A Busca Continua
6 A Sociedade No Estacionamento
A mesma mulher loira que estava no carro minutos atrás foi quem primeiro surgiu em meio à escuridão do estacionamento. Ricardo não conseguiu descobrir que era ela porque a enxergara perfeitamente, e sim porque seus cabelos eram chamativos, mesmo em ambientes escuros. Ela subiu a passos cautelosos a pequena ladeira que havia até o portão de entrada do estacionamento sem dizer qualquer coisa, apenas avaliando o seu visitante. Diante de toda essa demora, Ricardo conseguiu observá-la por tempo suficiente para jamais conseguir tirá-la de sua mente.
Era uma mulher muito bonita, primeiramente. Talvez porque fazia parte de algum tipo de exército e certamente porque já passara por numerosos e intensos treinamentos, tinha o corpo bem definido e bonito. Isso só se tornava mais perceptível porque, ao invés dos uniformes comuns, ela usava um que era de borracha, ou um material parecido, que era bastante justo ao corpo, revelando todas as suas curvas. Ricardo não teve como não sentir arrepios ao ver a moça se aproximar, porque ela era justamente o tipo de mulher com quem ele mais estava acostumado a sair. O rosto dela, jovem, era determinado. Tinha olhos azuis e os cabelos amarrados para trás, num rabo-de-cavalo.
Ricardo nunca desejou tanto o corpo de uma mulher quanto o dela naquele momento.
Tudo bem que isso era uma coisa comum, já que ele traíra Linda mais de uma vez desde quando se casaram.
- Por que está gritando? – ela disse ao ficar de frente para ele. Fez uma careta de reprovação ao dizer as palavras, em português, embora com algum sotaque.
- Achei que assim conseguiria chamar a atenção de alguém – Ricardo respondeu. Não conseguiu evitar o sorriso torto que estampou seu rosto ao dirigir a palavra à mulher.
- Se ainda está vivo, imagino que deve saber que gritos como esses e apontar uma arma carregada para a própria cabeça são excelentes maneiras de cometer um suicídio. Ou você só está vivo porque teve uma sorte que mais ninguém teve?
- Chame de sorte, destino, chame do que quiser! Eu estou vivo e estou precisando de ajuda! – A essa altura, Ricardo já começava a falar em tom de súplica.
- Ah, está precisando de ajuda? – a mulher repetiu com desdém. – Devo ter me esquecido de retirar a placa de “Oferece-se ajudas!” que está presa aqui em cima no estacionamento...
- Por favor, não ignore o meu pedido! Tenho pessoas importantes perdidas por aí e que precisam de mim! Você precisa me ajudar, eu vi que vocês têm armas...
- Todos nós temos pessoas importantes perdidas por aí, meu caro.
- Eu estou falando sério! – Ricardo agarrou os portões com força e sacudiu-os, irritado, ao pronunciar a frase. A mulher deu um passo para trás.
- E é assim que você pretende conseguir alguma ajuda de mim? Com intimidação?
Como Ricardo não respondeu, tão estupefato que estava, ela sacudiu a cabeça negativamente e pôs-se a partir.
- Por favor, me ouça! Estou precisando de ajuda urgentemente! – Ricardo voltou a gritar.
- Não somos os únicos por aqui!
- Eu posso te pagar! Posso oferecer qualquer favor em troca, mas, por favor, não me ignore!
- Seu dinheiro não é bem vindo...
- O QUE EU TENHO QUE FAZER PARA CONSEGUIR ALGUMA ATENÇÃO?!
A mulher parou no lugar assim que o grito desesperado tocou seus ouvidos. Pasma ao mesmo tempo em que procurava entender o que estava acontecendo, ela virou-se na direção de Ricardo com os olhos arregalados, espantados.
- Você pode começar parando de gritar como se quisesse se tornar uma vítima fácil para zumbis – ela falou, pontuando as palavras com seriedade.
- Faço o que vocês quiserem – Ricardo disse, num sussurro.
A mulher ainda o observou por um tempo antes de finalmente retomar sua subida e encarar Ricardo de perto. Quando o fez, agarrou o portão com as duas mãos e perguntou num sussurro:
- Você foi seguido por algum inimigo até aqui?
- Não, nenhum. Eu teria percebido.
- Está com mais alguém?
- Não. Estou sozinho há uns bons dias.
Ela encarou impassível o rosto de Ricardo por mais um tempo e só então se convenceu a retirar o molho de chaves do bolso traseiro de seu uniforme. Escolheu a chave correta e levou-a à fechadura, girando-a duas vezes.
- Se você estiver mentindo e se isso for uma emboscada, é bom que esteja preparado para morrer assim que eu descobrir tudo. Eu tenho armas, você bem deve ter visto, e eu e meus parceiros não temos medo de usá-las.
