A Cura
1 Capítulo 1 - A Cura: a verdade.
7 de dezembro de 2012 poderia ser um dia como qualquer outro, mas esse é o dia em que Jordana, linda negra de trinta e sete anos, pode ficar sabendo os resultados de sua quimioterapia contra o câncer de mama, decorrente há três anos. Ela vive com seu marido Victor, um homem alto de pele clara e olhos negros. Os dois são casados desde 1997 e como fruto desse relacionamento nasceu Luís, com a pele clara de seu pai e olhos castanhos de sua mãe. Jordana tem o problema de insônia, e na última noite precisara tomar um remédio para dormir, e quando isso acontece é difícil acordá-la, porém já está na hora de levantar e seu marido vai chamá-la:
– Querida, acorde. Já tá na hora de ir ao hospital pegar os resultados dos seus exames.
– Mas ainda ta de noite, olha lá no relógio, é uma hora ainda. Deixe-me dormir mais um pouco. — Responde Jordana.
– Eu até deixaria, mas eu tenho que abrir a cortina e te contar que a pilha do relógio acabou. Já são sete e meia. Está na hora de ir ao hospital! — Victor diz, abrindo a cortina do quarto.
– Então acorde o Luís. Vou tomar um banho. Jordana diz com o aspecto sonolento, desenrolando-se do edredom e se levantando da cama.
Os três chegam ao hospital, e exatamente as 08h1min, Jordana, Victor e Luís começam a conversar com o médico. Não se passam nem vinte minutos, e saem os três do hospital com um sorriso estampado nos seus rostos, alegria facilmente visível. Decidem comemorar, ao receber a notícia do médico, Dr. Irineu, que ela está curada de seu câncer.
– Vocês não imaginam como estou feliz! Hoje é o melhor dia de minha vida! — Diz Jordana.
– Querida, estou muito feliz por você! Depois de tempos lutando contra essa terrível doença, você venceu!
- Nossa, nunca estive tão feliz!
- Que tal comemorarmos? — Diz Victor.
– Já sei! Que tal irmos à torre Yin-Yang? Além da vista da cidade ser ótima, a comida de lá é uma delícia! — Sugere Luís.
– Claro Luís, mas antes preciso ligar para a Lúcia e contar pra ela, afinal, ela me ajudou muito nessa luta. Não teria conseguido sem minha querida irmã! — Diz Jordana, pegando o telefone do bolso e discando o número de Lúcia.
Lúcia, que estava em casa, atende o celular:
- Jordana! Eu não sei o que você vai me falar, mas sei que é coisa boa só de ouvir sua voz!
– Lúcia, você nem acredita o que aconteceu! A luta finalmente acabou. A doença agora está longe de mim! Eu queria te agradecer e te convidar, pra nós comemorarmos lá na torre Yin Yang! — Diz Jordana.
– Nunca me senti tão feliz! Estarei lá, estou indo agora. — Diz Lúcia.
Jordana desliga o celular.
– Então vou ali à garagem tirar o carro. Esperem-me aqui na avenida. — Victor diz.
A cidade é agitada, grande, com muitos pontos turísticos. A dois quarteirões da casa de Jordana vive Alan, seu primo. Ele deseja ser um famoso escritor, mas por enquanto só lançou dois livros. Hoje é o dia em que ele deseja perder o seu maior medo: andar de helicóptero. Mas para isso é necessário o quê? Talvez coragem, talvez confiança. No momento em que sua prima sai do hospital, Alan chega à empresa de helicópteros da cidade, e por sorte, um dos pilotos é o seu melhor amigo de faculdade, Vinícius. Eles se cumprimentam e Alan entra no helicóptero.
– Vinícius, quais são os riscos de eu morrer nesse helicóptero? Ainda estou com 33 anos, tenho muito do que viver. — Diz Alan.
– É mais fácil você engasgar com uma azeitona do que esse helicóptero cair. — Responde Vinícius, tentando encorajar Alan.
– Não sei não... Estou com um pressentimento ruim. Se aviões explodem, não duvido nada dos helicópteros!
– Ah, isso é normal, todo mundo que anda de helicóptero pela primeira vez fica com medo, mas posso te garantir que a física é muito mais convincente do que pressentimentos... É o seguinte, nós vamos sobrevoar a lagoa, depois o centro, as montanhas, por último a torre Yin Yang e retornamos.
