Londres, Inglaterra. 10 de Dezembro de 1911.

Bairro de Whitechapel.




-Um circo?

Lestrade Jr. tomou-se de dúvida. Será que a escolha de um circo como passeio para aquela noite foi do agrado de Miss Watson? Ela parecia surpresa, tão logo desembarcaram do cabriolé no bairro de Whitechapel, mas era esta afinal o tipo de surpresa boa ou ruim? Talvez ruim, começou a se lamentar. Deveria ter sido conservador e tê-la levado a um restaurante fino, um teatro, conserto musical, sarau... Mas precisava reconhecer que estava muito longe de ser uma pessoa refinada como ela. Sua família não era do tipo de frequentar tais eventos. Seu pai, sempre ocupado com os afazeres de policial, achava esse tipo de entretenimento sofisticado demais para seu gosto. Sua mãe nem se falava. De uma família pobre, proveniente de Whitechapel, havia se preparado para ser esposa de um assalariado, não de um comissário de polícia, e tinha perfeita noção de suas limitações, por isso havia adquirido ojeriza a eventos sociais de grande porte, que exigissem elegância e refino de quem ousasse frequentá-los.

Mas Agnes Watson parecia pertencer a um mundo diferente. Era uma menina educada. Certamente sabia ler e escrever, ao contrário de sua querida e pobre mãe. Deveria estar acostumada a esses eventos de gente rica, conhecer cada peça, cada sinfonia, cada poesia, cada prato exótico colocado à mesa, bem como cada talher adequado dentre aquelas fileiras de talheres, cuja real utilidade Lestrade Jr. desconhecia. Como impressionar uma pessoa dessas? O medo de passar vergonha nesse tipo de evento o fez se arriscar: leva-la a algo profundamente diferente de tudo que viveu. Sentia-se mais confortável em seu território do que no dela. Talvez ela se agradasse de circo. Havia trapezistas, palhaços, engolidores de espada, mulher barbada, animais exóticos, ilusionistas... Que mulher não se agradaria de um pouco de diversão, afinal?

-Meu pai sabe que estamos em Whitechapel?

-Sim, mas é claro. – mentiu o inspetor. – Quero dizer... Não exatamente.

-Você mentiu para o meu pai? – perguntou Agnes, surpreendida.

-Eu queria fazer uma surpresa a você. – admitiu o inspetor, entregando seu braço para que fosse entrelaçado a Agnes.

Ele percebeu em Agnes uma certa hesitação, mas rapidamente a jovem o aceitou, entrelaçando seu braço ao seu. Talvez tivesse sido a passagem de dois homens malvestidos, a caminhar perto de si o maior incentivador para sua atitude.

-E imaginou que meu pai não se agradasse de sua escolha.. Ou melhor, do local de sua escolha. Pois jamais estive em Whitechapel, mas sei da má fama desse bairro. Não foi aqui que aquelas prostitutas foram mortas pelo Jack, O Estripador?

-Er... Sim. Mas Whitechapel não se limita só a isso. Há pessoas decentes que vivem aqui, posso assegurar. Como a família de minha mãe, por exemplo. Gente muito honesta e trabalhadora, que não tem culpa de ter nascido nessa pobreza.

Agnes parecia visivelmente surpresa com essa revelação.

-Não sabia de suas origens humildes, Lestrade...

-Pode me chamar de Gary. – pediu o jovem inspetor. – Por favor.

-Gary... Não sabia de suas origens, realmente. Inclusive, peço desculpas se te ofendi.

-Sem problemas, Miss Watson. A sua impressão quanto a Whitechapel tem lá seus motivos, mas não se preocupe. A senhorita está acompanhada de um inspetor da Scotland Yard, portanto resguardada de qualquer perigo que venha a se aproximar.

Agnes riu. – Se você diz isso... Bom, preciso admitir que não estava esperando por um circo. Se sua intenção foi me surpreender, conseguiu com louvor.

O inspetor não conseguiu impedir que um sorriso de alívio escapasse de seus lábios.

-Já frequentou algum circo antes?

-Jamais! Estou realmente curiosa para saber como é...

Caminharam lado a lado até a bilheteria. Um homem, de vestimentas ciganas e barba por fazer, vendia os bilhetes.

