A C C I O
3 First Day
Notas iniciais
First Day — Capítulo III
Ilka esticou o seu blazer e checou uma última vez se os botões da manga estavam abotoados. É claro que estavam. Ela já havia checado outras três vezes antes daquela. Olhou-se novamente do espelho e endireitou o seu cabelo, que também já se encontrava perfeitamente alinhado. Tudo estava como desejava, mas isso não a impedia de ficar nervosa e procurar – ao menos em si mesma – algum defeito.
Puxou o máximo de ar que podia e prendeu a respiração por alguns segundos, soltando-a logo em seguida. Estava nervosa como uma garotinha que ia ao seu primeiro encontro e isso era inaceitável. Ou, ao menos para ela. Contou até dez mentalmente, enquanto ainda se encarava no espelho. Ao fim da contagem, finalmente encontrou a coragem que restava para sair.
Abriu a porta de seu dormitório de uma só vez, para que não houvesse a oportunidade de hesitar.
Quando a figura da mais nova professora de Hogwarts apareceu no topo das escadas da sala de Defesa Contra as Artes das Trevas, a classe não pôde evitar observá-la.
Hogwarts havia passado por algumas mudanças nos últimos anos, principalmente na matéria de DCAT. Novos professores haviam entrado nos últimos 10 anos, nas matérias de Transfiguração, Feitiços e Herbologia, e esses haviam se tornado fiéis à escola e muitos alunos já os conheciam. Entretanto, Defesa Contra as Artes das Trevas havia se tornado uma matéria conhecida por ser amaldiçoada, visto que nenhum professor permanecia no cargo por mais de um ano.
Boatos corriam pelos corredores sobre a nova professora, afinal, como não notar alguém com um sobrenome tão famoso quanto Grindelwald? A culpa dos burburinhos que tomavam os corredores ao redor de seu nome e status era inteiramente dos Black, é claro, já que eles eram os únicos que haviam a conhecido antes do período letivo.
Ainda se preparando mentalmente para o que estava por vir, Ilka desceu as escadas e tomou a frente da sala, posicionando-se de pé logo atrás da sua mesa de professora. Mais adolescentes do que ela conseguia contar – provavelmente pelo nervosismo – a encaravam como se fosse um bicho, todos quartanistas, trajados com o preto do uniforme da cabeça aos pés, sendo diferenciados somente pelas gravatas coloridas, que pareciam iluminar-se entre a capa grossa da vestimenta da escola.
— Bom dia, para os que ainda não me conhecem: me chamo Ilka Grindelwald, e sou a professora responsável pela matéria de Defesa Contra as Artes das Trevas deste ano – apresentou-se inicialmente, reconhecendo um rosto ao fundo da sala.
Sirius Black. Inclusive, este lhe encarava com algo muito próximo de desprezo. Estava quase que deitado sobre sua cadeira, de tão largado, com seu uniforme desalinhado e a gravata de cores vermelho e dourado pendurada em seu pescoço de maneira desajeitada. Aquele garoto emanava deboche e desorganização, que era uma das coisas que mais irritava Grindelwald. Não chamou a atenção do Black porque ainda era a primeira aula, e provavelmente alguns alunos estranhariam ao notar que ela sabia o nome do adolescente.
— Não vou perguntar o nome de cada um, pois são muitos e eu provavelmente esquecerei em alguns minutos, mas espero ter decorado o nome de todos até o final do ano.
Mesmo que aquela sentença tenha soado rude para alguns alunos, era a mais pura verdade, afinal, que professor escutava mais de vinte adolescentes se apresentando e se lembrava do nome de cada um deles? Eram rostos demais para serem lembrados.
— Eu dei uma olhada no material de vocês, e o livro indicado para este ano começa com Maldições Imperdoáveis. Não me sinto confortável lecionando sobre esse tópico em meu primeiro dia de aula com vocês, portanto, pularei alguns capítulos e depois voltaremos a este – explicou, enquanto abria o seu próprio exemplar do livro didático sobre a sua mesa, folheando as páginas.
