- Fique aqui! – Chris havia ordenado antes de entrar na delegacia. Em seu encalço, foi Kevin, sob seu comando, provavelmente para ir em busca de Carlos que, minutos atrás, gritara algum nome. Ricardo não sabia dizer qual, não conseguira entendê-lo, mas sabia que alguém gritara.

Olhou para cima, para o telhado, e não mais viu Jill. A mulher já devia ter entrado para a delegacia também.

Ricardo até considerou a ideia de ficar ali fora, esperando que a batalha toda acontecesse lá dentro e que, então, Chris, Jill e Kevin surgissem pelas portas de entrada da delegacia como heróis, carregando um profundamente moribundo Carlos nos braços, que, apesar de doente, estaria são o bastante para saudar a todos que estivessem aplaudindo por ele ainda estar vivo, depois do que quer que tivesse acontecido lá dentro. Não seria um grande sacrifício ficar na rua naquele instante. Todos os zumbis da região, os mais próximos, tinham sido aniquilados. Se houvesse mais algum nas redondezas, ele ainda caminhava a passos de tartaruga e demoraria a aparecer. Até lá, Ricardo e sua família não teriam com o que se preocupar e estariam seguros. Poderiam criar brincadeiras de palavras e raciocínio enquanto os oficiais não voltassem e passar o tempo assim. Poderiam, inclusive, procurar por algum alimento – ficar acordado todo aquele tempo deixou Ricardo com fome, e ele já não possuía mais qualquer embalagem de biscoito consigo.

Mas ele preferiu fazer nenhuma dessas coisas.

Esperou alguns minutos, não muitos, e se levantou da parede em que estivera encostado. O ferimento no rosto já não doía tanto quanto antes, mas doía, então fez uma careta assim que se pôs de pé. Caminhou até a cerca em que Linda e Emília estavam escondidas, certo de que ainda as encontraria lá. De fato as encontrou. É claro que Kevin, antes de deixar a companhia das duas, devia ter aconselhado que elas ficassem por ali e aguardassem até que eles voltassem, portanto, uma resistência contra a ideia que Ricardo tinha em mente já era esperada.

- Eu não vou sair daqui, Ricardo – disse Linda, puxando Emília para si. – Não é uma boa ideia entrar lá agora.

- E quem te disse isso?

- Eles disseram.

- Os mesmos que foram responsáveis por transformar a sua realidade no que ela é hoje?

- Não são eles os culpados por isso.

- Ah, não? E quem é então? – Ricardo inquiriu, os olhos sérios bem presos aos de Linda, observando-a com um olhar superior. – Você fala como se soubesse quem é que está por trás disso.

Linda hesitou um instante. Ricardo arregalou os olhos, incrédulo.

- Então você sabe – disse, quase sorrindo de tão histérico. – E por que não me diz, então?

Linda ofereceu uma mão, como se pedisse ajuda para se levantar. Ricardo a ajudou. Frente e a frente, os dois se encararam por algum tempo, com expectativa. Ricardo teve que quebrar o silêncio.

- Linda, quem é que está por trás disso?

- Vai fazer alguma diferença saber um nome?

- Não sei. E se for alguém que eu conheço?

- Você não conheceria.

- Mas você o conhece.

- O conheci nas piores circunstâncias possíveis, acredite em mim.

- Quem é ele, Linda?

- Lars Wesker – ela falou, por fim, mas sua voz fez parecer que o nome não tinha nenhuma importância. – Mas ele...

- Ele o quê?

-... devia estar morto.

Ricardo arregalou ainda mais os olhos, novamente surpreso.

- Você o matou?!

- Você teria feito o mesmo no meu lugar.

- Eu já matei muitos zumbis, Linda, mas quando se trata de um ser humano, eu não acho que teria a coragem necessária para tirar-lhe a vida!

- Nem pela sua filha?! – Linda finalizou, pronunciando as últimas palavras com um queixo trêmulo, quase choroso.

Ricardo fitou-a taciturno, sem saber o que dizer.

- É claro que não – ela finalizou e deu de ombros. – Eu ainda sei quem você é, Ricardo, e você não sabe e nem nunca entendeu o que é amor de mãe.

- Você faria isso mais uma vez, se fosse necessário?

- Se minha filha estivesse correndo risco de...

- Linda! – Ricardo exaltou-se, agarrando a mulher pelos ombros. Emília suspirou, assustada. – Não estamos mais falando de Emília, ela está bem! Sejamos um pouco mais egoístas, por favor! É da nossa vida que estamos falando! Nossa tranquilidade, nossa rotina, nosso trabalho! Tudo isso nos foi tirado por causa de um homem que está lá dentro agora!

