A Coffee Tale
3 Capítulo 3
Kurt respirou fundo. Sentiu a queimação da caneca fervente em suas mãos, inspirando o cheiro da bebida. Havia se passado cinco dias desde seu encontro com Blaine Anderson e o Hummel aproveitara todo o seu tempo restante para terminar Olhe Para As Estrelas, enquanto os vai-não-vai da assinatura do contrato aconteciam.
No entanto, ele não tinha mais esse luxo. A assinatura do contrato fora ontem – o único momento nos últimos dias em que ele realmente esteve com Blaine, mesmo que nem aí tivesse falado direito – e hoje, sexta-feira, Kurt estava indo para Londres.
O voo seria de tarde. Kurt já tinha as suas malas prontas, tudo estava pronto, de facto. A única coisa que ele não arrumara fora seu laptop, pois ainda permanecia na tentativa falhada de escrever algo mais em seu livro antes de o abandonar por um mês inteiro.
Ao seu lado, seu celular vibrou. Kurt atendeu sem nem olhar o visor, não vendo assim o número desconhecido que o contactava: ― Alô?
― Oi, Kurt. ― o escritor assustou-se ao ouvir a voz rouca e o sotaque inglês que ele já reconhecia. ― Como vai?
Kurt ficou alguns segundos sem responder, ainda chocado com a ligação de Blaine. O que ele queria? Kurt não entendia aquele garoto, que uma hora dava em cima dele e outra hora passava tempos sem lhe falar. Era certo que Blaine não lhe devia nada, mas todas essas irregularidades e seus atos inconsequentes apenas aumentavam a dúvida de Kurt, sobre se deveria trata-lo por garoto ou homem.
― Olá, Anderson. Bem, e você?
― Guarde suas formalidades, Kurt. ― ele ouviu a risada de Blaine do outro lado. ― Me passe seu endereço, vou pegar você para irmos para o aeroporto. Você já viajou em primeira classe?
Kurt sabia que deveria sentir-se insultado; o facto, no entanto, é que Kurt nunca havia viajado em primeira classe. Ele também não sabia se deveria ou não dar seu endereço a Blaine – as variações e mudanças de humor do cantor assustavam-no.
― Vamos lá, Kurt. ― Blaine parecia ligeiramente impaciente, mas também divertido ― Você sabe que eu posso arrumar seu endereço de outro jeito, então por que simplesmente não mo dá?
― Se você pode ― Kurt perguntou, carregando sua voz de acidez ― Por que não fez?
― Porque eu queria ouvir sua voz ― Blaine respondeu prontamente ― Se anima, Kurt. Você vai adorar Londres. ― tentou. Kurt, no entanto, não estava muito animado. Novamente, Blaine oscilava como o pêndulo de um relógio: ora era gentil, ora era um babaca. Aquilo irritava Kurt profundamente.
Kurt resmungou alguma coisa sobre estar ocupado e desligou na cara de Blaine, grunhindo enraivecido. Ou Blaine era bipolar demais, ou Kurt era bipolar demais. E o escritor não conseguia decidir qual das opções era a certa.
Fechou seu laptop fortemente e colocou a caneca de café já vazia na pia, decidindo que estava na hora de se arrumar. Guardou o portátil na mala própria e colocou-a ao lado das outras duas malas que levava. Uma, tinha rodas e levava suas roupas, enquanto a outra era uma bolsa com seus bens mais pessoais, acrescentando agora a transportadora do laptop.
Kurt tomou seu banho, deixando que a água quente tirasse parte da sua raiva. Ele tinha que se controlar, mas o que fazer quando Blaine o deixava como um adolescente com os nervos à flor da pele?
Estava preparado para se começar a vestir, quando ouviu a campainha tocar. Merda, ele devia ter sabido que Blaine não estava mentindo! Ainda de toalha em sua cintura, abriu a porta, vendo o cantor encará-lo como se estivesse hipnotizado. Claro, sua vida já não era um karma suficiente e Blaine ainda tinha que o ver de toalha.
― Oi, Kurt, como vai? ― Blaine perguntou, tentando parecer casual. No entanto, sem sucesso. Sua voz saiu rouca e mais profunda do que ele desejava.