Alguns alunos começaram a sussurrar, é claro. Fizeram a ligação das Maldições Imperdoáveis ao seu sobrenome, por mais que tentasse agir com naturalidade, Ilka nunca poderia se livrar do peso que era o nome Grindelwald.
— Sinto muito por parecer chata no primeiro dia de aula, mas vou ter que pedir para que não fiquem de burburinhos enquanto eu estiver aqui na frente. Caso estejam falando sobre a matéria, podem discutir em voz alta e eu ficarei contente em participar, mas caso seja para assuntos levianos e fúteis, prefiro que permaneçam em silêncio.
Curta e grossa. Como uma professora de respeito era. No momento em que repreendeu a sala, todos se calaram. A docente reprimiu sua vontade de sorrir naquele momento. Ela havia gostado da sensação de ser uma figura empoderada e autoritária ali na frente. Talvez ela fosse gostar mais do que o previsto daquela profissão.
— Imagino que vocês não saibam, mas antes de ser convidada pelo Diretor Dumbledore para lecionar em Hogwarts, eu costumava trabalhar em Gringotes, como desfazedora de feitiços. Hoje, estudaremos um feitiço que eu usei muito durante a minha jornada de trabalho por lá: Revele seus Segredos. Alguém conhece o feitiço e quer arriscar uma introdução antes de eu explicá-lo?
Não muitos alunos se arriscaram a levantar a mão, mas uma dupla logo a frente chamou a atenção da nova contratada de Hogwarts. Ilka desviou os seus olhos para os dois, um garoto e uma garota sentados juntos. Não pareciam um casal, e os dois possuíam as mãos levantadas.
A jovem bruxa estava sentada do lado direito e possuía longos cabelos lisos e ruivos, que fizeram Ilka lembrar-se de Emma. O que teria acontecido a sua antiga colega de dormitório, afinal? Não sabia. E tentava afastar pensamentos assim de sua cabeça, já que quando voltou ao Reino Unido tinha um objetivo bem claro em mente: não se deixar levar por acontecimentos passados. Tinha voltado com o intuito de recomeçar, e ficar com a mente em pessoas que passaram por sua vida há anos não contribuiria com isso.
Apesar de empolgada, a animação da ruiva não foi o suficiente para conseguir a oportunidade de fala que a professora daria, uma vez que o bruxo ao seu lado chamava muito mais atenção.
Com olhos grandes de um tom aberto de castanho, parecia um garoto comum. O uniforme bem alinhado e o cabelo também castanho bem penteado não contribuíam uma imagem de vaidade, mas sim de organização. Possuía a aparência comum e o que realmente chamou a atenção de Ilka quando ele se voluntariou para responder fora o seu rosto.
Profundas olheiras abaixo de seus olhos e inúmeras cicatrizes lhe atravessavam a face. A maioria delas eram finas e claras o suficientes para não serem notadas, mas algumas se tornaram mais visíveis pela cor escura – estas, provavelmente surgiram devido a cortes mais profundos. Como aquele garoto possuía tantas cicatrizes? Ainda mais como aquelas, que mais pareciam cortes, arranhões.
— O senhor, qual o seu nome? – disse, fazendo sinal com a mão para o jovem grifinório que havia lhe chamado a atenção.
Não apontaria para ele, claro. Era muita falta de educação, e seu pai costumava lhe dizer quando criança que apontar para as pessoas fazia com que verrugas crescessem em seus dedos. Uma superstição boba, é claro, mas preferia não arriscar, mesmo que estivesse no auge de seus quarenta anos e tivesse ouvido isso ainda quando nova.
— Remus Lupin, professora.
— Ok, senhor Lupin. Um nome a menos para eu me lembrar! – brincou Ilka, tentando descontrair um pouco. Não queria que os seus alunos tivessem uma lembrança ruim dela no futuro, e não pretendia ser a professora carrasca deles – O que sabe sobre o feitiço Revele seus Segredos?
