A Coroa
3 Coreto
Notas iniciais
POV — Lívia
Eu acordei bem cedo para tomar café da manhã. A criada já arrumava a mesa de café que havia no meu quarto. Ele era enorme. Eu me levantei e outras duas criadas começaram a arrumar a casa e me ajudar com o que vestir. Eu realmente não fazia ideia do que vestir. Me recomendaram usar um vestido, ele era azul e longo, para mim era claramente um vestido chique, que se usa em casamentos ou formaturas. Não estava acostumada a usar vestidos assim no dia a dia.
Depois do café, andei até a sacada. Eu gostava de observar tudo ao meu redor. Eu já estava há uma semana no castelo e ainda não descobrira quem era o Pedro, o suposto príncipe de São Paulo. Ele tinha matado todas às aulas, inclusive a de apresentação. O mais bonitinho era o Noah, do Ceará. E ele tinha um sotaque bonitinho. Em uma semana já tinha feito amizade com a Letícia, do Rio de Janeiro e com a Isis do Mato Grosso, uma morena carioca sexy e uma ruivinha muito fofa. Eu andava mais com elas do que com minhas daminhas de honra na escola. O resto do dia eu passava com a Mariana e Yasmin. Eu tinha escolhido ambas como damas de honra por serem minhas amigas de infância. A Giovanna eu conhecia apenas há um ano mas já considerava pacas e a Isabella era uma amiga de 6 anos. A que eu tive que deixar para trás se chamava Júlia, éramos amigas há 4 anos mas vinhámos brigando muito ultimamente e eu não queria levar alguém nesse clima. Claro que iríamos acabar fazendo as pazes, mas eu acabei escolhendo as damas de honra muito em cima da hora, no calor do momento, e no momento, estávamos brigadas.
Yasmin entrou no quarto sem bater na porta e a criada aparentou assustada.
—- Você não pode entrar assim, é falta de educação com a princesa. -- ela deu uma bronca.
—- Nah, tudo bem, ela é minha amiga. -- disse rápido e se virou pronta para me dar um abraço. -- Amiga! Você tá uma ga-ta. Queria eu estar com vestidos lindos assim.
Yasmin era bem mais baixa que eu, mas estava usando um salto e um vestidinho florido de verão. Seus cachos louros caiam sobre seus seios e seu sorriso deixava sua cara ainda mais redonda. Apertei suas bochechas.
—- Odeio quando faz isso. -- ela me olhou fingindo estar brava.
—- Mas sua bochecha é muito gostosa de apertar. -- eu apertei de novo.
—- Aaah!
Descemos as escadas e fomos para o salão principal. Era incrível como os lugares mais amplos do castelo sempre estavam lotados e os mais estreitos, como corredores, só haviam guardas. Mesmo tendo sido construído há pouco tempo, o castelo era bem rústico e aparentava ser velho. Mesmo assim, eu achava bonito.
Nos encontramos com a Giovanna e a Mariana, que estavam cochichando sobre um garoto que haviam visto.
—- Meu Deus, como é o nome dele? Você sabe? -- Mariana perguntou para Yasmin.
—- Acho que ele é da sala da Isa.
—- Precisamos encontrar essa menina!
POV Isabella
Eu estava sentada em uma mureta de um corredor aberto no castelo. Era bem alto, se eu caísse com certeza me machucaria feio ou morreria. Já sentia falta de casa. Eu estava observando o céu, sentada de uma maneira um pouco arriscada. Um príncipe passou por mim, e eu reconheci por conta da coroa. Todos os príncipes e princesas usavam coroas.
—- O que está fazendo sentada aí?
—- Eu só estou... relaxando.
—- Você pode acabar caindo.
—- Eu sei.
Ficamos em silêncio. Ele hesitou um pouco, mas logo sentou do meu lado.
—- Você pode acabar caindo comigo.
—- Eu sei. -- ele sorriu, e seu sorriso era lindo e amigável. -- Eu sou o Rafael.
—- Você é príncipe da onde?
—- Espírito Santo.
—- Já morei lá. Acho que isso acabou com minhas chances de ser uma possível princesa de São Paulo...
—- Se você não tivesse ido para São Paulo, poderia ser princesa do Espírito Santo.
—- Quem é a princesa de lá?
—- Ana Clara.
—- Aquela loira de cachinhos?
—- Exato.