– Então tá. Será ótimo. Espero. — Diz Alan.
– Eu acho bom você ir perdendo o medo mesmo. Diz Vinícius.
Após essa fala, as hélices do helicóptero começam a se movimentar.
Alan suspira e para se acalmar, liga o rádio de seu celular, que na hora toca Yesterday, dos Beatles.
Vinte minutos se passam e Jordana, Victor e Luís já estão na torre panorâmica Yin-Yang, esperando um prato de comida. Quem se aproxima da mesa é a jovem e linda garçonete, Alice, trazendo a refeição. Jordana agradece e começa a comer, mas é surpreendida por uma formiga em seu prato.
– Moça, venha aqui agora. — Ela chama a Alice, abanando as mãos.
– O que foi? Não se estresse! — Pergunta Alice, com um tom de desinteresse.
– Não está vendo essa formiga no meu prato? Que descaso com o cliente é esse? Eu pago por essa comida não é atoa! E se eu tivesse comido antes de ver ela? — Reclama Jordana.
– De novo essas formigas... Espere um pouco, vou falar com o cozinheiro, mas só depois de atender aquele cliente, que até agora não foi atendido. — Diz Alice.
– Mas que descaso é esse! Você não pode fazer isso com um cliente... — Victor começa a falar, mas Alice o deixa falando sozinho, sai e vai atender outro cliente.
– O que deseja? — Pergunta Alice para outro cliente, chamado Paulo.
– Só vou saber depois que você me entregar o cardápio. — Diz Paulo.
É mesmo. Aqui está, mas anda rápido, não tenho todo o tempo de minha vida pra ficar te atendendo. Tenho que atender a reclamação daquela mulher careca ali. — Diz Alice.
Você já pensou para pensar no quanto essa mulher deve ter sofrido com a doença dela? — Diz Paulo.
– Ah, então tá, vou atender a reclamação dela, e não me chame mais, senhor certinho. — Alice sai e começa a andar em direção a cozinha.
– Ah, espere, eu quero uma costela de porco com molho de churrasco! — Grita Paulo.
– Já te falei, procure outro garçom. Eu que não te atendo. Poupe meu tempo. — Responde Alice.
Pode até parecer que ela é arrogante, mas Alice acabara de sofrer um choque emocional muito grande e decide que este é o seu último dia no restaurante da torre panorâmica. Ela vai para a cozinha e começa a falar com o gerente do restaurante.
– Hoje é meu último dia aqui. — Diz Alice, com um tom triste.
– Mas por quê? Estamos precisando de garçons e garçonetes! — Exclama o gerente.
– Minha vida mudou completamente desde ontem. — Responde Alice.
– O que aconteceu de tão sério que você decidiu sair? — Pergunta o gerente.
– Eu estava saindo da faculdade, e ia atravessar a Avenida Central na passarela, junto com minha irmã. Eu me distrai ao ver em uma página de um jornal pregada na parede, em que estava a notícia que falava de uma menina que morreu atropelada por um caminhão. Minha irmã foi na frente, e já estava no meio da passarela. Quando me virei, um caminhão vinha em alta velocidade, e acertou o suporte dessa passarela. Ela foi jogada brutalmente em um poste, e faleceu. — Diz Alice, soluçando e chorando.
O gerente compreende. Alice sai da cozinha e vai em direção a mesa de Jordana.
– Já fiz sua reclamação — Diz ela.
– Muito obrigada. — Responde Jordana.
A jovem garçonete vai atender outra cliente. Ao chegar à mesa ela se assusta ao ver quem está lá. Alice pensa que poderia ser um engano, mas não, quem está na mesa é a famosa atriz Diana! Aquele cabelo ruivo, os olhos negros e o chapéu com estilo são marcas inconfundíveis da melhor atriz do país.
– Diana, é você? — Pergunta Alice.
– Então você me conhece? — Responde Diana.
– Claro! Você é a melhor atriz do país!
– Muito obrigada.
– E o que deseja comer? Pergunta Alice.
– Eu posso trocar esse molho da Salada Dois por queijo? — Questiona a atriz.
– Claro que pode, você que manda aqui, escolha o que quiser!
Na mesa de Jordana, Luís esbarra seu braço em um copo, que cai no chão e quebra. Todos olham para sua mesa.
