Begin Again — Capítulo II

Estar de volta era estranho. Há muitos anos Ilka não permanecia em Londres mais de um mês e agora ela estava ali, aproveitando seus últimos momentos em seu apartamento, enquanto empacotava seus pertences.

Duas semanas separavam a Grindelwald do começo do ano letivo de Hogwarts, e ela havia decidido vender o apartamento que possuía e comprar um lugar menor, em Hogsmeade, onde ficaria mais próxima de seu trabalho. Não sabia ao certo se passaria todas as noites lá ou somente os fins de semana, mas era fato que seria impossível manter o seu apartamento de Londres.

Guardava os últimos livros presentes na estante da sala quando ouviu um barulho estranho atrás de si.

As cortinas se movimentaram repentinamente, como se uma forte corrente de vento tivesse entrado pela janela e Ilka sentiu seus cabelos baterem contra o seu rosto. A madeira do piso rangeu atrás de si e ela enfim se virou, tentando entender o que estava acontecendo.

Não conseguiu interpretar imediatamente.

Era um homem que estava parado no meio da sala vazia, observando-a sentada ali no meio de um amontoado de caixas. Ilka não conseguia entender como ele havia entrado. Ele aparatou para dentro de seu apartamento ou entrou como um borrão pela janela? A segunda opção explicaria a corrente de ar repentina.

O homem trajava uma capa preta, que cobria sua cabeça e sombreava o seu rosto, dificultando o seu reconhecimento. O pouco de pele que tinha a mostra revelava que ele era de um tom pálido quase doentio, e seus olhos vermelhos brilhavam na escuridão do capuz.

Ilka levantou-se imediatamente e adotou uma postura defensiva, sacando sua varinha e apontando para aquela figura desconhecida.

— Quem diabos é você? – perguntou, com o queixo levantado e a varinha apontada para aquele homem.

Ele não respondeu.

Levantou suas mãos, como alguém que quer demonstrar rendimento e retirou o seu capuz.

Os cabelos escuros continuavam da mesma maneira que Ilka se lembrava, não muito curto e sempre bem penteado. Sua estrutura física continuava a mesma, mas o seu rosto estava notavelmente mais magro e mais pálido. Os olhos não eram mais os mesmos que Grindelwald se recordava, inclusive era o que mais se distanciava de suas lembranças.

Eram vermelhos. Não vermelho escuro, como vinho, mas um vermelho brilhante e chamativo, como sangue.

Não teve dúvidas, aqueles traços tão distantes de sua memória eram uma consequência das Artes das Trevas que Riddle havia sem dúvidas abusado.

— Pensei que me reconheceria com mais facilidade, Ilka – disse ele, ignorando a varinha ainda empunhada da mulher e caminhando pela sala que um dia ele já dividira com ela – Está de mudança?

— Talvez eu até reconhecesse se não estivesse tão cadavérico e com olhos exóticos como os de um coelho – respondeu, finalmente recolhendo sua varinha – O que faz aqui?

— Soube através de alguns de meus seguidores que você estava de volta a Londres e pensei em fazer uma visita – disse e se aproximou de Ilka, que permanecia estática.

— Seguidores? Quer dizer Walburga? – perguntou, sentando-se na poltrona que era protegida por uma malha escura.

— Pode parecer estranho para você, mas estou formando um grupo Ilka e estamos ganhando cada vez mais visibilidade.

— É por isso que veio aqui, Riddle? Para contar vantagens dos seus feitos? – questionou, com a sobrancelha arqueada, encarando o seu ex-noivo com desprezo.

— Não, Ilka, vim aqui porque queria te ver – admitiu, aproximando-se da mulher.

Estava claramente confusa com a declaração. Não esperava cruzar com Tom novamente, havia problemas demais na relação dos dois e Riddle era extremamente orgulhoso, não esperava que ele iria voltar a procurá-la, ainda mais levando em consideração a maneira como haviam terminado.

— Não sei se estou entendendo muito bem o que quer dizer, Tom – disse, levantando-se, sem saber ao certo como reagir.