Eu sentia como se todas as meninas que estivessem no castelo fossem bonitas, menos eu. Principalmente as princesas, que tinham um tratamento especial e ficavam maravilhosas. Podiam ser as mais feias, mas depois daquele tratamento se tornavam incrivelmente lindas. Infelizmente, para nós damas, não havia tratamento nenhum e eu continuava me achando feia.
Eu era sem graça. Minha boca não era carnuda e bonita, meu nariz era feio e não era nem um pouco delicado, muito menos empinado. Meus olhos eram sem graça, castanho escuro. Meu cabelo era ainda mais sem graça, por isso eu sempre deixava preso num rabo de cavalo. Eu era toda sem graça e nenhum vestido ficava bem em mim. Eu tinha muita coxa e odiava deixá-las à mostra. Não havia cintura, tinha um pouco de barriguinha e sentia que o vestido marcava bem ali. Sem contar que não tinha peito, talvez um pouco de bunda, mas nada de peito. Eu me odiava fisicamente. Já ele, ele era lindo. Tinha um sorriso perfeito, mesmo não sendo simétrico. O cabelo dele bagunçado era sexy e seus olhos, mesmo sendo castanhos, brilhavam pra mim.
—- Ana Clara é muito bonita. Você pretende se casar com ela?
Surpreso, ele se desequilibrou um pouco.
—- Não... não sei. Eu não sei com quem vou me casar, não tem como escolher em três anos, sabe? Eu não quero ser forçado a nada e sei que muitos também não querem. Não sei o que fazer.
—- Mas pelo menos ela é bonita.
—- Não é questão de beleza. Eu vou ser marido de uma pessoa que só tem pra me oferecer a beleza? Eu quero alguém interessante, que tenha me escolhido pelo o que eu tenho de interessante também, por dentro, não por fora. Até também porque eu sou bem desinteressante por fora.
—- Não é. Você é bonito. -- opa, falei.
—- O...obrigado. -- ele gaguejou e corou um pouco. Foi bem fofo.
—- Isaaaaa! -- eu reconhecia essa voz.
Giovanna, Mariana, Yasmin e Lívia surgiram do final do corredor, correndo em minha direção. Yasmin estava com um salto enorme que a deixava na altura de Mariana e Giovanna, mas Lívia também estava com salto, então estava gigante perto delas.
—- Isa. -- Yasmin, quem gritara da primeira vez, me puxou da mureta, empolgada. -- Quem é o cara?
—- Quem é quem?
—- Eu tirei uma foto dele distraído, veja só. -- ela me mostrou o garoto.
Era o Nicolas da minha sala, um garoto loiro de olhos azuis. Nada de mais, prefiro caras como o Rafael.
—- É meu cavalheiro. -- Rafael respondeu. -- Por que querem saber? -- ele sorriu de maneira maliciosa. Esse sorriso caia bem nele.
—- É... por nada não. -- Yasmin ficou sem graça.
—- Ele já é velho, tem 20 anos.
—- Uau. -- Mariana deixou escapar. -- Desculpa, eu gosto de caras mais velhos.
—- Ah, nem é tão velho assim, Mari. -- Lívia quem falou. -- São 4 anos de diferença da gente.
—- Vocês todas têm 16? -- Rafael perguntou, encarando as meninas.
—- Sim. -- eu quem respondi e ele olhou para mim. Corei. -- Quantos anos você tem?
—- 17.
Ele era apenas um ano mais velho que eu. Ele tinha chance de ser um rei e eu tinha a chance de perdê-lo. Bom, eu não tinha chance nenhuma de ganhá-lo, então não fazia diferença. Olhei rápido para a Lívia e ela entendeu o recado.
—- Vamos garotas, vocês precisam me ajudar com uma coisinha...
—- Que coisi... -- Yasmin olhou pra mim e abriu um sorriso malicioso. -- Já até sei. Vamos Gigi, vamos Mari. -- ela pegou uma em cada braço e saíram todas.
Obrigada Lívia.
POV Lívia
—- Eu não entendi -- Mariana, lerda como sempre.
—- Ah, pelo amor de Deus Mari. Ela quer conhecer o cara. Mas olha, não é meu estilo não, viu? -- Yasmin quem disse.
—- Não é você quem vai ficar com ele, não é mesmo? -- Giovanna respondeu.
—- É claro...
Eu ainda tinha uma certa curiosidade de encontrar meu respectivo príncipe. A ansiedade só aumentava. Decidi andar pelo bosque, sozinha.
