A Duel of Minds - Sherlock Holmes vs Arsène Lupin
14 O Banquete de um Irregular
Londres, Inglaterra. 10 de Dezembro de 1911.
Baker Street.
Era a primeira vez que Michael e Patrick ajudavam a mãe em suas tarefas de senhoria em Baker Street. Não por insensibilidade dos rapazes, longe disso. Cansavam de oferecer ajuda à mãe, que sempre recusava. Yolanda Hudson era orgulhosa e sentia-se capaz de fazer absolutamente qualquer coisa quando se tratava de uma cozinha, mas dado o inusitado pedido que recebera essa manhã de seu mais extravagante inquilino, Mr. Sherlock Holmes, agora os braços fortes de seus filhos eram mais que necessário.
-Você chegou a contar quantas crianças estava lá em cima, mamãe? – perguntou Michael, enquanto enfileirava pratos e mais pratos em bandejas, à medida que seu irmão Patrick cortava fatias e mais fatias de bolo.
-Não deu para contar, mas posso dizer que foram muitas, até mais do que da última vez que estiveram aqui!
-Meu Deus... – balbuciou Patrick, impressionado.
Yolanda estava ocupada, terminando de montar os sanduíches de atum, tal como Holmes solicitara. Suco de maçã em boa quantidade, sanduíche de atum e bolo de morango. O sanduíche, ressaltou Holmes, deveria ser preparado com aquele delicioso pão caseiro que ela fizera certa vez, e deveria ser entregue às crianças em sacolas para que pudessem levar para casa – decerto para seus familiares, tão pobres quanto elas.
-Deus-Todo-Poderoso! As sacolas! – exclamou Yolanda, ao perceber que esquecera de compra-las. Para sua surpresa, irrompeu a cozinha seu esposo, Don.
-Estão comigo, amor! – respondeu-lhe com um sorriso. – Percebi que as esqueceu e fui pessoalmente comprar na papelaria, antes que fechasse!
-Que bom, Don! Venha, me ajude a guardar os sanduíches em cada sacola...
Os meninos começaram a ajuntar os talheres, deixando-os próximos aos pratos. Mal dava para contar, mas deveria ter ali, ao menos, umas cinquenta fatias de bolo, e ainda assim, parecia ser insuficiente. Aquelas crianças de rua deveriam ter um enorme apetite.
-Mr. Holmes pediu para entregarmos as sacolas para as crianças na saída, não se esqueçam! – orientou Yolanda a seus filhos, já carregando as bandejas repletas de bolo. Até mesmo Donald precisou ajuda-los, tendo que carregar as enormes jarras de suco e outra bandeja com copos vazios.
-Nem acredito que tínhamos tanta prataria assim na casa de minha mãe! Ainda bem que ela sempre foi uma pessoa exagerada! – comentou Don, enquanto subia as escadas junto a sua esposa e filhos.
-Mamãe, por que isso tudo? É aniversário de Mr. Holmes?
-Parece que ele está comemorando alguma coisa que aquelas crianças de rua encontraram. Bom, ao menos foi o que deu para perceber quando chegara em Baker Street. Estava tão exultante... Ainda que não entenda porquê de tamanha alegria. Estava todo desarrumado, com o lábio sangrando... Como se tivesse participado de alguma briga.
-Esse sujeito é muito estranho. – comentou Don.
-Finalmente iremos conhecer o Grande Detetive! – disse Michael a Patrick. Realmente, os meninos estavam ansiosos por conhecer o mais famoso inquilino de Baker Street. Michael só tinha lido um livro nos tempos de escola, mas desde que chegou a Londres e soube que Holmes morava por lá também, já havia pedido a seu pai para comprar os demais livros.
-Não se animem em demasiado, meus filhos. Como todo bom britânico, Mr. Holmes não é uma pessoa das mais calorosas, e vocês precisam se acostumar com a frieza do povo daqui. Nada de enchê-lo com muitas perguntas, sejam educados... Bom, nem preciso dizer para não mexerem em absolutamente nada, não é?
-Está bem, papai. – responderam os meninos, em uníssono.
A porta ainda estava fechada, mas já era possível ouvir o enorme burburinho de criança dentro do cômodo, ao abrir-se, a família Hudson foi surpreendida por dezenas de pares de olhos afoitos e curiosos. Porum instante, chegaram a pensar que as crianças simplesmente atacariam toda aquela comida, mas foram contidas por Mr. Holmes.
-Crianças, lembrem-se. Fila indiana, agora!
A voz de autoridade do detetive de imediato fez organizar uma grande fila de crianças, que chegou a quase girar por todo o apartamento. Dois meninos insistiam que um era menor do que o outro, e antes que acabasse em briga, foram contidos por Wiggins, nitidamente o mais velho entre eles. Uma a uma, cada criança recebia seu prato com bolo de morango e também um copo de suco de maçã. Comiam a maioria em pé, algumas sentadas.
-Meninos, sejam cavalheiros com as damas! Dêem lugar para elas! – ordenou Holmes, no que foi obedecido prontamente. Havia poucas meninas no grupo dos Irregulares, mas foram o suficiente para ocupar todos os sofás e poltronas de sua sala.
-O senhor precisa de mais alguma coisa, Mr. Holmes? – perguntou Yolanda.
-Penso que não, Yolanda. E quanto às sacolas, fez conforme combinamos?
-Sim, estão lá embaixo. Assim que as crianças descerem, irei entregar as sacolas.
