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1 Ricardo Não Está Só
Notas iniciais
A noite havia caído há pouco, mas já estava bastante escura. Além disso, as movimentações, quase nulas durante do dia, já haviam começado, anunciando que a caçada tinha começado. Os murmúrios e resmungos eram ouvidos em todos os cantos como uma canção que fosse bem popular entre as pessoas na época. Essa seria uma hipótese perfeitamente aplicável se não fosse o fato de que as pessoas que entoavam tal canção estavam mortas, na verdade. Os resmungos, quase como reclamações, só estavam ali porque os mortos andantes não sabiam mais pensar ou articular palavras. Só tinha um único instinto: comer carne humana. Feito isso, poderiam continuar a vagar como se nada mais tivesse importância.
A princípio, essa atmosfera que fora criada naqueles dias tinha incomodado e muito Ricardo. No começo, ele não sabia como dormir, não conseguia, até que percebeu que estava a ponto de ficar insano. Deparou-se pensando bobagens absurdas enquanto o mundo ao redor do local onde ele se mantinha escondido murmurava. Logo notou que, se tivesse que ouvir aquilo por mais tempo, acabaria se matando. E foi por isso que se acostumou – ou melhor, se adaptou. Procurou livros e outras coisas que pudessem ajudá-lo a espairecer a mente e se desligar dos zumbis que ameaçavam transformá-lo num deles a qualquer momento e assim seguiu todos os dias em que se manteve dentro daquele apocalipse.
Mas essa foi apenas uma das muitas medidas que ele decidiu tomar. Outra notável foi que percebeu que caminhar durante o dia e dormir à noite era um erro sem precedente. Por algum motivo, e Ricardo suspeitava que talvez fosse por causa da visão morta ou porque o calor e a claridade não lhes faziam bem, os zumbis não gostavam de andar durante o dia. À noite, apareciam como enxames de abelhas, cambaleando por todo e qualquer canto, como uma doença que tivesse tomado conta de todos os lugares. Sabendo disso, nada melhor para adotar como rotina do que dormir quando o sol estivesse no céu e acordar quando a lua tomasse o seu lugar. Dormir com tantas criaturas canibais ao redor era perigoso, e por mais que Ricardo soubesse que aquele mundo era horrível, ainda assim não sentia vontade de se matar ou de se deixar morrer.
Até porque tinha uma filha e uma mulher que precisavam de sua ajuda naquela cidade.
Ricardo não estava mais morando com Linda e Emília havia algum tempo. Na verdade, andara morando sozinho num hotel de uma ou nenhuma estrela no Centro de São Paulo. Não queria gastar fortunas com moradia, principalmente com uma provisória, então não se deu ao luxo de se hospedar em hotéis caros – não que seu salário não pudesse pagar. Por causa disso que, quando o apocalipse começou, ele não estava do lado de Linda ou de sua filha, Emília. Na verdade, estava bem longe das duas, e não só no que dizia respeito à localização.
Emília nunca pareceu se importar muito com ele. Ricardo sentiu e sentia muita raiva de Linda por causa disso. Certamente que, quando ficavam sozinhas, sua ex-esposa usava aquela boca quase sem lábios para expor palavras que contaminavam a visão que sua filha tinha do pai, e tempo para que isso acontecesse elas tinham ao montes, não é mesmo? Como Linda nunca fora muito de trabalhar, as duas deviam passar horas conversando e confabulando sobre qual seria o nível de cafajestismo em que Ricardo se enquadrava, se, numa escala de zero a dez, ele estava no onze ou no doze. Nada mais natural. Ricardo sabia que faria o mesmo se a filha estivesse com ele e não o contrário. Ainda assim, não achava certo o que Linda fazia. Ele devia ser o homem da casa, e não o odiado da casa. Contudo, nunca conseguiu tal status.
E talvez fosse por isso que, naquela nova noite de apocalipse, ele tivesse decidido que iria procurar pela esposa e pela filha. Não que a ideia de elas estarem mortas ou de terem se transformado em zumbis não tivesse perpassado sua mente – pois perpassara muitas vezes. De algum jeito, ele queria saber o que havia sido delas, mesmo se estivessem mortas. Obter uma resposta nunca foi uma coisa ruim, era no que acreditava. Além do mais, ele não tinha muitas coisas mais para fazer, então ocupar suas noites com uma caçada não seria um problema.