-Cinco xelins a entrada, meu bom senhor. – disse, enquanto mastigava o que parecia ser um palito de dente, no canto da boca. Ao entregar-lhe as moedas, Lestrade Jr. recebeu os dois bilhetes para entrar. Um grandalhão de quase dois metros de altura fiscalizava o local, recebendo os bilhetes e fazendo a segurança do lugar.

-Nossa, como é grande! – disse, maravilhada com a lona a cobrir o local. Por dentro, parecia ser bem maior do que do lado de fora. Havia inúmeros bancos de madeira, enfileiras. Alguns já estavam ocupados, em sua maioria por gente visivelmente humilde, que provavelmente encontrava naquele circo sua única fonte de entretenimento em uma vida tão miserável. Havia muitas crianças também, mas chamou a atenção de Agnes a presença de um homem solitário, sentado em um dos bancos mais afastados, bem como seu exótico cabelo ruivo, escondido por uma boina velha. Sem dúvida, mais um tipo perigoso de Whitechapel que decidiu tirar um momento de entretenimento.

Esperaram por alguns minutos, até a atração começar.

Um homem apresentou-se como Grimaldi, obviamente deveria ser o dono do circo. Usava uma roupa colorida, repleta de lenços estampados, bem como dois brincos em suas orelhas, o que chamou a atenção imediata de Agnes. Jamais havia visto um homem a usar brincos. Ele tinha um sotaque pesado, visivelmente estrangeiro, mas era possível compreende-lo a apresentar suas atrações.

O espetáculo começou com dois palhaços, Sorriso e Chorão. Fizeram inúmeras palhaçadas, escolhiam algumas pessoas da plateia para seu show, em especial crianças, as que mais riam de suas bizarrices. Ainda que tudo soasse muito bobo, Agnes não conseguiu deixar de rir em alguns momentos. E cada riso seu causava alívio em Lestrade Jr.

Depois, adentrou um macaco. Parecia alegre, jovial. Era um chimpanzé. Fazia alguns truques com os palhaços e parecia ser bastante esperto. Ajudava-os, pegando objetos que os palhaços pediam. Agnes jamais havia visto um macaco a fazer tais coisas, tendo limitado a vê-los no zoológico, atrás das grades. Perguntava-se como o animal havia aprendido tantos truques. Deveria ser muito esperto, pensou.

Depois, veio a trapezista. Equilibrava-se, no alto do picadeiro, em uma corda bamba. Carregava uma espécie de vara, o que tornava tudo ainda pior. Agnes viu-se assustada com certos movimentos, pois a jovem esguia pareceu despencar daquela altura considerável inúmeras vezes. Seu pavor em uma das piruetas da jovem trapezista foi tão grande que, quando deu por si, estava a segurar a mão de Lestrade Jr.

-Desculpe. – disse, tão logo percebeu seu gesto, separando sua mão da dele. Não que o inspetor se importasse.

Depois, o engolidor de facas. E depois, o cuspidor de fogo. E um casal de malabaristas, que começaram fazendo malabares de objetos de madeira, e para completo horror de Agnes, terminaram fazendo malabares de facas. Como não se cortavam desse jeito, ela não compreendia.

Cada atração era concluída com uma chuva de aplausos, dentre deles os empolgados aplausos de Agnes. Jamais estivera em nada parecido antes, precisava reconhecer, e ainda que suas expectativas de um passeio com um inspetor que não era de seu agrado fossem as piores possíveis, precisava dar o braço a torcer: estava se divertindo bastante naquela noite. Ainda que seus planos não fossem o casamento, sair um pouco daquela prisão que havia se tornado sua casa desde o surgimento de Arsène Lupin lhe parecia ser um grande alívio.

-Senhoras e senhores... – anunciou por fim Grimaldi, com grande animação. – Eis agora o grand finale dessa noite. Com vocês, ele... Diretamente das terras frias da Noruega... O homem de muitos truques e engenhos, o Magnífico... O Insuperável... O Imprevisível... Emmeric Larsen!

O público aplaudiu, apesar das cortinas fechadas. Subitamente, todo o circo tomou-se de escuridão, com uma escassa luz no centro do palco. As cortinas começaram a se abrir lentamente, contribuindo para elevar ainda mais toda aquela atmosfera dramática. Agnes jamais tinha visto um mágico em cena e observava a tudo com notável espanto.

