A Busca Continua
19 Vermes
Deve ter havido algum tipo de conversa na sala onde agora Jill, Chris, Carlos, Kevin e Wesker estavam antes de Linda, Ricardo e Emília chegarem. Houve tempo para isso, porque a família de Ricardo ainda passou algum tempo do lado de fora, tentando se convencer do que era o certo a se fazer. Mesmo se essa constatação não fosse forte o suficiente por si só, assim que os três entraram na sala, a seguinte frase foi ouvida da boca de Wesker:
-... Somente eu posso viver para sempre!
Nem Ricardo, Nem Linda e muito menos Emília já tinham visto Wesker antes, contudo, para Linda, ele não pareceu um homem de todo desconhecido. Lars Wesker, o homem que ela matou há algum tempo no Edifício Mirante do Vale, se parecia muito com aquele que ela via diante de si, mas não eram iguais. Aquele Wesker, que eles conheceriam mais tarde como Albert Wesker, era um homem grande, de corpo bem definido – coisa que se notava porque ele estava sem camisa – e bastante bronzeado, apesar de ser louro. Usava óculos escuros naquela noite e sem nenhum motivo aparente. As únicas peças de roupa que usava eram uma calça e botas no estilo coturno, ambas negras. Fitava Jill, Chris e Kevin, que apontavam armas na sua direção, antes de se virar para encarar os novos visitantes daquela sala. Carlos estava às suas costas, preso à parede por cordas negras.
Cordas?, Ricardo se perguntou, olhando melhor. Não eram cordas comuns, porque se mexiam e tinham um brilho diferente. A menos que fossem algum tipo mais tecnológico de corda, mas não era o caso. Aquilo era vivo. Uma análise mais demorada levou Ricardo a perceber que elas eram, na verdade, vermes negros e gosmentos que se envolviam ao redor do corpo de Carlos, prendendo-o à parede. Ricardo sentiu vontade de vomitar e teve que se conter para não sujar o chão da sala. De qualquer forma, essa ânsia se foi assim que o primeiro ataque na sua direção se fez presente.
Wesker havia erguido uma mão e, por ela – ou pelo redor dela -, novos vermes como aqueles, grossos demais para serem vermes comuns, romperam pelo ar na direção do homem. Ricardo jogou-se para o lado a tempo de evitar ser infectado por aquilo. Linda e Emília correram para outro canto nesse instante, já certas de que não tinha sido uma boa ideia aparecer ali. Jill deixou essa constatação bem evidente quando, antes de disparar o primeiro tiro, berrou:
- Mas que droga, o que vocês estão fazendo aqui?!
E só então disparou. A bala percorreu toda a sala até Wesker em menos de um segundo, mas ainda assim ele conseguiu se desviar, deixando um rastro da sua imagem no caminho, como uma ilusão de ótica. Eu já vi isso antes, Linda pensou e engoliu em seco. Sabia que enfrentar alguém com aquela habilidade não seria fácil.
E Chris também sabia, assim como Kevin, então agora haviam três pistolas atirando a esmo pela sala, num espetáculos de brilhos e sons que Ricardo preferia jamais ter presenciado. Eram muitos disparos na direção de Wesker, mas nenhum o acertava. Podia-se imaginar que era porque os oficiais tinham miras não muito boas, mas a verdade era que Wesker conseguia se anteceder a todos os tiros e se desviava com uma precisão absurda. Pela bala de um revólver é que ele não iria morrer, Ricardo percebeu. A estratégia deveria ser outra.
- Eu falei para vocês esperarem lá embaixo! – Chris gritou, deixando de lado toda a cortesia de horas atrás.
- Eu não podia simplesmente ficar esperando vocês fazerem algo por mim! – Ricardo retrucou e se escondeu atrás do homem que atirava. – Não confio em vocês! Não tem como!
Chris disparou um pouco mais e correu para os lados, evitando os vermes que vez e outra voavam na sua direção. Quando Jill tomou a atenção de Wesker para si, dando saltos e piruetas para os lados que, como medida de evasão, estavam funcionando muito bem, Chris encontrou algum tempo para se virar na direção de Ricardo e dizer.
