Londres, Inglaterra. 13 de Dezembro de 1911.

221-B, Baker Street.



ELE ESTÁ VIVO.

Era o que dizia o breve telegrama anônimo, porém proveniente da cidadezinha de Bordeaux, um claro sinal de que as investigações de Ettie na França estavam caminhando muitíssimo bem. Era um telegrama com apenas três palavras, mas repletas de significado. Um filho... De quase vinte anos de idade... Sim, um filho bandido, malcriado, que chegou a lhe agredir, e ainda pior, agrediu-o certamente sabendo que se tratava de seu próprio pai, mas ainda assim, um filho... Nunca esteve nos planos de Sherlock Holmes a existência de um filho, mas quis a vida lhe presenteá-lo a essa altura da vida com um, e o que era pior, da maneira mais torta possível.

-Quem está vivo?

O telegrama, ainda que pequeno, chamou a atenção de seu amigo, o Dr. Watson. Estavam a tomar café juntos quando Yolanda Hudson entregou ao detetive um telegrama que acabara de chegar.

-Oh, nada que seja importante. – desconversou Holmes, sabendo que havia soado pouco convincente. Assumir um filho, ele sabia, implicava em também assumir, no mínimo, um envolvimento sexual com alguém, e se Watson soubesse que se tratava da então empregadinha de Charles Augustus Milverton... Sem dúvida alguma o seu amigo ficaria furioso. Por ora, era melhor não tocar nesse assunto.

-Aposto que deve ser mais uma de suas investigações, não é? Envolvendo Arsène Lupin... Pois tudo bem, não precisa me contar agora. Trouxe os jornais e... Bem, parece que já temos os primeiros sinais de atuação de Lupin com sua assinatura, depois de tanto tempo...

-Deixe-me ver... – começou Holmes, pegando em um dos jornais trazidos por Watson. – Hum... Três assaltos a residência em Chelsea, relatados na mesma noite... Prataria, joias, coisas vulgares... Vítimas tratadas com, er... Fina gentileza e educação... Sim, Watson. Arsène Lupin os cometeu. Nada espetacular, como de seu feitio, pois está levantando recursos. Não se trata ainda do nosso jogo, mas muito em breve ele dará seu próximo passo. Ou ao menos, é o que ele pensa.

Watson parecia maravilhado. – Não me diga que já sabe como detê-lo?

-Sim, mas temo que...

Holmes interrompeu-se, ao ouvir alguém a bater à porta. Pelo toque sobre a madeira, já sabia quem deveria ser.

-Pode entrar, Yolanda. – autorizou Holmes, fazendo adentrar a presença de sua senhoria, com o semblante um tanto consternado pelo fato do detetive ter descoberto que se tratava dela pelo mero bater da porta. Sempre surpreendente o Mr. Holmes, pensou.

-Há uma mulher que deseja vê-lo. Se chama Henrietta Smith.

O semblante do detetive pareceu subitamente aliviado.

-Finalmente! Pois peça que entre, por favor.

Watson estranhou a súbita mudança de humor de Holmes. Seria alguma cliente antiga? Talvez isso explicasse o nome lhe ser familiar, ainda que não soubesse exatamente de onde.

Adentrou ao apartamento uma mulher em seus quarenta anos de idade, apesar do rosto maltratado pela vida. Vestia um vestido de boa qualidade, mas seus modos mais pareciam ser os de um serviçal, em um distinto sinal de que uma vestimenta não era tudo. Mesmo Watson, que estava muito longe de ser um detetive, aprendera com os anos de convivência com Holmes o suficiente para notar esses pequenos detalhes – no caso daquela mulher, evidentes de tão gritantes.

-Parece que Paris fez bem a você, Ettie.

-Ettie... – balbuciou Watson, tentando puxar na memória onde ouvira esse nome antes. – Que nome familiar...

-Zombe à vontade, Holmes. Tive de soar respeitável para conseguir as informações, por isso gastei o dinheiro com uns vestidos bem chiques, mas se quer saber, até sobrou uns trocadinhos... Mas eu vou te devolver xelim por xelim... Ou melhor dizendo, cada florim.

Holmes gesticulou, desprezando o que ela havia dito.