-Nunca ouvi falar desse mágico. Deve ser novo em Londres. – comentou Lestrade Jr., quase em um cochicho, ao pé do ouvido de Agnes. Assim como ela, o inspetor mal conseguia tirar os olhos do palco.

Quando os aplausos cessaram, o mágico Emmeric Larsen permaneceu de costas no centro do palco. Apesar da escassa luminosidade, era perceptível por sua silhueta que ele usava uma cartola. Ficou imóvel, em silêncio, provocando reações inseguras nos presentes, e inclusive preocupação em Grimaldi, o dono do circo.

-Sabia que contratar aquele francês daria merda... O cara não faz nada! – resmungou Grimaldi a um dos funcionários do circo. Falavam aos cochichos, no fundo do palco, sem fazer ideia de que eram observados o tempo todo por um homem de boné na plateia, a interpretar cada movimento de seus lábios.

Então, um estrondo assustou os presentes. Fumaça começou a subir pelo ar, centralizada no centro do palco. Levou alguns segundos para se dissipar, e para abismação de todos, o mágico já não estava mais no palco. Os presentes começaram a se entreolhar, confusos. Passaram seus olhos por cada canto daquele picadeiro, a procurar pelo mágico que misteriosamente sumiu bem diante de seus olhos. Mas não havia qualquer sinal.

-Senhoras e senhores... – disse por fim o mágico, e para surpresa de todos, ele estava agora sentado em um dos bancos de madeira, bem entre eles.

-Como diabos ele foi parar aqui?! – pasmou-se uma idosa, cercada por outras duas crianças, também impressionadas. O mágico caminhou pelo corredor de bancos, passando a poucos centímetros de Agnes, quase como se pairasse sobre o ar. Estava escuro ainda, mas seu andar elegante era nítido. Quem mais andaria daquela forma em uma pocilga como Whitechapel senão ele?

Por fim, as luzes se acenderam de imediato, permitindo agora que o misterioso mágico finalmente ficasse à plena vista da plateia. Estava outra vez no centro do palco, olhando para os presentes, como se pudesse desfrutar do pasmo estampado em seus rostos. Com o ambiente bem-iluminado outra vez, era agora possível enxerga-lo com mais clareza. Além da cartola, usava uma roupa de gala, com direito a luvas e cachecol branco, de fina elegância, bem como um monóculo, que lhe conferia um ar ainda mais aprumado. Um fino bigode mais parecia um traçado, riscado sob os lábios. Mas, apesar de tamanha parafernália, bastou o menor dos olhares de Agnes ao ilusionista para saber quem realmente ele era. Aquele rosto, aquele nariz, e em especial, os olhos cinzentos...

Era ele.

-Está tudo bem, Agnes? – perguntou o inspetor, ao ver um incômodo estampado em seu rosto. A jovem tentou disfarçar. Um grito, um mero grito, e tudo estaria acabado. Lestrade Jr. colocaria Arsène Lupin atrás das grades, ele seria deportado para apagar por seus crimes na França, certamente com ida certa para a guilhotina, e seu amado tio Sherlock deixaria de ser perseguido. Um grito, era tudo que precisava para pôr um fim a este inferno. Mas...

-Não é nada, Gary. – cochichou Agnes de volta. – Acho que... Acho que foi a luz. Eu fiquei tonta por causa dessa luz forte, é isso.

O rapaz pareceu aceitar muito bem a desculpa de Agnes, aludindo seu estado a um mero fricote de mulher, certamente. Ainda que nervosa, Agnes buscou se acalmar. De todos os lugares do mundo, Arsène Lupin resolveu se esconder justamente nesse circo, e pior, se passando por mágico? Por que ele não foge de uma vez para a França, afinal? Pelo que soube, ele havia perdido uma boa fortuna, bem como seu kit de disfarces, apreendidos naquele quarto de hotel. Por que insistir em uma perseguição à Sherlock Holmes depois de o detetive deixa-lo em tamanha desvantagem? Por que?

Havia gostado do passeio, apesar da companhia de Lestrade Jr., mas agora tudo que desejava era voltar para casa. E depressa. Mas como fazer isso sem levantar suspeitas no inspetor? Agora, precisava se esforçar e agir com o máximo de naturalidade possível.

