A Busca Continua
17 Saraivadas
- Por aqui! – Ricardo esbravejou ao fazer a curva no final da viela. Não verificou se Linda ainda o acompanhava, mas esperava que sim.
Passaram pela mesma esquina com cheiro de urina de antes, mas dessa vez esse detalhe não teve tanta importância. Estavam de volta à Rua da Consolação, Ricardo com Emília nos braços, Linda em seu encalço, passando em frente à mesma delegacia de onde o homem viera. Não prestaram atenção nela como também não prestaram atenção em mais nada que não fosse importante para quem fugia, em busca de mais algum tempo de vida. Suas atenções, no momento, estavam voltadas para o caminho à frente e para o barulho das patas gigantescas de um licker que se movimentava por São Paulo, quebrando e derrubando concreto por todo o caminho que fazia.
Pai, mãe e filha não perceberam, portanto, que a equipe da S.T.A.R.S que Ricardo abandonara momentos atrás acabava de vê-los passar pela rua, acompanhados de um grande número de inimigos a persegui-los.
Acontecia que nenhum dos três tinha percebido que, com tanto barulho feito pela noite, os zumbis não tiveram dificuldade alguma em descobrir onde estaria a próxima presa da noite. A princípio, os que estavam escondidos pelo caminho que a família de Ricardo fizera começaram a surgir como se acordassem, maravilhados com o som de humanos vivos com medo de morrer. Esses foram os primeiros a perceber que agora, na rua, haviam presas fáceis e desarmadas procurando sobrevivência. Mais tarde, até mesmo os zumbis que estavam à frente do trio, escondidos em latas de lixo ou apenas derrubados pelo chão, perceberam que algo bom acontecia, e se mostraram também. Os olhos de Ricardo conseguiram calcular pelo menos cinco cabeças surgindo na escuridão, mas foram necessários apenas mais alguns segundos para que o restante dos mortos-vivos, em torno de trinta ou quarenta homens e mulheres, se mostrasse e se lançasse à rua, à espera das presas que corriam com tanta ferocidade.
Mas Ricardo vacilou no lugar. Linda continuou a correr, mas percebeu em tempo que o marido não a acompanhava. Virou-se para trás e agarrou o homem, que segurava a filha, pela manga da camisa, puxando-o para voltar a correr. Ela gritava, e a imagem de seus lábios se escancarando enquanto pronunciava alguns palavrões foi entendida em câmera lenta pela mente de Ricardo. Talvez ela não tivesse percebido que havia mais inimigos pela frente do que eles seriam capazes de enfrentar, e isso sem contar os que vinham por trás, somados ao licker.
Ricardo estava pronto para desistir e se deixar tornar uma daquelas criaturas. Era o melhor e o mais fácil a se fazer, levando em conta as circunstâncias. Mas Linda não concordava com isso. Com lágrimas nos olhos e empenhando o máximo de força que conseguia ao puxar o marido para frente, para longe dali, para uma nova chance de vida, ela continuava a berrar. As lágrimas, com tanta abundância, só estavam ali porque ela não podia acreditar que o marido estava pronto para desistir de tudo, depois de tanto tempo de resistência. Era decepcionante.
Emília percebeu o que o pai estava fazendo e, ao invés de chorar, apenas franziu o cenho e, pela primeira vez na vida, tentou encarar a situação com alguma racionalidade. Esse foi um momento bastante marcante na vida da menina, aquele em que ela percebeu que nem sempre os pais são fortes o bastante, por mais que, para ela, eles sempre tivessem sido heróis. Se saísse viva daquele instante, sabia que teria que ser melhor do que os dois se quisesse se manter viva. Mas, pelo menos naquele instante, ela precisava contar com os pais, porque se sentia incapaz, uma vez que estava presa aos braços do pai.
- Não tem medo de morrer, não, rapaz? – disse alguém ao lado de Ricardo.
Ricardo virou o rosto e percebeu Kevin ao seu lado. Portava uma arma grande, que ele conhecia como shotgun. Foi dela que veio a explosão que o fez acordar e perceber que ficar parado ali era uma ideia absurda.
- Corram, rápido! – Kevin insistiu.
Ricardo correu, mas conseguiu assistir o espetáculo de carne sendo lançada ao ar que um único tiro da shotgun de Kevin era capaz de propiciar. Ele atirava seis vezes e tinha que recarregar, mas cada tiro era digno de um estrago sem número. Emília tremia nos braços de Ricardo a cada nova explosão que ouvia, assustada. Em poucos segundos, o oficial já tinha exterminado grande parte da praga que tomara conta das ruas. Mas precisava de ajuda.
- Por aqui! – pediu um Chris que surgiu do nada, encostando uma mão nas costas de Ricardo e outra na de Linda, guiando-os.
Quando foi que vocês surgiram?, Ricardo se perguntou.
Chris pediu que eles se escondessem atrás de uma cerca de concreto, que servia para proteger um jardim. Agacharam-se atrás dela, que não tinha mais do que um metro de altura, e assistiram o oficial sacar uma machine gun e atirar aos montes à frente.