Aquele garoto havia sido a melhor surpresa do dia para a Grindelwald, sem sombra de dúvidas. A maneira que ele explicou o feitiço, didaticamente e em bom som para toda a classe fora perfeita. Ilka esperava, sim, que ele fosse ser um bom aluno, mas não esperava que ele fosse explicar algo complexo, como um feitiço de quarto ano, com a facilidade com que ele fez.
— Muito bem, cinco pontos para Grifinória – anunciou a docente.
Por Merlin, como era bom dizer aquilo. Sempre via os seus professores fazerem durante seu período como aluna em Hogwarts, e sempre imaginou como seria satisfatório fazer o mesmo. E realmente era.
O restante da aula da manhã foi também muito interessante. Após a explicação de Lupin, Ilka assumiu novamente a liderança e explicou de sua própria maneira sobre o feitiço, exemplificando com alguns casos em que o usou em seu passado como desfazedora de feitiços. Logo após o seu monólogo como professora, chamou todos a frente, onde alguns alunos tiveram a oportunidade de praticar o encantamento em alguns objetos que ela havia enfeitiçado propositalmente para aquela aula.
Todos os estudantes pareceram ter aprovado a professora e sua aula quando ela os dispensou. Enquanto os alunos se dirigiam para fora da sala, Ilka aproveitou para fazer o mesmo. Juntou seus materiais e já estava mentalizando o seu almoço, quando reparou que Remus era um dos últimos garotos a sair da sala, junto de outros três rapazes da casa dos leões.
— Senhor Lupin, se importa de ficar uns minutos a mais comigo na sala? – pediu, e o bruxo olhou para os seus amigos, como se esperasse uma autorização deles para atender ao pedido da professora.
Sirius Black, é claro, fez cara feia para o seu amigo, mas Remus não pareceu se importar muito, apenas aguardou pela aprovação dos outros. O mais alto, que possuía um cabelo castanho bagunçado e usava óculos, fez sinal como se não ligasse, e liderou o resto de seu grupo para fora da sala, deixando o Lupin a sós com Ilka.
— Algo de errado, professora? – perguntou, receoso, ao se aproximar da mesa que a sua superior estava sentada.
— Nenhum, só queria agradecer por sua participação na aula hoje. Você possui um grupo de estudos?
— Como assim, grupo de estudos?
— Tipo uma aula guiada, sabe? Colegas que se juntam para estudar uma matéria e alguém que sabe mais assume a posição de mentor. Esses grupos eram comuns na época que eu estudava em Hogwarts – explicou, enquanto terminava de guardar seus pertences.
— Não, não temos nada parecido por aqui. Não que eu saiba.
— É uma pena, você seria um bom mentor, com certeza. Tem o dom da fala contigo, Lupin. Espero que faça bom uso disso algum dia – sorriu, deixando o seu aluno sem graça com o elogio.
Remus não era um puxa-saco. Muito pelo contrário, não gostava de muitos professores – mas não deixaria isso explícito para eles, claro. Não conhecia muito bem a Grindelwald, e temia levemente o seu nome, mas a professora havia se mostrado bastante didática e havia simpatizado com ela naquele primeiro dia de aula.
— Obrigado, professora. Também gostei bastante de sua aula hoje, espero que permaneça em Hogwarts por mais tempo que os últimos professores.
— Alvo me disse que estava contratando novos rostos para Hogwarts quando me chamou, nunca mencionou que o cargo fosse instável. O que aconteceu aos últimos professores de Defesa Contra as Artes das Trevas?
— Dizem que o cargo é amaldiçoado. A Professora McGonagall mencionou uma vez que foi tudo por causa de um bruxo que veio pedir a vaga ao Diretor Dumbledore alguns anos atrás. O Diretor não o aceitou como professor, então ele amaldiçoou a vaga e desde então nenhum outro professor permaneceu por mais de um ano. Não sei se é verdade, mas McGonagall não brincaria com um assunto desses.
Ilka, obviamente, tinha suspeitas de quem era esse bruxo, mas não diria para Lupin. Era arriscado demais e Dumbledore provavelmente tinha seus motivos para não aceitar Tom lecionando em Hogwarts.
