Estava frio quando Ricardo rompeu pela saída do metrô e encontrou a Praça da República. Correra tanto pelos túneis e por tanto tempo abandonados que sentira calor, portanto, quando chocou-se o vento frio que corria naquela noite, não teve como evitar os calafrios e os espirros que se seguiram. Largou o cano no chão para limpar o nariz e, feito isso, deu uma olhada ao redor. Era melhor ter certeza de que aquele era mesmo um lugar seguro, porque, agora que Ricardo havia descoberto um novo monstro a atormentar a cidade, qualquer precaução era pouca.

Ricardo fechou bem o portão por onde passara, um de correr, e selou-os com as correntes que outrora haviam sido estouradas. Não queria mais ser perturbado por lickers, a primeira experiência já havia sido suficientemente amedrontadora. Virou-se para retomar sua caminhada quando sentiu o estômago roncar. Estava na hora de fazer uma pausa.

O Centro de São Paulo tinha um cheiro muito peculiar, que era melhor sentido pela manhã: um odor desagradável de urina que, se não fosse limpada, impregnava o ar com sua lembrança. Aquilo não era um sinal de vandalismo, e sim da falta de moradia para os moradores de rua que habitavam em bandos aquela região. Isso quer dizer que, uma vez que a urina nas ruas não tinha sido limpada quando o apocalipse começou, o cheiro parecia mais forte do que nunca. Ricardo foi bem seletivo ao escolher um canto bem escondido para fazer seu lanche noturno, o que ele imaginava já ser o seu almoço, mas não havia lugar que não tivesse a presença do odor. Por isso, o homem acabou dando de ombros e se contentou com o fato de que nada do que fizesse o faria sumir. Sentou-se longe dos olhos de possíveis novos inimigos e lanchou.

Só tinha bolachas para comer, mas comeu-as com muito gosto. Ultimamente, não tinha sido muito seletivo com os alimentos, até porque as opções não eram muitas, então toda comida era muito saborosa. Mesmo assim, ele ainda sentia falta de um bom prato de arroz com feijão feito na hora. Havia um restaurante próximo ao seu trabalho, não muito longe daquela rua onde ele se encontrava, que oferecia um excelente Self Service a um preço muito bom, e ele sempre almoçava lá, mesmo que ninguém quisesse acompanhá-lo. Aquela refeição era boa, mas ele ainda se lembrava com carinho da que Linda, sua esposa, também fazia, arroz e feijão fresquinhos, feitos também na hora, mas com um carinho e um toque caseiro que eram inconfundíveis.

Tais pensamentos fizeram com que o estômago de Ricardo roncasse ainda mais, e isso trouxe um sentimento de frustração ao homem que ele não se lembrava de já ter sentido antes. Era como se, finalmente, sentisse raiva de tudo o que havia acontecido à São Paulo e um profundo rancor de quem quer que estivesse por trás daquilo.

Ricardo terminou um pacote inteiro de bolacha salgada e sentiu que ainda faltava algo. Bebeu uma garrafa inteira de água de uma vez só e se deu por saciado. Por ora, era importante parar de pensar em comida. Depois disso, levantou-se num pulo e limpou as vestes, as únicas que andara vestindo por mais de uma semana, desde sua última troca de roupa. Voltou a caminhar.

A Praça da República era um imenso quadrado rodeado de grandes avenidas e ruas adjacentes. Havia árvores, praças, lagos, feiras, de tão grande que era, mas, naquele dia, estava tudo abandonado e com mau aspecto. As avenidas, que antes eram responsáveis pelos piores trânsitos em São Paulo, agora estavam praticamente abandonadas, embora ainda houvesse muitos carros parados ao redor. Os estandes das feiras sofreram em reação ao tempo e a temperatura, então estavam todos rasgados e sujos, enquanto seus objetos, antes destinados a vendas, foram todos saqueados por alguém que muito provavelmente também sobrevivera a tudo aquilo. Pelo menos algum sinal de vida, Ricardo pensou.

