Londres, Inglaterra. 15 de Dezembro de 1911.

221-A, Baker Street.



Costurar nunca foi seu forte, mas Yolanda Hudson sempre soube se virar. Desde cedo, aprendera com sua mãe a costurar a sua própria roupa, que mais consistia em um apanhado de remendos para deixa-la minimamente apresentável. Mais tarde, ajudava sua mãe na costura, dessa vez de seus “senhores”. A lembrança não era das mais agradáveis, mas Yolanda sabia que isso pertencia a um passado difícil de esquecer. Havia, afinal, cicatrizes por seu corpo a se recordar dessa época tão difícil, e ainda as cicatrizes da mente. Os xingamentos, os assédios, os maus tratos... Muito embora fosse feliz por saber que seus filhos eram homens livres, entristecia-se Yolanda por seu povo. É verdade que a escravidão já havia sido expurgada – ao menos oficialmente – por todos os países, mas ser negro não havia sido menos fácil graças a isso.

E agora Yolanda costurava com agulha, linha e também esperança. Seu filho Patrick mostrou-se interessado por um esporte dos ingleses, chamado de football. Havia o temor de que Patrick fosse ser impedido de jogar devido a sua cor, mas havia a história de outros jogadores negros que tiveram até certo reconhecimento no esporte, fato este que o deixou motivado. Pediu a seu pai que comprasse um par de sapatos apropriados para a prática e também uma vestimenta adequada, que consistia em um conjunto de shorts e meiões. Um clube por perto estava treinando rapazes de sua idade, e amanhã ele faria o primeiro teste. Por isso, toda hora perguntava a sua mãe se ela já havia terminado de fazer os últimos ajustes em seu uniforme, e certamente estaria a matracar ainda mais sobre football se não fosse pelas mais recentes novidades do inquilino de 221-B...

-Não sabe quem acabei por encontrar no empório...

Yolanda teve vontade de rir. Seu esposo Don sempre dizia odiar fofoca, mas quando tinha a oportunidade de fazê-la, perdia qualquer cerimônia. Colocou as sacolas de compras sobre a mesa da sala, torcendo para que alguém fizesse a fatídica pergunta.

-Quem, papai? – questionou-lhe Michael, o mais curioso.

-A esposa de Mr. Holmes! Ou ao menos, eu acho que é esposa... – admitiu Don, enquanto retirava sacos de farinha da sacola e os guardava no armário da cozinha.

-Mas como sabe que é ela? Você ainda não a viu...

-Pois eu a escutei pedir ao empório que lhe entregasse uma encomenda no 221-B. Quem mais pediria, senão essa tal mulher que passou a morar com ele? Ainda mais porque eram toalhas de mesa... Sabe, preocupações bem típicas de uma esposa...

Yolanda Hudson não resistiu e acabou por rir. Nisso precisava concordar com seu esposo. Até que tal compra viria bem a calhar, afinal as toalhas de mesa em Baker Street estavam velhas. Se Mr. Holmes jamais se importou com o estado delas, uma mulher não deixaria passar tal detalhe.

-E tome cuidado com a língua, Don! Não sabemos ainda quem é essa mulher. Mr. Holmes é um homem muito reservado. Pelo que me consta, pode ser até mesmo uma irmã... – comentou Yolanda, terminando de costurar uma camisa e já partindo para outra.

-Impossível, mamãe. Eu li todos os livros do Dr. Watson, e Mr. Holmes só tem um irmão chamado Mycroft Holmes. – retrucou-lhe Michael, com notória autoridade. Não poderia culpa-lo. Desde que passou a morar em Baker Street, havia devorado os livros com grande afinco, e agora mais deveria ser uma enciclopédia ambulante de Sherlock Holmes.

-Esse menino leu todos os livros, sou testemunha! – concordou Don. – É melhor confiar no que ele diz... O que só ressalta as minhas suspeitas de que Mr. Holmes resolveu procurar um par de pés para aquecê-lo na cama... Ou até mesmo chutou todas as boas regras da sociedade e juntou os travesseiros com uma amante...

-Mas que modos de falar são esses, Don?! Não vê que os meninos estão por perto, homem?!

Surpreso pelo que acabara dizer, Don tratou de se retratar. Às vezes, se esqueci que estava em família, e não no convés de um navio, onde todo tipo de bobagem era permitida.

