A Cruz de Cada Dia

2 II - Almas Atormentadas


Eu desci as escadas que me levavam até ela. Trazia um pão de batatas e um pouco d’água em um jarrinho que havia pegado na hora do jantar e escondido em meu hábito. Ela deveria estar faminta e eu já estava preocupado com o seu estado frágil. Cheguei à sala e tudo estava como antes; o silêncio sepulcral ainda presente e eu senti um vento agourento entrar pela pequena janela de pedra. Fechei-as e tornei para o corpo que jazia ao meu lado. Parecia morta, e estava gelada. Peguei um copo e derramei a água, depois o levei até a boca dela, que sorveu o líquido, deixando gotas caírem pelo pescoço e molharem sua veste. Fui até à mesinha de madeira muito simples que estava do outro lado do quarto, e fui cortando o pão em fatias que ela poderia ingerir sem fazer muito esforço para mastigá-lo.

***********************************************************

Amedrontada...

Minha cabeça latejava como se uma tempestade estivesse dentro dela; os trovões a sacudir meus nervos. Meus olhos queriam se abrir para descobrirem onde eu estava. Havia uma cama muito precária em que eu havia sido deitada, uma mesa à minha frente, no entanto, não parecia ser um quarto, muito menos uma ala de minha antiga casa. Eu não havia sido capturada! Um sorriso fraco brotou em meu rosto. A luz pálida de uma vela tremeluzia ao meu lado, e eu pude ver uma figure negra ao meu lado. O medo tomou conta de mim e, incontrolavelmente, meu corpo respondeu de imediato a ele. Levantei-me da cama, ficando sentada sobre ela. Meus braços se agarraram aos do meu raptor estranho. Um grito se formou em minha garganta e saiu agudo, ecoando pelo porão. Ele tapou com uma mão ágil meus lábios, e tentou me acalmar com palavras que não podia distinguir, pois a histeria tomava conta de meus atos. Nada fazia sentido e eu só teria ter tido êxito no meu afogamento. O que seria de mim agora que estava envolvida por aquelas mãos? De quem eram? E por que não me feriam, mas ao contrário, pareciam tão gentis como nunca havia sentido antes?

Parei de agitar, e abaixei as mãos, agora abrindo meus ouvidos para as palavras que chegavam até eles, que pareciam ser confortados por elas.

*********************************************************

— Acalme-se, eu não vou ferir você. Não quero machucá-la – eu disse, e ela pareceu compreender desta vez, pois parou de me agredir com as mãos, tenteando a todo custo livrar-se de mim.

— Isso, isso... Viu? Está tudo bem – tranquilizei-a.

— Quem é você? – balbuciou ela.

— Benedito – respondi um pouco atordoado. — E o seu, minha senhorita? – eu quis saber.

— Aneliz – disse ela, despreocupadamente. O nome dela era diferente, nunca o ouvira na vida, e por isso, achei que combinava com ela; com a beleza incomum e nunca vista. — Onde estou? – ela me encarou, perguntando, agora um pouco preocupada.

— Em Castelli.

— Então eu consegui mesmo atravessar? – questionou-me ela com uma expressão feliz se formando no rosto, e eu pude ver seus olhos castanhos pela primeira vez. Sua pergunta, no entanto, foi retórica e um silêncio atormentador se formou entre nós.

De repente, ela como que tomou um impulso e movendo-se em minha direção, olhou-me em meus olhos que estavam atentos nela. Parecia pronta para dizer palavra e eu para ouvi-la.

— Você me... salvou.

— Você estava se afogando no lago, e eu não poderia deixá-la lá – eu disse sinceramente.

Ela ganhou uma energia inexplicável e chegando-se a mim, fez uma mesura, em sinal de eternal gratidão.

— Arriscou-se por mim, meu bom senhor. Serei para ti como a raiz de uma árvore, onde ela repousa; serei para ti como a um Sanxo Pança para o seu companheiro Dom Quixote, e não importa o tamanho dos moinhos, ou se os dragões são reais ou não; terá minha gratidão até a morte. – discursou ela, e eu pude ver determinação em sua voz. Ela dizia a verdade.

— Não me agradeça... Apenas fiz a obrigação de todo homem cristão – a repreendi corando um pouco pela maneira como havia me estimado... igual a um amigo da família, quando, na verdade, eu deveria ser seu completo inimigo.

Eu olhava seu rosto lívido, empalidecido agora pelo espanto ou contentamento; ele agora parecia mais iluminado que as enormes entradas de luz da catedral, que reuniam as cores em matizes que anestesiavam nossa alma. Aneliz também me fitava, e em apenas alguns segundos, sua face se aproximou da minha; sua respiração se misturando à minha. Uma névoa anestesiante passou entre nós, e eu pude sentir o ar inebriado como que com um incenso das mais raras ervas.

