A Busca Continua

16 Unidos Até Onde Puderem


Linda deu um passo atrás, receosa. Ricardo, por sua vez, deu um passo à frente, muito provavelmente querendo Linda de volta para si. Emília acabou ficando de lado, já que não entendia muito bem a situação. Linda tentou se afastar mais uma vez, mas Ricardo tornou a segui-la. Não estava disposto a desistir tão cedo, não depois de tudo pelo que passara.

- Você não devia estar aqui – Linda sibilou e limpou uma lágrima com uma mão espalmada. – Como é que ousa sequer pensar em voltar a falar comigo...?

- Somos marido e mulher, não somos? – Ricardo falou, abrindo os braços num gesto que dizia “Isso não é óbvio pra você?”. – Devíamos ficar juntos desde o princípio...

- E por que você pensa isso agora, Ricardo? Por que só agora você tem consciência disso? Enquanto fodia com a secretária, você não parecia ter essa preocupação... – Emília estremeceu com a menção do palavrão.

- E você acha que a culpa foi minha de ter procurado em outra o que eu não tinha em casa?

- E você acha que a culpa foi minha, então?

Ricardo respirou fundo, mas em nenhum momento pensou em deixar de dizer:

- Sim.

E Linda também não pensou duas vezes antes de levar uma mão espalmada em direção ao rosto de Ricardo.

- Eu preciso de ajuda, Linda! – ele voltou a dizer, quase vociferando. – Você não pode me abandonar!

- E eu precisei da ajuda de você o tempo inteiro, Ricardo! – Linda voltava a chorar. – E não só quando o mundo se transformou nisso aqui, mas desde muito antes! Ou você acha sua grande ideia de, de repente, me tratar como um inquilino na minha própria casa, assim que eu tive a Emília, foi uma coisa certa? Você acha que foi? Acha que eu ia dormir melhor, quando eu precisava de alguém para me ajudar a cuidar da sua filha, mas não tinha? – Ricardo não tinha o que dizer. – Você me abandonou quando eu mais precisei de alguém. Abandonou, inclusive, a sua filha...

- Eu a abandonei porque você fez a cabeça dela, para que ela não gostasse de mim.

- Você foi o único responsável por isso! Minha nossa, será que não percebe? Eu poderia falar horrores a seu respeito para a Emília, procurando, com isso, fazer com que ela o odiasse tanto quanto eu odeio, coisa que nunca fiz, mas isso funcionaria? Nunca! Se ela gostasse mesmo de você, não teria palavra que eu dissesse que conseguiria fazê-la pensar o contrário! Emília te odeia porque você fez com que ela odiasse!

Houve um momento de silêncio e só então os dois perceberam que gritavam enquanto conversavam. Como não havia ninguém ao redor, além de um zumbi que se aproximava, sorrateiro, pela travessa mais próxima, as vozes quase que podiam ecoar. Isso assustava um pouco Emília, que não estava acostumada a ver os pais gritarem daquela forma, principalmente no meio da rua.

- A gente pode deixar isso de lado e começar uma nova vida, dessa vez só com acertos – Ricardo arriscou, agora tentando transpassar tranquilidade.

Linda ainda o fitou por um instante, com olhos brilhantes, boquiaberta. Podia-se ter a impressão de que estava maravilhada com o que ouvia, como se só estivesse esperando aquela frase para poder se jogar nos braços de Ricardo e beijá-lo como já havia feito milhões de outras vezes antes. Mas ela disse outra coisa no lugar de fazer tudo isso.

- Eu tenho nojo de você. – As palavras romperam secas por sua boca. De repente, não havia brilho nenhum nos olhos de Linda, como se ela tivesse morrido ou como se a alma tivesse deixado seu corpo de um momento para o outro. Agarrou a mão de Emília e puxou-a para si. Estava pronta para partir e deixar o mais ordinário dos homens que pudera encontrar em sua vida para trás.

- Você não pode fazer isso comigo, Linda. É inumano. Eu sou o pai da sua filha! — Ricardo voltou a dizer.

- Que se dane! – ela se resumiu a dizer e virou-se para partir da vista do viaduto.

E foi só então que ela percebeu o zumbi que se aproximava na escuridão.

Teve tempo de dar um passo para trás antes que os braços pútridos da criatura a agarrassem. Nesse tempo, Emília agachou-se para apanhar um pedaço de madeira que entregou à mãe segundos depois. Linda apertou a arma em sua mão e, num movimentou rápido que cortou o ar com um barulho, acertou a cabeça do zumbi, espatifando-a e inutilizando o restante do corpo. Sangue sujou-a. Enojada, ela passou a mão no rosto, procurando se livrar daquilo.

- Você vai precisar de ajuda, Linda – Ricardo ousou dizer.

- Nós sabemos nos virar sozinhas – ela falou, de costas, apenas virando o rosto para trás.