-Esqueça o troco, Ettie. Er... Watson, você por acaso não tinha um paciente no horário da tarde para atender?

-Na verdade não, meu caro amigo. Por que pergunta?

-Por nada, Watson. Absolutamente nada. Importa se sair por um instante, então?

Watson horrorizou-se com a absoluta falta de educação de Holmes, a basicamente expulsá-lo de Baker Street, e decerto para tratar de algum assunto confidencial com aquela estranha mulher. E a julgar pelo espanto em Ettie, ela também se sentiu igualmente constrangida por seu atrevimento.

-Há maneiras mais sutis de pedir para alguém se retirar, não acha? – irritou-se Watson.

-Eu fui sutil no início, mas você me ignorou por completo. Não me restou alternativa senão ser mais... Assertivo.

-Está bem, Holmes. Eu vou embora, tal como me pede. Pode ficar à vontade para tratar de seus negócios... Quaisquer que sejam estes... Com esta, er... Respeitável senhora. Passar bem. – irritou-se o médico, ofendido. Levantou-se da cadeira bruscamente, atirando seu guardanapo sobre o prato. Poderia viver cem anos com Holmes e jamais se acostumaria com sua falta de habilidade social. De tão furioso, fechou a porta de Baker Street com notável força, a ponto de fazer Ettie estremecer de susto.

-Me desculpe, eu não sabia que minha chegada aqui iria causar tanto problema... – desculpou-se a pobre mulher, sentindo-se culpada pela breve discussão entre os amigos.

-Watson está acostumado com meus modos, Ettie. Não há razão para se afligir com a reação dele com o que fiz. – deu de ombros Holmes, indiferente. – Agora, conte-me absolutamente tudo que descobriu em Paris. Todos os detalhes, mesmo os que julgar menos importantes. Absolutamente tudo.

-Está bem. – respondeu Ettie, em seguida suspirando como se estivesse prestes a contar uma longa história. – Por onde começo, meu Deus... Ah sim. O hospital. Então... A primeira coisa que fiz foi...

Ettie interrompeu-se, ao ver uma mulher adentrar com uma bandeja, com café e biscoitos. Seu primeiro gesto foi levantar-se e ir até Yolanda, oferecendo ajuda à senhoria para colocar os itens à mesa.

-Oh, mas não é necessário, minha senhora... – tentou intervir a senhoria.

-Por favor, eu insisto. Essa bandeja deve estar pesada...

-Ettie... Por que não deixa Yolanda fazer seu trabalho em paz? – irritou-se Holmes. Por que ela insistia em agir como uma empregada por todo o tempo? Parecia mais ter uma necessidade em bradar ao mundo suas origens pobres, de tal modo que poderia estar vestida como a Rainha da Inglaterra que ainda soaria como uma criada.

-Mas...

-Por Deus, Yolanda está acostumada a carregar bandejas ainda mais pesadas do que essa. Só o que está conseguindo com sua atitude é deixa-la constrangida. Ela não precisa de sua ajuda.

Ettie olhou para Yolanda com um olhar acuado. Recebeu da senhoria um sorriso acolhedor, compreensivo. Ainda que Holmes tivesse lá sua razão, era sempre bom receber um gesto de cortesia. Algo tão escasso no mundo.

-Me desculpe, não quis atrapalhá-la...

Outra coisa em Ettie que muito irritava a Holmes: pedir desculpas por tudo, absolutamente tudo, e principalmente por coisas que aconteciam e que sequer estavam ao seu alcance. Mais parecia uma máquina de pedir desculpas à toa. Mais um pouco e pediria desculpas até por respirar o ar daquele ambiente também.

Yolanda deixou o café sobre a mesa, imediatamente se retirando.

-Posso tomar um pouco de café? – perguntou Ettie, de uma forma atrapalhada. Era nítida sua falta de traquejo, não porque agia sem educação, mas porque claramente não sabia nenhuma regra de etiqueta e julgava o menor de seus gestos como algo potencialmente errado, deselegante. Um elefante a caminhar sob ovos seria menos desajeitado.

-Ela trouxe o café para você, Ettie. É claro que pode tomar.

-Eu não sabia, me desculpe...