- Eu não vou fazer de novo o que já fiz uma vez.

- Minha nossa, Linda! Então você confia mesmo em toda essa gente?

- Qual o problema em confiar? Até agora, eles foram os únicos que fizeram alguma coisa por nós.

- Olhe direito, Linda! Foi você quem matou Lars Wesker, não eles! Você é a heroína dessa porra toda, não eles!

Linda não estava plenamente convencida de que entrar na delegacia era uma boa ideia, mas podia-se perceber que estava quase lá.

- E outra – Ricardo continuou -, eles não foram feitos para nos ajudar. Eu ouvi isso da boca deles. Eles estão aqui para outra finalidade, e não para ajudar quem precisa de algum auxílio. Vão nos deixar morrer se for necessário.

- Chris me disse tudo isso.

- E você continua o tratando como um ídolo!

- Mas ainda assim ele quebrou essa regra e me ajudou até o fim.

Ricardo engoliu em seco antes de dizer:

- Você teve sorte de ter encontrado um homem íntegro e justo.

- Coisa que você nunca foi...

- Mas a equipe que esteve comigo até agora, liderada por aquela mulher que estava no telhado, a Jill, nunca ia me ajudar a te encontrar, e eles deixaram isso bem claro minutos antes de eu te encontrar. Foi por isso que eu fugi. Foi por isso que eu te encontrei.

Houve uma pausa pesada entre os dois.

- Você não precisa fazer isso por mim, Linda – Ricardo então prosseguiu. – Se não é o bastante, não precisa fazer isso nem pela Emília. Faça por alguém que é mais importante.

- De quem você está falando?

- Chris Redfield.

Linda arregalou os olhos, atônita.

- Ele é importante pra todos vocês, eu já notei – disse Ricardo, fazendo um gesto abrangente. – Não há quem não o queira por perto. O porquê disso? Não consigo nem suspeitar. Mas se pelo menos ele é suficientemente importante, entre naquela delegacia comigo agora nem que seja para evitar que ele morra nas mãos de um novo inimigo. – Ricardo aguardou um instante. – Você faria isso?

Linda pensou. Pensou por tempo suficiente para parecer que havia muito mais a considerar do que Ricardo achava possível. Fato era que ele não sabia das coisas que se passaram entre Chris e ela quando ele esteve longe. Se dependesse dela, jamais saberia – não que não merecesse aquela dose de vingança, depois de tudo o que ele havia feito enquanto ainda eram casados. Mas ali havia um dilema que Linda não podia ignorar: afinal, arriscaria a própria vida por um sentimento que ela nem sabia se um dia seria correspondido?

- E então? – Ricardo quis saber.

- Que plano você tem em mente? – Linda respondeu prontamente.

Ricardo sorriu, satisfeito.

Caminharam os três, mãe, pai e filha, em direção à entrada da delegacia. De longe, já era possível perceber, através do clima, que aquele não era mais um ambiente comum e, fosse o que estivesse acontecendo por trás daquelas portas, não era para qualquer um. Só os fortes seriam capazes de encarar o inimigo que ali habitava, e só seriam eles também os únicos a saírem vivos. Se em algum momento Linda, Ricardo ou até mesmo Emília pareceram vacilantes a respeito da decisão que haviam tomado, de enfrentar fosse qual fosse o inimigo que tinha levado Carlos, não demonstraram isso, tão determinados que estavam. Não estavam tão certos de que eram bons o bastante para saírem vitoriosos daquela batalha, mas nem por isso pensavam em desistir dela.

Pior do que morrer é viver num mundo como esse, era o que Ricardo se dizia a cada pisada.

Romperam pelas portas duplas e correram direto pela escada, não se importando com o barulho que isso fazia. Não levaram muito tempo para descobrir em que direção deviam seguir, pois uma conversa alta era ouvida na direção direita no corredor em que a escadaria terminava. No fim daquela extremidade, havia apenas um único acesso: novas portas duplas, de madeira, desenhadas como se pertencessem a uma sala importante.

Era lá que o inimigo, Carlos e talvez todos os demais oficiais deviam estar.

Ricardo, Linda e Emília se encaminharam até lá e não pensaram em nenhuma consequência disso. Uma vez do outro lado das portas, não teriam mais como escapar do que o destino guardava para eles, mas mesmo assim não se importavam.

Assim que romperam pelas portas, viram o que todos viam. Como era de se esperar, agora não tinham mais como voltar atrás.

Notas finais
~Estamos chegando a um final, galera~ rs Espero que gostem! o/