-Desculpe, amor. Talvez tenha me excedido um pouco...

-Um pouco?! Pois trate de ter modos, principalmente a falar de tais assuntos na frente dos meninos. De todo modo, é melhor termos cautela. Não quero ninguém fazendo especulações a respeito de Mr. Holmes nessa casa, muito menos fora dela. Entenderam? O que quer que esteja acontecendo lá em cima, não sairá dessa casa. Precisamos respeitar a privacidade dos nossos inquilinos, não se esqueçam.

“Talvez seja um pouco tarde demais para esse pedido”, começou a se lamentar Michael. Já havia contado aos colegas de curso que havia uma mulher morando com Mr. Holmes, fato este que deixou todos chocados, e também com uma ponta de inveja por Michael morar tão perto daquele que era quase que uma lenda viva londrina. Tomara que nenhum deles desembuche...

-Mas como ela é, papai? Deve ser uma mulher muito bonita, tal como a Irene Adler nos livros! Será que é a Irene Adler? Nos livros, ele parecia gostar muito dela.. – começou a matracar Michael, empolgado. Nada que Don não se importasse em contar.

O homem pigarreou.

-Não achei tão bonita assim, filho. Na verdade, diria até que me pareceu um tanto humilde. Não sei... Estava bem vestida, precisava reconhecer... Mas... Parecia meio deslocada.

Yolanda nada preferiu dizer, dando atenção à linha e agulha, e ainda assim, com um ouvido naquela conversa. Nisso precisava concordar com Donald. A nova inquilina a ocupar o 221-B nada tinha de extraordinária. Não que fosse feia, mas tinha um aspecto um tanto maltratado pela vida. E era extremamente humilde, a julgar por suas maneiras. E mesmo que bem-vestida, exalava ares de pobreza. Tinha em si o notório ar de uma serva, que mesmo que sob boas vestimentas, não conseguia ocultar muito bem suas origens. Parecia um peixe fora d’água, situação esta que a própria Yolanda passou, quando deixou de ser uma mulher cativa para tornar-se livre. Não foi um choque tão extremo quanto o seu, mas certamente a nova inquilina parecia passar por uma experiência semelhante, e isso só a deixava mais intrigada: por que um homem da alta sociedade como Holmes, que certamente conseguiria se casar com uma dama de boa família, havia escolhido justamente uma mulher como aquela para se casar?

-Então não é Irene Adler, A Mulher.. – desapontou-se Michael.

-Bom, alguma coisa ela deve ter de especial, para fisgar o coração dele.

-Don... – alertou-lhe Yolanda, ao ver seu esposo outra vez a especular. Seu maior temor era que ele soltasse a língua demais e isso acabasse por escapulir pela vizinhança. Sabendo o quão discreto era Holmes, temia que o detetive se irritasse por ver o povo a especular sobre sua vida.

-Será que podemos ajudar a mamãe a levar o jantar até Mr. Holmes? – sugeriu Michael, mal conseguindo se conter em animação. Patrick também parecia animado com essa perspectiva, mas Yolanda tratou de lançar água sobre aquela ideia estapafúrdia dos meninos.

-Fora de cogitação! Levo o jantar de Mr. Holmes sozinha todas as noites, e ele não é tolo! Irá perceber que vocês estão comigo só para bisbilhotá-lo.

Os meninos bufaram, irritados. Por fim, saíram de perto de sua mãe, a essa altura terminando de costurar a última calça. A carne já estava assando no forno e, a julgar pelo cheiro que exalava da cozinha, muito em breve estaria pronta para ser servida no jantar. Mas tal como os demais inquilinos, serviria aos dois sozinha, como sempre fez.

Adentrou ao 221-B carregando uma bandeja com duas porções, tal como solicitado por Holmes. E tão logo adentrou, percebeu que o ambiente estava bem mais limpo e arrumado, o que era uma notável façanha. Já havia se oferecido inúmeras vezes para limpar as estantes de livros, os carpetes e outros móveis daquele apartamento, mas Holmes recusara. Pelo visto, o detetive havia levado a melhor para aquela mulher, que agora dividia sua casa.

