A Caçadora - A Supremacia
9 Meena - £
Notas iniciais

Apoiei as costas no batente da porta que dava acesso à cozinha enquanto observava meu irmão arrumar as armas no cinto e encaixar uma pequena faca na bota. Algo dentro de mim se remexeu incomodamente.
– Está tudo bem? – ele perguntou, pela primeira vez me olhando.
Ele voltou a remexer no cinto.
– Também está pensando no quadro?
Limpei uma lágrima solitária que escorrera de meu olho sem motivo algum e sorri.
– Fica difícil não pensar quando ele está pendurado na parede da sala.
Jason revirou os olhos.
– Você ficará bem enquanto nós estivermos fora, certo? Não vai sair e nem fazer nenhuma besteira, não é? – sua voz era preocupada, mas com um tom de seriedade que eu nunca tinha ouvido.
Mais uma vez sorri e mantive minha postura ereta, cruzando os braços por cima do peito, sentindo meu cabelo roçar em meu braço direito.
– Não farei nada que você não faria.
Ele me deu o olhar de aviso – um olhar que eu vinha recebendo muito ultimamente – e levantou uma sobrancelha, parecendo perder o interesse em arrumar as armas.
Bufei de leve e caminhei em sua direção, fazendo questão de ajeitar a jaqueta de couro em seus ombros e tocar em seu nariz, fazendo graça, tentando amenizar o clima tenso.
– Fique tranquilo, irmãozinho. – murmurei para acalmá-lo, mas não pareceu surtir efeito nenhum. Toquei meu pescoço e senti a correntinha com a inicial de Fitch. Meu coração palpitou alto. – Queria ter alguma coisa para te dar proteção nessa missão, mas não tenho.
Ele sorriu e beijou minha testa, puxando meu corpo para perto, acariciando meus ombros. Era possível sentir o cabo da arma machucando meu quadril.
– Vai ficar tudo bem, mana.
Assenti e lhe soltei, enrugando o queixo para não chorar.
Meu irmão estava indo em uma missão e eu não estava autorizada a ir também e consequentemente não o poderia proteger. Se algo acontecesse com meu irmão eu seria capaz de matar alguém.
Jason me abraçou mais uma vez e murmurou:
– Se dormir agora, quando acordar eu talvez já esteja de volta.
Forcei um sorriso e ouvi a porta da frente ser aberta. A voz de Edward se fez presente.
– Já está pronto?
Queria dizer que não conseguiria dormir até ele voltar, e que minha cabeça ficaria cheia de preocupações por não saber como ele estava. Queria ir com eles.
Larguei meu irmão e coloquei as mãos no bolso da calça jeans, me forçando a virar para Edward. Ele entrou na cozinha e me lançou um olhar estranho e que eu não consegui entender, mas Jason saiu do cômodo sem lhe responder, deixando-nos em um silêncio desconfortável.
– Helena...
Levantei uma mão impedindo-o de continuar.
– Eu já entendi, Edward.
Ele expirou fortemente, mas não sem paciência e se aproximou de mim, beijando o alto de minha cabeça.
– Desculpe por estar fazendo isso.
Me afastei e apontei a porta com o queixo, não lhe respondendo e nem ao menos dando indícios de que já tinha perdido a paciência com ele há muito tempo.
– Cuide dele da mesma maneira que você cuidaria de mim.
Edward sorriu.
– Eu sempre cuido.
E simplesmente saiu.
Eu não fiz objeção nenhuma, nem ao menos me mexi quando eles bateram à porta da frente. E muito menos fiz escândalo. Não tinha mais idade para fazer escândalo, e muito menos por estar de “castigo”, como Edward tinha chamado anteriormente. Eles estavam preocupados comigo, isso eu tinha certeza, mas não tinham a necessidade de me manter como prisioneira.
Vesti minha calça escura de ginástica e um blusão de Edward, calçando meus sapatos de treino e colocando o iPod no bolso do blusão, enfiando os fones no ouvido. Saí de casa sem nem ao menos ligar para as ameaças de meu companheiro que ainda vibravam no fundo de minha cabeça, e comecei a correr em direção ao nada.
Corri até não aguentar mais. Corri para não pensar em Kaus, nem em Polux, nem em Fitch e muito menos em Edward e Jason que teriam um chilique se eu não voltasse antes deles para casa. Corri até encontrar um táxi, entrei nele, e rumei em direção ao hospital que tinha estado internada, com um pensamento só na cabeça: precisava saber o que tinha acontecido com Meena e o que tinha a atacado. Precisava ter a certeza de que não era Kaus o criador de todo aquele caos.