Holmes bufou. Não adianta ficar irritado com Ettie pelo que ela é. Não é culpa dela, concluiu o detetive. Ela vem de uma classe social bem mais baixa que ele, e devido aos últimos acontecimentos, estava tendo que enfrentar um mundo completamente diferente. Poderia ter desistido, mas prosseguiu mesmo assim, e contrariando muitas expectativas de Holmes, chegou enfim à verdade sobre seu filho. Melhor dizendo, o filho de ambos, por mais estranho que isso soasse. Mais paciência era o mínimo que ela merecia, depois de tudo que fez, revisitando um passado sombrio que queria esquecer.

-Ettie, pode ficar à vontade com o café. – respondeu-lhe Holmes, em um tom mais ameno. – E se quiser, pode me contar depois que se alimentar apropriadamente. Imagino que esteja com fome, dado que acabou de desembarcar de Charing Cross...

-Céus, você fez mais uma daquelas suas adivinhações, impressionante...

-Não são adivinhações, são deduções. Eu não adivinho nada.

Ettie resolveu não retrucar. Sobre a mesa, estava servido o típico café da manhã inglês: ovos fritos, tomate, salsicha... Um verdadeiro banquete, melhor até do que costumava almoçar em dias comuns. Para não dizer do café, bebida esta que ela demorou a gostar, mas que agora havia se tornado um vício. Segurava os talheres com cuidado, policiando-se a cada movimento. Algo que não passou despercebido por Holmes.

-Pode comer do jeito que julgar melhor, Ettie. – sugeriu-lhe o detetive.

-Desculpe, é que eu não queria soar deselegante, só isso...Quero dizer... Desculpe por... Desculpe-me por pedir desculpas o tempo todo. Me desculpe. Er... Não sei o que dizer.

-Melhor comer, antes que esfrie... – sugeriu outra vez Holmes, dessa vez segurando um riso. Antes que pudesse dar a primeira garfada, entretanto, voltou seus olhos a Holmes.

-Esse café seria para você, não?

-Terá um melhor destino ficando para você. Estou sem fome.

Ettie nada mais disse, começando a comer. Tal como Holmes se recordava, ela tinha poucos modos à mesa, mas sabia usar os talheres. Apenas faltava-lhe certo traquejo. Impossível tê-lo, dadas suas origens. Ao menos comia em silêncio, sem tentar conversar falando de boca aberta, tal como faziam pessoas de classe social mais baixas.

Seu apetite havia sido tão feroz que nada restara no prato. Nada mais que satisfação estampava seu rosto.

-Assim que puder, vou agradecer à sua senhoria pelo café. Estava uma delícia.

Esperou que ela desse o gole final no café. Um gole longo e vigoroso.

-Bom, agora vamos falar sobre Paris... Creio que seja melhor começar pelo hospital. Pois então, Paris...

E assim, pouco a pouco, começou a contar sobre o que passara. Sobre seu retorno ao hospital, onde seu calvário começou. A descoberta do caixão vazio, embora contada com repugnância por Ettie, nada causou em Holmes. O detetive parecia confiante de que não havia criança alguma naquela sepultura e ouviu seu relato sem qualquer surpresa.

-Conseguiu localizar essa enfermeira, de nome Josephine?

-Sim. Ela pediu demissão logo depois do meu parto, a julgar por minhas contas. O coveiro do hospital e me contou e confirmei a data com o diretor, logo em seguida. O que sabiam é que ela conseguiu um emprego de governanta em um vinhedo em Bordeaux...

-Bordeaux... – balbuciava Holmes, como se achasse a cidade familiar. Ao perceber sua reação, Ettie tratou logo de explicar.

-Sei porquê acha a palavra familiar, Holmes. Arsène Lupin foi criado justamente nessa cidade. Em um vinhedo chamado Santo... Er... Santo Cruz...

-Sainte-Croix-du-Mont? – questionou-lhe Holmes, com um francês impecável.

-Isso mesmo. Como sabia?

Holmes nada disse. Levantou-se, caminhando até sua estante. Procurou por entre pastas, sem dizer qualquer palavra. Curiosa, Ettie queria saber o que diabos ele vasculhava pelo que parecia ser um punhado de papéis velhos, mas por achar que Holmes não lhe contaria, preferiu esperar. Parecia concentrado demais em sua busca para dar-lhe qualquer atenção. E assim, esperou por longos minutos que ele vasculhasse por folhas e mais folhas, até soltar uma exclamação de alívio por finalmente encontrar o que tanto procurava.