Quem abriu a porta foi ela, inclusive. Sorriu ao vê-la, e outra vez se ofereceu para pegar a bandeja, e tal como um hábito, Yolanda recusou. Dispôs os pratos sobre a mesa, sendo observada pela mulher com certa aflição.

-O almoço estava uma delícia! – disse, subitamente a mulher.

-Obrigada! – respondeu Yolanda. O almoço havia sido simples, sequer digno de receber tamanho elogio, sentira a senhoria. Ainda assim, aquela mulher parecia se esforçar em ser simpática. Ou talvez estivesse em busca de algum tipo de amizade com outra mulher. Compreensível. Yolanda sentiu o mesmo quando se casou com Don e estava em uma terra estranha, com outros costumes.

-Meu nome é Henrietta, mas pode me chamar de Ettie. – apresentou-se, enfim, a misteriosa mulher.

-Yolanda Hudson, muito embora eu acredite que já saiba disso. Aliás, Ettie, a senhora teria alguma roupa suja que queira entregar para lavagem? Não sei se Mr. Holmes explicou a senhora como funciona a rotina por aqui, mas é necessário que...

-Eu já expliquei a ela, Yolanda. – interveio Holmes, que a princípio parecia absorto em sua mesa de química e completamente alheio àquela conversa. Pelo visto, não tanto assim.

-Bom, eu tenho algumas, sim... Vou deixar na cesta, tal como Holmes me instruiu.

Yolanda estranhou a maneira formal como Ettie se referiu ao detetive. Sim, é bem verdade que ele tinha um nome de batismo deveras exótico, ainda assim causou-lhe estranheza a forma como ela o chamara. Pelo visto, não eram tão íntimos assim. A hipótese de serem parentes já estava descartada, e a de serem amantes... Não de todo, mas ainda assim, soava remota.

-Se precisar de mais alguma coisa, basta me chamar. – completou a senhoria, se despedindo. Tão logo Ettie fechou a porta, ouviu um suspiro pesado de Holmes.

-Acho que é melhor não mais me chamar de Holmes, Ettie.

Holmes sequer retirara os olhos de seu experimento, e mesmo assim chamou a atenção de Ettie. Tomada de irritação, a mulher aproximou-se da mesa do detetive.

-E como deveria chama-lo? De Scott?

-De nada adiantará me provocar, Ettie. Continua errada.

A pobre mulher arregalou seus olhos, furiosa.

-Não sou obrigada a te chamar por esse seu nome pavoroso e pagão!

-Pois terá, se quiser sair daqui o mais depressa possível. Quanto mais estiver agindo como uma empregada ao invés de minha esposa, tornará sua estadia aqui cada vez mais longa, bem como aumentará as chances de não conseguirmos impedir Arsène de concluir seu plano maldito de me destruir. Então, as cartas estão sobre a mesa. Faça sua escolha, Henrietta.

Ettie bufou, furiosa. Holmes ainda não havia compartilhado nada a respeito de seu plano. Apenas lhe dava ordens e mais ordens, uma mais estranha que a outra. Primeiro, entregou-lhe um cheque e também uma boa quantia em dinheiro, e pediu para que ela fizesse compras. O cheque, segundo sua orientação, só deveria ser usado em um único lugar: a modista. Era um cheque bem gordo, assinado por Sherlock Holmes e tendo a própria, Henrietta Smith, como portadora. Já o dinheiro, não tanto, foi reservado para que ela fizesse compras pelo bairro, inclusive de toalhas de mesa, vasos, arranjos e outras coisas mais que o detetive chamou de “quinquilharias”. Pois ora, se eram realmente quinquilharias, por que ele queria tanto que ela comprasse? Boa parte de sua lista, inclusive, precisou ser encomendada pois não havia na loja. E o pouco que conseguira encontrar serviu para o que o detetive chamou de “dar um toque mais feminino para aquela casa”. Nisso Ettie concordou.