― Com frio ― respondeu o outro, dando passagem para que Blaine entrasse. ― Fique à vontade, Anderson, e me dê dois minutos.
Ele dirigiu-se ao seu quarto sabendo que seus dois segundos seriam quase meia hora. Vestiu um conjunto simples, tão simples quanto seu closet permitia. O seu cabelo era penteado em um topete simples e seu conjunto de blusa negra, camisa azul por cima e calças estampadas entre as mesmas cores era completo por um caso cinza.
Blaine, no entanto, se sentara no sofá negro do escritor do jeito mais folgado que conseguia. Ele observava a sala de estar do Hummel; era elegante, de facto. Havia dois sofás negros com suporte metálicos e duas poltronas do mesmo estilo, cinzentas. As almofadas eram brancas, com riscas pretas em várias direções. A mesa de centro era negra e tinha um jarro de flores cor-de-sangue, assim como umas revistas. Havia duas mesinhas, cada uma de um dos lados do sofá negro que ficava do lado das janelas; nas mesas, havia candeeiros de chapéu negro.
Para além disso, havia uma televisão grande e uma aparelhagem, ao lado de uma estante cheia de livros e mais livros. Blaine observou que a vista da sala era linda: via-se toda Nova Iorque dali. As paredes eram brancas e o chão era de madeira escura.
O cantor apercebeu-se que Kurt estava demorando. Pensando novamente no castanho, a memória dele somente de toalha assolou seus pensamentos. E Deus!, Kurt realmente era lindo.
Não era musculado demais, mas escondia sim alguns traços que endoideceram Blaine. Seus quadris eram tentadores e ele nem comentaria a bunda; de facto, com seu jeito inocente e suas respostas ácidas, Kurt tentavam Blaine mais do que ele mesmo poderia pensar.
Levantou-se. Não faria papel de bobo, com um gostoso como Kurt se vestindo em outra divisão e ele apenas ali olhando a decoração. Não. Dirigiu-se pelos corredores da casa, vendo que não tinha muitas divisões; uma cozinha com uma bancada central, seguindo as cores e a decoração moderna da sala, um pequeno escritório e um banheiro que Blaine achou verdadeiramente interessante para umas aventuras, tudo dentro do mesmo clima.
A última porta do corredor só poderia ser o quarto de Kurt, assim sendo, Blaine respirou fundo e abriu a porta rapidamente, na sua melhor performance da inocência de alguém que estava apressando outro:
― Hey, Kurt, você vai demorar? Vamos perder o avião, desse jeito ― a risada que Blaine deu foi divertida, embora internamente ele se amaldiçoasse ao ver que Kurt estava completamente vestido.
Quem não soubesse, perante o aparente jeito apressado, divertido e impaciente de Blaine, diria que tudo aquilo tinha sido inocente. Mas Blaine sabia; Kurt, no entanto, não pareceu aperceber-se das segundas intenções do moreno e disse:
― Tudo bem, estou indo. Espere só dois segundinhos ― ele sumiu no meio de uma portinha que havia no canto do grande quarto, que o cantor calculou que fosse um closet.
Após uma pequena checada ao quarto, Blaine não teve como negar que Kurt tinha bom gosto; havia um grande tapete felpudo branco, que cobria grande parte do chão de madeira escura. A cama de casal era enorme e, aos seus pés, havia um sofá com uma pequena mesinha, de frente para a enorme televisão que estava em cima da pequena bancada que saia da parede. Assim como o resto da decoração do apartamento, o quarto era todo em tons de branco, preto e cinza. E sim, Kurt tinha um ótimo gosto.
― Quarto legal ― Blaine disse, se sentando no sofá, vendo Kurt voltar ao quarto com um colete negro em mãos e murmurando um “folgado” ― Não me entenda mal, mas o que você faz para além de escrever?
― Por que pergunta?
― Convenhamos que um escritor da Páginas não conseguiria bancar um apartamento tão lindo e bem localizado como esse. ― Blaine coçou a cabeça, tentando ao máximo medir suas palavras para não ofender Kurt.
― Tudo bem ― Kurt soltou um sorriso ― Eu fui modelo durante vários anos, fiz várias coleções para a Vogue.
