Notas iniciais
Não podia deixar de ter, né...?

Emília, com dezesseis anos, já tinha aprendido a fumar. Não era porque achava o gosto do cigarro bom ou porque pensava que aquela era uma questão de estilo. Apenas que, enquanto tinha pai, o via fumar o tempo inteiro e cresceu acreditando que aquilo era o certo a se fazer. Com doze anos, já fumava. Com quinze, percebeu que o que fazia era errado. Com dezesseis, percebeu-se refém de um vício que não tinha mais volta – pelo menos não uma de via fácil. Então era por isso que, naquele momento, ela fumava.

Estava recostada na mureta de uma espécie de jardim que ficava ao lado de um prédio gigantesco, lindo, de arquitetura moderna, com um logo daqueles profissionais, com desenhos de aves que tanto podiam ser águias como falcões e com um letreiro dourado que descrevia uma única sigla: S.T.A.R.S [Special Tatics and Rescue Squad]. Estava longe o suficiente da entrada do local, portanto, escondida. O sol estava do outro lado da construção, então ela estava na sombra, ainda mais oculta, do jeito que costumava – e apreciava – ficar.

Quando estava para terminar o cigarro, jogou-o numa lixeira ali perto, não sem antes apagá-lo. Não gostava do gosto que ficava no final. Experimentou passar as línguas nos lábios, como se os limpasse, e ainda conseguiu sentir a essência do tabaco. Sentiu-se enojada, mas sabia que aquela sensação era momentânea.

Emília havia crescido muito desde o tempo em que viu sua vida mudar drasticamente, enquanto ainda morava em São Paulo. Não tinha mais do que um metro e vinte naquela época e, agora, passava um pouco mais do um metro e sessenta. Talvez por causa do cigarro, era uma garota bem magra. Tinha dezesseis anos e seu corpo e aparência não deixavam que pensassem o contrário. Usava o cabelo muito curto, com os fios em tamanhos diferentes, em ondas, num corte que achava moderno e bonito. Não gostava de cabelo comprido porque achava que atrapalhava os seus movimentos, e também porque a fazia parecer muito com a mãe, já que as duas tinham rostos bem parecidos e inclusive a mesma cor de olho.

Não era que não admirasse a mãe, mas apenas porque queria uma identidade própria. Não gostava que a chamassem de Linda n° 2.

Espreguiçou-se no lugar. Ainda era cedo, por volta das nove da manhã, mas o dia já estava quente – não onde Emília se encontrava, por causa da sombra. Aliás, aquele lugar já era um costume da garota. Não era muito movimentado, porque não levava a lugar nenhum, e ali ela conseguia ficar escondida enquanto fumava, hábito que muita gente abominava por completo. Não queria ser julgada por ter essa fraqueza, e por isso se escondia. Queria poder parar de fumar algum dia, mas sabia que esse dia não estava próximo de chegar ainda.

Estava esperando algumas pessoas e sentia que estavam todos atrasados. Ela não era uma menina que costumava ser muito pontual, então por isso decidiu que passaria algum tempo naquele local, fazendo o que já fazia há algum tempo. Mas agora percebia que ela não era a única a se atrasar. Retirou o celular do bolso – o mesmo em que havia uma foto do namorado no papel de parede, por trás de um relógio digital – e constatou um atraso de quinze minutos por parte dos parceiros. Não pensou em ir embora e desistir da espera, porque essa era uma hipótese inconcebível quando se tratava do que eles estavam para fazer. Era algo importante.

Pensou em retirar mais um cigarro da carteira, mas quando enfiou a mão no bolso ouviu o ronco de alguns motores vindo à sua esquerda. Os portões de ferro da garagem do prédio da S.T.A.R.S, que não ficavam muito longe da entrada principal, a apenas alguns metros de onde Emília se encontrava, estava se abrindo. Ela olhou para o buraco negro que vinha do chão com expectativa, tentando imaginar que tipo de veículo faria tanto barulho assim enquanto corria.

Devem ser quatro ou cinco carros, ela pensou e se ajeitou no lugar.