Mas nada disso se comparava à enorme confusão instalada em Baker Street, depois que Ettie se atreveu a limpar seu apartamento. Sabia que Holmes era um homem repleto de manias, e apesar de todos os cuidados que Ettie tomou para não contrariá-lo, de nada adiantou seus esforços. Mesmo as coisas que soavam mais insignificantes, como uma camada de poeira sobre livros, ou uma janela limpa da fuligem da rua, lhe causava desagrado. Mas o surto maior foi quando ela se atreveu a mexer em um pequeno potinho repleto de larvas, que não teve outro paradeiro senão o lixo. Aos berros, Ettie descobriu que aquelas larvas, que mais pareciam ser vermes de alguma comida podre, se tratava de “ovos encubados de abelha”. Pois como haveria de saber que aquela coisa nojenta eram abelhas? Nem sabia que abelha botava ovo igual galinha! Foram muitos os aborrecimentos, com Holmes a dizer por todo o tempo que sua bagunça tinha “método”! Pois que malditos métodos eram esses, que tornavam aquele apartamento quase próximo de um chiqueiro?!

Ao menos a refeição era carne assada com batatas. Mais uma vez, Ettie esperava por comer uma refeição apetitosa, e não se enganou. Cada garfada foi feita com enorme gosto. Já Holmes, quase não comia.

-Está com algum problema? – questionou Ettie, ao vê-lo desistir da refeição depois de duas garfadas. Desde que chegara, agia assim. No início, pensou que fosse alguma indisposição, ou falta de apetite momentânea, mas o passar do tempo a fez perceber que isso era claramente um hábito.

-Estou sem fome, apenas isso.

-Pois deveria comer. Está com um caso difícil nas mãos. Repor um pouco de energia nunca é demais. – disse, entre uma garfada e outra. – Além disso, está divino!

-Yolanda cozinha muito bem, deveras. – concordou Holmes. Passou sua atenção ao refresco, tomando-o em pequenos goles em silêncio. Nada mais ouviu naquele ambiente, senão o trepidar do fogo na lareira, o passar dos ponteiros do relógio, e, é claro, as garfadas de Ettie. Mesmo que não comesse como uma selvagem, Ettie tinha uma péssima mania de tilintar os talheres e batê-los no fundo do prato, a não desperdiçar um grão que fosse em seu prato. Duvidava muito que ela tivesse tamanho apetite, e achava mais ser esta uma questão de não desperdiçar comida, o pouco que fosse. Não à toa parecia tão chocada em vê-lo a comer tão pouco.

-Eu o vi, Ettie.

Ela os deixou tilintar mais uma vez, e tão forte que quase soou como um estrondo sobre a porcelana de seu prato. Mais tarde teria de conversar com ela sobre tais modos irritantes...

-Pois não me diga! – exclamou Ettie, surpresa, mastigando rapidamente quase a ponto de se engasgar só para questioná-lo. Ao menos não falava de boca cheia. – Como ele é?

Holmes sorriu, sarcasticamente.

-Ele é a minha cara, Ettie.

A mulher pareceu irritada.

-Nove meses carregando este menino no meu ventre para ele nascer igual a você?! Não sei o que fiz para merecer tamanho desgosto...

-Pois se não fosse por isso eu jamais suspeitaria de sua identidade. Mas voltando ao assunto... Arsène Lupin é bastante esperto, meticuloso e atrevido. Acho que essa última característica, por sinal, é herança sua.

-Vocês chegaram a conversar? – perguntou Ettie, ignorando sua provocação.

-Um pouco. Ao menos antes de irmos às vias de fato.

-Jesus Cristo! Pai e filho, trocando socos... Isso só pode ser um castigo...

-Por isso disse a você. Ele está irredutível em dar prosseguimento a seu projeto de vingança. Quer me derrubar, e já está agindo para se colocar novamente no jogo. Já notei um padrão em suas ações: ele leva alguns dias para agir. E dado o tempo que se passou desde nosso último encontro, não demorará até que faça outra vez algo de muito extraordinário. Inclusive, ele disse que eu fiz algo contra ele, mas não quis entrar em detalhes quanto ao que seria isso. Disse que não queria me ouvir, pois já sabia de tudo... Temo que minhas suspeitas estejam certas. Contaram a ele uma história completamente distorcida quanto às suas origens.

-E que te põe como um grande vilão, pelo jeito. – concluiu Ettie. – Não que isso seja mentira, de todo modo...

-Eu não sabia da existência dele, Ettie. Mas a julgar pelo tom dele, não é o que ele acha. Podem ter distorcido o que aconteceu de inúmeras formas. Que ele foi abandonado por mim, que eu ordenei que fosse abortado, que o rejeitei por ser um bastardo... Mas o que ainda não consigo conjecturar é sobre você.