-Senhoras e senhores... O que presenciarão essa noite será algo jamais visto, sequer no mundo do ilusionismo. – proferiu o mágico, com a confiança de um ator a encenar uma boa peça de teatro. – Tenho certeza de que voltarão para suas casas maravilhados com a, er... Experiência que vivenciarão nesse espetáculo.

Os olhos de Lupin percorriam a plateia, rosto a rosto, mas tão logo pairaram sobre Agnes, o ladrão se surpreendeu a ponto de quase gaguejar. Jamais esperava vê-la naquela plateia. E para completar o pacote de surpresas da noite, estava acompanhada de um inspetor de polícia.

Ela olhava para ele, visivelmente abalada. Ela o reconheceu, isso estava evidente. Poderia alertar a todos, revelar sua verdadeira identidade. Mas não o fez, ao menos não até agora. Por quê? O que ganhava com isso? Por mais que seu instinto suplicasse para que ele abandonasse aquele espetáculo, dada as fortes chances de ser reconhecido ou mesmo preso, Arsène decidiu ignorá-los. Agora daria prosseguimento até o fim.

Um menino aproximou-se de Lupin. Arrastava até o centro do palco uma espécie de carrinho, com uma toalha vermelha a cobrir sua totalidade. Quando Lupin retirou a toalha a cobrir o carrinho com um movimento ríspido, foi revelado ali que se tratava de uma pequena gaiola, repleta de coelhos brancos. Os coelhos despertaram mais reação nas crianças do que nos adultos.

-Um coelho na cartola. Aposto que esse é o truque que mais conhecem, não? Pois essa noite iremos deixar os pobres coelhos em paz e tratar de algo que tenho certeza de que muitos senhores aqui entendem, e aliás entendem muitíssimo bem...

O mago pegou um dos coelhos, colocou-o dentro de sua cartola, e para pasmo de todos, despejou o conteúdo da cartola sobre o carrinho. Não havia mais coelho nenhum, para além de cartas e mais cartas, deixando os presentes fascinados.

-Onde o coelho foi parar, vovó? – perguntava uma das crianças.

Lupin amontoou as cartas, espalhadas sobre o chão, com a ponta dos pés. Jogou a toalha vermelha sobre elas, e ao puxá-la, lá estava outra vez o coelho branco.

-Creio que respondi a sua pergunta, mon petit. – respondeu, sem querer deixando escapar um pouco de seu sotaque francês. – Mas agora, vamos aos jogos! Para meu próximo truque, preciso de... Um... Vamos ver... Dois voluntários! Um casal!

Havia pelo menos quatro ou cinco casais ali, e dentre eles uns três levantavam a mão, animados. Lupin caminhou até a plateia, fingindo escolher dentre os voluntários. Mas tão logo percebeu os olhos dele sobre os seus, Agnes apavorou-se. Não. Ele não seria capaz de fazer isso. Não quando estava sentada ao lado de ninguém menos que um inspetor da Scotland Yard! Ele não seria tão ousado assim...

-Vocês dois! – apontou o mágico a Agnes e Lestrade Jr. – Me parecem ser o casal adequado para meu próximo truque! Por favor, acompanhem-me até o palco!

-Mas eles nem levantaram a mão! – reclamou um dos casais, enquanto Agnes subia com leve vergonha e medo até o palco, seguindo a Lupin. Lestrade Jr. parecia também tão surpreso quanto ela, ainda que pelos motivos errados.

-Será que ele vai nos serrar ao meio? – brincou o inspetor com o temor de Agnes. Se ele soubesse quem era de verdade o tal mágico, teria reais motivos para ter medo dessa brincadeirinha, pensou a jovem.

Posicionados sobre o palco, diante dos olhares dos presentes, Lupin começou a manipular o que parecia ser um jogo de baralho. Fazia piruetas e mais piruetas com as cartas, como se as embaralhasse, mas com movimentos tão graciosos e difíceis que chegavam a impressionar. Deveria ser um jogador nato de poker, tão bom quanto rouba, pensou Agnes. Por fim, depois de algumas piruetas com as cartas, o mágico estendeu uma boa quantidade delas a Agnes e Lestrade Jr.