— Um cavaleiro tão nobre de alma merece ser recompensado por salvar a filha de Sir Álvaro Bertoli... E a mão dela parece estar à altura de sua valentia, meu signore.

Hesitei, e ela pareceu se contrair por um momento. Levantei uma mão entre o curto espaço entre nós, parando qualquer gesto que se seguisse por parte dela. Eu olhei para as minhas vestes, e eu senti seu olhar acompanhando o meu.

— Desculpe-me – titubeou ela, corando violentamente. – Não sabia.

— Tudo bem – tranquilizei-a. – Você deve estar cansada. Retorne a dormir, e logo de manhã poderá partir para... outro lugar.

— Mas, mas... Não posso sair assim, eles irão me capturar... Eu não quero voltar. Não posso! Não deixe! – reagiu ela, com a voz embargada por lágrimas que pareciam brotar naquele mesmo segundo.

— Não se preocupe. Ninguém poderá lhe capturar enquanto estiver aqui. E quanto a ir embora, a senhorita não precisará ir se não quiser. Apenas pensei que um espírito tão vívido quanto o seu não poderia ser domado pelas paredes de nosso mosteiro. Agora vejo que me enganei. A senhorita tem as mesmas aflições que cada um de nós; não pode ser tão diferente assim, mesmo que tente lutar contra o seu destino, e por hora, dou-lhe um conselho: acostume-se com o teu. E quem sabe, poderá um dia retornar para o berço de seus ancestrais do outro lado do lago.

— O senhor... – começou ela.

— Pode me chamar de frei Benedito. Pois enquanto estiver entre essas paredes eu serei seu protetor.

— O senhor, frei Benedito, parece entender muito de filosofia, teologia e sobre como funciona a razão e a consciência humana, mas não compreende os detalhes de uma alma aflita; não ouve o eco dos que gritam, caminhando silenciosos e inexpressivos pela sua frente. Perdoe-me, mas não reconheceria o pesar e o luto nem mesmo que se materializassem à sua frente! – argumentou ela. – Não poderei voltar jamais, assim como prefiro o silêncio sobre os meus motivos. Afinal, todos nós temos algo que não preferimos enxergar sobre nós mesmo – e terminou, tão inquieta como antes.

— Entendo... Deixarei você só – balbuciei eu, já me preparando para sair do pequeno porão. Porém, uma voz rompeu o ambiente, e as partículas do meu ser se agitaram com aquele timbre:

— Espere. Eu estaquei no mesmo lugar e não movi nem sequer um dedo para longe dela. – Voltará? Não gosto de ficar nesse lugar – disse ela, olhando para o ambiente quase não iluminado e muito frio. Podia- se ouvir o som das patinhas dos ratos caminhando sobre o chão de madeira antiga.

— Voltarei assim que puder — respondi, mas minha voz pareceu estar muito distante. Sai de lá, subindo para o lar dos monges beneditinos, sem olhar para trás.

*********************************************************

Sozinha...

O único som daquele lugar era o da minha respiração. Eu tentava dormir na cama improvisada, que fazia minhas costas doerem um pouco, mas não me importava muito; havia coisas bem piores nesse momento para ocuparem minha mente. E, de repente, todos aqueles minutos ao lado dele foram repassados como raios tempestuosos em minha mente. Senti-me tremer e encolher o corpo em posição fetal instintivamente.

Então, meu salvador, o homem a quem eu devia a minha vida, era, na verdade, um simples monge beneditino. Tudo agora parecia ter ganhado uma nova carga; uma nova interpretação. Seria tão mais fácil se ele fosse um cavaleiro, ou mesmo talvez um camponês daquele vilarejo. Eu, estarrecida, percebi agora o tamanho de meu equívoco, e pude logo depois que ele saiu de minha presença, corar e levar aa mãos à cabeça, numa expressão de incômodo. Como aquele ser, tão fechado em sua muralha religiosa e cheio de compromissos, ter se arriscado tanto por uma desconhecida, uma inimiga...

O que estaria por trás de toda aquela boa vontade, aquela abnegação – sim, pois eu bem aprendera com as pessoas que convivia que tudo havia um motivo, e se ele me salvara, não foi puramente por uma coincidência. Não consegui fechar meus olhos naquela noite gélida, e a dor em minha perna só piorava tudo.

Notas finais
Comentários sempre são bem-vindos! Espero que gostem... Postarei novos capítulos o quanto antes.