A Busca Continua

20 O Fim Não é Em São Paulo


Deixaram a delegacia já com o sol a certa altura, deixando aquela manhã até que um pouco agradável. Mas agora é hora de se esconder, Ricardo pensou, lembrando de toda a rotina que andara seguindo até então. Quando o sol nasce, os zumbis se tornam imprevisíveis. O certo é partir à noite, quando eles estão fora e...

- Derrotamos o inimigo mais uma vez – disse Linda enquanto desciam as escadas. Falava com Ricardo e Emília, muito embora Chris, Kevin, Jill e Carlos, às suas costas, estivessem próximos o bastante para ouvirem também.

- Você derrotou o inimigo mais uma vez – disse Ricardo. – Eu acabo de fazer isso pela primeira vez.

Sorriu para ex-esposa e ela sorriu para ele também.

Chris adiantou-se diante do grupo da S.T.A.R.S, pronto para trocar algumas palavras com a família de Ricardo e Linda, mas Kevin o reteve, segurando-o pelo peito. Com a cabeça, fez um não, como se dissesse que aquele não era o momento certo para isso. “Esse momento é só deles, Chris, deixe que curtam sozinhos” era o que queria dizer.

- E o que a gente faz de agora em diante? – Ricardo perguntou.

Linda se sentiu um pouco preocupada com essa pergunta, porque ela não era tão simples quanto parecia. Na verdade, queria dizer muita coisa. Uma delas era que Ricardo estava considerando a ideia de se juntar a ela e à filha naquele mundo, como se, mais uma vez, fossem marido e mulher. Como se fossem de fato uma família, algo que funcionou muito bem nos primeiros meses após o nascimento de Emília, mas só. Linda estava cansada demais para voltar a reviver aqueles tempos, até porque já se acostumara em ser independente e tratar da filha sozinha. Era algo que ela aprendera na marra e agora até sentia certo prazer em fazer. E Emília é uma garotinha tão especial...

Mas não podia simplesmente ignorá-lo num mundo como aquele. As ameaças lá fora eram inúmeras e viver sozinho talvez fosse algo deveras perigoso para uma pessoa que sempre esteve acostumada com ter tudo do bom e do melhor. Eu me sentiria desnorteada se tivesse que viver sozinha aqui, Linda pensou e engoliu em seco. A hipótese a atormentava. Quer dizer, desde quando o apocalipse começou, ela não se deparou sozinha por muito tempo, pois havia encontrado Chris, que, após muita relutância, aceitara ajudá-la a encontrar a filha. Assim que encontrou a filha, ele partiu, mas, novamente, ela não ficou muito tempo sozinha. Não sabia o que era isso e não sentia que queria descobrir.

E foi por pensar nessas coisas que considerou a ideia de aceitar Ricardo ao seu lado mais uma vez. Não como um marido, é claro, mas como um companheiro de sobrevivência, alguém que ela poderia ajudar tanto quanto poderia ajudá-la. E mesmo que não gostasse dele – na verdade, sentia repulsa por Ricardo -, sabia que Emília ainda precisava de um pai, mesmo que fosse um homem que sua mãe não gostasse tanto. Era algo que precisava fazer da educação de uma menina, por mais que o mundo estivesse em condições horríveis de vivência. Além do mais, o pensamento positivo de que tudo daria certo em algum momento jamais deixou a cabeça de Linda, então ela imaginava que Emília ainda teria um futuro brilhante e estava certa de que ele não estava muito longe de acontecer.

Quando terminou a escadaria, depois de um longo momento de silêncio, foi que respondeu a pergunta de Ricardo:

- A gente fica junto – falou com seriedade. Olhou de um lado para o outro na rua e não viu qualquer rastro de zumbi por ali. Era como se São Paulo tivesse voltado a ser o que era antes. – Mas não como marido e mulher. – Olhou para Emília, certificando-se de que ela não estava prestando atenção na conversa, pois não queria que ela ouvisse o que tinha a falar. – Eu ainda te odeio, mesmo depois de tudo isso.

- Mesmo depois de eu tê-la ajudado a salvar a própria vida e a da nossa filha.

- Mesmo assim. Foi um acerto no meio de outros milhões de erros que você cometeu até hoje. Não tenho motivos para gostar de você, Ricardo. – Engoliu em seco antes de finalizar. – Mas também não acho que seria justo abandoná-lo nesse lugar. Não sou tão filha da puta a esse ponto.