Em suma, a Praça da República era muito grande, o que seria um problema para o homem. Ouvira o grupo falar que estava indo para a Praça da República, mas se eles estavam fazendo morada em algum canto por ali, as opções de busca eram muitas, e Ricardo gastaria um bom tempo verificando cada uma delas. Estou com tempo, de qualquer forma, tornou a pensar, dando de ombros. Só preciso tomar cuidado para não ser surpreendido novamente...

Então ele caminhou pela Praça como quem passeia. Não se lembrava mais de como ela era realmente, de todos os seus detalhes, então aproveitou esse tempo de procura para relembrar seus momentos naquele lugar. Lembrava-se de, antes de Emília nascer, passar com Linda pela Praça enquanto apreciavam a vista, que era muito bonita de dia. Recordava, inclusive, do anel de coco que comprara numa daquelas bancas, enquanto música peruana – ou boliviana? – tocava em algum lugar por perto. Em outra ocasião, Ricardo lembrava-se de ter pagado a um artista de rua que desenhasse ele e sua esposa juntos, inventando um cenário fictício para servir de plano de fundo. Ele achava que tinha o desenho ainda, só não conseguia se lembrar de onde.

Eram boas lembranças de uma época em que ele e ela só tinham amor e nenhuma preocupação com responsabilidades. Ricardo sabia que ele próprio não gostava muito delas e que preferia uma vida mais tranquila, onde as atenções podiam-se voltar a coisas fúteis, do que aquela de marido e mulher, ou, como Linda preferia dizer, pai e mãe.

Esse devaneio durou quase uma hora inteira, além de algumas voltas no perímetro da Praça da República, e só então Ricardo obteve um sinal de que realmente estava no lugar certo na hora certa.

O carro daquele grupo – só pode ser deles, quem mais teria coragem de andar com um carro tão barulhento em circunstâncias tão desfavoráveis? –passou roncando motores novamente ao redor, e Ricardo girou no lugar em busca da fonte do som. Avistou um jipe antigo e robusto fazendo a curva num dos ângulos da Praça e entrando numa rua que fazia diagonal com a avenida principal. O carro devia ter seguido apenas por mais alguns metros quando, de repente, o som dos motores sumiu por completo. A julgar pelo quão subitamente isso tinha acontecido, era bem provável que eles tivessem estacionado por ali, e não seguido caminho e sumido de vista.

Motivado por esse pensamento, e agora mais animado do que nunca, Ricardo correu em direção à rua, não dando a mínima para o barulho que seus pés faziam.

Chegou lá a tempo de ver o enorme carro tentando passar com dificuldade pela entrada de um estacionamento que definitivamente não servia para automóveis daquele porte. No fim, o carro conseguiu entrar, mas, antes disso, Ricardo conseguiu visualizar quem estava nele. Eram dois homens fortes e de aspecto severo, um dirigindo e o outro, no banco de trás, e uma mulher, loira, de rosto bonito e jovem, todos uniformizados com se pertencessem ao exército. O problema é que Ricardo não se lembrava de já ter visto aqueles uniformes antes, o que só confirmou a tese que ele sustentava: eles eram algum tipo de força especial estrangeira que viera fazer seu trabalho por ali. Ou isso ou eram terroristas.

Ricardo aguardou a porta do estacionamento se fechar – era o de um prédio comercial – e correu para ele. Olhou para dentro, mas o carro já tinha ido fundo em seus corredores inacabáveis, então tudo o que havia era escuridão. Nem assim, o homem se intimidou e deixou de fazer o que queria fazer desde que se aventurara naquela viagem de louco.

Segurando as grades dos portões, Ricardo escancarou a boca e entoou com ansiedade:

- OLÁ! TEM ALGUÉM AÍ?! – Fez uma pausa. – PRECISO DE AJUDA PARA ENCONTRAR A MINHA MULHER E MINHA FILHA!

Sua voz ecoou como se viesse de dentro de uma caverna, o que era um bom sinal, pois muito provavelmente a mensagem ecoaria por muito espaço até chegar a alguém.

E de fato chegou.

Notas finais
Desculpem a demora para publicar capítulos de uma semana para outra, mas essa demora é justificada. Estou escrevendo outras duas fanfics nesse meio tempo, além de outros contos. Se estiverem interessados em lê-las também, é só dar uma olhada no meu perfil :)