Aproveitando-se da movimentação da mais nova contratada de Hogwarts, o homem colocou-se de frente a ela, tomando as mãos de Ilka para si, acariciando os nós de seus dedos e tentando demonstrar afeto com gestos não tão evasivos. Da mesma maneira que ele costumava fazer quando eles flertavam e conversavam pelos corredores da escola.

— Talvez não sinta o mesmo que eu, mas eu senti sua falta, Ilka.

— Não é questão de sentir o mesmo ou não, Tom. Nós éramos noivos e eu te amava, mas acho que não era recíproco, já que você partiu sem pensar duas vezes, sem mim e sem previsão de volta – revelou e abaixou a cabeça, recusando-se a mostrar ao homem em sua frente aquele momento de fraqueza.

Não admitiria em voz alta, mas Riddle ainda mexia com ela. Todo o relacionamento havia sido muito perturbado, mas ainda assim muito intenso. Mesmo após anos e mais anos, Ilka nunca se envolveu com outro homem por ainda nutrir sentimentos por Tom.

— Eu ainda tenho interesse de tê-la ao meu lado, Ilka – admitiu e levou sua mão direita ao rosto da mulher, levantando-o para que o olhasse – É difícil alcançar meus objetivos sem o seu auxílio.

Ele sabe, pensou Grindelwald. Após o término, ela havia chegado à conclusão de que Riddle não sabia como desenvolver muitas partes de seu plano sem a sua ajuda. E Ilka sempre foi muito orgulhosa, gostava de ser reconhecida por seu talento e criatividade, e a fala de Tom parecia ter sido elaborada sabendo disso.

Ele sabia exatamente o que ela queria ouvir.

— Pensei que eu era uma traíra. Realmente quer ao seu lado a mesma pessoa que o traiu? – alfinetou, lembrando do que Walburga tinha lhe dito no Beco Diagonal.

— Quem lhe disse isso?

— Não foi isso que disse aos seus seguidores? Que eu o havia traído? – perguntou, com desdém, enquanto afastava a mão dele de seu rosto.

Tom pareceu ponderar por alguns segundos. Achava que a teria em suas mãos, que Ilka ainda era aquela garota boba e gananciosa que havia conhecido em Hogwarts. Mas o tempo molda as pessoas de maneira inesperada, e o rancor também.

— Tente entender o meu lado, eu sabia que você havia se magoado com o nosso término, e você sabe informações minhas que nem meus seguidores mais fiéis sonham. Não podia arriscar que você contasse algo, e se eles a considerassem uma inimiga seria melhor para mim.

— Nós temos a porra de um voto perpétuo, Tom! Eu não contaria nem se quisesse. Colocar seus seguidores contra mim foi a maneira mais fácil de você conseguir minha cabeça, admita.

— Eu nunca tentaria te matar Ilka – apelou, voltando a segurá-la pelas mãos.

— Mesmo? Porque o que você faz indica o oposto.

— Eu te juro, Ilka. Todos meus seguidores sabem quem você é, e todos sabem o que podem ou não fazer. Te machucar de qualquer maneira não está listado entre os itens que podem fazer.

— Você jura? – ironizou, era difícil acreditar em Tom depois de tantos anos afastados e tantos indícios que apontavam para aquilo.

Riddle suspirou, não esperava que fosse ser tão complicado conversar com Grindelwald, talvez porque estivesse acostumado a ter a maioria de seus conhecidos de escola aos seus pés.

— Deveria considerar voltar a agir ao meu lado, Ilka. Faço algumas reuniões com meus seguidores, como aquelas que fazia em Hogwarts, mas um pouco mais formalizadas agora, pense a respeito e, quem sabe, apareça na próxima, será muito bem vinda por lá – disse e beijou-lhe a mão, afastando-se com o intuito de aparatar.

— Nunca fui boa em Adivinhação. Como saberei onde é?

— Na mansão do velho Tom Riddle, tomei-a como minha base agora – respondeu, citando o nome de seu falecido pai de maneira rápida, como se fizesse questão de não o pronunciar.

Ilka riu de maneira anasalada. Não seria mais fácil chamá-lo de pai?

— Você diz esse nome como se não fosse o seu também.

— E não é, meu nome é Voldemort, e eu gostaria que você me chamasse assim em nosso próximo encontro – argumentou e não deu tempo de resposta, desaparecendo da mesma maneira que havia surgido.

