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8 Os Bonecos
Por mais que Ricardo já estivesse acostumado com a ideia de dormir durante o dia para sair à caçada à noite, aquele foi um dia particularmente complicado de se conseguir dormir. Deitado, o homem não pregou os olhos durante um instante sequer, e ele bem sabia alguns dos motivos por trás disso. Primeiro, estava deitado no chão, portanto, se quisesse se arranjar para dormir bem, teria que encontrar conforto no asfalto frio. Além disso, com tanta gente ao redor, os barulhos que se ouvia eram tantos que era impossível se concentrar de olhos fechados. Ricardo ficou tanto tempo sem dormir que irritou-se. Desistiu de continuar a tentar muitas horas depois, quando já estava voltando a ficar de tarde, quando a noite já caía aos poucos.
Esses eram alguns dos motivos que o impediram de dormir bem, porém ainda faltava um: os bonecos. Ricardo nunca simpatizou muito com desenhos infantis ou decorações daquele tipo, principalmente quando se pareciam com bonecos. O que acontecia era que ele, mesmo já sendo de meia idade, tinha muito medo de bonecos e bonecas. Era um pavor tão intenso que só saber que havia uma porção deles compartilhando o mesmo espaço que ele era suficiente para fazer com que perdesse toda e qualquer vontade de adormecer. Isso somado aos outros dois fatos foi determinante na hora de fazê-lo ter a pior “noite” de sua vida.
Por isso, cansado demais para continuar insistindo naquilo que ele sabia que não levaria a nada, Ricardo se levantou. Passou as mãos no rosto, limpou a sujeira que grudara nele, tentou ajeitar os ralos cabelos e a roupa que usava e pôs-se de pé com muita dificuldade. Cambaleou um pouco para os lados ao fazer isso, porque ainda o ambiente estava muito escuro, o que comprometeu sua noção de equilíbrio.
Ao fazer isso, Ricardo só tinha um pensamento: queria acordar cada um dos homens barulhentos – ele tinha quase certeza de que Jill não era responsável por tão desagradável sinfonia – e fazê-los perceber que dormir num lugar como aquele era um inferno, porém, uma vez em pé, mudou completamente de ideia. Com a cabeça no lugar, percebeu que a ideia era um absurdo, principalmente porque ele não conhecia as pessoas com quem estava lidando e muitas surpresas poderiam surgir de um momento de irritação partido de um daqueles peruanos. Além do mais, Kevin não era lá uma pessoa tão amistosa – não sem motivo -, o que poderia trazer ainda mais algumas encrencas ao homem.
Então Ricardo caminhou. Desviou-se com cautela de todos os corpos deitados no chão e chegou a um canto no estacionamento, justamente aquele que estava próximo dos bonecos dos quais ele tinha tanto medo. Pensou em se desviar daquela rota, mas percebeu que teria que pular novamente todos os corpos, o que, com o raciocínio que ele estava no momento, não seria possível sem obter alguma falha no percurso. Acabou decidindo caminhar por ali mesmo, espairecer a mente, procurando ignorar o trabalho dos peruanos com a maior de suas concentrações.
O que ele não conseguiu fazer em absoluto.
Quando menos pôde perceber, já caminhava na direção dos bonecos. Em nenhum momento pensou que aquela era uma boa ideia e que talvez fosse legal ver aquele tipo de trabalho de perto, mas ainda assim seguiu naquela direção. Conforme avançava para dentro do estacionamento, mais escuro ficava o lugar, e mesmo que quase não houvesse luz, era como se os bonecos não achassem isso um problema e quisessem se mostrar presentes. Estava escuro, mas Ricardo conseguia vê-los, principalmente aqueles olhos gigantescos e brancos, sarcásticos ao mesmo tempo em que eram assassinos. Só loucos seriam capazes de alugar aquele tipo de enfeite para uma festa infantil.
Tenho certeza de que Emília ficaria muito assustada se se deparasse de frente para uma dessas coisas, Ricardo pensou e contorceu a boca numa careta. Sentiu os olhos coçarem e logo percebeu que eram lágrimas que os haviam permeado. Levou um indicador a cada um dos olhos e limpou-as. Sentia saudade de sua família, mas não queria chorar por causa disso. Tinha que parecer um homem forte se seu plano era encontrar Linda e Emília em algum momento.