-É nessas horas que Watson me faz falta... – admitiu, levantando-se. Caminhou até Ettie, com um conjunto de papéis amarelados pelo tempo, e a entregou.

-O que é isso? – perguntou a mulher, claramente não muito interessada em ler aquele extenso texto, que para completar, mais parecia ser algum tipo de documento cartorário, repleto de jargões jurídicos que ela mal fazia ideia do que significava.

-Uma cópia fidedigna do extenso e recheado testamento de meu arqui-inimigo, Professor James Moriarty. Como era de se esperar, o Professor agiu com bastante cautela quanto à divisão de seus bens. Uma parte ficou com a família, outros com comparsas. De início, busquei separar o joio do trigo. Atuei por anos a fio, atrás de cada beneficiário desse testamento que pudesse ter qualquer chance de ressuscitar o Império do Crime ou até mesmo erguer outro. Deu trabalho, mas consegui detê-los. Um a um, os levei à prisão, e seus bens foram confiscados.

Com a explicação de Holmes, aquele velho papel em sua mão passou a fazer algum sentido. Folheando-o agora, Ettie pôde perceber alguns nomes traçados. Muitos com riscos – sinal de que eram os agraciados com dinheiro e propriedade que acabaram derrubados por Holmes.

-Esse tal professor Moriarty não tinha familiares? O que houve com eles?

Holmes sorriu. – Tinha, sim. Alguns parentes. Também os investiguei no início, mas não demorou até que eu percebesse que eles nada tinham a ver com os crimes dele. Na verdade, nem mesmo sabiam de suas atividades criminosas.

-Devem ter ficado surpresos com a quantidade de propriedades deixadas por ele... – comentou Ettie, ainda a folhear o testamento.

-Com toda a certeza. O patrimônio de Moriarty era sem dúvida alguma incompatível com o que um professor universitário poderia possuir. Para não levantar suspeitas, ele levava uma vida austera, e sua família também. Só souberam quem ele verdadeiramente era depois de sua morte.

-Ao menos não saíram com os bolsos vazios... – comentou Ettie. Por fim, percebeu que alguns beneficiários nada tinham de risco em seu nome. – Agora, e quanto a essas pessoas que você sequer assinalou? São familiares dele?

-Sim. Se perceber, todos têm em comum o nome Moriarty. Sabe, a família de Moriarty não era meu alvo quando comecei a analisar esse testamento, mas sim os membros e comparsas de sua extinta organização. E talvez tenha sido este o meu maior erro...

Ettie só compreendeu o comentário do detetive quando seus olhos pairaram sobre uma palavra muito específica.

Bordeaux.

-Santo Deus! É o vinhedo, só pode ser ele...

Holmes aproximou-se de Ettie. Observou o dedo caloso dela a percorrer a palavra “vinhedo Sainte-Croix-du-Mont”, em propriedade de...

-Joan Robinson Moriarty? Mas quem é essa mulher, afinal?

-Irmã dele. E temo que não seja outra, senão a Josephine que tanto procuramos. Não me espantaria nem um pouco se Josephine fosse nada mais que um nome falso...

-Mas ela se apresentava em Bordeaux como sendo Josephine...

-Talvez para ficar fora do radar da polícia. O que só ressalta o meu erro. Havia sim, um familiar de Moriarty envolvido com seus crimes, e eu não detectei isso.

-Holmes... – tentou consolá-lo Ettie, ao perceber culpa em sua voz.

-Se tivesse suspeitado de todos, aprofundado minhas investigações... Nada disso teria acontecido. Aquela mulher estaria presa, e não a trabalhar como enfermeira naquele hospital, e você teria nosso filho em segurança.

Nosso filho. Era estranho vê-lo dizer isso. Ainda mais com o peso do remorso.

-Não vamos mais pensar no que poderia ter acontecido, Holmes. O que importa é que Scott está vivo.

-Scott! Até me esqueci que ele se chama assim... – comentou Holmes, a suprimir um riso.

