- Aguarde um instante por aqui. A gente vai ver o que faremos em seguida – foi o que Jill disse antes de abandonar Ricardo a um canto naquele imenso estacionamento.

Ricardo estava sentado no chão enquanto se alimentava. Tinha alguns biscoitos ainda e até chegou a dividi-los com os oficiais da S.T.A.R.S e com os bolivianos – Ou peruanos? – enquanto bebericava de um copo de leite, que os oficiais roubaram e andaram estocando por ali. Só dividira seu alimento com todos eles porque vira que aquele grupo tinha muito mais comida do que ele conseguira juntar em todo aquele tempo. Se ia mesmo passar uma temporada com eles, pelo menos enquanto não encontrasse Linda e Emília, fome era um sofrimento pelo qual ele não passaria.

Jill, Kevin e Carlos discutiam com determinação a um canto. Pelo que parecia, conversavam sobre quais passos deveriam dar nas próximas horas. Estavam os três apoiados no capô do carro que eles usavam para fazer as badernas que andaram fazem em São Paulo. Jill falava e apontava avidamente para um mapa que fora desenrolado sobre o capô, muito provavelmente o mapa de São Paulo. A julgar por como dava importância àquilo, podia-se ter a impressão de que o tal do Chris Redfield era mais importante do que devia. Talvez seja o namoradinho dela, Ricardo pensou, ranzinza. Tomou mais um gole do copo de leite e continuou a observar o grupo.

Ricardo era um homem velho, já tinha meia idade, e Jill parecia jovem demais para ele ou até mesmo para trabalhar com aquele tipo de trabalho. Isso seria um problema para qualquer outra pessoa, mas, para o homem que a observava, esse fato não chegava nem próximo disso. Jill era uma garota linda e, apesar da diferença de idade que eles tinham, ele sabia que poderia transar com ela a qualquer momento. Já tinha feito isso com garotas como elas, que entravam em sua empresa em busca de uma boa oportunidade de emprego e de grandes salários, que só eram conquistados através de favores sexuais. Para Ricardo, ter um corpo como o de Jill para si não era algo tão novo assim, então ele imaginava que, a qualquer momento, teria aquela mulher para si, como desejava.

Se qualquer um dos presentes ouvisse tais pensamentos do homem, era bem provável que achassem irônico o fato de que ele desejava outra mulher enquanto dizia que precisava encontrar a esposa e a filha.

Ricardo desviou o olhar do grupo – Jill trocara de posição com Kevin, o que dificultou o homem de olhar sua bunda – e voltou-se para o outro canto do estacionamento, que estava mergulhado em escuridão, porque os faróis dos carros não tinham tanto alcance assim. Fitou aquele ponto com fascinação ao mesmo tempo em que sentia medo. Imaginava que, a qualquer momento, um novo monstro fosse surgir por ali. Adquirira esse tipo de pensamento depois de sobreviver ao ataque de um licker, então, de certa forma, ficara um tanto paranoico com esse tipo de coisa.

E com pensamentos como esses, não foi difícil se assustar quando, ao ter a visão acostumada com a escuridão, seus olhos encontraram algo que ele não esperava por aqueles cantos. Ricardo afastou-se no chão, apoiando as mãos e derrubando o copo de leite no chão, tão apavorado que ficou, ao observar o que pareciam olhos gigantescos na escuridão, fitando-o com expectativa. Foram precisos alguns segundos para ele perceber que aqueles olhos não pertenciam a um monstro ou nada parecido, e sim a um boneco infantil grande no formato de uma criança sorridente. Ao lado daquele, havia muitos outros iguais, tão cinicamente sorridentes quanto, e por incrível que pudesse parecer, Ricardo achou aquilo ainda mais assustador do que qualquer zumbi que já tivesse visto até aquele momento.

- Mas que porra é essa?! – ele indagou, levantando-se num pulo, apontando um dedo trêmulo na direção dos bonecos. – O que essas merdas de bonecos estão fazendo aqui?!

Jill virou-se instantaneamente no lugar e olhou para os bonecos também.

- Ah, isso? – ela começou a dizer, tentando parecer despreocupada, muito embora o seu olhar demonstrasse exatamente o contrário. – São exatamente o que parecem: bonecos infantis.

- Ah, sim! Agora me diga algo que eu não saiba! O que eles estão fazendo aqui?

- Os peruanos trabalham com esse tipo de coisa, meu rapaz – disse Kevin sorrindo. – Eles fazem bonecos para decoração infantil.

- Num estacionamento? Isso não parece estranho para vocês?

