A Cruz de Cada Dia

3 III - Entre Dois Mundos


Depois de um longo dia de orações, salmos e reunião com o abade, finalmente eu consegui descer as escadarias até o porão, onde minha amiga secreta estava confinada. Ela estava deitada ainda na precária cama, e devia estar muito cansada, pois já era uma hora da tarde, e ela ainda dormia. Fiz silêncio ao colocar o copo com um pouco de vinho e um pedaço de carne de porco sobre a mesa. Meu ato foi falho, pois segundos depois ela despertou, talvez sentindo o cheiro da comida.

— Boa tarde, senhorita – cumprimentei-a. A sua perna esquerda, ainda enfaixada, caía inerte ao lado da cama, e pelo que percebi, ela não conseguia mexê-la. Seria um doloroso mês para sua recuperação.

— Olá, estou tão faminta! – respondeu Aneliz. Eu dei a ela o pedaço de carne, única comida que conseguira contrabandear do almoço. – Obrigada. – ela me agradeceu timidamente.

— Sua perna... – eu observei, e ela olhou instintivamente para seu membro quebrado, lembrando-se do dia anterior. Uma expressão de dor passou pelo seu rosto jovial. – Receio que precisará de muito tempo para a recuperação, e necessitará de algo firme para mantê-la no lugar. Não sou nenhum qualificado, mas meu pai era um bom curandeiro, e eu o observava quando era criança a remendar ossos e cicatrizar feridas, antes que ele morresse. – eu lhe revelei.

Procurei por toda sala algo que poderia servir de suporte para sua perna e encontrei um pedaço de madeira polida que havia sido de algum móvel quebrado. Esperei que ela terminasse sua pequena refeição, e me aproximei dela. Eu a ajudei a sentar, colocando sua perna ferida em um banco. Ajoelhei-me e toquei de leve a faixa que protegia sua ferida. Aneliz instintivamente colocou sua mão sobre a minha, dando um gemido de reprovação.

— A dor é inevitável, e quanto antes superada, melhor. Assim estará livre, senhorita, para partir. – comentei. A verdade é que ela parecia mais um pássaro ferido do que uma mulher, tão indefesa estava. Eu retirei a atadura improvisada e a troquei por um pedaço de pano limpo. O ferimento não havia sido profundo, felizmente, mas ainda podia-se ver manchas de sangue. Então, prossegui com o meu trabalho. Aneliz levantou um pouco mais o vestido azul e uma pequena parte da pele alva da coxa foi exposta. Um calafrio percorreu o meu corpo diante da visão pudica e ao mesmo tempo constrangedora. Mais uma vez eu estava sendo provado pela Providência, e mais uma vez esperava vencer aquele tormento. Eu limpei a ferida e envolvi a madeira em sua perna com o pano, fazendo com que ficasse firme e imóvel.

— Obrigada... mais uma vez obrigada – balbuciou ela, olhando diretamente em meus olhos, e tocando de leve a minha mão trêmula. – Estive pensando, e espero não incomodá-lo mais do que o devido. Embora eu esteja com medo, não posso abusar da sua hospitalidade, além do fato de ser perigoso me manter aqui... Mas me prometa, signore, que onde eu estiver, ainda vai orar por mim.

— Sempre. – eu a interrompi. – Mas não diga isso, a senhorita não me incomoda, e prometo que vamos achar um lugar seguro para sua recuperação. Mas me diga, o que fez com que deixasse seu mundo para mergulhar nessas terras? A senhorita me fascina, e eu não a compreendo. – então eu percebi que nesse instante Aneliz baixou os olhos dos meus, olhando ao redor da pequena sala.

— Aquele não era o meu lugar e jamais seria feliz lá. Meu pai queria me forçar a casar com o coronel Giovanni Berlucci. – segredou ela.

— Seu pai é Sir Álvaro Bertoli, o senhor mais poderoso dessas redondezas, e um perigo ao reinado de la Costelli. A senhorita corre grande perigo aqui e deveria voltar para sua família. Sei que seu pai a perdoaria. – eu a aconselhei o melhor que pude.

— O signore não sabe como ele pode ser. – ela retrucou. Eu sabia que havia muito mais escondido em seu coração, muito mais do que ela ousaria me revelar. Ao tentar mudar de assunto ela disse: De quem são aquelas pinturas?

Eu acompanhei seu olhar curioso até um antigo missal que estava sobre uma mesa de pedra, junto a tintas e pincéis.

— Eu estou restaurando no meu tempo livre. Gostaria de vê-los? – eu perguntei. Ela respondeu um “sim” com a cabeça. Fui, então até a mesa e trouxe o grande livro para ela, que olhou admirada.

_ Tem um grande talento. Eu gostaria de aprender a pintar, mas nunca me permitiram...

— Eu posso lhe ensinar – propus. Ela me deu um singelo sorriso de donzela, abaixando os olhos mais uma vez para a gravura que representava Eva sendo persuadida pelo Anjo Caído.