-Escolham uma única carta, por favor. – pediu. Os dois escolheram. Quando Agnes estava prestes a estender a carta escolhida, Lupin a deteve com um aceno.

-Não é para me mostrar a carta, mademoiselle. Do contrário, irá estragar o truque. – pediu, fazendo Agnes recolher a carta de suas vistas. Ambos seguravam a carta escolhida, mas sem mostrar a Lupin qual era a carta.

-Agora, me entreguem a carta. Virada, para que não seja revelada seu conteúdo. – pediu o mágico, estendendo sua mão coberta por uma luva branca, e recebendo a carta conforme instruído das mãos de Agnes e Lestrade Jr.

-Como podem ver, senhoras e senhores... Eu não vi a carta de nenhum deles. – disse, estendendo sua mão às vistas da plateia, com as cartas ainda viradas. – E temo que nem mesmo as verei algum dia.

Lupin tirou do bolso da casaca um isqueiro, e para abismação dos presentes, ateou fogo às cartas, ainda em sua mão. As cartas começaram a pegar fogo, provocando pavor nos presentes, temerosos pelo seu bem-estar.

-Ele vai se queimar, vovó! – exclamou uma das crianças, assustada.

-Está queimando, mas... Ele não tem medo de se queimar? Isso é assustador!

Se a plateia já estava nervosa por ver as cartas queimando na palma de sua mão, sem provocar qualquer reação de medo do mágico, mal poderia imaginar o que viria a seguir. Com a mais absoluta frieza, o mágico simplesmente fechou por completo sua mão, ignorando as chamas acesas na palma de sua mão. Mas para profunda abismação de todos, sua mão não se queimou, nem um pouco. Com um movimento rápido, o mágico abriu e fechou a mão, mostrando sua luva branca absolutamente intacta, sem qualquer vestígio de fogo, bem como nenhum sinal das cartas.

-Esse homem só pode ser um bruxo! Um bruxo! – exclamou uma mulher, fazendo repetidos gestos católicos.

-Onde estão as cartas, vocês devem estar se perguntando, não? Pois bem... talvez estejam.... No bolso de um de meus voluntários, quem sabe? Poderiam ter a gentileza de procurar, por favor?

Lestrade Jr. colocou suas mãos sobre os bolsos. Não demorou a achar as duas benditas cartas, dentro do bolso de seu paletó.

-Sim, é ela! A carta que eu escolhi! – estendeu-a para o alto o inspetor, maravilhado.

-Meu Deus, essa é a carta que escolhi também! Como foi parar em seu bolso? – surpreendeu-se Agnes, após receber sua carta de Lestrade. A plateia, ainda embasbacada com o truque de mágica, pôs-se a aplaudir efusivamente.

-Muitíssimo obrigado pela participação, senhores. Agora, preciso que se sentem. Vamos a mais alguns truques de mágica, pois essa noite está apenas começando...

Arsène Lupin fez pelo menos mais uns três truques de mágica. Nenhum deles envolvia mais a participação da plateia, e sim coisas que impressionavam a todos, como entortar talheres, fazer objetos pesados levitarem misteriosamente, bem como transformar coisas que lançava dentro de sua cartola. As crianças eram, sem dúvida, as mais animadas com seus truques, e as que mais riam de si. Seu espetáculo encerrou-se com um aplauso apaixonado e animado por todos, e com o fechar das cortinas, o mágico enfim desapareceu.

Quando Agnes finalmente embarcou em um cabriolé com destino para sua casa, um misto de sentimentos estranhos lhe afligia. Estava ao mesmo tempo feliz pelo passeio com Lestrade Jr... – melhor dizendo, Gary! – mas ao mesmo tempo, nervosa por ter reencontrado Lupin. Sim, era ele. Havia se passado uns bons dias desde a última vez que o vira, mas não havia dúvidas de que era ele. Agora dentro do cabriolé, ao lado de um animado Lestrade Jr. a tagarelar sobre as atrações do circo, Agnes não conseguia deixar de se sentir culpada por ter simplesmente deixado com que Lupin escapasse. Era o certo a se fazer, não? Denunciá-lo, e enfim coloca-lo atrás das grades. Mas mesmo assim... Ela não o queria preso. Ouviu Holmes comentar com seu pai que, se Lupin fosse deportado para a França, iria para a guilhotina. Apesar de tão brutal instrumento de execução, os franceses ainda reservavam a guilhotina para alguns, e Lupin certamente tinha inimigos o bastante para deseja-lo a mesma morte reservada a Maria Antonieta. Não. Deveria haver outra forma de resolver isso...