Os olhos de Ricardo encararam por um instante o rosto sério e decidido de Linda, que parecia ainda mais determinada, suja de sangue. Como numa batalha numa guerra. Momentos depois, ele desviou o olhar para cima, para o céu, onde uma grande mancha negra começava a tomar forma, aumentando gradativamente em poucos segundos, até que o dono da enorme silhueta mergulhou sobre a luz de um único poste de luz que funcionava na rua e revelou-se como o maior e mais horrível monstro que não só Roberto como também Linda e Emília poderiam ter visto.

Linda estremeceu no lugar, uma vez que estava a poucos metros de onde o monstro havia pousado. Caiu assim que o baque a afetou. Se Ricardo não tivesse corrido a tempo e a erguido do chão para que pudesse correr, ela teria morrido naquele instante, assim que as garras imensas do licker dilacerassem o seu corpo.

Sim, aquele era um licker, mas, diferente daquele que Ricardo tinha visto no metrô, esse era ainda maior, tão grande ou até maior do que o maior dos elefantes do mundo, porém muito mais ameaçador. Seus dentes tinham um tamanho de um braço e seu cérebro, gosmento, exposto, parecia um grande câncer na cabeça daquela criatura que parecia ser feita apenas de músculos expostos. Só um doente mental seria capaz de criar algo desse tipo, Ricardo ainda conseguiu pensar antes de agarrar as mãos de Linda e Emília para as obrigarem a correr.

E de fato correram.

Voltaram pelo mesmo caminho que Ricardo havia feito para chegar até ali, pelas vielas, porque ele imaginou que o monstro não fosse ser capaz de passar num lugar como aquele. Até adentrarem a rua, eles ouviram e sentiram nos próprios pés as passadas pesadas do licker a persegui-los, o que os motivou a correr ainda mais. Emília se cansou muito fácil, ainda mais por não ter se alimentado bem naquele dia, então teve de ser carregada. Quase que a família inteira foi apanhada de uma fez só pela enorme mão sanguinária do licker, mas foram rápidos o suficiente para adentrarem a viela e se esconderem do monstro.

Emília estava em choque.

- Vai ficar tudo bem, minha linda! Vai ficar tudo bem! – Linda tentava consolá-la, acariciando os cabelos da garota, olhando bem nos olhos dela.

Com Emília nos braços, Ricardo se sentia vacilante.

Por mais que o licker estivesse agora longe do alcance deles, Ricardo, Linda e Emília ainda podiam ouvi-lo se movimentar. A princípio, pensaram que as pisadas fortes aconteciam ao redor da viela, em torno das casas, mas um olhar para cima foi suficiente para que percebessem que, na verdade, o licker se movimentava agora por cima dos prédios, que não eram muito altos por ali. As garras estavam presas em varandas e janelas, como se ele escalasse. Ainda assim, era muito grande e não conseguia descer até o chão para apanhar suas presas.

Enquanto isso, pedaços de tijolos e alvenaria se desprendiam aos montes e quase acertavam os corpos da família abaixo. Tiveram os três que se esconder embaixo de um toldo, a fim de evitarem ser atingidos por algum bloco. Se já não bastasse, o licker também deixava vazar uma substância aquosa, com a mesma textura de uma grande porção de saliva.

- M-Mamãe, eu estou com medo – Emília disse. Seus olhos estavam arregalados.

Desesperado enquanto procurava passar despercebido para o inimigo, Ricardo levou uma mão à boca de Emília e tentou fazê-la ficar quieta. Mas já era tarde demais.

Uma língua, grossa como uma corda e tão escorregadia quando uma cobra, desceu do céu e encontrou o corpo de Linda com facilidade. Enrolou-se ao redor do pescoço da mulher e puxou-a para cima. Linda deu um último grito antes de o ar fugir dos seus pulmões.

Ricardo teve dois segundos para largar Emília no chão, enfiar a mão no bolso da calça, sacar um canivete e cortar a língua que puxava Linda, antes que ela se tornasse parte do sistema digestivo do licker. Linda caiu com um baque no chão, mas pareceu muito mais aliviada. Ricardo se sentiu orgulhoso sobre o que fizera.

- A gente não pode ficar aqui – ele falou assim que deu a mão para a esposa, procurando ajudá-la a se levantar.

- E para onde a gente vai, então? – ela perguntou.

- A gente foge.

Linda não queria concordar com aquela ideia, mas concordou, mesmo que com tristeza. Agarrou a filha nos braços e pediu que Ricardo mostrasse o caminho. Ele mostrou, mas não antes de tomar a filha para si, certo de que Linda não conseguiria avançar muito se carregasse tanto peso nos braços.

E então partiram daquela viela. Naquele momento, começava a fuga da família de Linda, Ricardo e Emília em busca pela vida.

Notas finais
Assisti ao Resident Evil: Retribuição nesse fim de semana. Como é que alguém pode fazer um filme daquele e dizer que é sobre Resident Evil????