A Busca Continua

11 O Que Fazer No Corredor?


– Você acha que essa é mesmo uma boa ideia? – Ricardo perguntou, procurando encarar o olhar de Carlos enquanto esse se aprontava para a varredura.

– Acho uma excelente ideia. Por que a pergunta?

– Confio nessa Jill, mas não confio no Kevin. Não mesmo – Ricardo respondeu e alisou o queixo, onde uma barba conservada há duas ou três semanas havia se alastrado. – Por que você acha que ela preferiu fazer as duplas dessa forma? Digo, eu e você numa equipe e ela e aquele trouxa em outra?

Carlos estava apertando bem os cadarços de sua botina quando ouviu a pergunta e foi só depois de certificar que cada um dos calçados estava bem preso e confortável que ele concedeu uma atenção verdadeira ao homem que lhe dirigia a palavra.

– Eu não sei – foi o que respondeu, fazendo com que Ricardo afrouxasse os ombros e revirasse os olhos. – Suspeita de alguma coisa, meu jovem?

– Não – Ricardo mentiu.

– Eu tenho uma suspeita. – Carlos circundou a sala em que se encontravam, uma espécie de recepção para um setor que estava guardado atrás de uma porta, com bancos e um balcão de atendimento. – Você e Kevin não se dão muito bem, então deviam ser separados. Suas opções, no caso, somos eu e a Jill.

– E porque não estou com a Jill agora?

– Das duas, uma: ou ela preferiu escolher o Kevin porque consegue lidar com ele melhor do que você ou a minha paciência são capazes de lidar, ou você a assusta e ela não acha uma boa ideia andar lado a lado com você.

– Bobagem.

– Talvez nunca saibamos.

Carlos agarrou a mochila que andara carregando até ali e vestiu-a. Sacou uma lanterna do bolso traseiro de sua calça, lançou-a no ar como num malabarismo e agarrou-a novamente. Olhou para Ricardo e acenou, pedindo que ele tivesse atenção, pois eles estavam prestes a sair daquele ambiente. Assim que Ricardo assentiu, Carlos deu um passo em direção à única outra porta que ali havia, além daquela pela qual eles entraram.

Com um chute, ele destruiu a maçaneta e o trinco da porta, que bateu com força na parede.

O que a abertura revelou, e o que Ricardo viu, foi um longo corredor que não terminava apenas onde os olhos eram capazes de alcançar, mas talvez no final da curva que ele fazia, detalhe que só foi possível de ser enxergado por causa da lanterna nas mãos de Carlos. Havia janelas nas paredes desse corredor, por onde uma luz fria entrava, provinda ou dos postes de luz que ainda funcionavam lá fora ou até mesmo do luar. Apesar de pertencer a um lugar que devia ter os seus cuidados, as paredes estavam sujas e com aspecto envelhecido, com manchas negras descendo do teto, criando desenhos mórbidos aqui e ali. Mesmo sendo um lugar onde a segurança devia ser algo mais garantido do que qualquer outra coisa, Ricardo não se sentiu seguro o bastante para enfrentá-lo.

– Você quer mesmo passar por aí? – ele perguntou.

– Sim. Temos que começar a varredura por algum lugar, não?

Ricardo não ousou dizer qualquer outra coisa. A certeza na voz de Carlos, por si só, já o convencia de que não existia argumentação que pudesse convencer o homem a desistir daquela ideia.

– Espero que saiba atirar, Ricardo. Posso salvar sua vida com uma bala da minha pistola, mas também não espere nenhum milagre caso eu esteja ocupado com outra coisa.

– Vou saber me virar.

Carlos assentiu e então entrou no corredor sem nenhum aviso prévio. Ricardo obrigou-se a acompanhá-lo.

Por mais que a aparência do corredor o intimidasse, ele estava positivo quanto o que pudesse vir, porque acreditava que nada viria. Afinal, ele estava numa delegacia, o lugar que menos devia ser perigoso em toda uma cidade. Hospitais costumavam ser os menos seguros, uma vez que todas as portas estavam sempre abertas e os guardas de segurança que havia nem sempre eram competentes o bastante para sua finalidade. Esse era um problema que Delegacias não sofriam, por justamente serem as donas da segurança de uma cidade. Ricardo acreditava que passar por um corredor como aquele, por mais arriscado que fosse, não seria um problema jamais, principalmente porque ele estava na companhia de alguém que conhecia o meio.