Blaine ficou verdadeiramente espantado. De facto, porém, aquilo explicava a elegância que o escritor esbanjava. Então, disse: ― Uau, cara! Isso é bem legal.
― É sim. ― Kurt parou por alguns segundos, com uma expressão indecifrável ― Mas esses tempos acabaram, eu sou um escritor agora. ― deu de ombros, pegando aquilo que Blaine identificou como sendo seu celular ― Enfim, vamos?
Blaine piscou, surpreso pela atitude apressada de Kurt. No entanto, não piscou a segunda vez. Levantou-se e, já na entrada do apartamento, pegou na bolsa azul que estava estrategicamente colocada perto da porta. Amparou-a no ombro e, então, colocou sua mão sobre a alça rija da mala de rodinhas, puxando-a.
Kurt, chocado, disse: ― O que você está fazendo, Anderson?
― Levando suas malas, oras! Vamos, Kurt, não temos tempo. Está esperando o quê? ― Blaine esbracejou, impaciente, apesar de estar rindo por dentro.
O escritor poderia discutir, mas Blaine parecia-lhe tão decidido que ele apercebeu-se que isso só os atrasaria. Pegou, então, na mala do laptop e ambos saíram do edifício.
O carro de Blaine já era conhecido para Kurt. Eles colocaram as malas de Kurt na traseira e entraram no carro. Blaine arrancou e, durante todo esse processo, foram em silêncio. Blaine ligou a música do carro, mas ambos concordaram que nada legal estava passando e logo o rádio foi desligado.
― Posso perguntar algo? ― Blaine perguntou, sorrindo gentilmente. Kurt assustou-se; já não era Blaine safado e arrogante ali, era o Blaine gentil e querido. Aquelas oscilações assustavam-no. Ainda assim, acenou positivamente ― Por que você me chama de Anderson? Quer dizer, eu até poderia entender, se você não tivesse me chamado de Blaine quando nos conhecemos. Por quê agora?
― Eu nunca chamei você de Blaine ― Kurt disse prontamente. ― Nunca ocorreu. Eu te chamo de Anderson porque eu estou trabalhando com você e não gosto de tratar as pessoas que não conheço com confiança demais. É anti-ético.
Blaine sorriu, divertido. Então, respondeu: ― Bom, eu peço que você me chame Blaine. Afinal, você nunca tinha me chamado pelo primeiro nome antes, mas isso não o impediu de flertar comigo. Então sim, eu acho que você tem confiança suficiente para me chamar Blaine.
Se sua face ficou vermelha, Kurt não poderia dizer. O facto é que um calor assolou suas bochechas e a boca do escritor ficou seca; ele não sabia o que responder. E lá estavam novamente, as oscilações. Kurt ponderou, até que ponto é que aquilo era saudável para si mesmo? Ele conviveria um mês inteiro com aquelas investidas e teria que trabalhar com elas. Ele estava reticente.
O resto do caminho até ao aeroporto foi silencioso. Nenhum dos dois disse alguma coisa e nenhum dos dois fazia questão de dizer; Kurt estava irritado com o que Blaine dissera e Blaine estava apenas divertido com a atitude do escritor – ele só queria ver quais eram os limites de Kurt e até onde ele iria.
Quando chegaram ao aeroporto, foram recebidos por uma grande quantidade de fãs de Blaine. Eles tiverem que ser escoltados por seguranças, mas isso não impediu Blaine de dar alguns autógrafos.
― Você e Blaine estão namorando? ― ele viu uma garotinha chamá-lo. Aproximou-se da garota e sorriu para ela, gentilmente. Então, Kurt respondeu:
― Não, querida, eu e Blaine estamos apenas trabalhando juntos.
A garotinha soltou um sorriso que Kurt não entendeu e foi saltitante encontrar a mãe. Após isso, Blaine, que Kurt descobriu ter observado tudo, puxou o mais velho pelo braço até ao avião, não sem antes murmurar no ouvido do castanho: ― Você me chamou Blaine.
Kurt congelou. O que Blaine esperava que ele fizesse? Que o tratasse por Anderson na frente de uma garotinha de seis anos? Blaine era, certamente, doido. Ainda assim, Kurt não pôde deixar de se arrepiar com a voz roupa do cantor perto de seu ouvido, lhe causando arrepios gostosos. Maldito fosse Blaine Anderson!