- Quanto a isso, pode ficar tranquila – Ricardo assegurou assim que passou pelo portão aberto.
A mulher tornou a fechá-lo e, ao fazê-lo, guardou o molho de chaves no mesmo bolso de onde os retirara, passando por Ricardo e caminhando em direção ao interior do estacionamento, ignorando-o. Ricardo teve iluminação suficiente durante um tempo para detalhar as curvas do traseiro da garota enquanto a observava descer. Eu ainda vou tocar esse corpo, ele pensou, histérico. Logo em seguida, acompanhou a moça com passos rápidos, pois ela não parecia estar muito a fim de esperá-lo.
- Meu nome é Ricardo – ele começou dizendo e até chegou a oferecer uma mão para um aperto, que foi categoricamente ignorada. – E o seu é...?
- Jill – ela respondeu, sem olhá-lo. – Jill Valentine.
- Claro, Jill. Lindo nome.
Dobraram o corredor em silêncio e voltaram a descer pelo estacionamento. No fim daquela descida, Ricardo pôde perceber uma iluminação maior, talvez sinal de que havia mais pessoas por ali. Começou a ficar mais animado apenas nesse instante.
- Não diga nada e deixe que eu faça as apresentações – disse Jill assim que chegaram ao andar debaixo.
O que Ricardo viu ali foram mais pessoas do que ele achava que fosse possível. Havia um carro com os faróis acesos, a principal fonte de luz no local, e, em torno dessa claridade, pelo menos sete ou oito pessoas. Duas delas Ricardo conseguiu reconhecer, um homem de pele bronzeada e cabelos negros e um outro de cabelos também negros, mas compridos, e dono de um rosto recheado de deboche com o qual Ricardo percebeu que não se daria muito bem, os dois com o mesmo tipo de uniforme que Jill. Além deles, outros homens, todos de peles bronzeadas e feições parecidas, vestidos em roupas um tanto quanto curiosas. São os bolivianos, Ricardo pensou com esgar. Ou os peruanos?
- Temos visita? – disse o rapaz de feições desdenhosas. – Mas achei que já estávamos cheios de homens por aqui. Se era para animar a festa, podia ter trazido mais uma garota...
- Guarde suas piadas para si! – Jill repreendeu. – Permita-me apresentá-los Ricardo – ela terminou, apontando uma mão desinteressada para o homem.
Houve uma série de cumprimentos que Ricardo não conseguiu compreender e só quando eles terminaram foi que Jill prosseguiu.
- Esse é Carlos Oliveira, meu grande parceiro de equipe da S.T.A.R.S – falou e apontou para o primeiro homem. – E esse é o Kevin Ryman – falou, agora apontando para o seguinte. – Não o conheço muito bem, é funcionário novo, então não sei o que falar sobre ele. Deve ter percebido que é um rapaz um tanto quanto audacioso. Quanto aos demais estrangeiros, não sei os seus nomes ainda. Acho que você vai descobri-los junto com a gente.
- O quê? Você planeja dar abrigo para esse desconhecido? – Kevin começou a dizer, visivelmente irritado.
- Algum problema? Não vi nenhum dos nossos novos amigos acharem um problema nos receber, então porque não deveríamos receber mais um?
- Porque não temos suprimentos para tanta gente!
- Poderíamos arranjar – Carlos começou a dizer, de forma compreensiva. – Além do mais, com mais pessoas, conseguiríamos cobrir mais território.
- Na verdade, ele não veio até aqui porque quer nos ajudar, e sim porque procura ajuda – Jill voltou a falar.
- Que tipo de ajuda? – Kevin perguntou.
- Ele quer encontrar a esposa e a filha, segundo o que ouvi.
- Sim, os nomes delas são Linda e Emília – Ricardo começou a dizer. – As duas são loiras, mas Emília tem cinco ou seis anos...
- Que ótimo! Uma nova busca! – Kevin resmungou.
- Uma nova busca? Como assim...?
- Também estamos em busca de alguém, jovem Ricardo – disse Jill com ironia. – Alguém que já devia ter voltado há muito tempo, mas que até hoje não deu sinal de vida?
- De quem estamos falando?
- Você não deve conhecê-lo... – Carlos falou, sacudindo uma mão no ar.
- Talvez se me disserem quem é ou como ele é, eu possa ajudar.
- Mas é por isso mesmo que eu te deixei entrar – disse Jill. – Nós o ajudaremos e você nos ajudará. Uma troca de favores, que tal?
- Acho justo. Mas quem devemos procurar, mesmo?
- O nome dele é Chris Redfield – Jill respondeu com um olhar furtivo. — E você ainda vai ouvir falar muito dele.
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