-Eu?! – estranhou Ettie, decidida a terminar sua refeição.

-Que ele sabe que sou o pai dele, ficou claro. Mas, e quanto a mãe? Será que contaram que é você? Ou inventaram, dizendo se tratar de outra pessoa? Isso que fico a me questionar...

-Uma coisa é certa: Josephine não poderia se assumir como mãe dele. Ela era velha demais para isso. Aliás, não me estranharia se a essa altura, ela já não estivesse morta.

-De velhice, você quer dizer?

-Não apenas isso. Quando trabalhei no hospital, notei que Josephine tomava uma série de remédios. Uns diziam que ela tinha o pé na cova. Até tive pena dela por um tempo. Mal sabendo eu da grande rasteira que aquela filha da puta estava prestes a me dar... Desculpe pelo palavrão.

Holmes nada disse.

-Sobre a mãe, não sei te dizer, mas o que soube em minha ida à França é que ele tinha um pai. Foi criado sozinho por ele, naquele vinhedo em Bordeaux. Théodore Lupin, era assim que se chamava. Dizem que os dois eram muito próximos, e que Arsène desandou na vida depois de sua morte. Aliás, o nome te soa familiar de alguma forma? Havia rumores de que ele era um criminoso em Paris...

-Sacuda a cidade de Paris e mil criminosos escorregarão dela, tal como ratos a sair do esgoto. Impossível afirmar com certeza, mas não me espantaria se assim o fosse. E não, não me é familiar. – admitiu Holmes, dando um último gole em seu refresco.

-Falaram que era um ladrão, e que por isso Arsène se tornou um. Porque aprendeu com o pai, mas se tornara infinitamente melhor – ou pior, dependendo do ponto de vista.

-Deve ter aprimorado suas técnicas. Não faria diferente, se estivesse no lugar dele.

-Quer dizer que também seria um criminoso?

-Por que não? – foi a vez de Holmes questioná-la. – A vida de quem comete o crime pode ser tão ou até mais excitante que a de quem o investiga. É uma benção que eu não use meus dons para a criminalidade.

-Falou e disse Sherlock Holmes, o “Rei da Modéstia”... – levantou-se Ettie, um tanto irritada. Estava prestes a ir para o seu quarto quando ouviu alguém bater à porta. Após a permissão de Holmes, revelou-se a presença de Yolanda, sua senhoria.

-Perdoe-me a intromissão, Mr. Holmes. Mas há um homem na porta que deseja vê-lo. Disse se chamar... Joshua Adams. Ele disse que deseja vê-lo, pois requisita seus serviços.

Para espanto dos presentes, Holmes deixou escapar uma sonora gargalhada. Yolanda estranhou sua súbita mudança de humor. O que havia dito de tão engraçado assim? Era ele, sem dúvida, um homem muito estranho...

-Mais rápido que pensei... – ouviu-o balbuciar quase que inaudivelmente, mais para si mesmo que para os demais ao seu entorno. – Pois que o deixe entrar, Yolanda.

-Deseja que eu sirva um chá?

-Não será necessário, Yolanda. Será uma visita rápida.

A senhoria de Baker Street nada mais fez senão acatar suas ordens. Quando a porta se fechou, Ettie caminhou a passos sutis, porém rápidos, em direção a seu quarto. Pensou que passaria despercebida de se esconder de um cliente em potencial de Holmes, mas foi flagrada pelo detetive ainda com a mão sob a maçaneta.

-Preciso que permaneça, Ettie.

-Mas é um cliente, Holmes! – insistiu a mulher, preocupada. – Ele deve querer falar com você em particular...

-Nada disso, Ettie. Você fica aqui na sala. E não se preocupe, não precisa falar ou fazer qualquer coisa. Apenas... Sente-se em uma dessas poltronas e aja com naturalidade.

Ettie parecia inconformada. Chegou a pensar em retruca-lo, contrariar suas ordens, mas quando a porta se abriu, por impulso sentou-se ao sofá. Ainda que estivesse no mesmo ambiente, evitou olhar nos olhos do estranho homem que trocava um aperto de mão firme com Holmes. Procurou não prestar atenção naquela conversa, mas era impossível. O homem contava o curioso caso de uma maleta desaparecida. Uma história intrincada, estranha. Uma maleta que estava há sabe-se lá quantas gerações, e que curiosamente desapareceu. Holmes exigia detalhes e mais detalhes, e Mr. Adams oferecia o que ele pedia, com bastante riqueza.