Então, quando adentrou o corredor, seus passos, mesmo que vacilantes, tinham certa firmeza, porque conseguira se convencer a ficar tranquilo. Enquanto caminhava – de maneira bem diferente da de Carlos que, com seu treinamento, aprendera que, quando o perigo é iminente, a arma precisa sempre estar pronta para disparar o primeiro tiro -, Ricardo até conseguiu olhar para a janela, observar a rua pouco iluminada lá fora e não enxergar nada de muito importante, além das sombras que se moviam na escuridão. Sentiu arrepios ao se imaginar lá, mesmo que já estivesse acostumado a ambientes com aquela aparência, mas seguiu em frente.

Por isso, quando uma janela se espatifou e um braço de pele pútrida se projetou para dentro do corredor, Ricardo se assustou. Imaginava que qualquer coisa fosse acontecer em algum instante, menos aquilo. Tudo bem que o braço em si não era um grande problema, já que ainda havia espaço suficiente para que qualquer pessoa passasse entre a mão e parede, sem jamais ser tocado. O problema foi que, com a janela quebrada, estava ali uma abertura para que outros zumbis pudessem entrar, e foi justamente isso o que aconteceu.

Primeiro, um corpo se jogou para dentro do corredor e, como caiu de mau jeito, a cabeça se espatifou na parede à frente, inutilizando-a. Depois desse, veio mais um, esse um tanto mais cauteloso, mas tão sedento de carne quanto o primeiro. Usou uma perna para entrar e logo colocou a outra para dentro. Em seguida, ergueu as mãos onde alguns dedos estavam em falta e procurou se dirigir em direção a Ricardo, os olhos amarelados, envelhecidos, que não enxergavam realmente, voltados na direção do homem enquanto procurava se aproximar.

Foi nesse instante que as pernas de Ricardo vacilaram por completo e o fizeram ir ao chão.

Ele começou a se afastar, utilizando as mãos enquanto o zumbi se aproximava com a mesma velocidade. Da garganta da criatura, um gemido era emitido, como se ela sofresse fortemente. Como caminhava, era bem possível que não sofresse realmente. Sua boca estava aberta, os dentes negros e quebrados à mostra, porque, morta, a criatura não tinha como mantê-la fechada. Todas essas imagens apavoraram tanto Ricardo que ele não conseguiu mais pensar com a razão.

– Não fique parado, seu bunda mole! Use a arma! – Ricardo ouviu Carlos gritar.

Como se esse tivesse sido o gatilho que Ricardo precisava para tomar alguma atitude, ele agarrou uma vez mais a arma e mirou-a na direção do zumbi. Um tiro foi disparado na cabeça da criatura, que, com o cérebro inutilizado, não teve mais como se mover e caiu no chão com um baque surdo.

Ao observar o que acabara de fazer, as mãos de Ricardo tremeram.

Você já fez isso, Ricardo, mas por que está tão apavorado?, pensou enquanto observava novos zumbis entrarem pela única janela rompida. Por que está com tanto medo?

– Venha, Ricardo! Ande! – Carlos gritou antes de disparar contra os zumbis.

Ricardo se levantou num pulo e estava pronto para avançar na direção do homem que o chamava, mas então outra janela se espatifou, e os braços que por ela romperam agarraram em cheio seu corpo.

– Preciso de ajuda! – ele gritou de volta. Tão apavorado que estava, largou a pistola no chão para tentar se livrar das mãos que o seguravam.

Numa de suas esquivadas, acabou puxando o zumbi para dentro do corredor, terminando de quebrar a janela por onde ele se enfiara. Nesse momento, não tinha mais como controlar a infestação no local. Nem mesmo as pistolas seriam úteis o bastante para a quantidade de criaturas que tomou aquele corredor.

Numa medida desesperadora, Ricardo conseguiu desprender as mãos do zumbi de seu peito e correu, mas para a direção contrária à de Carlos, certo de que não conseguiria alcançá-lo. Carlos viu isso acontecer e, irritado, bradou:

– Volte já aqui, seu covarde!

– Me encontre na outra saída do corredor! – Ricardo gritou de volta. – Vou tentar encontrar outro caminho para chegar até aí!

Carlos achava aquela ideia absurda, mas não tinha outra melhor, então a aceitou. Sumiu na curva do corredor sem pensar duas vezes ao ouvir a sugestão de Ricardo e deixou apenas uma quantidade de zumbis a persegui-lo ali.

Ricardo voltou imediatamente pela porta por onde entrara e tentou fechá-la usando uma cadeira, já que o trinco, quebrado pelo pé de Carlos, não funcionava mais. Encostado à porta e contemplando a escuridão assustado, ele começou a torcer para que seu plano de voltar a encontrar Carlos desse certo.

Se não desse, Ricardo acreditava que morreria mais cedo do que imaginava.