Sherlock Holmes estava recostado a um poste, em frente ao circo. Observava agora o cabriolé com o Inspetor Lestrade Jr. e Miss Watson seguir viagem até Westminster. Por que diabos o inspetor a levou justamente para um lugar tão perigoso quanto Whitechapel, e justamente essa noite? Por temer tanto pela vida de Agnes Watson, Holmes precisou se conter e decidiu esperar que a jovem estivesse longe para agir e finalmente capturar Arsène Lupin. Não seria capaz de agir com segurança sabendo dos riscos de que Agnes fosse raptada outra vez por ele. Mas agora, com a jovem longe dali, poderia finalmente colocar seu plano em prática.

Havia mais duas sessões de circo naquela noite, e para desgosto do detetive, ainda mais lotadas de crianças que a que havia acompanhado presencialmente. Não seria prudente arriscar a vida delas, por isso precisou reorientar por completo seu plano. Teria agora de apanhar Lupin quando as atividades do circo se encerrassem naquela noite. Ele não deveria morar entre eles, afinal não era um cigano. Deveria morar nos arredores. Nada que não fosse difícil de descobrir, bastava segui-lo.

Já passava da meia-noite quando os últimos espectadores daquela noite de espetáculo deixavam a atração. Holmes permaneceu a esperar, fumando um cachimbo ordinário enquanto recostado sobre uma parede, parecendo mais um vagabundo qualquer de Whitechapel do que qualquer outra coisa. Em meio à névoa forte de seu fumo, os olhos cinzentos do detetive acompanhavam o movimentar dos artistas de circo, os últimos a deixar a lona. Despediam-se uns dos outros, com um “até amanhã”, onde tudo recomeçaria outra vez.

E eis que apareceu Lupin. Não estava mais a usar sua casaca e cartola elegante, sinal de que este era sua fantasia de mágico. Pelo contrário, usava roupas bem humildes, velhas. O rosto estava limpo, sabia Holmes. Barbeado, com o cabelo negro escondido sob uma boina remendada. O ladrão se aproveitava da total ignorância da polícia londrina quanto ao seu verdadeiro rosto para transitar livremente pela cidade, de cara limpa. Foi a primeira vez que Holmes viu seu rosto, e precisava admitir agora que o jovem era, realmente, muito parecido consigo mesmo, a ponto de conseguir enganar até mesmo seu velho amigo Watson. Miss Watson disse que Lupin parecia uma versão sua mais jovem, e ela não estava nem um pouco enganada. Tomara que Ettie retorne o quanto antes de Paris e coloque um fim às suas dúvidas. Mas por ora, precisava detê-lo, ainda que não soubesse como.

Lupin caminhava com tranquilidade pelas ruas de Whitechapel, desertas. Encontravam-se em horário tão tardio da noite apenas prostitutas, mendigos e bêbados, e mesmo assim havia esquinas onde não havia uma alma viva sequer a perambular. Não seria uma tarefa fácil, segui-lo por tais lugares sem ser visto, mas Holmes era tão experiente que sabia que encontraria um jeito de ficar em seu encalço de maneira incógnita. Deixava Lupin a caminhar, e seguia logo atrás, a uma boa distância, esgueirando-se por cantos e aproveitando pontos escuros da rua, fazendo o possível para não pisar em poças de lama ou qualquer outra coisa que denunciasse o som de seus passos. O jovem ladrão sequer dava sinais de estar percebendo alguma coisa. Sinal de que estava conseguindo segui-lo incógnito.

Andavam já há uns bons dez minutos quando Lupin dobrou uma esquina. Holmes esperou um pouco. Esgueirou-se, para ver se ele já havia passado. Mas o jovem havia evaporado, quase que literalmente. Era impossível percorrer uma distância daquelas em tão poucos segundos, nem mesmo correndo. Ainda a olhar de soslaio, o detetive refletia se seria prudente prosseguir quando notou algo a tocar em seu ombro.