Sem dúvidas, Ilka descreveria a cena como esquisita. Todo um mistério parecia rodear Tom, e não era um mistério que a atraía, como antigamente. Era incômodo, parecia quase que sombrio.

Voltou a guardar os últimos livros que ainda restavam no apartamento nas caixas que levaria para sua nova moradia, já sem paciência, querendo acabar aquele serviço o mais rápido possível.

Ouviu passos no corredor quando terminava de fechar a última caixa, e as batidas na porta que os seguiram fizeram com que a loira xingasse mentalmente. Era combinado? Um dia de visitas e ninguém havia a avisado? Que inferno!

— Está aberta, pode entrar – disse, sem nem se dar o trabalho de checar quem era.

Não esperava por ninguém específico, e não tinha inimizades nessa sua nova etapa da vida, então não se preocupou com quem poderia ser.

Quando o diretor Dumbledore abriu a porta e adentrou o cômodo, encontrando Ilka sentada ao chão, fechando uma última caixa, a mulher não pareceu surpresa ou curiosa pela figura do professor.

— Chegou atrasado para a reunião de ex-alunos de Hogwarts. O que faz aqui Alvo? – perguntou, enquanto levantava-se, expulsando a poeira de sua calça com as palmas da mão.

— Aberforth me disse que foi ao cabeça de javali essa semana, contou-me também que pretendia se mudar para Hogsmeade ainda hoje, pensei em oferecer ajuda para o transporte – disse ele e coçou sua barba, enquanto se aproximava de sua mais nova contratada – O que quis dizer com reunião de ex-alunos?

— Tom esteve aqui alguns minutos atrás – respondeu, empilhando a última caixa que havia fechado em cima de outras três.

Ao finalizar o seu movimento e finalmente virar-se de frente para o diretor, notou que Dumbledore não parecia nem um pouco satisfeito com a informação que havia acabado de receber.

— Algo de errado com isso, Alvo?

— Acho que durante o tempo que passou fora, esteve sempre ocupada com seu trabalho, em diversos países, e não teve muito tempo para ler as notícias, não é mesmo, Ilka? – perguntou, encarando-a com um olhar que parecia ser compaixão.

— Realmente não tive muito tempo para acompanhar jornais e revistas, por quê? O que Tom fez?

— Riddle começou um movimento purista bastante agressivo, até o ministério já está começando a se movimentar para tomar providências, temo inclusive que uma nova guerra esteja se iniciando.

Era muita informação.

Ilka sentiu suas pernas fraquejarem por alguns segundos e recostou-se na poltrona velha ao centro da sala. Sabia, é claro, do grupo que Tom estava reunindo, mas não fazia a mínima ideia da visibilidade que já tinha, afinal, havia conseguido até mesmo chamar a atenção do ministério. E se Dumbledore dizia que aquilo podia ser o início de uma guerra, a Grindelwald acreditava.

Era como se tudo estivesse acontecendo novamente, toda a dor de cabeça que havia tido com seu pai e o movimento Para um Bem Maior. A pior fase de sua vida, que, inclusive, havia acontecido enquanto estava em Hogwarts. E parecia que tudo iria se repetir: a guerra, a escola, a indecisão e as mesmas amizades antigas.

— O que Tom queria contigo, Ilka?

— Ele me chamou para uma reunião, agora sabendo da fama de seus seguidores já imagino o que ele queira.

— Você deveria ir – afirmou o diretor.

— Deveria? Mesmo sabendo do que provavelmente acontece lá?

— Sim. Tom não é mais o mesmo, indo a essa reunião você teria informações, pense nisso como um trunfo.

— Eu sei que ele não é mais o mesmo, Alvo. Eu o vi, olhei no fundo de seus olhos – disse, abaixando o seu olhar com o tom vermelho dos olhos de Riddle em sua mente – E as informações desta reunião seriam um trunfo para quem, para o Ministério? Por que eu não trabalho para o pessoal de lá.

— Tudo bem se não quiser ir, mas caso vá eu posso te apresentar a alguns colegas que podem fazer bom uso das informações.

— Eu pensarei a respeito, tudo bem? Agora acho melhor iniciarmos o transporte dessas caixas, antes que anoiteça.