filha! – aproximou-se Watson, abraçando-a com força. Agnes estava sentada à cama, trajando as mesmas roupas com que havia estado no Clube de Sufragistas. Os demais guardas, acompanhados de Holmes e Lestrade Jr., adentraram depressa ao quarto, vasculhando cada centímetro atrás do ladrão.

-Ele fugiu pela janela! – gritou a jovem, provocando um rebuliço entre os presentes. Ao olhar a altura daquele andar, Lestrade Jr. se impressionou. Não tinha habilidade o suficiente para pendurar ali, por isso optou por outra forma de persegui-lo.

-Homens, vamos nos reunir lá embaixo e cercar o hotel e arredores! Dessa vez ele não nos escapa! – ordenou Lestrade Jr. às pressas, sendo acompanhado pelos demais guardas da Scotland Yard. A observar da janela, Holmes continuou a tentar busca-lo por entre os telhados que sua vista poderia alcançar, porém sem sucesso. Decerto já havia se esgueirado por eles e fugido com notável agilidade. Mais que esperado, afinal era um verdadeiro especialista em escalar e saltar por entre telhados, habilidade mais que necessária a um ladrão.

-Minha filha... Aquele patife fez alguma coisa a você? Não precisa mentir para mim...

-Não, papai. Ele não fez nada. Foi até bastante gentil e educado. Estou tão nervosa...

Watson suspirou.

-Você quer um pouco de água? Espere...

Ao ver Watson se direcionar à mesa de café, Holmes o deteve.

-Melhor não tocar em nada presente nessa mesa, Watson. Pode estar contaminado com veneno ou drogas de dopagem.

-Mr. Holmes está certo, papai. – concordou Agnes. – Ele me ofereceu esse café, mas por medo do que poderia conter, decidi não comer ou beber nada.

-Devo dizer que fez o certo, Miss Watson. – parabenizou Holmes.

-Eu vou pedir a uma das camareiras que traga um pouco de água com açúcar para você, minha filha. Por favor, não saia daqui. Esse patife pode estar por perto. Fique aqui com Holmes. – pediu Watson, recolhendo-se do quarto apressadamente.

Com seu pai agora longe de suas vistas, Agnes sentiu-se mais encorajada a falar.

-Mr. Holmes... Eu vi o verdadeiro rosto de Arsène Lupin.

Holmes impressionou-se. Estava a vasculhar o restante do quarto, em busca de pistas, mas parou sua busca para ouvi-la com maior atenção.

-Viu?!

-Sim, e que os Céus caiam perante a minha cabeça, mas ele era extremamente parecido com o senhor! Olhos, nariz, queixo... Creio que até mesmo o cabelo, muito embora o dele seja raspado, quase careca. Mas a semelhança era tão grande que poderia jurar estar diante de uma versão bem mais jovem do senhor...

Holmes carregava um olhar bastante neutro. Estava a refletir.

-Espero não estar sendo intrometida, mas... Sobre Irene Adler.. Por acaso, o senhor e ela...?

-Esse rapaz não tem a menor chance de ser meu filho com Irene Adler, Miss Watson. A “Mulher” jamais foi nada além de uma fotografia no fundo de minha gaveta. – respondeu-a prontamente, causando certo constrangimento em Agnes.

-Desculpe por minha intromissão em um assunto de foro tão íntimo, Mr. Holmes. Mas quando estive diante dele, não consegui chegar a outra conclusão senão esta, tamanha a semelhança entre vocês dois. Mas não se preocupe, não vou contar sobre isso a mais ninguém.

Holmes continuou a vasculhar o quarto.

-Lupin sem dúvida tem um verdadeiro arsenal à sua disposição, para assumir qualquer tipo de identidade... Nada muito diferente do que disponho em Baker Street. Podemos não tê-lo capturado, mas sem dúvida o deixamos em uma situação bastante delicada, pois agora ele está em uma cidade estranha, com o rosto verdadeiro completamente exposto...

-Um rosto igual ao seu, por final. – adicionou Agnes, no que provocou em Holmes um suspiro em exasperação.

