A C C I O
1 Get Back
Notas iniciais
Get Back — Capítulo I
Era incrível a sensação de que Hogwarts não havia mudado nada nos últimos anos. Caminhando pelos longos corredores, sentia como se tivesse voltado aos seus anos de estudante, anos que ela não sentia falta alguma.
Hogwarts era maravilhosa, sem dúvidas, mas seus anos ali haviam sido um verdadeiro inferno.
Não havia levado nenhuma amizade dali para sua vida além do professor de Transfiguração, que agora era diretor, e havia a chamado para visitá-lo na escola.
Ilka tinha algumas ideias em mente do que Dumbledore poderia querer com ela, mas não sabia se alguma delas a agradava.
Enquanto cruzava o corredor de pedras, notou que Alvo já esperava por ela e estava parado, de pé, em frente a grande gárgula que fechava a entrada do escritório.
Parou por alguns segundos, observando-o. Quase três décadas haviam sido mais que suficientes para envelhecer o diretor.
Seus cabelos estavam mais longos e completamente brancos, assim como sua barba, que provavelmente já lhe alcançava o umbigo. Usava os mesmos característicos anéis, que Ilka sempre julgou serem muito estilosos, junto de um longo robe roxo. O professor – opa, diretor— exibia também um par de óculos meia-lua sobre a ponte torta de seu nariz. E os seus olhos azuis e acolhedores, como sempre foram, brilharam ao reconhecer a sua ex-aluna.
Ilka também estava mudada. O seu estilo havia evoluído de acordo com os anos. Os cabelos agora eram mantidos levemente mais compridos, na altura dos ombros e não mais no queixo, e eram sempre escovados também, em um belo corte Chanel.
Usava uma calça pantalona de cor branca, que muito provavelmente arrastaria no chão se não estivesse usando altos scarpins. Por dentro da calça estava parte de sua camisa, de cor azul-escura, onde alguns botões ficavam abertos em um belo decote, deixando à mostra também o colar que usava.
Alvo admirou-se ao notar que era o mesmo colar que a via usando em seu tempo como aluna em Hogwarts. Uma longa e fina corrente prateada, com um pingente das relíquias da morte.
— Ilka? Não achei que realmente viria – admitiu Dumbledore, enquanto a mulher se aproximava lentamente.
— Eu disse que viria, não disse? Sou uma pessoa de palavra. E confesso que fiquei curiosa, não sei se entendi muito bem o seu convite – respondeu Ilka, enquanto o diretor abria o caminho pela estátua.
O seguiu, ansiosa para conversar com ele. Não sabia por que Dumbledore fazia tanta questão de ter a conversa em seu escritório, já que a escola estava vazia e eles podiam conversar pelos corredores.
Era início de julho, então os alunos estavam de férias.
A sala do diretor era praticamente a mesma, tudo se mantinha exatamente como a Grindelwald se lembrava. Era uma sala redonda e grande, com altas prateleiras de livros – onde uma abrigava o chapéu seletor em seu alto – e diversos quadros falantes.
Notou que havia um quadro novo também, que exibia um retrato do antigo diretor, Armando Dippet. Havia também um utensílio novo, uma espécie de bacia suspensa de metal e pedra, com diversas runas ao seu redor.
Ilka aproximou-se daquilo, curiosa. Era diferente, e não se lembrava de ter visto nada parecido anteriormente. E olha que ela já havia visto muita coisa em sua carreira como desfazedora de feitiços.
— O que é isso? – perguntou, referindo-se à bacia.
Observou também que atrás dela havia uma espécie de cristaleira, que possuía diversos frascos de vidros, como um estoque de um pocionista.
— Uma penseira, nunca viu uma? – respondeu Dumbledore, parecendo realmente impressionado de que a mulher, com todo o seu histórico, nunca tivesse visto uma.
— Não pessoalmente – Ilka afirmou.
Já havia lido sobre penseiras, e sabia da existência delas, mas nunca havia encontrado com uma pessoalmente.
— Elas realmente funcionam? – questionou, curiosa.
— Com as memórias certas, sim.
Deu uma volta pela sala, terminando de analisar o seu redor. Não havia muita novidade ali além da penseira e o quadro de Dippet. Havia um poleiro ao lado da mesa, mas Ilka não deu muita importância para aquilo, já que provavelmente era da coruja de Dumbledore.
Dando-se satisfeita após sua análise, sentou-se na cadeira estofada de frente a mesa do diretor e esperou que Alvo se sentasse de frente a ela, em sua respectiva cadeira.
— Me permite perguntar agora? – questionou, e o diretor concordou com a cabeça, já sabendo o que ela diria – Por que me chamou aqui, Alvo?
