A Busca Continua

2 Cervejas e Conversa


Ricardo jogou para longe o corpo que estava sobre o seu e levantou-se num pulo. Disse um palavrão enquanto retirava um pedaço de pele que grudara em seu ombro e jogou-o para longe também. Em algum lugar, ele ouviu um gemido – um zumbi que escapara vivo ao massacre. Pensou que poderia descobrir sua localização e matá-lo uma vez mais, mas então percebeu que só perderia tempo com isso. Chutou para o lado um monte de mortos que se acumulara ao seu redor e seguiu para o fim da rua, na mesma direção em que o carro com as pistolas havia seguido.

– Hoje é meu dia de sorte! – Ricardo disse para si, mais alto do que devia. Adquirira esse hábito de falar sozinho, em tom de conversa, depois de tanto tempo sem encontrar ninguém.

Ele não sabia no que um carro cheio de pessoas portando metralhadoras poderia ajudá-lo. Não sabia se eram pessoas ruins ou se eram boas, se estavam ali para ajudar quem ainda estivesse vivo ou se apenas para brincar de matar zumbis porque achavam a brincadeira interessante. Mesmo assim, Ricardo não via problema nenhum em descobrir do que se tratava aquele automóvel. Era um tipo de curiosidade que não conseguia reter ou esconder. Ele sabia que a curiosidade matara muitos gatos no mundo, mas ainda assim não se importava. Tinha a impressão de que não conseguiria dormir bem no próximo dia se não voltasse a ver aquele carro.

Por isso, ele correu. Correu no meio da rua, onde sabia que não seria facilmente agarrado caso houvesse algum zumbi escondido por entre as frestas das paredes – não que isso fosse mesmo acontecer, já que, apesar de ter deixado um único morto-vivo ainda vivo, os responsáveis pelo massacre naquela rua haviam sido bem efetivos se o objetivo era limpar o local. Correu com pressa por medo perder o carro de vista. Ele sabia que, na velocidade que passara por ali, o carro poderia ir muito mais longe do que simples pernas humanas poderiam alcançar, mas estava positivo de que talvez eles tivessem feito uma parada para abastecer no posto de gasolina do próximo quarteirão ou algo assim.

E como estava bastante descansado, uma vez que a noite havia apenas começado, chegou ao final da rua e ao próximo quarteirão com menos tempo do que supusera.

A ideia de encontrá-los abastecendo o carro fora uma piada, portanto, quando Ricardo viu um enorme Range Rover estacionado no posto de gasolina enquanto pessoas se movimentavam ao seu redor, nas sombras – não havia luz no posto -, procurando mangueiras e de fato abastecendo o automóvel, ele sorriu como uma criança que tivesse visto o seu personagem favorito de desenho animado frente a frente. Parecera um pouco insano, isso é verdade, mas nunca estivera tão certo de sua consciência, tanto que nunca passou por sua cabeça que aquilo pudesse ser uma miragem ou uma visão.

– Preciso me aproximar...

A ideia de se aproximar lhe parecia a mais atrativa, mas nunca pareceu a mais fácil. O posto de gasolina não ficava a mais do que cinquenta metros de onde ele se encontrava, escondido atrás de uma parede na esquina, mas ainda assim a aproximação parecia um imenso desafio. Caminhar até o carro e chegar dizendo olá e boa noite fora uma suposição, e talvez fosse a mais amistosa, partindo do ponto de que, em tempos como aqueles, qualquer um poderia ser hostil. O problema verdadeiro desse tipo de aproximação era que, de longe, pessoas armadas podem confundir qualquer humano com um zumbi. Além do mais, aquele grupo não parecia ser do tipo que pergunta se alguém é zumbi ou não antes de apertar o gatilho de sua pistola. Ricardo precisava ser cauteloso.

E procurando essa cautela foi que ele atravessou a rua com lentidão e bastante abaixado, imaginando que, assim, não chamaria tanta atenção. Encostou-se contra a parede do outro lado da rua e deu uma olhada para o lado, calculando a distância que ainda havia até o posto de gasolina. Não eram muitos metros, mas, em circunstâncias como aquelas, o que Ricardo viu diante de si foram dois ou mais quilômetros de distância até a primeira calçada do posto. Mordeu o lábio, tenso, e pôs-se a se aproximar.