Cada tiro era um brilho diferente, e a arma, automática, atirava quase que sozinha. Zumbis dançavam no lugar, recebendo tiros em grandes quantidades. Não era preciso muito para desequilibrá-los, uma vez que cada tiro cortava o ar com tanta força que causava muito mais estrago do que um simples furo, ainda mais porque a pele dos mortos-vivos já estava pútrida há muito tempo.
Emília tapou os ouvidos, incomodada. Linda fez o mesmo e se encostou contra o muro, de olhos fechados e bem apertados, torcendo para aquilo acabar logo. Ricardo não conseguia tirar os olhos do massacre.
Estava maravilhado com a desenvoltura dos oficiais da S.T.A.R.S e poderia passar horas assistindo aquilo.
No alto de uma torre do prédio da delegacia, surgiu Carlos, até então sumido, portando uma sniper. Com um olho escondido atrás de uma mira e o outro fechado e apertado, ele disparava tiros únicos com um grande intervalo de tempo, usado para recarregar a arma, mas todos certeiros e quase sempre na cabeça do zumbi, que, inutilizado, caía segundos depois. Era a única arma que não fazia nenhum barulho, então, quando um morto-vivo caía aparentemente sem nenhum motivo, era possível saber que era de Carlos que o tiro vinha.
- Fiquem tranquilas, vai ficar tudo bem! – Ricardo tentou dizer às mulheres de sua vida, mas, em meio a uma saraivada de disparos, era impossível se fazer ouvir. – Não há o que temer! Acreditem em mim!
Ricardo pousou uma mão no ombro de Linda e no de Emília. As duas abriram os olhos com cautela e o focaram, olhos claros contra os seus. Por um instante, foi possível perceber que, de fato, elas confiavam nele e que acreditavam no que ele dizia. No final das contas, tudo ia ficar bem. Mal sabia ele que isso era porque elas estavam apavoradas demais e que qualquer porto seguro, por mais que partisse de um cafajeste, era seguro. Se apegariam até à ajuda de um criminoso mundialmente famoso, se isso as mantivesse vivas.
Estavam ainda a observá-lo quando perceberam uma sombra cair a partir do céu, atrás de Ricardo. A julgar pelo tamanho da coisa, era possível adivinhar que era um monstro grande, mas foi quando ele pousou, fazendo o chão tremer e rachaduras surgirem, que essa certeza veio. Era o licker mais uma vez.
Ricardo percebeu os olhares preocupados de Linda e Emília e virou-se a tempo de ver uma imensa garra descrever um arco em sua direção. Nesse instante, se desviou e correu dali, como um cachorro faz quando o dono lhe passa um susto. A garra acertou o nada, mas quase levou Emília junto, coisa que só foi evitada por poucos milímetros. Assim que percebeu sua presa fugir, o licker decidiu ir atrás. Por ora, Linda e Emília estavam tranquilas.
Mas Ricardo não.
Sabia que podia correr o quanto quisesse que, no final, seria pego, mas mesmo assim preferiu não desistir. O licker o perseguiu por muitos metros a fio, ameaçador e rugindo como uma criatura enraivecida. Ricardo desejou, por um momento, ter se despedido melhor da esposa e da filha. Mas não tinha mais tempo para pensar nisso.
Estava pronto para olhar para trás e perceber que o monstro estava perto demais para ser ignorado quando ouviu a voz de Jill gritar:
- SAI DA FRENTE, SEU IDIOTA!
Ricardo olhou de esguelha para a esquerda e percebeu Jill no topo da delegacia, sobre o telhado, em pé, imponente, os cabelos louros esvoaçando, a imagem perfeita de uma deusa contra o céu negro, a não ser pelo fato de que, na mão que não estava apoiada na cintura, portava a maior arma já vista pelos olhos daquele homem: um lança-mísseis. Ela pousou-o no ombro, deitou a cabeça atrás da mira e apertou o gatilho.
Foram dois segundos do maior desespero que Ricardo já sentiu.
Num segundo, corria do licker, tentando manter-se vivo. No outro, voava no ar como uma boneca de pano inútil que tivesse sido jogada por uma criança.
A explosão do míssil no licker foi simplesmente esmagadora. Durante o tempo em que ela tomou conta da rua, não se viu nada além de uma claridade sem fim e não se ouviu nenhum som. Era como se tudo tivesse deixado de existir. Quando Ricardo voltou a si, já estava deitado no chão, e percebeu que seu rosto doía. Havia se machucado com a queda, o que fez com que raspasse alguns centímetros do rosto no concreto.
Ele levantou-se e gritou de dor. Chris, que não estava muito longe, já estava vindo ajudá-lo, mas seu grito foi abafado por outro.
Chris, Jill, Kevin, Linda, Emília e até um Ricardo moribundo se voltaram para a janela em que Carlos devia estar, mas não estava. Miraram aquilo durante bastante tempo e não perceberam movimentação nenhuma. Carlos havia sido pego.
- WESKER! – Carlos gritou, a voz longínqua trazendo a confirmação que todos esperavam.
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