-Como pode ser?! A maleta, esse tempo todo, com a minha irmã?!

-Pois eu faria uma busca séria em sua casa, Mr. Adams. Sua irmã escondeu essa maleta por lá, e como o senhor mesmo apontou que ela insistiu para que reformasse a cozinha, penso que o melhor lugar para procura-la seja lá.

-Pois é o que farei, Mr. Holmes! Ah, e eu aqui a pensar que talvez ladrões tivessem invadido a minha casa! Agora faz todo o sentido, realmente! – levantou-se o homem, outra vez trocando um aperto de mão com Holmes.

Seus olhos, entretanto, voltaram-se a Ettie, que se sentiu desconfortável. Não era a primeira vez que ele olhava para ela. Não era um jeito paquerador como Ettie já recebera de outros homens em sua vida, mas era intenso, a ponto de deixa-la encabulada. Como se estivesse a reparar em cada detalhe seu.

Um pigarreio de Holmes o interrompeu.

-Permita-me apresentar Miss Henrietta Smith, Mr. Adams.

-Oh, sim. Henrietta Smith. Encantado em conhecer a senhorita. – disse, tomando-lhe uma de suas mãos e dando-lhe um beijo na palma delas. Pouco dada a formalidades, Ettie sentiu-se embaraçada. Ouviu então outro pigarreio de Holmes.

-Obrigada. – respondeu Ettie, incerta se havia feito a coisa certa. O homem despediu-se de Holmes, e ainda mais apressado, pôs-se embora de Baker Street. Tão logo ele deixara o apartamento, Holmes dirigiu-se à janela, onde o viu embarcar em um cabriolé fretado. Trazia estampado no rosto um sorriso satisfeito.

-Ele me chamou de senhorita e eu não o corrigi. Fiz certo?

Holmes suspirou. – Fez sim, Ettie. Até porque, você não é casada.

-Mas você disse que eu deveria me comportar como sua esposa.

-E se comportou, devo dizer... Bom, dentro do que se espera do meu plano.

-Ah, sim... O seu “plano”... Plano este que participo, mas não posso saber.

-Se soubesse do que se trata exatamente o meu plano, não teria se saído melhor, acredite. Agora, pode se retirar para o seu quarto, se quiser. – comentou Holmes, voltando suas atenções a seu cachimbo. Ettie sabia o que isso significava. Que em breve, Holmes embarcaria em mais uma de suas longas sessões de fumo excessivo, quando deixava a sala quase que cinzenta graças à fumaça de seu cachimbo.

Quando prestes a se retirar, seus olhos voltaram-se ao violino. Estava recostado à mesa de centro. Havia um tempo que estava ali. Desde que chegara a Baker Street, Ettie não o vira tocar ainda. Lera uma vez nos livros escritos pelo Dr. Watson que Holmes tocava o violino muitíssimo bem. Seria esse um exagero do doutor, ou era verdade? Só havia um jeito de saber...

-Por que não toca? – perguntou rapidamente.

Holmes parecia inebriado, com os pensamentos perdidos em meio à névoa de fumaça que exalava de seu cachimbo, mas enganava-se pensar que não estivesse atento ao que se passava ao seu redor. Abriu seus olhos cinzentos, voltando-se para Ettie. Por um momento, ela pensou receber do detetive uma reclamação por seu pedido, mas para sua surpresa, ele largou o cachimbo de lado e tomou o instrumento.

-Cheguei a contar a você que Arsène roubou o meu violino?

Ouviu de Ettie uma sonora risada, o que o fez rir também. Era esse um daqueles casos que nada tivera de engraçado quando ocorreu, mas que agora era digno de risos depois de ocorrido.

-Pelo visto, você o recuperou.

-Sim, mas não parte de minha reputação. Aposto que virei motivo de piada por toda Scotland Yard, e tudo graças àquele molecote. Mas deixemos de lado Arsène. O que deseja que eu toque?