E foi pensando nelas que Ricardo se aproximou de um boneco e simplesmente apoiou-se em sua cabeça. Era um garoto, também de olhos gigantescos, cabelos negros e usando um macacão que o homem não se lembrava de algum dia ter visto uma criança, pelo menos um menino, ter usado. Tornou a levar uma mão os olhos e limpou novas lágrimas que surgiram. Para ele, estar longe da filha e da esposa estava sendo mais difícil do que ele jamais imaginou que seria. Teria que encontrá-las muito em breve, senão seria capaz de enlouquecer.
E era apenas por causa disso que ele tinha topado ajudar Jill e sua equipe a encontrar o tal do Chris Redfield, por mais que soubesse que não teria grande utilidade para eles.
Ainda imerso em pensamentos, Ricardo notou que seu nariz coçava. Levou a mão até ele coçou-o para aliviar o tormento, mas segundos depois, a sensação voltou, então ele tornou a levar a mão ao nariz. Quando menos pôde perceber, seu nariz estava escorrendo mais do que o comum. Ao levar a mão até ele uma última vez, percebeu que era ela que estava causando aquele sintoma.
Sim, porque sua mão estava suja com algum pó que ele não se lembrava de ter tocado.
Só então ele se deu conta de que os bonecos não eram apenas bonecos.
Ricardo enfiou uma unha na cabeça do garoto em que estivera apoiado e sua superfície de isopor cedeu com facilidade. Arrancou uma lasca daquele tampo, mas não foi o suficiente para enxergar o que havia ali dentro, então teve que arrancar algumas mais, quase que puxando toda a tampa da cabeça do boneco, que já era assustador mesmo sem estar destruído. Encontrou o que achava que encontraria poucos segundos depois.
- Cocaína – disse para si mesmo enquanto observava os embrulhos de plásticos socados sem organização nenhuma onde devia ser o cérebro do boneco. – Só podia ser!
Como já estava bastante irritado, Ricardo não conseguiu evitar o grito que veio a seguir:
- Seus bandos de traficantes de merda! – A essa altura, Ricardo já estraçalhava os bonecos com ferocidade. – Vocês vêm de seus países pobres e sem cultura para viciar nossos jovens promissores! VOCÊS DEVIAM MORRER!
Ele continuou a gritar insultos por mais alguns minutos, o suficiente para fazer com que todos acordassem. Tão focado que estava em sua atitude de destruir o trabalho dos peruanos não percebeu quando um deles surgiu às suas costas e o agarrou com um braço pelo pescoço, apontando uma pistola para sua cabeça.
- Quieres murir? – anunciou o homem e seu bafo podre percorreu todo o ar até atingir o nariz de Ricardo. – No toque lo que no es tuyo!
- Matarlo! – gritou outro peruano. – Rápido!
- Seu monte de estrume! – Ricardo rebateu e o que recebeu em resposta foi um soco na barriga de outro peruano que surgiu do nada.
- Parem com isso! – ordenou a voz de Jill, fazendo com que todos se voltassem para encará-la na escuridão. – Mas vocês homens são uns inúteis mesmo!
- Vete! Este hombre merece morir!
- Não, ele não merece nada, agora solte-o, senão um dos meus companheiros vão acabar com isso antes que vocês possam sequer atirar nesse homem!
- Eres como él! – o homem disse e jogou Ricardo para frente como quem joga uma peça de carne aos cachorros. – Ahora salte! Ninguno de ustedes es bienvenido!
- SALTE! – todos os homens começaram a gritar em uníssono.
- Isso não vai ser bom pra ninguém – Jill disse e agarrou Ricardo num abraço, guiando-o para dentro do carro. – Entre e mantenha essa boca calada! Já conseguimos problemas demais aceitando você por aqui!
- Eu não sou o problema! – Ricardo procurou dizer enquanto observava Jill tomar o banco do motorista, Kevin o de passageiro, na frente, e Carlos o outro banco de trás, o que Ricardo não havia tomado. – Vocês é que estão confabulando com gente que trafica drogas! Isso nunca foi certo!
- Em tempos como esses, não há certo ou errado, homem! – Jill retrucou e ligou o carro. – Confabular com o inimigo é uma expressão que não existe quando a questão é a sobrevivência!
Ricardo olhou para o lado e encontrou o olhar de Carlos, que deu de ombros.
- Agora fique quieto, senão eu mesma vou atirar nessa sua cabeça ranzinza! – Jill voltou a dizer e arrancou com o carro, cantando pneus.
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