O primeiro carro saiu, seguido de outros quatro, todos do mesmo porte, praticamente iguais. Eram jipes, daqueles com janelas enormes, alguns até sem teto, todos com aproximadamente três homens dentro e todos vestindo o uniforme da S.T.A.R.S, que era azul escuro, cobrindo o corpo do pescoço aos pés. Emília olhou para o próprio corpo. Estava com um short minúsculo de sarja e uma blusinha rosa claro parcialmente escondida por uma jaqueta curta, de mangas longas, aparentemente do mesmo tecido que o short. As pernas estavam praticamente descobertas, ao vento. Nos pés, um calçado pesado, ótimo para corridas e escaladas, escuro. Não parecia em nada com aqueles oficiais que tomavam a avenida principal naquele momento.

O homem que dirigia o primeiro carro estacionou o seu jipe na guia da calçada, cantando pneus. Todos os demais carros pararam no mesmo instante, surpresos com aquela manobra. A porta de passageiro do primeiro carro, então, se abriu, deixando que um homem alto saísse por ela. Ele era branco, com cabelos negros num corte simples, mas bonito, com ar de garoto. Dirigiu-se vagarosamente em direção a Emília, que o observava com um olhar curioso, mas ao mesmo tempo acuado. Ele parou de frente para ela e contemplou-a em silêncio por algum tempo antes de dizer:

– A gente estava esperando por você.

Emília deu de ombros.

– Por que não nos encontrou no horário combinado?

– Pode não parecer, mas eu estava aqui no horário combinado... – Emília respondeu, procurando sorrir.

– Lá dentro?

– Não. Vocês disseram que eu devia estar aqui na S.T.A.R.S às nove, mas não disseram onde. Desde antes das nove, eu estou esperando por vocês aqui. – Fez uma pausa e olhou para os lados, intrigada com a possibilidade de ser o centro das atenções. – Foram vocês os atrasados da vez.

O homem à frente de Emília tornou a observá-la em silêncio, mas dessa vez havia um sorriso malicioso em seu rosto. Olhou-a dos pés à cabeça e depois voltou a encarar os olhos azuis da garota. Ela parecia ruborizada.

– Tudo bem – falou de repente e girou nos calcanhares, indo em direção ao seu jipe. – Agora vamos antes que nos atrasemos ainda mais.

Emília desencostou da mureta em que estivera apoiada e apanhou a shotgun que, durante todo aquele tempo, estivera ali do seu lado, próxima aos seus pés. Prendeu-a no coldre nas costas e correu até o oficial, agarrando-o pelo braço.

– É para Raccoon City que estamos indo hoje? – perguntou num tom jovial, como se estivesse prestes a ir a um passeio.

– Estamos, mas se eu fosse você não ficaria tão animada. Estamos indo em missão, como você bem deve saber, e estamos indo atrás de um homem cujo nome é... – O agente fez uma pausa para pensar. – Jake Muller, se não me engano. Já ouviu falar dele?

– Não, nunca – Emília respondeu sorridente. – Ele é perigoso?

– Sim, muito perigoso, e eu não vejo como você pode ficar segura perto dele se continuar com essas roupas de quem está indo fazer uma trilha num parque florestal, Srta. Emília.

– Mas hoje é sexta-feira, casual day, Sr. Piers Nivans, será que já se esqueceu?

Piers deu de ombros. Sabia que nenhum tipo de argumentação faria Emília mudar de ideia quanto ao seu jeito de agir diante de assuntos tão sérios. De qualquer forma, até gostava daquele jeito da garota. Preferia que continuasse assim.

Entraram os dois no primeiro jipe e partiram com uma arrancada. O caminho até Raccoon City era longo, mas o motorista daquele carro já o conhecia como a palma da mão, então, imaginava, faria com que ele durasse menos do que o desejado.

Aquela era a primeira missão externa de Emília como oficial da S.T.A.R.S. Jogando os braços no ar, sentindo o vento forte envolver-lhe o corpo e sacudir os curtos cabelos louros, ela se sentia animada. Mal via a hora de se sentir como aqueles que, um dia, salvaram a sua vida.

Notas finais
Alguém quer continuar a história daqui? :]
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!