Ettie hesitou. Gostava de música, mas jamais fora a um teatro ou conserto na vida. Não sabia o nome de compositores ou das canções que vez ou outra escutava tocar em alguma loja, ou dos instrumentos de artistas de rua. E diante de um homem culto como Holmes, tinha vergonha de admitir.

-Você escolhe. – preferiu dizer.

Holmes nada comentou. Parecia compreender sua aparente falta de competência em escolher uma mísera música. Optou, então, por Mozart. Não era seu compositor preferido, mas sabia que dificilmente haveria alguém em solo britânico incapaz de reconhecer o menor trecho de suas obras mais famosas. E a julgar pelo sorriso de Ettie, ela conhecia o que tocava, ainda que não pudesse nomear.

-Essa daí eu não conheço, mas é bonita. – admitiu Ettie, após longos minutos se esforçando para identificar que canção estava saindo do violino, afinal. Ouviu de Holmes um suspiro.

-É Vivaldi, mas não uma das mais populares dele... Mas quem sabe não conheça essa.

Quando as primeiras notas começaram a ser destrinchadas pelos dedos de Holmes, um sorriso maravilhado formou-se em Ettie. Conhecia aquela sim, e muitíssimo bem! Não havia um pub sequer em Whitechapel que simplesmente não tocasse “Rocky Road To Dublin” em algum momento da noite – especialmente quando a clientela do pub estava bêbada o bastante para trocar uns passos tortos pelo salão. Foi o caso de Ettie, inclusive, muitas vezes. Tanto que sentiu seus pés e dedos da mão se moverem involuntariamente, a seguir o ritmo.

Por um rápido momento, sentiu-se transportada no tempo. Tinha um pouco mais de vinte anos, trabalhava na mansão de um ricaço chamado Charles Augustus Milverton e, apesar do baixo salário de empregada, estava contente com a vida que levava. Tinha poucas preocupações, mas uma delas se tratava de um encanador por nome Scott. No início, quando começou a trabalhar na casa de seu patrão, para resolver um cano de esgoto entupido, parecia mais focado em conversar do que em resolver o problema para qual foi contratado, e parecia neutro às suas investidas – que consistiam em olhares maliciosos, piscadelas, o que mais fosse. Ettie não sabia explicar o que diabos viu naquele maldito encanador. Talvez fosse a sua timidez exagerada sempre que ela se aproximava, ou o seu jeito misterioso, pouco dado a conversar sobre si mesmo, ainda que fosse muito curioso quanto a tudo que se passava naquela casa. Conquistá-lo passou a ser quase que uma questão de honra, fazendo-a deixar até mesmo sua paixonite antiga pelo mordomo de Milverton de lado. E, para sua surpresa, do nada o tímido encanador passou a aceitar bem suas investidas. Mesmo assim, aquele parecia ser um namoro que só existia por entre os jardins e cantos pouco vigiados daquela mansão. Scott recusava todo e qualquer convite para saírem juntos em suas folgas. Inclusive para pubs.

“Mas por que não quer ir, Scott? Eles servem por lá uma cerveja muito boa, tem música também... Um violinista de Belfast! Eles costumam tocar cantigas irlandesas, é tão divertido... Mesmo que não goste de dançar, tenho certeza de que vai adorar a música... Pelo amor de Deus, Scott! O que custa, me levar para sair uma única noite?! Se o problema for dinheiro, eu... Ora essa, se não é dinheiro, então por que não quer ir? Não pode?! Mas não pode porquê?! Como assim, Scott? Que mal há em te convidar... Não faz o menor sentido! Toda vez é isso, quando consigo uma maldita folga, uma chance de deixar por umas boas horas essa minha vida pesada de criada nessa casa e finalmente passar um pouco mais de tempo com você, para conhece-lo um pouco melhor, você vai e dá para trás! Do que afinal, você tem tanto medo, Scott? ”

-O que foi? Não gostou dessa? Se quiser, posso tocar outra que... Ettie?! Ettie!