Quando cheguei ao hospital, estendi minha habilitação e disse que iria visitar Meena, e a mulher que estava na recepção nem ao menos dirigiu o olhar para mim e muito menos fez menção de pegar a carteira de motorista de minha mão, simplesmente me entregou um passe-livre para poder entrar no hospital e fazer o que eu quisesse.
Como não sabia para onde ir, tive que pedir informação para duas enfermeiras que sorriram amigáveis, diferentemente da mulher da recepção, e me indicaram o caminho correto.
Os corredores excessivamente claros cheiravam a éter e desinfetante, o que irritava minhas narinas e me fazia ter a vontade de espirrar. Aquele cheiro me lembrava morte.
Ninguém sequer olhava em minha direção, como se não fosse estranho uma mulher vestindo roupas de ginástica, completamente suada e esbaforida, carregando nada mais do que um celular, um iPod e a carteira de motorista, perguntando sobre uma menina que tinha sido atacada por um “urso”.
Estava começando a pensar se estava invisível ou se as pessoas por ali eram cegas, quando um enfermeiro alto quase me derrubou quando passou por mim, e sorriu de leve pegando em meu braço, firmando-me novamente no chão, e se desculpando rapidamente.
Definitivamente não estou invisível, pensei enquanto massageava o ombro machucado pelo impacto.
Quando encontrei a porta que tanto procurava, meu coração acelerou ainda mais. Agora eu temia que talvez ele fosse sair pela boca. Meu estômago se contorcia dentro de mim e minha língua parecia dormente, assim como grande parte de meus membros. Mas mesmo assim arrumei uma maneira de fazer com que minha mão batesse na porta.
Não esperei uma resposta e simplesmente entrei, dando de cara com duas pessoas, um homem e uma mulher, carregando grandes pastas e falando rápido demais com uma terceira pessoa escorada no canto do quarto, que segurava a mão da menina deitada no leito. Todas as pessoas aparentemente conscientes do quarto se viraram para me olhar, e eu corei até a raiz dos cabelos.
A mulher morena e carregando um bloquinho de notas na mão não sorriu para mim e continuou a falar com a outra mulher, parecidíssima com a menina deitada, que deveria ser a mãe de Meena – pela maneira possessiva que agarrava a mão da garota.
– Se souber de mais alguma coisa, Sra. Johnson, pode nos ligar. – e estendeu um cartãozinho azul em sua direção.
A mãe de Meena hesitou em pegar o cartão, mas finalmente cedeu e isso rendeu um pequeno sorriso da outra mulher.
O homem arrumava a pasta rapidamente e lançava alguns olhares para mim, quase cautelosos.
– E quem é você? – a voz grossa da mulher – não a mãe de Meena – disse.
Meu cérebro demorou pra entender que era comigo que eles estavam falando, e pensei seriamente em me virar e sair pela porta, fingindo que tinha entrado no quarto por engano. Mas ficar aquele tanto de tempo dentro do quarto para ser somente um engano, parecia soar falso demais e irreal.
– Eu sou uma amiga de Meena. – disse com a voz abalada.
As pessoas no quarto provavelmente deduziram como ser de uma enxurrada de emoções e tristeza por ver minha “amiga” naquele estado, mas eu estava apavorada em saber que a garota deitada poderia acordar e dizer: “Ei, eu não te conheço de lugar algum!”.
Isso eu definitivamente não conseguiria explicar.
Mas ao invés disso, a mulher levantou uma sobrancelha e anotou algo em seu bloquinho de anotações. O homem ainda estava no mesmo lugar, e me encarava como se tivesse crescido mais uma cabeça em meu pescoço.
– Quis dizer seu nome. Qual é o seu nome? – a mulher dizia as palavras como se estivesse falando com uma criança.
– Andy. Andy Gilbert. – disse o primeiro nome que me veio à cabeça. Andy fora uma amiga minha antes de eu ser expulsa de casa.
O homem pareceu suspirar de leve, o que não passou despercebido por mim, e eu dei um passo adiante, com o firme pensamento de manter minha farsa até que Meena acordasse.
– E conhece a menina de onde?
Engoli seco e me virei para a mulher que me encarava com um ar de superioridade.
– Você realmente acha que eu ficarei aqui respondendo à suas perguntas idiotas? Eu vim ver minha amiga, e não saio daqui até poder falar com ela! – gritei sem nem me importar por ter uma pessoa adormecida no cômodo.
Até mesmo a mulher deu um passo para trás, chocada com minha atitude.
