A Cave
1 A Cave
O velho barão adotara Therese, a adolescente mais velha do orfanato, por razões desconhecidas. Um dia, chegou, observou-a pela primeira vez e decidiu levá-la para a sua abastada mansão. Therese estava feliz. Sempre fora órfã, desde que se lembrava. Hoje seria para ela um dia muito especial. E acabou por ser um dia muito especial para ele também.
O barão já havia adotado uma criança, há vinte anos atrás, pelo que se dizia. Todavia, Therese, não vislumbrou qualquer criança na sua visita guiada pela mansão. Nem falou no assunto, com medo de parecer mal-educada.
A casa era enorme, gigantesca e requintada. A arquitetura sofisticada vinha buscar influências tanto ao gótico quanto ao barroco. Um estilo contemporâneo cujo principal objetivo era "a imortalização do passado num tempo presente onde o futuro está cada vez mais próximo". Cada divisão, sala e corredor era luxuosa à sua maneira. Uma biblioteca enorme servia de gabinete de trabalho ao idoso filantropo. Foi esse o local que mais chamou a atenção da jovem, para além das caras tapeçarias e dos retratos surrealistas que decoravam as paredes do salão principal.
O velho tinha de sair para tratar de uns negócios, disse ele. Por isso, deixaria a sua protegida vaguear pela casa, exercendo ao máximo a sua liberdade. Só havia uma imposição: que tivesse cuidado com a biblioteca, onde guardava todos os seus documentos importantes. Therese prometeu ter cuidado. Não queria estragar tudo logo no primeiro dia e sabia que a primeira impressão era sempre marcante.
Contudo, após o homem sair, foi nessa mesma biblioteca que passou mais tempo. Era uma sala enorme com enorme estantes de livros cheias. No centro, mais ou menos, havia uma secretária de trabalho. Em frente a ela, um longo tapete vermelho-escuro. Infelizmente, Therese estava tão apaixonada pelas sumptuosas estantes e seus milhentos livros que, desajeitada, acabou por tropeçar na já referida carpete. Em pânico, ergueu-se e correu a arrumar o tapete o melhor que podia, como se nada tivesse acontecido. Foi assim que descobriu por baixo dele o enigmático alçapão de aço.
Primeiro, analisou-o. Seria provavelmente uma cave onde o velho guardava os seus objetos de maior valor. É claro que não conseguiu conter a sua curiosidade. Como vira o barão a remexer nas suas gavetas, já deduzira que era na sua secretária que as chaves repousavam. Retirou-as e abriu prontamente a entrada para esta tal cave.
Ao entrar, foi recebida por um labiríntico conjunto de corredores iluminados por pequenos candeeiros a óleo nas suas paredes pétreas. Um estranho barulho fazia-se ouvir de longe. Um frio tilintar metálico, o barulho quente de um motor em funcionamento. O som do vento gritando de dor quando cortado por uma lâmina. Só quando chegou ao corredor final entendeu a origem do barulho.
Pedaços crus de carne recheados de vermes brancos e suculentos cobriam o solo da masmorra. Era alguém, uma pessoa, que ali estava sentada a um canto. O que parecia ser um daqueles provocadores fatos de banho para homem, constituidos por uma só peça, fazia um V sobre o seu torso, cobrindo-lhe os genitais. Era encarnado e não escondia a sua tumorosa pele, notavelmente afetada por gangrena. Um pedaço de couro, em forma de semi-esfera, coberto de espinhos metálicos, cobria-lhe o topo da cabeça e os olhos. Estava cosido à sua pele, colado à sua cara. Mas o barulho vinha das mãos, ou melhor, do que estava no seu lugar. Presas aos seus pulsos estavam duas motosserras em constante funcionamento.
Quando sentiu a presença da traumatizada Therese, o ser levantou-se com certa dificuldade. Farejou em redor da sala, obviamente cego, e, quando achou detetar a sua presa, saltou na sua direção. Therese fugiu e, de forma desajeitada e praticamente imprevisível, o homem esbracejava as suas serras pelo ar, caindo, saltando, atingindo as paredes. Da sua boca saiam estranhos sons guturais. Talvez não possuisse língua e estivesse a tentar comunicar. Mas Therese não queria saber. Esforçou-se por relembrar o caminho correto para o exterior, receando ir parar a um beco sem saída. Aquele ser, aquela criatura mais monstruosa que humana, já isenta de qualquer réstia de razão e memória, só se preocupava em encontrar a sua presa. Persegui-la, dilacerá-la e mutilá-la, devorá-la. Correndo como bebé aprendendo a andar, esteve quase a atingi-la diversas vezes, se ela não se tivesse baixado ou esquivado, se ela tivesse feito um pouco mais de barulho.
Conseguiu chegar ao alçapão. Rápido. Abriu-o, empurrou-o. Fechou-o com força, trancou-o com as chaves, suas mãos tremendo. Afastou-se a rastejar ouvindo a criatura bater contra o aço, várias e várias vezes, desesperado, faminto. Afastou-se o mais possível.
Mas, atrás de si, estava o velho barão. Seus olhos brilhando num vermelho vivo, fora deste mundo. Em breve, pouco tempo depois, estaria novamente presa naquela cave, correndo pela sua vida. Desta vez, suas pálpebras cosidas, fechadas. Suas pernas, já não existiam. Seus braços, igualmente amputados. Rastejava pelo labirinto, desta vez sem saída, tentando não fazer barulho, não ser encontrada pelo monstro. Mas ele iria encontrá-la, ela sabia-o. Ele acabaria por encontrá-la. Era só uma questão de tempo.
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