A Caçadora - A Supremacia
8 O Monstro - &
Notas iniciais

O homem a minha frente deu uma tragada no cigarro e baforou enquanto tramava sua “jogada de mestre”, como ele gostava de chamar. Mordi o interior da boca e apoiei meu corpo na mesa de bilhar, tentando entender o que diabos ele estava fazendo.
Humanos eram idiotas e não percebiam isso.
– Você está me desconcentrando, Alex. – ele sussurrou irritado e levemente bêbado.
Ri e me afastei o suficiente para alcançar mais uma bebida no bar, lançando uma piscadela para a bartender loira que vinha me cantando desde que chegara ao bar. Dei um longo gole na Budweiser gelada, sorrindo em satisfação.
A loira me lançou um olhar inconfundível, sussurrou algo para a outra loira ao seu lado, que somente riu, e apontou com a cabeça para a saída de funcionários que dava na parte de trás do bar, e saiu pela porta, certificando-se de olhar por cima do ombro para ver se eu a acompanharia.
Deixei o taco de madeira apoiado no suporte e arrumei a jaqueta de couro, seguindo pelo mesmo lugar onde a mulher tinha saído. A encontrei alguns metros de distância de mim, mordiscando o lábio inferior de uma maneira que poderia ser considerada como sexy até demais.
Sem esperar que a mulher falasse alguma coisa andei em sua direção, puxando sua cintura para colar em meu corpo, fazendo questão de botar mais pressão do que necessário, ouvindo-a gemer de prazer sem que eu nem tivesse tocado em nenhuma parte de seu corpo.
– Qual o seu nome, querida? – minha voz saiu baixa e rouca.
A loira bateu os cílios vezes demais e fixou os olhos castanhos em minha boca.
– Lena. – seu nome fez com que algo dentro de mim se revirasse desconfortável.
Seria fome? Impossível. Eu tinha me alimentado fazia menos de três horas...
Antes que eu pudesse perguntar sobrenome, ela murmurou, ainda sem perder o charme:
– E o seu é Alex, certo?
Sorri de canto.
– Como sabe?
A loira deu de ombros e arrumou a mecha de cabelo tingido atrás da orelha, fazendo questão de roçar a mão em meu peito, e por dentro de minha jaqueta de couro.
– Todo mundo sabe quem você é.
– E o que eles dizem sobre mim?
Levantei uma de suas pernas, fazendo questão de passar a mão por toda a sua extensão, e apertá-la, vendo que estava tão arrepiada quanto possível, mas ainda assim usava uma saia para atrair clientes, o que facilitava a passada de mão.
– Melhor não dizer.
Apertei-a mais ainda e a fiz olhar dentro de meus olhos. Quando senti sua mente conectada com a minha, murmurei:
– O que eles dizem sobre mim, Lena?
A hipnose faça o favor de lhe fazer soltar a verdade e a loira disse roboticamente:
– Que você matou William.
Balancei a cabeça e fiz barulhos de estalido com a língua.
– Mas eles não sabem o que falam, certo Lena?
Ela mesma balançou a cabeça.
– Não. Todos eles estão errados.
– Isso mesmo. – murmurei. – William foi atacado por um urso. Um grande e malvado urso.
Ela assentiu novamente, sem ter a menor noção do que fazia.
Minha boca salivou e eu quebrei a conexão, deixando que a mulher voltasse a seu estado normal.
– Estou louca para beijar você. – ela sussurrou e eu quase ri.
– Teremos bastante tempo para isso uma vez que eu provar só um pouquinho do seu sangue. – mordi seu lóbulo.
Virando o pescoço para o lado, abaixei parte de sua blusa de frio expondo o ombro fino e Lena gemeu de leve quando passei a língua de sua clavícula até a base da orelha, mordiscando. Era possível ouvi-la respirando cada vez mais forte e seus batimentos cardíacos aumentando.
– Isso vai doer pra caramba. – murmurei e tapei sua boca com a mão, impedindo-a de gritar mais alto do que a música que tocava dentro do bar.
Cravei meus dentes em sua clavícula e suguei o suficiente para me sentir satisfeito. O corpo da menina já mole em meus braços. Sua pele pálida e círculos ao redor dos olhos denunciavam a exaustão.
Peguei-a bruscamente pelo pescoço, forçando-a a olhar para mim.
– Você não vai falar para ninguém o que aconteceu aqui. Se qualquer pessoa perguntar, como sua amiga burra no bar, você dirá que foi inesquecível, estamos entendidos? – exigi enquanto estabelecia uma conexão tão forte quanto conseguia. – E você machucou o ombro num ferro exposto
Ela assentiu como uma marionete levantando a manga da blusa que agora estava parcialmente empapada de sangue e sorriu voltando ao normal, acariciando o local da mordida com o rosto retorcido de dor.
– Puts, parece que vou ter de levar alguns pontos... Posso até pegar tétano.
E se voltando para mim, mordeu minha boca, roubando um beijo que eu já esperava, sussurrando a seguir:
– Foi muito bom.
Dei um meio sorriso para confirmar o que ela achava que tínhamos feito e limpei o canto da boca que continha um traço de minha refeição e afirmei enquanto via Lena entrar no bar pela porta que tínhamos saído há alguns minutos:
– Foi sim.