Quando cheguei lá, senti uma gota de água. Estava começando a chuviscar. Não iria me atrapalhar, na verdade, eu amava chuva. Quano era pequena fazia questão de sempre brincar na chuva. Eu sempre ficava gripada no outro dia. Tinha um coreto branco de pedras. Decidi ir pra lá, já que a chuva estava começando a engrossar. Encontrei um garoto sentado encostado na parede baixa do coreto. Ele estava dormindo. Eu não queria incomodá-lo, então decidi ir embora. Infelizmente a chuva aumentou e eu não pude sair. Decidi me sentar do outro lado e fingir dormir para que ele não achasse que eu estava lá para observá-lo. "Mas ele não acharia estranho acordar e ver uma garota dormindo aqui?", eu pensei. Eu não sabia o que fazer, ia ter que esperar ele acordar para explicar ou esperar a chuva passar. Comecei a ficar nervosa.
Ele se mexeu um pouco. Congelei. A chuva veio de lado e começou a me atingir. Do lado dele ela não acertava. Tive que arriscar sentar do lado dele para não me molhar. Eu estava há um metro dele e já estava sentindo meu coração acelerar por conta de ansiedade e nervosismo. Eu tropecei com o salto e caí em cima dele. Não exatamente em cima, eu não encostara nele, mas estávamos a poucos centímetros de tocar nossos lábios. Ele abriu os olhos, devagar. "Droga!". Num pulo, me levantei e ele tentou, inutilmente se afastar, mas ele estava encostado na parede.
—- Des... desculpa. -- me apressei em dizer. -- Eu entrei aqui, aí começou a chover e eu não pudi sair, então eu sentei ali no canto mas começou a chover em mim. Está vendo? Está vendo, né? Está molhado ali. Só que eu acabei tropeçando e caí em você... -- eu falava muito rápido quando estava nervosa. Eu parei quando ele começou a rir. -- Desculpa, por que está rindo?
—- Você está vermelha.
—- Sério? -- eu disse, levando minhas mãos à bochecha.
—- Não, mas agora está. -- ele riu mais um pouco. -- Fica tranquila.
Me acalmei e ficamos em silêncio. Eu observava a chuva, ela não parecia melhorar e nem aparentava que ia acabar logo. Estava preocupada de não conseguir voltar antes de entardecer. O castelo era grande e eu demoraria até encontrar meu quarto. Sem contar que à noite, as coisas pareciam um pouco mais sombrias.
—- Acredita em fantasmas? -- eu perguntei numa tentativa de puxar assunto.
—- Eu vi um quando cheguei no coreto. Tenho certeza que se a gente não chegar logo no castelo, ele vai se incomodar com nossa presença aqui.
O céu se iluminou com um relâmpago no meio da sua fala e assim que ele terminou, veio o barulho alto do trovão. Eu me assustei. Me assusto fácil. Tenho medo de trovões e fantasmas.
—- Está com medo? -- ele riu. -- Talvez a gente devesse esperar sentados, aqui.
—- Mas não é perigoso? E se a chuva piorar?
—- O que quer que eu faça? Saia correndo no meio da chuva pra chamar um guarda com um guarda-chuva pra nós?
—- Deixa pra lá. Me conte mais sobre você. -- eu disse, sentando no canto em que a chuva não pegava.
—- Não, conte mais sobre você. Como se chama?
—- Lívia.
—- De onde veio?
—- São Paulo, Ribeirão Preto.
—- Quantos anos tem?
—- Isso não parece uma conversa.
—- Gosta de chuva?
—- Gosto... mas não gosto de trovões.
—- Beleza, então vem. -- ele me ajudou a levantar e foi até a escada do coreto. -- Quando eu disser "corra", você corre.
—- Quê? Correr pra onde?
—- Para aquele outro coreto ali.
—- Mas ele está mais longe e vamos nos molhar todos.
—- Não. Ele está mais perto daquele lugar onde ficam os guardas, então é mais fácil chamar atenção deles por lá do que por aqui. E aquele coreto é maior também, esse já está ficando todo molhado. Não tem problema nos molharmos um pouquinho. Agora, tire seu salto, ou se não você vai se afundar na lama.
—- Okay.