Ilka não esperava que fossem manter a amizade após a sua formatura, mas o diretor sim, e fez questão de continuar trocando correspondências com a sua ex-aluna, mesmo que ela demorasse muito para responder. Estava sempre muito ocupada com suas viagens a trabalho, e o diretor entendia isso, por isso nunca desistiu de manter contato.
— Não sei se já sabe, mas desde que assumi a diretoria de Hogwarts venho tentando trazer novidades para cá. Os professores já não são mais os mesmos, e tento investir neles, já que são os membros mais importantes da escola – começou a explicar e Ilka entendeu instantaneamente para que lado ele guiaria o seu discurso – Soube que pediu um tempo ao banco de Gringotes, e agora está sem emprego. Gostaria muito que você assumisse um cargo como professora em Hogwarts, Ilka. É extremamente talentosa e tenho certeza que somente beneficiaria os alunos com o seu conhecimento.
— Eu me sinto honrada pelo convite, Alvo, mas não sei se a docência é algo para mim. Posso pensar por alguns dias antes de lhe dar retorno?
Dumbledore não esperava uma resposta positiva por parte da Grindelwald, para ser honesto. O fato de que ela não havia negado, mas sim dado uma abertura para pensar, deixava o diretor com expectativas de que ela viesse a se tornar a próxima professora da escola.
— Claro! Só espero que pense com carinho na proposta – disse o bruxo e despediu-se de Ilka, que aproveitou que ainda era cedo para resolver alguns assuntos antes de retornar ao seu apartamento, em Londres.
Planejou almoçar no beco diagonal e aproveitar para ir ao banco, onde poderia sacar o seu acerto, já que havia pedido demissão.
Seus planos não fugiram muito esperado. Almoçou algo simples no Caldeirão Furado e partiu em direção à Floreios e Borrões, para buscar alguns livros que havia encomendado.
A livraria não chegava a estar lotada, mas estava sim bastante movimentada. Ilka reconheceu que grande parte do movimento ali era por parte de crianças e adolescentes, que muito provavelmente estavam comprando seus materiais para o próximo ano letivo que se aproximava.
Passou o seu pedido ao atendente da loja e esperou, escorada no balcão, aguardando pacientemente pelo seu pedido enquanto observava as crianças afobadas que selecionavam os seus materiais.
Somente desviou sua atenção quando notou alguém ao seu lado, gritando pelo atendente. Muito provavelmente querendo passar em sua frente, por julgar-se superior, como deixava bem claro em suas ameaças ao pobre garoto que procurava pela encomenda de Ilka atrás do balcão.
— Vai me ignorar mesmo? Sabe quem sou eu? Não devia nem estar aqui esperando para que um vermezinho de sangue-ruim como você me atendesse. Honestamente, o atendimento daqui já foi infinitamente melhor! – a mulher ao seu lado esbravejava.
A Grindelwald virou-se, escorando de lado no balcão, somente para encarar de frente aquela figura exótica e ignorante que tanto ofendia o atendente que somente fazia o seu trabalho.
Reconheceu-a imediatamente.
Walburga Black não havia mudado muito desde que a havia visto pela última vez.
Seus cabelos estavam mais longos, presos em uma trança baixa. Ainda negros como a noite, mas com uma larga mecha grisalha apontando na parte da frente de seu couro cabeludo. Diria que não a deixava mais velha, mas sim dava-lhe um charme.
Usava um longo vestido de cor escura, com bordados refinados feitos de um tecido negro e violeta. Um enorme medalhão também ficava exposto em seu busto, e Ilka não conseguia enxergar os sapatos que usava, já que enormes camadas de tecido os cobria.
Parecia ter voltado no tempo. Era tão elegante e moderna em seus tempos de Hogwarts, vê-la usando trajes como aquele causava estranhamento à loira.
— Walburga? – chamou, querendo desviar a atenção da mulher, que ainda estava entretida ofendendo o rapaz.
A Black desviou o seu olhar de trás do balcão para a outra que a chamava, parecendo finalmente notar que havia outra pessoa li além dos dois.
Seus olhos arregalaram-se em surpresa, como se tivesse instantaneamente reconhecido a Grindelwald, e sua boca entreabriu-se.
— Ilka? – perguntou, como se quisesse uma confirmação verbal de que aquela era realmente sua colega de escola.
A loira não respondeu, somente afirmou com a cabeça e Walburga riu secamente em resposta. Ilka esperava tudo, menos aquilo. Haviam acabado Hogwarts bem, como amigas. E inclusive havia ido ao casamento da Black enquanto ainda estava junto de Tom.
— Ele nos disse que você havia o traído, então não imaginei que voltaria a dar as caras por aqui – afirmou ela, olhando para a ex-colega com uma expressão esquisita, algo parecido com remorso.
— Traído em que sentido? – questionou Ilka, curiosa pela confissão.