Ricardo estremeceu no lugar. Teria se sentido satisfeito com o que ouviu, mas a agressividade na voz de Linda o preocupava. De qualquer forma, não tinha mais nada que pudesse fazer. Ou aceitava aquilo, ou voltaria a andar sozinho pelas ruas contaminadas de São Paulo.

- Tudo bem. É justo – falou e procurou sorrir, mas não estava contente realmente.

- Um instante, por favor? – disse uma espalhafatosa Jill, tocando o ombro de Ricardo, mas chamando a atenção de Linda e Emília também. – Há algo que precisamos dizer a vocês.

- Eu juro que tentei impedi-la, mas vocês já devem ter percebido que a Jill não é uma mulher tão fácil de parar – disse Kevin que também surgiu do nada. Algo em seu rosto dava a impressão de que ele se divertia com algo.

- O quê? – Ricardo perguntou.

- Mudança de planos – anunciou Chris, que vinha na companhia de Carlos.

- Aliás, mudança total de planos – Jill endossou.

- Acabamos de contatar os principais chefes da S.T.A.R.S – começou Carlos. – Eles estavam esperando pelo nosso contato há algum tempo, na verdade, mas achamos que seria legal não importuná-los a menos que fosse extremamente necessário. A causa pediu para que ligássemos para eles, e acho que não cometemos nenhum erro por isso.

- Fato é que não há mais como ignorar que vocês precisam de ajuda, e deixá-los nesse mundo enquanto os Estados Unidos têm todas as armas necessárias para impedir que um ataque desse tipo aconteça talvez fosse o maior erro que nossa equipe poderia cometer em toda a nossa vida. Eu não conseguiria dormir ao pensar que vocês ainda estariam aqui enquanto outra parte do mundo não sofre com nada, porque tem como se defender – disse Jill.

- E isso quer dizer que...? – Ricardo quis saber.

- Quando dissemos que haveria uma mudança de planos estávamos sendo literais — começou Kevin. – Nossa missão era vir até aqui e procurar a causa do problema que assolava São Paulo. Agora não mais. Uma ligação do Chris – que sempre foi melhor em argumentação do qualquer um de nós – para o nosso principal chefe e conseguimos convencê-lo de que, antes de exterminar ou procurar uma cura para a ameaça que passeia por São Paulo agora, a agente devia salvar quem ainda está vivo para que ninguém mais sofra.

- Vocês querem nos levar embora daqui?

- Apenas por um tempo – disse Chris. – Há um helicóptero da S.T.A.R.S vindo para as nossas coordenadas nesse exato momento. Ele levará todos nós para os Estados Unidos, para um abrigo, e vocês ficarão por lá por quanto tempo acharem necessário. Podem voltar ao Brasil assim que a ameaça for controlada, se quiserem, mas fome e quais outras necessidades vocês não vão passar. Terão emprego se quiserem. Toda a burocracia que envolve uma viagem para o nosso país não faz mais sentido quando há vidas em jogo.

- Mas por que partir agora? O trabalho de vocês ainda não acabou, acabou?

- Era Wesker quem estava por trás de tudo isso, Ricardo – Jill começou -, portanto, uma vez que ele esteja morto, algo que jamais pensamos que fosse ser possível, ainda mais sendo essa morte causada pelas mãos de civis comuns, não há mais quem derrotar.

- Ele disse que há pessoas tão ambiciosas quanto ele lá fora, que podem dar prosseguimento com o plano que ele arquitetou.

- E é aí que o nosso trabalho continua. Não podemos simplesmente deixá-los soltos por aí, então vamos encontrar cada um e impedir que essa ideia louca de construir um exército imbatível seja continuada – disse Chris. – Vocês acham que a gente pode conseguir?

- Vocês vão conseguir – disse Emília, para a surpresa de todos. Não houve quem não sorrisse para ela depois disso.

Linda e Ricardo se entreolharam, considerando a ideia de partir ou não com eles. Por mais que a sugestão fosse tentadora, deixar o local onde se cresceu, viveu e se construiu uma história era difícil, mesmo que isso fosse salvar a vida deles. Eles ainda estavam positivos de que tudo daria certo, mesmo que não soubessem quando, então pensavam em também ficar por ali até esse dia. Mas foi pensar em Emília que fez com que olhassem para o quarteto da S.T.A.R.S e aceitassem a ideia de partir ainda naquele dia. Era ela que não merecia viver naquele lugar, então eles não podiam ser tão egoístas e evitar que ela tivesse uma boa vida longe dali, principalmente nos Estados Unidos.