— Ela se parece comigo – disse ela. E realmente a mulher representada tinha também um longo cabelo acobreado, ruivo e denso. – O signore também me acha ameaçadora? – perguntou Aneliz. Eu a olhei interrogativamente, e ela continuou. – Percebo que sou um fardo para ti, e sinto o jeito que teme me tocar e me olhar.

Eu não lhe disse nada, apenas virei as costas numa atitude não muito educada. É claro que ela havia percebido. Todo meu corpo dizia que a desejava, mas eu seria mais forte. Minha alma ansiava o Paraíso e nada a impediria de alcançá-lo, nem mesmo a visão de um próprio anjo de luz enviado em minha vida monótona. Aneliz pareceu compreender o meu silêncio, pois naquela tarde não mais tocou naquele assunto. Eu a ajudei a caminhar até uma cadeira que ficava perto da minha mesa de pintura, e assim passamos as horas, sem nada dizer um para o outro. Eu terminando a pintura, e ela me observando.

Os sinos tocaram. Eram já sete horas e eu precisaria voltar para o jantar e orações noturnas. Eu disse à Aneliz que traria seu jantar assim que fosse liberado para ir dormir, e me despedi dela com um meneio de cabeça. Cheguei ao grande salão um pouco atrasado, e pude ver o olhar de desaprovação de frei Lorenzo, que logo veio em minha direção.

_ Caro irmão, não te vi hoje na biblioteca, estava doente? – perguntou-me Lorenzo. Eu não me enganei com sua falsa preocupação, pois ele era traiçoeiro e sempre buscava meus erros, para apontá-los contra mim. A hipocrisia exalava de suas vestes aparentemente puras.

_ Eu resolvi fazer minhas transcrições e leituras em um local mais silencioso, o irmão sabe o quanto é delicado traduzir as santas passagens bíblicas.

— Claro, e pequenos deslizes não serão tolerados... – disse ele, com um sorriso sarcástico no canto dos lábios.

O restante do jantar transcorreu normalmente. Fez-se as orações e seguimos para nossos dormitórios. Porém, meu caminho agora era diferente do restante dos Beneditinos, e eu desci mais uma vez as escadas que me levavam até ela. De repente, ouço passos e vozes espreitando por entre as paredes, mas não se podia distinguir de quem eram ou o que falavam. Meus pés paralisaram nesse instante, e eu temi continuar a minha descida. Um terror passou por mim, e se alguém a tivesse descoberto? E se a encontrassem, o que seria dela e... de mim? O medo me fez retornar aos meus aposentos simples, e esperar, orando, que nada lhe tivesse acontecido. Eu estava, na verdade, atado e sem ação, completamente submisso ao destino que fora traçado, e que por uma estranha razão, havia sido unido ao dela.

Naquela noite não consegui adormecer. Meus lábios eram preces e meus sussurros, ave-Marias. A pequena porção de pão que eu tinha roubado da ceia jazia no criado mudo ao meu lado. Naquela noite ela não iria comer, e também ficaria aterrorizada. Consolava-me saber apenas que ela tinha um jarro com água perto de si, mas isso não era o bastante, ela precisaria se alimentar. Eu me perguntava qual seria seu futuro, e se amanhã ainda a encontraria lá. Nossos mundos eram tão diferentes e paradoxos e jamais deveriam se misturar. Mas, no entanto, agora estava ela aqui, presa entre as paredes de um mosteiro; e aqui eu estava, pela primeira vez sem saber se no lugar certo.

Já era quase manhã, e a minha noite de vigília ainda não tinha terminado. O nascer do Sol adentrou no meu quarto, inundando minha visão com um halo de luz alaranjado. Lembrei-me, então, dos cabelos dela, do rubro ardor que eles causavam em meu ser, e se eles ainda poderiam acariciar meus olhos com a mesma visão de paz e esperança do dia anterior.

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Eu estava quase adormecendo, quando meus ouvidos me tiraram do torpor do sono. Passos pesados estavam descendo as escadas. Até então eu esperava por meu amigo, porém duas vozes desconhecidas também desciam as escadas, indo até meu quarto/ porão. Meu coração deu um salto repentino. Tudo em meu ser apavorou-se, e eu senti novamente o terror do dia da minha fuga. Levantei-me depressa, tropeçando muitas vezes e derrubando o copo com vinho. Minha perna era inútil, e eu tinha que arrastá-la me segurando nas paredes. As vozes se aproximavam... eu procurei, desesperada, um lugar seguro para me esconder, mas em vão. A única saída seria atravessar uma porta dos fundos, que dava para os jardins e aldeia ao lado do mosteiro, e assim me decidi. Saí penosamente para a noite fria que me aguardava, apenas tendo tempo para fechar a porta atrás de mim e me jogar no chão ao lado de uma pequena árvore. Aquele, assim como minha antiga casa, também não era meu lugar, e permanecer nele seria arriscar muito. Pensei em frei Benedito e sua bondade, e me perguntei porque pessoas tão boas estavam fadadas a destinos tão turbulentos.

Notas finais
Espero que estejam gostando. Comentário sempre são bem vindo!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.