Tirei o salto, pronta pra correr. Com uma mão eu segurava o salto, com a outra, segurava sua mão. Ele olhou pra mim e perguntou se eu estava pronta. Fiz que sim com a cabeça e não pude deixar de notar o quanto seus olhos eram bonitos. Um verde avelã. Ele disse "corre" e eu me distraí um pouco. Ele me puxou e fomos correndo até o outro coreto. Chegamos lá encharcados, é claro.
—- Pelo menos a chuva não estava gelada. -- ele disse.
—- Está brincando? Eu adorei.
—- Correr na chuva?
—- É.
—- Você é louca. -- ele disse isso e riu.
—- Acho que sou mesmo.
Ficamos um tempo sentados num canto seco, conversando. O coreto não estava tão molhado quanto o outro por dentro, mas também não estava totalmente seco. Conversamos de várias coisas, mas ele não me disse os principais: seu nome, sua idade e de onde veio. Eu também não tinha falado minha idade, mas mesmo assim sentia que ele sabia muito mais de mim só por saber meu nome e de onde vinha.
—- Meu irmão Samuel adora brincar na chuva. Ele tem 6 anos. São 10 anos de diferença, mas mesmo assim a gente se dá muito bem. -- senti que ele tinha se entregado de propósito. Agora eu sabia sua idade, era a mesma que a minha.
—- Você brinca na chuva com ele?
—- Mais ou menos. Eu tenho certeza que ele deve estar fora do castelo agora. Isso se nenhuma criada o pegou e colocou pra dentro. E se ela fez isso, ele provavelmente deve estar emburrado olhando pra chuva pela janela.
—- Você o conhece muito bem mesmo. Eu nunca tive irmãos.
—- Filha única? É meio solitário, eu imagino. Eu nunca quis um irmão, mas eu gosto bastante do Samuca.
—- Acha que é tarde demais para se ter um irmãozinho?
—- Você tem que perguntar isso pro seus pais, não pra mim. -- ele riu.
Já tinha passado meia hora e a chuva não aparentava mudança. Um raio iluminou o céu indo em direção ao castelo. Veio um relâmpago seguido de um estrondoso trovão. Eu me encolhi. Ele riu.
—- Você gosta de dançar? -- eu perguntei.
—- Dançar? Eu nunca dancei, eu acho.
—- Sério? Levante-se, dance comigo. -- eu levantei e o puxei.
Eu sabia dançar desde os 11 anos. Meu pai me ensinou a dançar valsa, para meu aniversário de 15 anos. Com 14 anos eu comecei a namorar e esse garoto me ensinou a dançar tango. Ele tinha aprendido com a ex namorada. Ele era dois anos mais velho que eu. No meu aniversário de 15 anos, dancei tango com ele e valsa com meu pai. 3 meses depois, terminamos.
—- Eu realmente não sei... -- eu o interrompi.
—- Eu te ensino. Siga meus passos.
Começamos a dançar no coreto. Eu com um vestido longo de princesa, encharcado. Ele com uma roupa social encharcada. Me perguntava se os cavalheiros também tinham que usar roupas sociais, porque claramente ele não era um príncipe, estava sem coroa. Coroa. Minha coroa! Eu interrompi a dança e comecei a procurá-la. Não estava ali. Onde eu tinha colocado ela?
—- Está tudo bem?
—- Não, não está. Eu perdi minha coroa.
—- Você deve ter deixado no outro coreto.
—- Meu Deus, e agora? Vou ter que ir pela chuva de novo?
—- Quer que eu vá com você? -- ele parecia um verdadeiro cavalheiro.
—- Você vai se molhar...
—- Está tudo bem. Vamos. Sempre quis dançar na chuva.
Ele me puxou em direção à chuva. A coroa realmente estava no outro coreto, caída no chão. Fiquei com medo de perdê-la. Ele pegou a coroa do chão e colocou em mim. Meu coração acelerou. Voltamos para a chuva, em direção ao outro coreto. Nós não corremos, apenas caminhos tranquilamente, enquanto as gotas de água caíam sobre nossas faces. Decidimos parar no meio do caminho e dançar. Ele pegou minha mão suavemente e me conduziu. Ele errou os primeiros passos, então eu o ajudei e o conduzi. A chuva já não estava mais tão forte, o Sol tinha saído e provavelmente surgiria um arco-íris no horizonte. Ele sorriu pra mim. Eu devia estar horrível, mas também sorri pra ele. E assim conduzimos essa dança na chuva, até ela passar.
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