– Desculpem-me, foi um acidente. — Diz Luís.
– Tome mais cuidado. — Diz Victor.
– Mas pai, onde está a tia Lúcia? — Pergunta Luís, mudando de assunto.
– Não sei. Já tentei ligar para ela e aparece fora da área de cobertura.
Na verdade, Lúcia estava no elevador da torre, que não se sabe por que motivo parou. O pior é que o botão de pedir ajuda estava quebrado e não havia sinal algum de celular. Ela começa a ficar preocupada, e gritar por ajuda.
– Alguém me tira daqui! — Grita Lúcia.
No alto da torre, Victor também começa a ficar preocupado com Lúcia.
– Onde ela está? — Pergunta ele.
Nessa hora, o elevador da torre Yin-Yang abre com Lúcia e após ela sair, ele fecha.
Alan e Vinícius já estavam sobrevoando a torre Yin-Yang de helicóptero naquele momento. Alan estava tranqüilo até um momento em que o helicóptero começa a fazer um barulho estranho. Ele pergunta:
– O que é isso?
– Oh meu Deus! Não pode ser! Nós vamos morrer se não pularmos agora! — Diz Vinícius.
– O quê? — Alan grita, não conseguindo ouvir nada devido ao barulho.
– O motor vai explodir! Pegue o pára-quedas! — Grita Vinícius.
Alan coloca o pára-quedas, e Vinícius o manda pular. No desespero Alan pula, e Vinícius deixa o volante do helicóptero virado para um lado de um modo que ele caia na grama, só que quando os dois pulam com o pára-quedas uma garrafa de suco cheia que estava no helicóptero cai no volante e o vira em direção a torre, à esquerda.
Todos percebem que o helicóptero cairá na torre, e Lúcia aperta o botão do elevador, que não abre então ela corre para perto de seu sobrinho Luís. O helicóptero se aproxima cada vez mais da torre, e todos presos no alto, no restaurante, sem ter uma maneira de descer. Alice pensa que não há outra forma e pula pela janela.
Alice. Jovem garçonete, universitária, motivada pelo medo da dolorosa morte, pula do alto da torre. O filme de sua vida começa a passar por sua mente:
Um bebê nasceu! Alegria para família! Os anos vão se passando, e a linda bebezinha vai se tornando uma jovem moça, sua juventude começa a brotar. Tudo poderia ser perfeito, se sua situação financeira fosse melhor, e talvez, se sua verdadeira história não fosse revelada. Sua mãe biológica vivia na rua. Não porque quisesse, mas como iria comer? Beber? Viver? Vamos à sua história. Andrea Silva encontrara uma única forma de manter a vida: vender seu corpo. Cada noite passara a ser mais aterrorizante e traumatizante do que a anterior, e a cada dia, pensara em desistir de sua vida. Tudo poderia ocorrer bem, se não descobrisse que um bebê brotara em seu útero. Ela tinha seu lado humano. Tirar a própria vida, tudo bem, cada um cuida da sua. Todavia tirar a vida de outra pessoa não passa de uma extrema crueldade. No hospital, Sra. Andrea(se é que podia ser chamada assim) tivera sua filha, e pensara: essa menina será diferente da mãe, será digna! Vitoriosa! Escapará de tudo que é ruim nesse mundo. Kate, esse é o seu nome. Tudo ocorrera bem, até o momento da saída do hospital, uma semana depois. Andrea andara com sua filha no colo, até que o aparecimento de um homem. Ele guardara uma arma em seu bolso, e dissera: é o seguinte, quero que me faça um programa de graça, caso contrário, é morte na certa. Ela respondera: não. Estou com minha filha no colo! A partir de hoje decidi mudar de vida, e não insista. Essa reação não era esperada pelo bandido. Sem pensar, disparara em direção à cabeça de Andrea. Kate batera a cabeça no duro piche do asfalto, com seu pequeno corpo sujo do sangue de sua mãe. O ladrão fugira. Um mês depois, um casal de judeus adotara a jovem menina, e resolvera mudar seu nome para Alice.
O filme acaba nesse momento, quando a jovem cai sobre uma cerca elétrica de um muro.