-Explêndido! – bateu Holmes uma leve palma animada. – Creio que seja apenas isso. Aliás, gostaria de agradecer aos senhores por terem atendido a um desejo tão estranho de minha parte.
-Nós é que agradecemos, Mr. Holmes. – respondeu Don Watson.
-O senhor realmente consegue adivinhar o que uma pessoa é só de olhar para ela? – perguntou subitamente Michael, no que causou constrangimento em Don.
-Perdoe-me pela inconveniência de meu filho, Mr. Holmes.
-Não há inconveniência alguma, Mr. Hudson. E não, meu caro rapaz. Eu nunca adivinho. Só deduzo. Como, por exemplo, o fato de que você está aprendendo a tocar piano...
O menino parecia surpreso.
-Como ele pode saber, mamãe? Se só toco na Academia de Música e nem mesmo temos um piano em casa!
Holmes riu. Ainda que estivesse velho, gostava do efeito que suas deduções causavam nas pessoas, em especial nos mais jovens.
-As mãos dizem muito sobre o ofício de uma pessoa. As de sua mãe são grossas e com algumas cicatrizes de queimaduras devido à sua lida em afazeres domésticos desde a mais tenra idade. Já as de seu pai são cobertas de pequenas cicatrizes típicas de anzóis e redes, para não dizer da pequena tatuagem de marinheiro que ele carrega perto do polegar, o que grita para mim que ele é um homem do mar. As suas são repletas de calos decentes, mas calos bem característicos de quem está começando a aprender a tocar um instrumento...
-E as minhas? – animou-se Patrick, estendendo suas mãos a Holmes.
-Pois eis o problema, meu jovem rapaz. Suas mãos são tão lisas que só o que posso deduzir é que não gosta de nenhum afazer que demande praticidade, muito menos que trabalha para garantir seu sustento, até porque tal coisa não se faz necessária graças ao bom empenho de seus pais. Só o que consigo deduzir é que esteve ajudando sua mãe a.... Cortar as fatias de bolo. Basta ver os farelos de bolo concentrados no centro de sua barriga.
O menino riu, surpreso.
-O senhor é um mágico, tenho certeza! Iguais aqueles de circo que apareciam em Glasgow. Lembra mamãe?
Mágico... A palavra provocou em Holmes uma espécie de gatilho. Era um detetive, aprendera a deduzir e ler pessoas, mas não sabia nada de ilusionismo. Mas seu adversário, este sim. Inclusive usava esses pequenos truques em suas ações. O tempo estava passando. Lupin estava em algum lugar em Whitechapel, mas onde? Sempre que o detetive o sentia perto, perdia seu rastro. Foi assim com o batedor de carteiras da City, e depois com o penhor de Whitechapel. Sabia que estava encurralando-o cada vez mais, e que uma hora o deixaria sem saída, e a julgar por seus escassos recursos em Londres, talvez lhe restasse o circo. O que mais havia em Whitechapel eram ciganos, que ganhavam a vida com todo tipo de coisa, desde ler a sorte à mão ou com pequenos truques de mágica. Ciganos eram um tipo social à margem da sociedade, quase invisíveis. E se Lupin estiver escondido entre um deles?
-Está tudo bem, Mr. Holmes?
O detetive saiu de sua linha de raciocínio graças a Yolanda, que lhe observava com preocupação.
-Minha cara Yolanda, parece que seu filho me deu, ainda que inconscientemente, uma grande ideia. Penso que não poderia ter sido mais grato por ter recebido a visita de vocês em tão necessária hora. Bom, assim que os Irregulares terminarem de se fartar com o seu apetitoso bolo de morango, pedirei para que Wiggins bata à sua porta para avisá-la. Aliás, não se preocupe, pois ele irá te ajudar a conseguir distribuir bem todos os sanduíches, como havíamos combinado.
-Pois estarei aguardando, Mr. Holmes. Boa noite.
Com a família Hudson já fora do apartamento, Holmes recorreu a seu cachimbo. As crianças pouco a pouco começaram a descer, organizadas por Wiggins, e saíam de Baker Street se despedindo do detetive com uma dúzia de agradecimentos. Já sozinho em Baker Street, Holmes recorreu ao jornal daquela manhã, que estava sobre uma das poltronas. Recordava-se de ter visto algo sobre circo, em algum lugar...
Vasculhou as folhas, até encontrar o anúncio. Grimald Grand Circus. Grande estreia em...Whitechapel?! Não havia como ser mais óbvio que isso. Dobrou o jornal, enfiando-o no bolso de seu paletó. Estava prestes a deixar Baker Street, mas deteve-se, ao notar que suas vestimentas eram elegantes demais para aquele bairro, e em especial para assistir ao que deveria ser um espetáculo de circo mambembe. A ideia de um disfarce era mais que necessária, e além disso, quase que uma forma de vingar Lupin. Talvez seja hora de dar o troco com as mesmas armas que ele, concluiu.
Deixou Baker Street da forma mais maltrapilha possível, mas não ao ponto de fazê-lo soar como um mendigo incapaz de dar alguns xelins em uma apresentação circense. Usava uma peruca ruiva e uma barbicha medonha, com o rosto sujo de fuligem. Vestia luvas, para disfarçar a delicadeza das mãos. Quando se tinha um oponente igualmente poderoso na arte de se disfarçar, todo detalhe era importante. Precisou também se preocupar com seus olhos cinzentos, por isso buscou um boné de aba comprida o bastante para disfarça-los.
E assim, deixou Baker Street.
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