-Não me recrimine. Ele tem esse nome graças a você. Mas ao menos o nome que escolhi é melhor que Arsène.

-Não me soa tão mal. Arsène é tão exótico quanto Sherlock. – acrescentou Holmes. Por fim, o detetive recolheu o documento das mãos de Ettie e o guardou novamente. Não tão organizado quanto Watson costumava fazer, é claro.

-Bom, você está certa. Não adianta pensar no que fizemos ou deixamos de fazer. Os fatos são os fatos. Então, já sabemos que essa Josephine, que na verdade se chama Joan Moriaty, roubou Scott quando bebê e o entregou para Moriarty.

-Mas para quê? É isso que não consigo entender... – balbuciou Ettie.

-“Vingança é um prato que se come frio”, minha cara. Penso que Arsène é na verdade um instrumento de vingança post mortem de Moriarty. Uma vingança meticulosamente planejada e arquitetada por sua irmã.

-Então, eles criaram meu filho para se vingar de você?

-Para fazer o que Moriarty não conseguiu: me derrubar. E repare no que disse: me derrubar. Não me matar, propriamente. Isso seria fácil de se encomendar. Não. A intenção de Moriarty e de sua irmã é na verdade me destruir. Moralmente. Por isso já sei qual é o grand finale que me está reservado...

-Qual seria? – questionou-lhe Ettie. Holmes demorou a responder.

-Uma vez que minha reputação como detetive estiver em frangalhos, após sucessivas e sucessivas derrotas em seu joguete, Arsène preparará seu mais poderoso golpe contra mim: me forçará a assumi-lo como filho.

Ettie parecia surpresa.

-O que pode ser pior para um homem de minha idade e reputação do que ter um filho bastardo, e para completar, um criminoso de grande reputação? Seria o fim de qualquer credibilidade que porventura ainda tivesse. Mas ele não será capaz de fazer isso enquanto não for preso. Afinal, ninguém sabe o verdadeiro rosto dele.

-Holmes, isso é loucura! – interveio Ettie. – Ele não parece ser do tipo de se entregar, só para te desmoralizar! Enquanto estive na França, soube que ele irritou muita gente poderosa com seus roubos! Há muita gente disposta a pagar uma boa quantia para vê-lo morto, para não dizer da própria polícia! Se ele for pego...

Holmes a interrompeu.

-Ettie... Às vezes me pergunto o quão longe Arsène poderia ir em sua vingança, e creio que esse é o limite. Não sei se ele seria capaz de realmente dar tamanho passo, a ponto de arriscar sua liberdade e até mesmo sua vida para me destruir, mas só o que sei é que não posso pagar para ver. Creio que minha saída seja antecipar esse movimento perigoso e assim impedi-lo de fazê-lo.

-E como fará isso? – perguntou Ettie. Mas Holmes nada mais disse. Talvez porque o próprio ainda não tivesse a resposta, ou não queria compartilhar com ela. Reuniu um pouco de tabaco, acendeu um cachimbo e pôs-se a fumar. Sentindo-se ignorada, Ettie decidiu não ficar de braços cruzados.

-Acho que vou indo...

Ao ouvir Ettie prestes a se retirar de Baker Street, Holmes saiu de seu estado inebriado e pensativo. Levantou-se da poltrona, bruscamente, a detê-la. Já estava Ettie com a mão sobre a maçaneta da porta quando o detetive a impediu de sair.

-Ettie, onde estão suas coisas?

A mulher suspirou. – Vim direto da França para cá. Deixei minhas malas lá embaixo, com sua senhoria, mas assim que sair daqui, vou voltar para minha casa em Whitechapel. Por que pergunta?

-Explêndido! Vou pedir para que subam suas malas agora mesmo.

-O que?! – exclamou Agnes, aturdida. – Mas para que, Holmes? Estou prestes a ir embora... Ah, já entendi. Você quer as minhas roupas de volta. Nada mais justo, afinal comprei com o seu dinheiro. Tudo bem. Pode ficar com elas...

-Mas é claro que não! — exclamou Holmes, nitidamente ofendido. – Jamais cometeria a monstruosidade de tomar os vestidos que comprou na França, Ettie! A verdade é que preciso que você se mude para Baker Street, imediatamente.