- Fizeram uma boa escolha – disse Chris e fez um cafuné de leve na cabeça de Emília. – Não vão se arrepender.

Ao dizer isso, seu olhar se demorou em Linda, e ela o sustentou com certa admiração. Sentiu-se ruborizar, percebendo que estava apaixonada. Se pudesse, o beijaria naquele instante, na frente de todos, mas algo a impedia: Ricardo.

Mas Ricardo viu essa mudança de humor na ex-esposa e não se importaria se ela tivesse beijado Chris ali. Daria de ombros. Não tinham mais qualquer laço afetivo com ela, então como poderia sentir ciúme?

Horas depois, o helicóptero surgiu no horizonte. Emília contemplou aquela ave negra de ferro surgir acima com olhos brilhantes. Tiveram todos que subir para o último patamar da delegacia, que era onde o helicóptero tinha pousado, e então entraram. Emília viu os seus amigos oficiais da S.T.A.R.S conversarem em língua que ela não conhecia enquanto o helicóptero rasgava pelo céu, levando-os para a liberdade, mas por mais que não pudesse compreender as palavras, sabia que estavam falando coisas boas e que estavam felizes. Estavam todos bem, no final das contas. Emília queria poder comemorar junto com eles, mas se sentia tímida demais para isso. Isso duraria pouco tempo.

Ricardo e Linda não se falaram por muito tempo, talvez porque apenas queriam apreciar aquela sensação de calmaria que viajar para longe do mal era capaz de proporcionar. Olhando para a janela à frente, onde a paisagem modificava vez e outra, eles não perceberam quando seus braços se uniram às costas de Emília, que estava entre eles, abraçando-a. Emília recebeu o abraço e sorriu mais uma vez.

Dessa vez está tudo certo, Emília pensou com a visão desfocada. Dessa vez, ninguém vai ter que morrer pra que a gente continue vivo.

O helicóptero continuou seguindo caminho e só foi pousar em terreno americano horas depois. Lá, um novo destino aguardava a família de Ricardo, Linda e Emília.

Lá era onde tudo ficaria bem.

Notas finais
Chegamos a mais um final de fanfic... Queria dizer que escrever "A Busca Continua" foi bem legal, embora em alguns momentos tenha sido difícil 'ser' o Ricardo rs Acontece que, quando terminei de escrever "A Busca", a história dele me saltou à mente e eu não podia simplesmente ignorá-la. Fiquei satisfeito com o que escrevi - espero que vocês também tenham ficado -, embora ainda ache que pudesse ter ficado melhor, mas sei que pelo menos divertida a fanfic ficou, nem que em alguns capítulos apenas...
Agora vamos aos...
~AGRADECIMENTOS~
Sem motivação, eu jamais conseguiria ir até o fim nessa história, e essa motivação veio de vários lados. Primeiro, seria impossível sequer pensar em continuar "A Busca" se não fosse pelas Dama de Prata [essa que não desapareceu em nenhum momento da história rs] e a AndressaC, que já acompanhavam a história desde a primeira e que estavam aqui, firmes e fortes também. Também a Luh Roses, que demonstrou ser uma excelente crítica e que influenciou bastante no que eu tinha para escrever. Além delas, vou agradecer a LaisLahoud222 e a Gabi, que não comentaram mais, então não sei se acompanharam, mas que me deixaram feliz com seus comentários únicos :D
Não posso e JAMAIS ignoraria o pessoal que também favoritou essa história e que, se não acompanhou em "tempo real", tenho certeza de que vai acompanhar em algum momento, então meu obrigado a Angel2012 e a Layla Uchiha. Não vou agradecer a Dama de Prata, a Luh Roses e a AndressaC de novo, senão vão achar que estou puxando sardinha, né? rssss
E um obrigado a mais a quem mais viu essa história. É muito legal escrever, mas é ainda melhor saber que há quem goste do que está sendo escrito. Valeu, pessoal o/
P.S.: Pode ser que eu não publique mais fanfics por um tempinho, porque vou dedicar um tempo ao livro que estou escrevendo :]