Senti minha cabeça girar enquanto tentava achar uma conexão com o nome da garota e qualquer que fosse a outra coisa que me fazia ter rebuliços no estômago, e tive de me apoiar na parede do beco.
Era possível ouvir ao longe a sirene do carro de polícia passar na frente do bar, e a conversa tão alta e clara como se eu estivesse dentro do carro com os dois homens, enchendo meus ouvidos.
“A garota disse que não viu mais nada, mas que tinha uma pessoa.” Uma voz fanha e estridente disse.
“Como assim?” A outra pessoa retrucou, parecendo mais interessada na conversa do que antes. Era possível sentir sua excitação floreando por suas entranhas.
“Ela disse que estava na floresta e um cara foi arremessado nas árvores quando uma figura pequena levantou as mãos.” A voz estridente murmurou baixo como se tivesse medo de que alguém os pudesse ouvir.
Juntei as sobrancelhas em confusão. Por um momento, enquanto me concentrava na conversa, pensei que falavam sobre o assassinato de William, mas agora eu não tinha mais tanta certeza.
“Garret, não estou acompanhando.” A outra pessoa sussurrou no mesmo tom que o cara da voz estridente, e suspirou. “Se a menina não viu mais nada, como ela poderia ter visto a figura?”
Quase sentir o dono da voz estridente dar de ombros e tamborilar os dedos no volante, balbuciando “Ainda não foi divulgado pela imprensa. Talvez saia hoje.”
Olhei em meu próprio relógio e vi que já se passava das cinco horas da manhã; muito cedo para alguém estar tomando uma cerveja em um bar, mas as pessoas não pareciam se preocupar com isso.
E como o policial de voz fanha disse anteriormente, logo pela manhã a notícia estava estampada na primeira capa de todos os jornais e até mesmo na internet. JOVEM MORRE DEPOIS DE COLIDIR COM UMA ÁRVORE; AINDA NÃO SE TÊM SUSPEITOS.
Tentei ignorar o fato de que conhecia quem tinha provocado aquela morte. Eu nunca matava. Não por minhas mãos pelo menos. Muitas vezes os compelia a se jogarem do último andar do prédio, ou se enforcarem, ou cortarem a própria garganta. William tinha sido um deslize, mas talvez ter poupado Meena não tivesse sido a melhor ideia de todas.
Coloquei o casaco em cima do ombro, e saí pela porta, ignorando o fato de que estava muito frio para ficar do lado de fora, e me pus a caminhar pelas calçadas cobertas com uma camada fina de gelo que começava a se formar. Eu adorava o frio e a sensação que ele trazia.
Arrumei a touca que carregava na cabeça, e coloquei óculos escuros. Não queria ser reconhecido, mas em cidade pequena todo mundo conhecia todo mundo, e sabia da vida alheia. Talvez cidade pequena fosse o meu carma pessoal, mas eu não ligava. Elas eram acolhedoras como o abraço de uma mãe.
Lembrei-me de meu próprio pai matando minha mãe e de como senti satisfação quando quebrei seu pescoço e dilacerei seu corpo. E de como chorei como uma criança logo após. Sozinho no mundo. Cheio de ódio e não sabendo quem era e no que havia me tornado.
Sentei-me no banco do pequeno parque enquanto assistia às crianças fazendo seus bonecos de neve todos tortos e mirabolava uma maneira de fazer com que minha memória voltasse até o dia em que me lembrava de ter chegado a cidade de Sleepy Hollow.
Apoiei a cabeça nas mãos e encarei o chão branco e gelado, tentando lembrar.
Tinha acabado de chegar à cidade e encontrei... alguém. Uma mulher, isso eu me lembro. Seu rosto era um borrão esquisito e eu não conseguia distinguir sua voz. A salvei de algo e era só isso de que eu me lembrava.
Bati com o punho fechado na cabeça, bufando de raiva, tirando a touca e jogando-a no chão, me levantando completamente sem paciência, somente para ver que uma criança de quase oito anos me olhando como se eu fosse maluco. O menino baixo e caminhou em minha direção, se aproximando o suficiente pra pegar a touca e entregar para mim.
– Obrigado. – respondi sem vontade.
– Não precisa ficar bravo. – ele sussurrou. Seus olhos brilharam em um intenso amarelo dourado e então voltaram a ser pretos como ônix. E eu tive certeza de que aquela criança não era humana. – Um dia tudo se ajeitará.
Segurei o rosto da criança com cuidado e abri a boca tentando pronunciar qualquer coisa, mas minha respiração entrecortada denunciava que nada sairia.
– Lassai já preparou todo o seu destino. – o menino deu um sorriso repuxado, deixando os dentes afiados à mostra, me fazendo soltá-lo de supetão.
– Jeremy! – outra voz gritou, desta vez uma mulher. Eu não duvidava de que aquela era sua mãe. Ela me olhava feio e eu podia entender o porquê. Afinal, tinha acabado de segurar seu filho de uma maneira um tanto quanto brusca.
– Boa sorte, Kaus. — meus olhos se arregalaram conforme a criança se afastava e ia em direção a mulher que gritara.
Apertei a toca nas mãos e arrumei o casaco que se abrira levemente, vendo as duas pessoas rumarem para fora do parque. Minha pele estava em chamas.
Eles estavam em todos os lugares. Meus semelhantes.
E eu não estava a salvo.
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