Eram tantas as perguntas que eu tinha acabado me descontrolando. E se o meu objetivo era assustar a mulher, eu definitivamente havia conseguido.
– Desculpe. – sussurrei e me aproximei do leito. Percebi a respiração de Meena alterada e sorri de leve.
Ela não estava dormindo.
Pelo menos não mais.
– Sem problemas, Andy. Mas que esse desacato não se repita. – a policial/detetive/metida-a-besta disse e fez um sinal para que o homem a seguisse.
Se aquela mulher não fosse o dobro do meu tamanho, eu certamente teria partido para a briga. Mesmo que não fosse necessário.
A mãe de Meena, que tinha assistido a tudo em silêncio, suspirou quando eles saíram pela porta.
– Sinto muito por ter gritado, mas eu estava tão preocupada com ela...
Antes que eu pudesse continuar, ela levantou a mão.
– Minha filha não tinha nenhuma amiga. – ela me interrompeu. Eu engoli seco enquanto tentava secar minhas mãos na calça de ginástica de modo discreto e que não denunciasse o quão perto de um colapso eu estava. – Não que eu saiba, pelo menos.
E então ela olhou para mim, soltando a mão da filha em vindo em minha direção. Eu podia jurar que ela berraria em minha cara dizendo que eu não era Andy Gilbert porcaria nenhuma, e que sua filha não conhecia nenhuma Andy, mas a mãe de Meena somente me abraçou e fungou algumas vezes em minha blusa de moletom grande o suficiente para caber duas de mim.
– Obrigada por ter vindo até aqui. – e fungou mais. – Todas as pessoas que vem, só tem o propósito de fazer perguntas repetitivas e não para ver como Meena está.
Ela se afastou de mim, mas ainda segurando meus ombros, agradeceu.
A mãe de Meena não se importava de não me conhecer, de não saber meu nome direito ou por não saber o que eu queria com sua filha. Ela só estava agradecendo por eu estar ali, do seu lado, quando ela mais precisava.
– Você veio, Andy, para ver como Meena está. E mesmo que eu não te conheça ou tenha tido consciência de sua existência até agora, – ela riu um pouco de sua própria piada. – sempre me lembrarei de você.
E então ela saiu pela porta, deixando-me sozinha com Meena que respirava com dificuldade e fazia alguns ruídos. Pensei que talvez sua cânula de oxigênio estivesse em mal funcionamento, e suspirei aliviada quando vi que não era isso.
Me sentei na beirada da cama e senti o corpo de Meena se tensionar.
– Está tudo bem, querida. Não vou fazer mal algum com você. – tentei lhe convencer usando a voz mais doce que poderia produzir.
Ela abriu os olhos esverdeados e me encarou.
– Foi o que ele disse.
Resisti a tentação de abaixar a cabeça e deixar uma lágrima escorrer livre por minha face e ao invés disso lhe encarei, trancando a mandíbula.
– Eu sei.
Isso pareceu a pegar de surpresa.
– Você também foi atacada?
Sorri tristemente.
– Quase isso. – e quando ela não entendeu, mordisquei o lábio enquanto pensava em uma maneira de dizer que o homem que a atacara era o irmão do meu finado noivo. – Eu o conheço, Meena.
Ou conhecia, adicionei mentalmente.
Seu queixo se enrugou e ela parecia estar a ponto de chorar.
– Ele também te machucou?
Não.
– De certa forma. – admiti, me sentindo como uma tola.
Meena se ajeitou no leito.
– Como me encontrou?
Tive que respirar algumas vezes e me concentrar em não dizer besteira. Não seria fácil lhe explicar que o que a tinha atacado não era humano, e que eu trabalhava para uma empresa que desejava vê-lo morto.
– Quando eu quero encontrar alguém, eu consigo. Digamos que tenho meus contatos. – expliquei. O que não passava de uma completa mentira. Eu não tinha contato nenhum e as pessoas que tinham me contado onde Meena estava eram as pessoas que eu não queria ver agora.
Ela levantou a sobrancelha não parecendo muito satisfeita com a minha resposta, e colocou as mãos cruzadas em cima do peito.
Expirei lentamente enquanto formulava outra resposta em minha cabeça.
– Vamos dizer que sei quem te atacou e se tiver que mata-lo por isso, farei. – minha voz não tremeu com a mentira e eu agradeci. Mas talvez ela identificasse como nervosismo e não mentira.
A frase fez com que seus olhos marejassem.
– Você vai mata-lo? Por mim?
Assenti enquanto sentia o bolo se formando em minha garganta, quase me impedindo de respirar.