Assim, Ricardo caminhava pela noite e fumava. Não sabia que a fumaça do cigarro lhe era um terrível inimigo, não só porque poderia lhe causar câncer de boca ou de pulmão, mas porque chamava a atenção dos zumbis. De qualquer forma, ele jamais pensaria tal coisa, já que, desde que voltara a fumar, nunca mais considerara a ideia de ter que largar o cigarro mais uma vez. Sentia-se bem fumando e era isso o que importava. Se isso lhe traria a morte mais cedo ou não era algo com o qual ele procurava não esquentar a cabeça.
Após deixar o apartamento no qual se hospedara durante o dia, ele avançou pelas ruas pequenas mas largas do Centro de São Paulo enquanto estourava esporadicamente a cabeça de algum zumbi que ameaçasse atacá-lo. O fazia sem nenhuma repulsa, e quem o avistasse até pensaria que ele não era do tipo que se abalava ao ver sangue alheio. A verdade era que nem sempre foi assim.
Ricardo matara o seu primeiro zumbi há muitos dias e fora a pior sensação que teve em sua vida. Naquele momento, pensou que nunca mais faria algo do tipo. Percebeu que estava enganado ao reparar que sua sobrevivência dependeria disso. Se não matasse os mortos-vivos, eles o matariam. Motivado por tal conclusão foi que, com uma estaca de madeira, ele acertou um golpe bem mirado na cabeça de um senhor cujos olhos não demonstravam expressão alguma. Ao pensar na memória, recordou como o queixo dele se espatifou e como a pele se rasgou facilmente com a pancada e seu corpo estremeceu no lugar. O zumbi nem mesmo se permitiu um grito para demonstrar que aquilo lhe causara alguma dor, pois provavelmente não causara nenhuma. Talvez esse fosse o fator mais frustrante em matar zumbis para Ricardo.
Porque, por mais que você matasse um, os outros não se intimidavam. Não eram capazes de aprender as leis da causa e conseqüência, então se aproximavam para serem abatidos como se não houvesse amanhã.
Depois de matar tantos mortos-vivos, Ricardo acabou se acostumando, mas ainda se mantinha cauteloso. Até aquele momento, não matara mais do que quatro ou cinco por noite. Na verdade, tinha medo de encontrar multidões deles e não saber o que fazer. Quando dormia, tinha pesadelos envolvendo essa situação e costumava acordar bem assustado. Se pudesse exigir que algo jamais acontecesse, esse tipo de pesadelo figurava o primeiro lugar da lista.
Ao dobrar uma esquina, Ricardo ouviu um barulho diferente. Não era arrastar de pés nem resmungos, mas rodas e roncos de motor. É um carro, ele pensou com certa animação e chegou a sorrir. Encostou-se ao lado de um poste, sem deixar de prestar atenção nos zumbis que se aproximavam, e esperou que qualquer que fosse o carro desse as caras.
E ele deu, com os farois tão acesos e claros que Ricardo não foi capaz de enxergá-lo. Momentaneamente cego, ele pulou para trás do poste e pôs-se a esfregar os olhos.
Foi então que um tiroteio se iniciou e zumbis começaram a cair novamente mortos ao seu redor. A saraivada de disparos foi tão grande que Ricardo, por um momento, pensou que tivesse sido acertado também. Desesperado, jogou-se ao chão, tapando os ouvidos com as mãos, e torceu com força para que aquilo acabasse. O corpo de um morto caiu sobre o seu e o cobriu com seu fedor e sangue velho. O carro de onde os tiros vinham demorou-se ainda alguns minutos naquela rua e foi somente quando teve certeza de que não havia mais zumbi nenhum a ser aniquilado foi que partiu.
Ricardo destapou os ouvidos e ergueu-se um pouco para olhar ao redor. No final da rua, foi capaz de ver os farois do carro sumindo e dobrando à esquerda, por onde seguiu e desapareceu. Animado, sussurrou para si:
- Caras com armas...? Finalmente encontrei quem pode me ajudar!
Ricardo estava decidido a seguir o carro e descobrir quem eram aquelas pessoas, pois não tinha dúvidas de que não eram policiais comuns, quando nenhum dera as caras há tanto tempo. O que ele não sabia era que essa escolha só o levaria a mais problemas.
Problemas esses que eram bem maiores do que qualquer um que ele tivesse enfrentado até então.
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