O tempo não dá tréguas, nem um segundo, e o helicóptero passa ao lado da torre e sua hélice corta Luís, na altura do pescoço, Lúcia, em sua bacia, e outras pessoas em um instante, jogando partes dos corpos e sangue para todos os lados. Com a posição do volante desse helicóptero, ele vira à esquerda e acerta em cheio a torre, arremessando Paulo e Diana para fora. Os dois caem cento e um metros. Paulo bate a cabeça no chão. Diana cai de pé, e com o impacto, sua coluna vertebral rasga sua pele, e sai do corpo pela parte de trás do pescoço, enquanto seu nariz já está quebrado no chão.
O helicóptero fica preso na torre e o elevador se abre. Jordana e Victor com suas pernas machucadas, vão rastejando até o elevador, Jordana entra, mas a porta se fecha no momento em que seu marido entra e prende sua perna direita. O elevador começa a descer, e Jordana no maior desespero após ver muitas pessoas morrendo, incluindo seu filho, teria que salvar seu marido. Ela puxa, mas não consegue, a perna de seu marido é cortada. Eles chegam ao solo e Victor já está morto com a perda de sangue, então Jordana sai chorando e olha para o alto da torre, toda quebrada com um helicóptero preso. Ela olha para o outro lado do céu e vê Alan e Vinícius descendo de pára-quedas, mas em um segundo o helicóptero explode no alto da torre matando todos que ainda estavam vivos lá, e mandando destroços para todos os lados. Um pedaço de metal vindo da torre acerta as costas de Vinícius e Alan, os dois morrem, soltam do pára-quedas e caem. Jordana, com a perna machucada, rastejando, cheia de sangue de outras pessoas, não agüenta e desmaia.
Ela abre os olhos. Em sua mesa, Luís esbarra seu braço em um copo, que cai no chão e quebra. Todos olham para essa mesa.
– Desculpem-me, foi um acidente. — Diz Luís.
Tome mais cuidado. — Diz Victor.
– Mas pai, onde está a tia Lúcia? — Pergunta Luís, mudando de assunto.
Jordana fala correndo antes de Victor:
– Não sei. Já tentei ligar para ela e aparece fora da área de cobertura...
– Como você sabia que eu ia falar isso? — Pergunta Victor.
Jordana levanta da cadeira e começa a gritar, apontando para o helicóptero voando no céu:
– Esse helicóptero vai colidir com essa torre e nós vamos morrer! Precisamos sair daqui!
– Você está louca? — Pergunta Diana.
– Nós vamos morrer, acreditem em mim! — Grita Jordana.
– Robert, venha aqui. — Diz Alice, chamando o segurança.
– Pode deixar que eu cuido dela. — Diz o segurança, segurando Jordana.
– Ei, você não pode fazer isso com ela! — Grita Paulo.
– Cala sua boca! — Responde o segurança.
O elevador abre com Lúcia no mesmo momento, o segurança arrasta Jordana até ele, impossibilitando de Lúcia sair. Luís e Victor vão atrás. Paulo acha que isso não está certo e entra no elevador. Diana diz:
Esse é o restaurante que eu não venho nunca mais!
Após dizer isso, ela entra no elevador, e Alice vai correndo atrás dela. Com o elevador já descendo, presa no segurança Jordana diz chorando:
– Ligue para o Alan e mande-o pular agora.
Victor liga para o celular de Alan, fala o que aconteceu e Alan pula, mas Vinícius não. Todos chegam ao solo, e saem da torre. Olhando para o alto.
– Ei senhora, o que foi que aconteceu? — Pergunta o segurança.
Eu vi... Eu vi aquele helicóptero caindo na torre! — Diz Jordana.
– Essa mulher é louca! — Grita Diana.
– E se ela sonhou? — Diz Paulo.
Eles olham para o alto e vêem outro homem pulando, Vinícius. Sem piloto, o helicóptero começa a ir em direção a torre.
– Oh não! — Diz Alice, com os braços estendidos.
O helicóptero colide com a torre e depois explode. Destroços e pedaços de corpos voam para todos os lados. Esse era o momento mais chocante da vida de cada um que desceu da torre. Todos percebem que o sonho de Jordana se concretizou, e então olham para ela.
– Como você sabia? — Pergunta Diana.
Num instante, um pedaço de metal vindo da torre acerta a cabeça de Jordana, que desmaia.
...O homem não se entrega aos anjos, nem se rende inteiramente à morte, senão pela fraqueza de sua débil vontade.
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