-Estamos em Londres, que é o meu terreno. Penso que isso seja mais uma desvantagem do que vantagem propriamente dita. Se o que clama é realmente correto, e não tenho maiores motivos para discordar, e Arsène Lupin for realmente tão idêntico assim a mim, não conseguirá se passar por mim justamente ser absolutamente mais novo, e nem mais detém seu arsenal de maquiagem para disfarçar a pouca idade. É uma desvantagem, mas que ele pode suprir em pouco tempo, por isso preciso cerca-lo enquanto está atordoado por esse meu contragolpe. Diga-me, Miss Watson... Ele chegou a explicar-te qual foi sua real intenção em trazê-la aqui? Pois penso que não seja o que o seu pai está pensando.

Agnes levantou-se da cama, caminhou até uma escrivaninha e de uma das gavetas retirou o violino, que Holmes de imediato reconheceu como sendo seu amado Strativarius. Tão logo pôs os olhos nele, Holmes o tomou das mãos de Agnes, levando-o com ternura pra perto de si, que chegou a se recolher de susto. De fato, era um objeto muito estimado ao detetive.

-Está intacto! – disse o detetive, depois de inspecioná-lo cuidadosamente. Dedilhou algumas notas. – E horrorosamente desafinado! Sinal de que o violino não é predileção daquele patife.

-Ele não tocava tão bem quanto o senhor, mas até que era convincente.

-Então, ele tocou para você! – exclamou Holmes, surpreso. A jovem riu em resposta.

-Ele disse que tudo que queria comigo era que eu te devolvesse o violino, nada mais. E o tocou, acho que era Beethoven. Disse que queria se despedir do violino, pois não jamais havia tocado um instrumento tão harmonioso quanto ele!

-Há algo mais que tenha percebido, Miss Watson?

A jovem sentou-se à cama, reflexiva.

-Creio que não, Mr. Holmes. Estive com ele por pouco tempo. Ele mal tinha tocado o violino e vocês começaram a bater à porta. Então, ele guardou o violino nessa gaveta, vestiu-se rapidamente com uma casaca e cartola e disse “foi bom conhece-la, mademoiselle Watson, mande minhas maiores recordações ao Mounsier Holmes”, e saltou da janela. Cheguei a pensar que ele tivesse morrido, mas logo em seguida o vi saltando por entre as sacadas... Nunca vi nada igual, nem pensei que alguém fosse capaz de se movimentar daquela forma. Nem parecia estar há uns bons metros de altura.

-Ele é bastante habilidoso, realmente. Antes dele mencionar o violino, vocês chegaram a conversar?

-Pouca coisa, Mr. Holmes. Ele parecia muito preocupado com a impressão que estava tendo dele, na verdade. Falava o tempo todo que não faria nada comigo, que eu deveria comer alguma coisa, que não havia nenhum tipo de veneno ou sonífero, que eu não deveria me preocupar. Chegou até a comer à mesa, mas eu não o acompanhei. Disse que...

Agnes riu, no que chamou a atenção de Holmes.

-Ele disse que admirava a nós, mulheres, por conseguirmos usar espartilho por tanto tempo. Nisso precisei concordar com ele. Depois, ele conversou sobre o movimento sufragista. Fiquei espantada com o quanto ele conhecia do assunto. Disse que na França as mulheres também estavam lutando pelo direito ao voto, que essa deveria ser uma luta universal. Não sei bem o que dizer, mas... Eu o senti um tanto... Anarquista.

Foi a vez de Holmes rir.

-Se Watson souber que conhece essas correntes políticas, devo alertar que a senhorita se encontrará em uma situação deveras complicada. Mas me conte, o que te passou essa impressão?

-A forma como ele falava do governo, dos políticos, e dos ricos principalmente. Ele me contou muitos podres do Conde Wellington, especialmente sobre os ganhos que ele obteve por muito tempo com tráfico de escravos na África. Disse que só roubava dos ricos, especialmente dos ricos por motivos escusos, que sempre selecionava bem suas vítimas. E... Espero que não me tenha mal juízo, Mr. Holmes, mas ele disse... Que a única exceção era meu pai, Watson, pois sabia que ele estava muito longe de ser um homem rico, e mesmo assim, ele roubou sua mais preciosa jóia.

Que galante. Bem típico de Lupin, pensou Holmes. Ele era, de fato, um ladrão cavalheiro, que tratava tão bem suas vítimas que acabava por cativá-las. Esperava que Miss Watson não estivesse nesse rol, mas a julgar pelas palavras dela a respeito dele... Ele conseguiu. Talvez não tenha roubado definitivamente a mais preciosa jóia de Watson, mas saltara daquela janela carregando algo muito importante: seu coração.

Por Deus, que não seja verdade.