-Procurando por mim, gatuno?

Era Lupin. Sim, ele havia percebido que estava sendo seguido por alguém. E pior, o levou exatamente àquele ponto, por sinal bastante deserto e repleto de casas abandonadas devido a uma obra de esgoto. Mas a julgar pela forma como o chamou, não o reconheceu pelo disfarce.

-Escolheu a pessoa errada para roubar.

-Ladrão que rouba ladrão... – comentou o detetive, pouco a pouco se virando para encarar Lupin frente a frente pela primeira vez. – Tem cem anos de perdão. Não é o que diz o ditado?

Ao reconhecer o detetive por trás do disfarce, Lupin riu.

-Sabia que uma hora ou outra iria pessoalmente atrás de mim, ao invés de mandar aqueles pivetes para me espiar. Demorou um pouco a acontecer, devo dizer. Sinal de que está velho e cansado.

Holmes riu levemente.

-Pois parece que o velho e cansado aqui está conseguindo dar um sufoco e tanto no jovenzinho. Artista de circo, quem diria... Se os policiais franceses soubessem que o grande e temido Arsène Lupin estava se apresentando com truques baratos de mágica no bairro mais pobre de Londres, certamente não acreditariam.

-Eu vou dar a volta por cima. – retrucou Lupin, contrariado.

-Pois eu não duvido de sua capacidade para isto, nem um pouco. Mas lamento que terei de deter seus planos, em especial quando eles envolvem uma invasão à Scotland Yard.

As palavras de Holmes assombraram Lupin, mas o jovem se limitou a rir, em uma tentativa de disfarçar.

-E o que te fez acreditar nisso? Seria a poeira presente em meus pés, ou a sujeira de minhas unhas?

-Nada disso. – pôs-se a explicar o detetive, ignorando sua zombaria. – Mesmo no escuro, enxergo muito bem. E vi o exato momento em que colocou as cartas no bolso do inspetor Lestrade Jr., como parte de seu truque de mágica, mas não sem antes afanar de seu bolso seu molho de chaves.

Arsène Lupin estendeu diante dos olhos de Holmes o molho de chaves com o emblema da Scotland Yard. Lançou-o ao ar, e ao pega-lo com a outra mão, as chaves desapareceram de seus olhos, no que o detetive sabia ser mais um de seus truques de mágica que tanto lhe ajudavam em seus roubos.

-É lamentável que Miss Watson esteja sendo cortejada por um paspalho daqueles. Roubar as chaves da Scotland Yard foi mais fácil que roubar doce de criança. Mas não se preocupe. Não vou abrir todas as celas da cadeia e libertar os bandidos da cidade. Só vou até lá para pegar de volta o que me pertence, mais nada.

-Se está falando do dinheiro, esqueça. – tentou dissuadi-lo Holmes. – A essa altura, já está em algum cofre da Superintendência, e muito em breve será da Rainha.

-Mas quem disse que estou falando de dinheiro? Quero meus disfarces de volta.

Holmes suspirou. Já imaginava bem para o quê.

-Ainda vai insistir nessa ideia absurda de me derrotar, Lupin?

-O jogo só acaba quando termina, não é o que diz o ditado? Achava-o um ditado completamente sem sentido, redundante, mas desde que pus meus pés em Londres, percebi que ele faz todo sentido...

-Você está sem recursos...

-Um revés temporário que consigo reverter facilmente, em especial se estiver de posse outra vez de meus disfarces. Se eu fosse o senhor, Mounsier Holmes, voltaria para Baker Street, para mais uma xícara de chá, afinal quem sabe quando será a sua última no conforto de sua casa?

Holmes tentou pegá-lo pelo colarinho, mas Lupin o deteve, segurando seu pulso com agilidade. Por fim, soltou-o com um empurrão para trás, não forte o bastante para derrubá-lo. Partir para agressão seria difícil, percebeu Holmes. Ele era bem-treinado, praticava artes marciais quase que tão bem quanto ele, para não dizer de seu porte atlético e – lamentavelmente o detetive precisava reconhecer – a idade lhe dava certa vantagem.

-Tente tocar seus dedos mais uma vez em mim e acabará com eles quebrados. – alertou-lhe o ladrão. Havia raiva em sua voz, notou o detetive. Raiva, ódio talvez. Era um sentimento tão espesso que mais parecia ser possível de tocá-lo.