Já no avião, Kurt ficou pasmo ao observar o luxo da primeira classe. As poltronas pareciam bastante confortáveis e era muito mais espaçoso e luxuoso que qualquer voo econômico poderia ser.
Blaine indicou as suas poltronas que, para azar de Kurt – ou não –, ficavam lado a lado. Ótimo, oito horas de viagem lado a lado com Blaine Anderson. O que mais Kurt poderia pedir?
Blaine sentou-se, divertido com o deslumbre de Kurt. Este, logo depois, sentou-se também, acabando por pegar o lado do corredor. Menos mal, ele não gostava da janela. Viu Blaine mexer em seus pertences, mas quando a aeromoça anunciou que eles levantariam, ele sentou-se novamente e afivelou todos os cintos de segurança.
Eles levantaram e, já no ar, Kurt perguntou, ao ver Blaine mexer novamente em sua mala: ― O que vai fazer?
― Tenho que compor. ― ele disse, com um sorriso brincando em seus lábios. Kurt decidiu que aquela era uma boa ideia, pegando em seu laptop e abrindo o documento onde Olhe Para As Estrelas estava por terminar. Faltavam três capítulos, ele conseguiria.
Eles não trocaram mais nenhuma palavra nas duas horas seguintes. Blaine batucava o lápis no tabuleiro em sua frente, na tentativa de criar aquilo que Kurt identificou como um ritmo, ainda assim, ele estava desconcentrando Kurt. Assim sendo, Kurt decidiu que ouviria música.
Rondando a terceira hora de voo, ele voltou-se para Blaine e perguntou, já entediado: ― Que horas serão quando chegarmos?
― Quatro da manhã em Londres ― Blaine respondeu, sem tirar os olhos das folhas com fosse qual fosse a música que o cantor estava compondo. Kurt deu de ombros e voltou a atenção ao seu laptop. Ele digitava rapidamente, mais rapidamente e avançando mais do que se apercebera.
Mais tempo se passou e Kurt estava vidrado no que escrevia, tanto que não notou que Blaine o espiava com um sorriso engraçado em lábios.
― «Elliot suspirou, observando Juliet que, aos olhos de qualquer um, dormia serenamente… Mas não aos seus. É certo que, segundo os médicos, a operação tinha sido um sucesso e todo e qualquer resto de qualquer tumor maligno ou benigno sumira; mas Elliot sabia o que mais sumira juntamente com o tumor. Ele lembrava-se de dizer a Juliet para olhar para as estrelas, sempre que se sentisse triste. Mas e agora, o que ela veria, para onde ela olharia? Como ele teria coragem de encará-la sabendo que ela não o encararia de volta, sabendo que quebrara sua promessa? Elliot sentia-se impotente.
Traçava com o polegar os traços de tinta cravada na pele da morena que formavam aquelas belíssimas estrelas que agora ela nunca mais veria. O bip regular da máquina de batimentos acalmava-o e, ao mesmo tempo, irritava-o. Levou a mão da garota à boca, beijando fortemente e inspirando.
“Seja forte, Juliet. Ache as estrelas dentro de você e, faça o que fizer, olhe para elas. Siga-as. Eu te amo, não se esqueça disso.” ele sentia vontade de chorar, ainda massageando a mão da garota. Notou, então, uma agitação por parte da garota.
Ele viu os lábios agora gretados da garota mexerem-se levemente, dizendo aquilo que ele mais temia ouvir: “Mas Elliot… Cadê as estrelas?”» ― Blaine leu, observando o escritor que tinha os olhos fechados e a face levemente avermelhada; Blaine sabia que não era por vergonha ― Terminou?
Kurt foi arrancado de seu transe pela pergunta de Blaine. Ele encarou tudo aquilo que escrevera, encarou cada letra e cada palavra. Então, com a voz fraca, carregada da emoção que ele não se apercebera, e com lágrimas por cair em seus olhos, disse:
― E-eu… ― Blaine olhava-o em expectativa ― Eu acho que sim, Blaine.
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