-Como é que é?! – exclamou outra vez Ettie, dessa vez horrorizada. – Agora está indo longe demais, Holmes! Mesmo não sendo de boa família como você, sei que um homem e uma mulher só podem dividir o mesmo teto sendo casados! E se por acaso não percebeu, nós não somos casados...

-Ainda, Ettie. Ainda.

A insinuação de Holmes deixou-a ainda mais nervosa.

-Pois eu não vou me casar com você! Nunca! Isto está fora de qualquer cogitação!

Holmes colocou suas mãos sobre os ombros de Ettie, numa tentativa de acalmá-la.

-Ettie... Compreenda, faz parte do meu plano. Preciso que passe a morar aqui em Baker Street para que ele dê certo.

-Não é porque tivemos um filho há vinte anos que sou obrigada a me casar com você! Como te disse antes, o tempo de fazer reparações já passou e não há mais nada que possa fazer para consertar o que fez.

-Eu sei, Ettie, eu sei de tudo isso... E não, eu não quero força-la a se casar comigo só por causa do nosso, er... Envolvimento no passado. Mas peço que more aqui comigo temporariamente. Escute, Ettie... É temporariamente, entendeu? Preciso que esteja aqui, temporariamente, para que meu plano tenha alguma veracidade. Preciso que seja vista em Baker Street. Do contrário, meu plano não vai funcionar corretamente.

-E que diabos de plano é esse?! Pois se vou fazer parte dele, é meu direito saber!

Mas Holmes a ignorou. Foi até um pequeno sino e o tocou. Ettie, experiente como empregada, sabia bem o que queria dizer o sino. Em breve, a senhoria estaria ali.

-Está me ignorando, é isso?! – enervou-se Ettie. Odiava sentir-se assim. E Holmes, com toda sua pompa, parecia ser um mestre em irritá-la. Ao ver que não conseguiria arrancar-lhe nenhuma informação, pensou em arrancar aquele maldito cachimbo de sua boca e arremessa-lo longe, mas se controlou. Começou a andar, de um lado a outro no apartamento, inconformada com aquela situação. Ainda que contrariada, sabia que precisava ter fé em Holmes. Ele queria deter Arsène em sua loucura, e era só isso que a impedia de abandonar aquele apartamento e voltar para sua vida pobre e miserável, porém com dignidade, em Whitechapel.

Quando ouviu toques à porta, Ettie se escondeu. Não queria encarar a senhoria. Temia que tipo de explicações Holmes daria para solicitar que subisse sua mala. Sabia exatamente o que ela pensaria. Sabia, pois já esteve na pele dela por anos a fio. Nunca pensou que seria capaz de se envergonhar tanto assim, estando agora do outro lado.

Mesmo sem qualquer permissão de Holmes, escondeu-se no quarto dele quando o viu abrir a porta. Mas deixou a porta recostada, com o ouvido bem próximo da conversa que ocorria do outro lado. “Perfeitamente, Mr. Holmes. Pedirei ao meu esposo que suba a mala dela, sim. Agora mesmo.”, ouviu a mulher dizer. “Ah, tem mais uma coisa”, e assim, acrescentou Holmes, para pavor de Ettie. “Essa mulher passará a morar comigo. Poderia, a partir desta data, passar a servir duas refeições aqui em Baker Street?”

E eis que veio o silêncio. Escondida naquele quarto, a ouvir atrás da porta, Ettie não era capaz de ver um centímetro que fosse do rosto daquela mulher, mas já imaginava o quão chocada deveria estar. Sherlock Holmes, um solteirão convicto, havia acabado de admitir que dividiria o teto com uma mulher, sem qualquer papel à vista que atestasse ambas condições. Uma imoralidade sem tamanho, envergonhou-se Ettie. Não que fosse a mais santa das mulheres, mas até mesmo ela tinha seus limites. Como poderia andar pela rua, sendo apontada como uma espécie de amante, por Deus?