— É, ela com certeza não diria uma inverdade assim, gratuitamente – confirmou, deixando seus materiais de lado e alisando a sua calça, com a sua mania irritante de sempre. – Vamos, senhor Lupin, não quero atrasar mais o seu almoço e fazer com que seus amigos me odeiem – brincou, descontraidamente.
Assim que cruzaram a porta que ligava a sala ao corredor, Remus Lupin se afastou da professora e seguiu, rumo ao Salão Principal, onde poderia fazer sua refeição na companhia de seus amigos. Ilka, por sua vez, ficou para trás, pois estava trancando a porta da sala de aula antes de sair.
A sala dava acesso também aos seus aposentos, então preferia deixá-la trancada e evitar assim um aluno com más intenções. Sim, era o seu primeiro dia de aula, mas isso não a tornava mais descuidada e menos desconfiada.
Guardou a chave em seu bolso e começou o seu trajeto também em direção ao Salão Principal. Mal havia alcançado as escadas quando um outro aluno lhe parou pelo caminho. Um garoto, com cabelos loiros e olhos escuros. Não parecia familiar de maneira alguma, mas ele aparentemente procurava por ela.
— Senhora Grindelwald... Fui instruído a lhe entregar isso – disse ele. tentando recuperar o fôlego enquanto lhe esticava algo que parecia uma carta.
Ilka notou que o garoto provavelmente havia vindo correndo, a respiração ofegante e os fios de cabelo grudados na testa denunciavam isso. Estava longe de ser um calouro, pois o jovem bruxo parecia ter no mínimo seus quinze anos. A gravata da casa das serpentes chamou a atenção, não havia se apresentado para os alunos de Sonserina ainda, então não tinha como aquele estudante a conhecer.
— É senhorita, por favor, não sou casada e muito menos de idade – repreendeu, aceitando o que o garoto lhe oferecia.
Tudo bem que Ilka tinha seus mais de quarenta anos agora, mas era bastante vaidosa e a sua idade não ficava tão evidente através da aparência quanto a de outras bruxas com a mesma idade que a sua. Sabia que, se quisesse, poderia se passar facilmente por alguém com dez anos a menos.
— Qual o seu nome, garoto? – perguntou, finalmente olhando para a carta.
Era um envelope simples, de tom amarelado, porém a insígnia que havia em seu selo era conhecida. A cera era escura, quase negra, mas notavelmente verde, e o símbolo incrustado ali era de um crânio, onde uma longa serpente saía de sua boca formando um nó.
— Henry, senhora... Qu-quero dizer, senhorita. Henry Avery – gaguejou uma resposta, ao ver que a mulher a sua frente havia reconhecido.
— Quando recebeu isso, senhor Avery? – questionou, enquanto abria a carta com delicadeza e calma, o que só contribuiu para que o jovem ficasse ainda mais nervoso. Ele não sabia se deveria estar ali quando ela a abrisse.
— Há pouco tempo, professora... Recebi ainda esta manhã esse envelope e uma carta com as instruções, dizendo que eu deveria entregá-la – respondeu, ansioso.
— Tudo bem, Henry, não precisa ficar nervoso. Espero que não tenha contado a ninguém sobre essa carta – disse, subindo o olhar do envelope para o garoto, que concordou imediatamente com a cabeça. – Ótimo, continue assim. Saberei se tiver mencionado a alguém sobre isso.
Não pretendia mudar tão rapidamente sua imagem de professora simpática e amigável, mas aquelas circunstâncias não lhe davam outra opção.
— Está dispensado, senhor Avery.
O garoto sumiu tão rapidamente quanto apareceu naquele corredor, ao mesmo tempo em que Ilka finalmente tirava de dentro do envelope o seu conteúdo: um papel de carta. Não possuía muitas informações, somente o suficiente e Ilka reconheceu de imediato a caligrafia ali presente.
Reunião ao sábado, às 23h.
Apareça.
L.V.
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