— Disse que você não apoiou seus planos de expansão para a Albânia, e que se aliou a Dumbledore. Ninguém duvidou do que ele disse, já que logo que Voldemort retornou você sumiu.
— Eu sempre viajei muito a trabalho, e como terminamos de maneira não muito amigável, não imaginei que ele viria atrás de mim. Provavelmente nos desencontramos. Voldemort? É como vocês o chamam agora?
— Ele não gosta que a gente se refira a ele pelo nome trouxa de seu pai, então agora ele é Voldemort – afirmou, com certeza, enquanto o atendente voltava a se levantar e entregava um volumoso pacote para Ilka.
— Não acho que Tom mereça minha atenção nesse momento, ele sabe da verdade, e eu não me importo se as pessoas acham que eu o traí. Eu sei da minha verdade – respondeu, enquanto abria o papel pardo para conferir se sua encomenda estava certa – De qualquer jeito, não te vejo há anos Walburga, não queria conversar sobre ele, diga-me algo sobre você. O que faz aqui?
— As aulas de Hogwarts vão retornar no próximo mês, então vim comprar os materiais de meus filhos – explicou, indicando com a cabeça os dois garotos que conversavam do lado de fora da loja – Por que voltou somente agora, Ilka?
Analisou-os, interessada. Se estava realmente considerando a proposta de Dumbledore, deveria conhecer os seus futuros alunos, não?
— Se importaria em me apresentar? –questionou, ignorando a pergunta de Walburga, que concordou, sem entender muito bem o que a Grindelwald pretendia com aquilo.
Assim que passaram pelas portas de vidro da loja, Ilka pôde os observar com calma.
Os dois sem dúvidas eram dois adolescentes com o sangue completamente Black. Suas características pareciam gritar que eles eram da família.
Eram altos, magros e, sem dúvidas, belos. Como todos os Black. Poucos centímetros os diferenciavam. O mais alto era também mais forte, com cabelos negros longos que lhe alcançavam os ombros. Possuía sobrancelhas grossas e uma barba que começava a lhe apontar no queixo, provavelmente não completamente formada por sua idade. Tinha um olhar de descaso e usava roupas largas e desleixadas, mas que ainda assim pareciam combinar com toda sua estética.
Já o mais baixo era bem mais magro, sem tanta massa muscular, e usava os seus cabelos mais curtos e muito bem alinhados. Suas roupas eram sociais e lembravam a Ilka bastante as que o Riddle costumava usar em sua época de escola.
— Estes são meus filhos. O caçula, Régulo – apresentou, apontando para o mais engomado – e Sirius – fez menção ao outro, de cabelos mais longos.
Clássicos nomes Black, como o esperado. Nomes de constelações, e que já haviam pertencido a outros homens da família anteriormente.
— Ilka Grindelwald, prazer – apresentou-se também, esticando a mão primeiro para o mais novo, que logo apertou com uma expressão simpática, parecendo bastante educado.
Gostou dele logo de imediato. Em seguida tentou cumprimentar o mais velho, que apenas a encarou com uma expressão de desprezo.
— Grindelwald? – repetiu ele, como se quisesse confirmar o que havia ouvido – Como Gellert Grindelwald? – perguntou, e Walburga fez menção para repreendê-lo, mas foi impedida por Ilka, que observava sua movimentação e impediu-a, colocando o braço a sua frente.
— Sim, Grindelwald como meu pai, Gellert. Algum problema?
— Não cumprimentaria alguém ligada a um bruxo das trevas nem obrigado – respondeu ele, com arrogância.
Que petulante, pensou a mulher. Sirius era um garoto bastante rude, com certeza! Mas Ilka havia aprimorado suas habilidades de ler pessoas ao decorrer dos anos, inclusive teve instruções do melhor professor que podia imaginar no assunto: Alvo Dumbledore.
Aquele Black era diferente. Todo o seu estilo demonstrava isso, e a maneira que Walburga não parecia fazer questão dele somente confirmava que eles não se davam muito bem. E era muito fácil irritá-la, bastava ir contra suas ideias.
— Você por acaso é parecido com sua mãe? Porque eu não me considero nem um pouco parecida com meu pai – explicou, voltando a lhe esticar a mão, esperando que ele cedesse o cumprimento.
Sirius pareceu entender muito bem o que ela quis dizer, e acabou aceitando e apertando a mão da mulher em retorno.
— Lhe apresentei meus filhos, como queria. Agora vai me dizer por que está de volta? – Walburga voltou a perguntar, sem se importar se seus filhos estavam escutando ou não.
Não era como se tivesse muitos segredos entre sua família.
— Dumbledore me convidou para ser a nova professora de Defesa Contra as Artes das Trevas, e eu estou pensando em aceitar – respondeu, sem olhar para Walburga, mais interessada na reação dos garotos que agora acabavam de conhecer a sua mais nova docente.
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