Mulheres, bufou Holmes, ao ser silenciado pelo bater pesado da porta. Por um instante, ela parecia estar gostando da melodia que ele tirava do violino. Mesmo estando longe de ser um irlandês, Holmes sabia tocar uma coisa ou outra, bem típica de pubs, e pensou que isso seria do agrado de Ettie. Sabia que ela era de origem pobre, filha de uma irlandesa por sinal, com uma daquelas histórias bem tristes e desagradáveis envolvendo alcoolismo, pobreza e fome que infelizmente Holmes conhecia bem através de sua carreira como detetive. Será que a melodia havia tocado em alguma ferida antiga? Talvez. Era inútil, entretanto, conjecturar sem todos os dados a razão desse aborrecimento. Estando sozinho mais uma vez, deixou o violino de lado e retomou a seu velho estado contemplativo, tendo por companheiro nada mais que seu velho e inseparável cachimbo – este sim, imune a rompantes inexplicáveis de emoção.

Pensou em também se retirar para dormir, mas o ressoar do telefone a tocar em seu apartamento despertou-lhe a atenção. Apesar de o aparelho estar instalado em sua casa há uns bons anos, ele tocava com pouca frequência. Quem poderia ser, e há uma hora dessas?

-É da residência de Mr. Mycroft Holmes, Mr. Sherlock Holmes. Posso transferir a ligação? – anunciou a telefonista, com sua voz melodiosa.

-Sim, por favor. – autorizou Holmes, e em alguns segundos foi atendido.

-Mr. Holmes?

Era Howard, reconheceu Holmes. O mordomo de Mycroft. Ele não tinha o hábito de usar o telefone, mas seu irmão, sim. O quer que tenha acontecido para força-lo a usar um telefone em hora tão avançada, não deveria ser nada bom.

-Sim, Howard. Sou eu, Sherlock Holmes. Onde está meu irmão?

Holmes ouviu um suspiro nervoso do outro lado.

-Receio não ter boas notícias, Mr. Holmes. Seu irmão precisou ser hospitalizado e...

-Onde ele está? O que houve?

-Não se preocupe, Mr. Holmes. Ele está em casa, se recuperando. Teve apenas uma daquelas palpitações, que ele diz não ter a menor importância...

-Pois ele é um grandessíssimo teimoso! – retrucou Holmes, furioso. – Aposto que não está seguindo as recomendações médicas como deveria. O que ele pensa, que é imortal? Pois amanhã bem cedo irei puxar uma de suas orelhas...

-Pois é exatamente por isso que estou te telefonando em hora tão tardia, Mr. Holmes. Preciso que venha para Pall Mall o quanto antes. Um pouco antes de seu irmão passar mal, uma coisa muito estranha aconteceu por aqui e... Bem, talvez esteja relacionada com esse incidente. Sei que é inapropriado convidá-lo para cá tão tarde da noite, mas... Penso que seja melhor vir aqui agora mesmo.

Holmes estranhou o pedido de Howard. Sabia que ao contrário de si, Mycroft tinha o hábito de dormir bem cedo, e a uma hora dessas, já deveria estar gozando de seu décimo sonho. Ainda assim, a preocupação na voz de Howard era palpável. Não teria telefonado àquela altura da noite se algo muito sério não tivesse acontecido. Por isso, aceitou fazer uma visita a Pall Mall. Desligando o telefone, arrumou-se depressa e deixou Baker Street, torcendo para ainda encontrar um cabriolé disponível. Teve sorte.

Embarcado no cabriolé, Holmes não conseguia deixar de pensar em Arsène Lupin. Seria seu irmão Mycroft seu próximo alvo? O detetive precisava admitir que Mycroft não era propriamente uma preocupação, afinal devido aos seus problemas de saúde e locomoção ele pouco saía de um apartamento absolutamente bem-vigiado como era Pall Mall. Mas de que maneira o temido Ladrão de Casacas poderia usar Mycroft para atingi-lo? Mycroft era um solteirão recluso, sem amigos e que tinha uma reputação ilibada, para não dizer de sua carreira bem-sucedida no Governo Britânico. Se Lupin foi de alguma forma responsável por tê-lo feito passar mal... Holmes mal conseguia conter os pensamentos raivosos que passavam em sua mente. Ele estava indo longe demais em sua vingança. Mais um pouco e alguém certamente acabaria morto, ainda que esse não fosse o méthier de Lupin. Mais do que nunca, precisava contê-lo.

Não era hora de se torturar com hipóteses, dissuadiu-se Holmes. Precisava agora ir a Pall Mall, conversar com Howard, e assim compreender o que havia acontecido.