– Nunca mataram ninguém por mim.
– Ainda bem!
Ela me acompanhou nas risadas e ficou em silêncio, deixando que algumas lágrimas corressem soltas pelo rosto.
– Ele matou Will. O monstro matou meu noivo. O pai do meu filho, Andy! – ela segurou a barriga protetoramente.
Me afastei levemente.
Meu Deus do céu.
– Você está grávida? – perguntei com um tom de censura na voz, mantendo-a baixa o suficiente para que nenhum curioso conseguisse a ouvir, nem mesmo com o ouvido colado na porta.
Meena não conseguiu esconder a gratificação que agora estava estampada em seu rosto.
– Sua mãe sabe disso?
E o brilho sumiu tão rápido quanto apareceu.
– Não tive a oportunidade de contar pra ela.
– Eu quero que me diga o que você viu. E com detalhes. – balbuciei ainda tomada pelo choque.
Ela balançou a cabeça e fechou os olhos.
– É impossível. Já tentei me lembrar de tudo, mas parece que minha memória não passa de um borrão. Em um momento estou abraçada com Will e fazendo juras de amor eterno, e ele prometendo faria qualquer coisa por nosso filho, e em outro acordo aqui.
Tive que manter minha compostura para não chorar de raiva.
Aquele crime me parecia ridiculamente improvável até mesmo para Kaus. Eu não conhecia todos os seus crimes e o que ele era capaz de fazer, mas eu conhecia Kaus. Ele não era um monstro.
Não o tipo de monstro destruidor de lares.
Esse não era meu Kaus. Meu Kaus era humano e estava desaparecido, e não tinha nenhuma ligação com a morte de William.
Eu me recusava a acreditar.
Depois de vários minutos em silêncio, me levantei e ajeitei o casaco de moletom. Meena deu uma olhada em mim pela primeira vez e sorriu, sentando ereta no leito. Ela não era muito mais velha do que eu, e seu cabelo tão loiro quase branco estava preso em uma trança de lado. Ela colocou a mão na boca para impedir a si mesma de rir e eu vi o anel de noivado cintilar em seu dedo. Um aperto em meu peito se fez presente.
– Deveria estar desesperada para me ver, mesmo. – ela disse e apontou para minha roupa de ginástica.
Dei de ombros e sussurrei como se compartilhasse um segredo:
– Correr faz bem, e ainda mais quando é para se ver uma amiga grávida no hospital.
Rimos e ela sorriu.
– Temos o sobrenome parecido, sabia? – murmurei sem pensar.
Ela juntou as sobrancelhas.
– Gilbert não é parecido com Johnson.
Meu sorriso se alargou e eu me inclinei sobre a cama, murmurando perto de seu ouvido.
– Mas Jameson é.
Meena não mudou a expressão e sorriu de volta, acariciando a barriga.
– Qual o seu nome de verdade? – ela perguntou. – Quero dar seu nome à minha filha. Isso é, se for uma menina. – e riu. – À única pessoa que realmente veio correndo me ver.
Balancei a cabeça negativamente.
– Melhor não colocar já que acabamos de nos conhecer...
Ela sorriu apertando os olhos e me interrompeu, levantando um dedo.
– Você foi a única pessoa que se importou comigo e que veio me ver. Mesmo que fosse para perguntar sobre aquela noite. Você veio. E se conseguir destruir aquele monstro, então minha criança merece o nome em sua homenagem.
Mordisquei o interior da boca e antes que pudesse me repreender, meu nome já tinha escapulido pelos lábios.
– Helena Jameson.
Ela parou para pensar por alguns segundos e disse.
– Helena Andy Johnson me parece um bom nome para uma criança.
Quis sorrir e sussurrar mais algumas palavras, dizer o quanto aquilo significava para mim e dizer que estaria sempre do seu lado, mas se nem eu confiava em minhas próprias palavras, o que garantia que Meena confiaria?
Ao invés disso, balancei a cabeça e comentei:
– Conheci uma Meena no colégio, sabia?
Ela riu.
– Nunca conheci nenhuma Helena antes de você, mas com certeza você vale por todas as Helenas que eu poderia conhecer.
Meu rosto esquentou.
– Você nem me conhece, Meena.
Ela balançou a cabeça.
– Não preciso conhecer uma pessoa para saber o quão bondosa ela é. Você é uma pessoa boa, Helena. Literalmente ‘Cheia de Luz’.
Não consegui dizer nada, e a abracei fortemente, agradecendo silenciosamente pelas palavras doces.
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