Já alguns metros à frente, conseguiu ouvir uma conversação. A julgar pela maneira animada como as palavras ininteligíveis eram ditas, podia-se afirmar que aquela não era uma força inimiga. Ou talvez seja uma daquelas bem sádicas e que não veem problemas em rir em situações que deviam ser trágicas, Ricardo pensou, voltando a ser pessimista. A conversa foi percebida como acalorada e descontraída quando ele avançou mais alguns metros, mas, ainda assim, Ricardo não conseguiu entender o que falavam. Era como se não falassem sua língua.

Só então notou que eles falavam em inglês.

Terroristas! – sussurrou, não conseguindo conter a revolta.

De frente para o posto de gasolina, deitou-se no chão e começou a aproximar-se de maneira ainda mais sorrateira. Conseguiu esconder-se ao lado de uma lata de lixo e, por baixo dela, permitiu-se enxergar pelo menos os pés daquelas pessoas se movimentarem em torno do carro. Ouviu o lacre de uma lata sendo aberto e risadas. Provavelmente, eles deviam ter saqueado a loja de conveniência e não viram problema algum em beber algumas cervejas. Eu próprio queria estar bebendo agora, Ricardo pensou, sentindo a garganta seca.

As frases que as pessoas disseram eram em inglês, mas o que Ricardo entendeu foi mais ou menos o seguinte:

– Cerveja para encerrar bem esse novo dia de trabalho! – era a voz de uma mulher.

– Salvar o mundo não é sempre tão ruim quando dizem – disse outra voz, dessa vez um homem.

– O tanque está cheio, pessoal. Já podemos partir – uma terceira voz, masculina.

– E por que a gente não fica mais um pouco? Sem supervisão dos chefes, podemos beber à vontade e antecipar nosso happy hour, que tal?

– Acho a ideia magnífica.

Temos que partir, pessoal. Eles estão esperando por nós.

– Acabamos de conhecê-los, por que tanto compromisso assim? – disse a mulher, impaciente.

– Porque são eles que vão nos ajudar! – disse a terceira pessoa.

– Não acho que você devia estar tão preocupado. Enquanto vocês tiverem a mim e a minha influência, jamais perderão aliados. Ou será que não tenho suas confianças?

– É claro que tem.

Uma pausa.

– A conversa está muito boa, assim como a cerveja, mas agora sou eu que acho que devemos partir – disse a segunda pessoa.

– Da próxima vez que tiver que tomar conta da segurança de um lugar, vou solicitar parceiros de equipes que gostem mais de curtir do que vocês! – disse a mulher e em seguida riu, fazendo todos rirem.

Então eles estão aqui a trabalho..., Ricardo constatou e sorriu.

As portas do carro se abriram e os três entraram.

– Onde você disse que era mesmo aquela espelunca? – perguntou a mulher lá de dentro.

– O endereço?

– Sim. Era próximo a alguma praça, não é mesmo...?

– Praça da República.

– Está certo. As placas nos dirão aonde ir. Apertem os cintos e preparem suas munições!

Numa arrancada, o carro partiu cantando pneus e levantando fumaça no ar. Segundos depois, não havia qualquer rastro de que um dia houvera um carro ali.

Ricardo levantou-se e limpou o suor da testa, aflito. Contemplou o final da rua, escura e sem nenhum sinal de vida, e respirou fundo. Naquele instante, decidiu que, de uma vez por todas, queria saber do que se tratava aquele grupo estrangeiro e quais eram os seus objetivos em um lugar que não lhes pertencia. Mais uma vez, sua curiosidade cutucou-o tão fortemente que ele sentia que não conseguiria fazer mais nada, além de seguir o rastro do carro.

– Praça da República eles falaram? – Ricardo repetiu. – Conheço bem esse lugar.

E de fato conhecia. Seu antigo escritório também ficava lá.


Notas finais
Um review sempre é motivador, não? :)