- Nem um pouco – Jill voltou a dizer. – Quando o apocalipse começou, eles quiseram salvar também os seus trabalhos, então os levaram para onde conseguiram se esconder. São eles que estão nos abrigando, Ricardo, e não o contrário.

- Claro que é isso – disse Ricardo, ainda irritado. Estava assustado demais e achava que não conseguiria conviver muito bem com bonecos como aqueles e manter a sanidade ao mesmo tempo.

Jill continuou a discutir com seus companheiros e só meia hora depois foi que se voltou para o restante do grupo – mais para Ricardo do que para os peruanos, que muito provavelmente não ajudariam em nada fosse qual fosse o plano que os oficiais tivessem encontrado.

- O nosso plano vai ser o seguinte – começou a dizer -: partiremos na noite que vem em uma nova busca por Chris Redfield. Imaginamos que, assim como qualquer oficial, ele tenha se abrigado em um ambiente que lhe fosse familiar, uma delegacia ou algo parecido, onde muito provavelmente encontraria munição e abrigo enquanto a ajuda não viesse. Assim que partirmos, seguiremos para a primeira delegacia que encontrarmos, deixando, assim, esse ambiente para trás. O perigo lá fora é grande, então é de suprema importância que vocês todos estejam armados. – Jill girou os olhos na direção de Ricardo e disse: — Isso inclui você.

- Posso encontrar um cano ou um pedaço de madeira em qualquer canto – ele falou.

- Não estou falando de armas amadoras, que exigem proximidade e que colocam sua vida em risco. Estou falando de armas de fogo, meu caro rapaz. Você sabe atirar?

- Não quero sujar minhas mãos com armas como essas!

- Então sinto em dizer que você terá que ficar aqui e fazer companhia para a escuridão. Não vou andar com quem não esteja suficientemente armado. Não podemos perder tempo com pedidos de ajuda da própria equipe.

- Não tenho arma nenhuma, como vocês esperam que eu possa ajudar, então?

- Nós temos, pode ficar tranquilo – disse Kevin e, antes que Ricardo pudesse perceber, ele lançou uma pistola no ar, que o homem agarrou com alguma dificuldade, antes de recebê-la com força no nariz.

- Vocês só podem estar malucos...

- Encare isso como quiser – disse Jill, dando de ombros. – Se quiser andar com a gente, terá que estar armado. – Voltando-se para todos, ela prosseguiu: — Nosso plano tem grande chance de dar certo, porque o manual de sobrevivência da S.T.A.R.S exige que qualquer oficial tome esse tipo de providência assim que estiver em perigo. Tenho certeza de que teremos sucesso nessa missão.

- Ótimo, está tudo muito lindo, mas e onde entra a parte em que encontramos Linda e Emília?

- Essa parte vai chegar, mas você precisa ter paciência. Chris Redfield é um dos nossos melhores oficiais e ele com certeza nos ajudará nessa nova busca. Acredite em mim quando digo que não vamos cometer um erro se formos atrás dele, muito pelo contrário; estaremos fazendo um acerto.

- Espero que estejam mesmo.

- Você fala como se tivesse muito o que fazer em circunstâncias como essas – provocou Kevin, mais uma vez usando de seu tom de deboche. – Se tiver marcado manicure para a noite que vem, eu empresto o meu celular para você desmarcar...

Kevin já estava retirando o aparelho do bolso a fim de melhorar sua piada quando a pistola que Ricardo segurava acertou seu rosto em cheio.

- Você quer brigar então, seu velho caquético! – Kevin disse e com três passos conseguiu alcançar Ricardo, que estava pronto para socá-lo também caso fosse necessário. Se não fosse por Carlos Oliveira, talvez Ricardo tivesse desmaiado com um único soco antes que pudesse contar até dois.

- Segurem seus cavalos, homens! – disse Carlos ainda segurando Kevin, que se sacudia como uma fera. – Um desentendimento é o que menos precisamos em dias como esses!

- Acho que fui clara o bastante para que não haja mais perguntas, certo? – Jill emendou. – Podemos dormir então, assim que as duas mocinhas pararem de querer esmurrar uma à outra.

Kevin sacudiu os braços e se livrou. Ricardo pensou que, naquele momento, fosse ser esmurrado, mas nada disso aconteceu. Pelo contrário, Kevin apenas o encarou e lhe destinou um olhar que dizia “É melhor tomar cuidado”. Depois disso, virou-se e entrou no carro, batendo a porta.

- Isso vai ser interessante – Jill declarou antes de entrar no carro também.