“Mas é claro, Mr. Holmes! Pode deixar que hoje mesmo servirei o café da tarde em porções suficientes para vocês dois, e assim será pelas próximas refeições.”, disse a senhoria, sem nada mais a acrescentar. Impressionante sua capacidade de discrição. Se fosse ela, Ettie, a estar em seu lugar, já tentaria de pronto sondar quem era ela, o que afinal estava fazendo ali... Mas tudo que ela fez foi simplesmente acatar aquela nova ordem e ir embora. Ao menos, foi o que percebeu com o fechar da porta.

-O jogo está em andamento. E pelos Céus, Ettie, saia já detrás dessa porta! Não há a menor necessidade de se esconder dos outros como se fosse um animal assustado!

Um tanto contrariada, Ettie deixou o quarto de Holmes. Não conseguia esconder seu espanto, e também desgosto por toda essa situação.

-Acho que me deve uma explicação...

-Não lhe devo coisa alguma, Ettie. Como disse, meu plano está em andamento.

-Pois ao menos me conte o que pretende com toda essa situação vergonhosa! Meu Deus, como vou encarar essa mulher... O que ela deve estar pensando de mim...

Holmes, que havia acabado de se sentar ao sofá, suspirou fortemente.

-Ettie, conheço o suficiente Yolanda para saber que ela não irá destrata-la por morar aqui, muito menos julgá-la por sua situação. Não acredito... Você está chorando?!

Holmes surpreendeu-se, ao ver lágrimas e mais lágrimas escorrerem de seu rosto.

-Ettie, o que houve? – perguntou o detetive. Ainda que tivesse grandes habilidades de dedução, elas nem sempre funcionavam. Especialmente quando se tratava de desvendar a alma feminina. Mulheres sempre eram imprevisíveis.

-Minha mãe dizia que o pobre só nascia com um bom nome a zelar. E nem isso eu terei mais. Você me tirou tudo, Sherlock Holmes! Tudo! Absolutamente tudo!

Holmes suspirou. Não pensava que fosse ser tão difícil assim. Talvez porque tivesse superestimado Ettie quanto à sua aceitabilidade em relação a seus planos mirabolantes. Ela definitivamente não era o Dr. Watson, que simplesmente aceitava suas ordens sem demandar maiores detalhes. Não dava para exigir dela tamanha confiança, quando o próprio havia sido desleal com ela por tanto tempo. Fazendo Ettie sentar-se ao sofá, Holmes pegou em sua mão. Sentiu-a trêmula, a seu mero toque.

-Preciso que confie em mim, Ettie. Sua presença aqui ajudará a salvar nosso filho.

-Não consigo ver onde todo esse desatino se encaixa nisso... Não consigo....

Holmes assentiu.

-Se eu te contar, você poderá não soar muito convincente, quando a hora chegar. Não se esqueça, você não sabe interpretar muito bem... Preciso que fique aqui e soe o mais natural possível, apenas isso.

-Natural?! – estranhou Ettie. – Você quer dizer... Quer que eu finja outra vez ser uma mulher da alta sociedade, tal como fiz em Paris?

-Não, Ettie. – explicou Holmes. – Quero que seja você mesma. Claro, por morar aqui você terá que se vestir um pouco melhor, até para soar como alguém mais respeitável, mas não precisa fingir ser outra pessoa. Preciso que more aqui, em Baker Street, que aja com naturalidade ao que está acontecendo, que frequente a vizinhança, que cumprimente as pessoas, e apenas isso. Não demandarei nada mais.... Se é isso o que tanto teme.

Ettie pareceu ainda mais revoltada com a última insinuação.

-Pois ai de você, se ousar encostar um só dedo em mim!

Holmes riu de sua ameaça. – Em nenhum momento cogitei tal coisa. Esse apartamento tem dois quartos. Pode ficar com o de Watson. Mas... Preciso que aja o tempo todo como se fosse minha esposa. Ao menos quando estivermos diante de outras pessoas.

-E se me perguntarem na rua?

Holmes parecia pensativo. – Tente desconversar. Contribuirá para o mistério.

Quanto mais Holmes falava, mais confusa Ettie se tornava.

-Não entendo onde quer chegar com tudo isso... Mas que escolha tenho? Não movi céus e terras para saber que meu filho está vivo e em seguida perde-lo... Se isso servirá para salvar o meu Scott, não me resta outra coisa a fazer senão aceitar esse seu... Esse seu plano indecente!