A Cerejeira da Estrada de Ballete
2 Cap II - O Reporter
Thomas organizava o equipamento na van checando se tudo que iria precisar estava ali. Seus olhos transitavam entre as caixas e maletas metálicas marcando em sua lista mental os certo’s. Lentes certo, tripé certo, câmera certo, baterias extras, balas de menta certo, microfone certo…
—Café? — perguntou Anthony encostando contra a porta da van, praticando seu carisma de repórter com o jovem que sequer o ouvia- cara, um dia essa sua concentração exagerada vai sair pela culatra.E Thomas apenas o entregava um copo grande de café sem responder. Mais uma parte de sua rotina, todo dia util sair de casa antes do sol nascer, admirar sua paixão intocável, comprar um café black hole na ‘’Cafeteria Astar’’ antes de pegar o segundo ônibus, e ir preparar a van antes de sair com Anthony, sempre preso à rotina. O rapaz termina sua inspeção, fecha a porta lateral da van e encosta contra a van junto de seu colega.— O que você falou? — perguntou o rapaz .— Que você fica muito gato quando está concentrado — respondeu o repórter antes de ajeitar a gravata e beber um pouco de seu café.—Trouxe meu café da manhã? — perguntou Thomas —Você come no caminho, Patrícia já mandou o destino da vez — os dois entram na van, Antony dirigia com sua pressa costumeira no limite da velocidade nunca acima mas bem próximo ao ponto de fiscais checarem duas vezes seus velocímetros, e Thomas tomava o café da manhã reforçado que ganhava em troca pelo Black hole, como Antony morava próximo a emissora e acordava cedo, preparava o café pro amigo e sua namorada Sarah antes de sair — parece que vão incendiar um ônibus na Via das Rosas e ela quer três entrevistas com testemunhas e diferentes ângulos das chamas .—Tranquilo, ao vivo?- o jovem já atacava sua segunda torrada.—Não. Falando em ao vivo a Sarah me pediu em casamento — disse o repórter rindo. —Normalmente não é o contrário? — terceira torrada. —Sim mas ela foi esperta como de costume. Eu estava prestes a dormir quando ela jogou que devíamos nos casar pois nenhuma mulher na família dela chegou aos trinta sem estar casada e que a mãe dela estava fazendo pressão porque já estamos juntos desde quando eu tinha dezessete e blablablá . Eu com o sono batendo falei para ela que casamento era apenas um gasto de dinheiro e tempo, dinheiro com cerimônia e festa, e tempo no cartório com toda aquela burocracia. Você sabe que quero passar o resto da minha vida toda com ela, e ainda tive a sorte de encontrar ela tão cedo e rapaz se ela ficou comigo no meu ápice da estupidez o resto é moleza. O ponto foi que a amo e não preciso de papel, padre ou estado para formalizar isso! Só um anel caro e uma tatuagem! — disse segurando uma risada maligna. —Eu sabia que você ia estragar de alguma forma, eu gosto de casamentos acho bonito o simbolismo, sabe trazer aquela conexão que as duas almas fizeram e mostrar aos familiares e amigos o quão belo é seu amor- Thomas dizia entre o mastigar dos ovos com bacon. —Bem o irmão dela ainda me odeia e a mãe me acha estúpido. Ainda vamos nos casar! Mas falando em amor, e sua estrela do ponto? — Antony avançava mais um sinal.—Você poderia apenas ter dito que queria falar sobre ela, pera, não era cerejeira ?- perguntou ainda a mastigar —Achei que iria evitar já que tenho certeza que não falou com ela e só ficou encarando, e, estrela è melhor, cerejeira é bonita tem seu encanto tem todo aquele simbolismo e blabla mas, estrelas são brilhantes, bonitas e mais importante ainda — aproveitando a pausa do sinal que não ultrapassou, ele se vira para Thomas dando um toque de mistério no olhar antes de falar e soltar a risada maligna- inalcançável!—Ta que pariu, porque eu ainda falo com você? Eu vou falar com ela!- se queixou envergonhado.—Quando? Essa semana, mês, ano? Acha que ela vai ficar a vida inteira no mesmo ponto todo dia a mesma hora? Espero que não. A quanto tempo você tá nessa? — a preocupação na voz do repórter só piorava a vergonha do rapaz.— Três semanas, mas eu estou juntando coragem! Eu também não sei o que dizer, eu não sou bom com palavras, eu não sou câmera à toa — seus olhos pousados no tapete da van, evitando pensar nela ou olhar pra ele como uma criança levando bronca — mas ... deixa isso de lado, não vou conseguir me focar no trabalho. Com oque a Sarah trabalha mesmo?— Ela ... é dona de uma livraria — respondeu Anthony relutante em deixar o rapaz escapar — cara pelo menos chama ela para ser sua acompanhante no meu casamento, seria um bom par para o padrinho! —É o que? — gritou.
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