-Siga seu caminho de volta à França, Arsène Lupin. Siga e... Siga e contarei a verdade a seu respeito.

Um blefe. Não era a melhor escolha para convencê-lo, sabia Holmes, mas talvez lhe fornecesse alguma pista quanto às suas suspeitas.

-Não tenho nenhuma pergunta a fazê-lo, Mounsier Holmes. Já tenho a resposta de todas elas.

-Então, você não me dá outra alternativa.

Antes que Lupin se apercebesse do que o detetive lhe fizera, já estava ao chão. O detetive aplicou-lhe uma inesperada rasteira, fazendo-o se desiquilibrar e cair. Lupin tentou se levantar, mas acabou sendo contido por Holmes, que segurou-o pelas mãos, erguendo-o do chão, apesar dos esperneios do ladrão. Para se libertar, Lupin recorreu a uma cabeçada, atordoando o detetive com sucesso. Finalmente livre, Lupin pôs-se a correr pelas ruas e becos de Whitechapel, mas não demorou mais que alguns segundos para que Holmes corresse atrás de si. Derrubou barris de lixo, mesa, fez tombar tudo que aparecesse em seu caminho e que pudesse ajuda-lo a retardar o caminho de Holmes, mas o detetive era tão obstinado e ágil que parecia já esperar por seus obstáculos.

Ao chegar a uma esquina, deteve-se. Havia corrido tanto, sem se dar conta dos caminhos que havia adotado, que mal se apercebera se aproximar de nada menos que a Delegacia de Whitechapel, agora bem diante de si. Bastava atravessar a rua, e uma dezena de policiais o estariam aguardando para trancafiá-lo. Parou, recuperando seu fôlego, e já conseguia ouvir os passos de Holmes a alcança-lo.

-Você está sem saída! – avisou Holmes, também tentando retomar fôlego. – Me entregue essas chaves e eu o deixarei ir!

-Para quê? Para continuar a me perseguir? Para me encurralar nessa cidade, cedo ou tarde? Pois talvez seja melhor me entregar mesmo...

-Não!

A exclamação de Holmes surpreendeu a Lupin.

-Você não quer que eu me entregue à polícia, é isso? – estranhou o ladrão.

-Não sem antes eu entender o que você pretende com tudo isso. Com esses desafios, essas ciladas, tudo. Pois eu jamais fiz nada contra você para torna-lo digno de qualquer vingança.

-Como ousa?! – exclamou Lupin, nervoso. – Como ousa me dizer que não fez nada?!

Antes que Holmes pudesse se defender, recebeu de Lupin um soco muito forte em seu rosto. Tão forte que acabou atordoado. Aquela agressão, ainda que feita em uma esquina, chamou a atenção de um dos guardas, que percebeu sinais de briga. Sentado ao chão, tonto, Holmes recebeu mais dois socos de Lupin, que só cessou com o espancamento mediante os apitos de polícia. Ao ver os oficiais da Scotland Yard em seu encalço, o jovem ladrão abandonou a Holmes e fugiu pela mesma rua em que viera.

Com a polícia tão perto de Lupin, Holmes tomou-se de pavor com a hipótese de que o jovem ladrão fosse preso. Imagens de uma guilhotina suja de sangue piscavam em sua mente, bem como Ettie a chorar pelo fim trágico de seu filho. De nosso filho.

-Não... Lupin... Lupin... Não... Não... – balbuciou o detetive, tonto. Sangue escorria de seu nariz. As suas palavras, ainda que soassem sem sentido, chamaram a atenção de um dos guardas, que optou por não seguir Lupin e verificar o estado do agredido.

-Lupin... Você ouviu o que esse homem disse? Não é aquele bandido francês dos jornais? Será que esse homem... É ele? – perguntou um dos policiais, olhando para Holmes, tonto.

-Não é possível, Hopkins... A não ser que esteja disfarçado.

-Sim! Deve ser ele, sim! E está disfarçado! Melhor que ele seja preso! – ordenou, carregando a Holmes até o outro lado da rua. A imagem da porta da Delegacia de Whitechapel foi uma das últimas coisas guardadas em sua consciência, antes de desmaiar por completo.