- Você cometeu um erro terrível vindo até aqui – e engoliu em seco. – Mas já que não tem mais volta... – Chris enfiou uma mão no cós da calça e, de lá, retirou uma pistola. – Faça algo útil – e entregou-a a Ricardo.
Ricardo apanhou a arma sem hesitar. Chris fez um sinal de cabeça, anunciando que aquela conversa estava encerrada, e voltou-se para o inimigo, disparando uma série de tiros na direção de Wesker. Como era de se esperar, nenhum o acertou. Aquilo não estava dando certo.
Ricardo até chegou a apontar a arma na direção de Wesker e considerou a ideia de tentar atirar nele também, mas de certa forma sabia que aquilo não ia dar certo. Precisava de outra estratégia. Pensou em contornar a sala e tentar acertá-lo pelas costas quando ele não estivesse vendo, mas então percebeu que talvez ele pudesse se desviar, o que faria com que o tiro percorresse toda a sala até atingir alguém do outro lado. Jill, Kevin e Chris até podiam ter algum tipo de proteção para tiros, mas ele não podia contar com isso. Essa era uma estratégia cheia de riscos.
- É incrível como os anos passam e a S.T.A.R.S continua tão burra! – Wesker exclamou, a voz grave retumbando pelas paredes, e correu na direção de Kevin, uma mão estendida à frente, pronto para agarrá-lo pelo pescoço. – Desde muito tempo vocês têm sido uma pedra no sapato de muita gente da Umbrella, e não houve sequer uma pessoa que revertesse essa situação! – Foi então que Kevin saltou para o lado numa manobra dificílima e, deitado no chão, disparou contra Wesker. Não obteve sucesso. – Será que não percebem que vocês podem fazer o que quiserem que, no final das contas, a gente vai voltar? – Jill surgiu do nada e saltou nas costas de Wesker. Esse, por sua vez, saltou para cima e, de maneira humanamente impossível, colidiu com o teto, acertando o corpo da mulher contra o concreto, derrubando-a inconsciente no chão. – Eu não preciso estar vivo para ver uma nação de humanos medíocres se transformarem em um exército imortal! – ele gritou enquanto Chris tentava desferir um chute na sua direção. Wesker esquivou-se para trás e agarrou o pé do homem, girando-o por meio círculo e lançando-o na mesma parede em que Carlos se encontrava preso. Chris chegou a quebrar um pouco da alvenaria, antes de colidir erradamente com o chão. – Se houver alguém que possa prosseguir com o meu legado, eu já me darei por satisfeito!
Kevin foi o último a tentar alguma coisa. Erguendo uma pistola na direção do rosto de Wesker, tão próximo que seria impossível não acertá-lo, Kevin apertou o gatilho. O tiro foi disparado, mas nunca acertou Wesker. No segundo seguinte, Kevin voava pelo ar em direção a uma janela, impulsionado por um pé de Wesker que o acertou em cheio na barriga. Por pouco, o homem não voou para fora junto com o vidro estilhaçado. Segundos depois, estava deitado no chão, gemendo de dor.
- E gente para isso é o que não falta nesse mundo cheio de pessoas ambiciosas! – Wesker finalizou e contemplou o trabalho feito. Parecia satisfeito com a batalha feita até ali. Sozinho, conseguira impedir quatro oficiais da S.T.A.R.S de derrotá-lo naquela noite.
Mas não contava com o fato de que Ricardo surgiria às suas costas, agarrando-se a elas com toda a força que ele não sabia que tinha.
- Mais uma palavra e eu atiro! – Ricardo gritou, a saída do cano da pistola colada à têmpora de Wesker.
Foi surpreendido quando uma mão do homem surgiu às suas costas e o puxou para frente, fazendo descrever um arco no ar. Wesker o segurou o no alto, diante dos seus olhos, fitando seu rosto com os olhos escondidos por trás daqueles óculos escuros. Ele segurava Ricardo pelo colarinho da camiseta, o que fazia com que o homem sentisse fortes dores embaixo dos braços. Sabendo que a pistola não seria de qualquer utilidade naquele momento, Ricardo a soltou no chão e agarrou-se ao pulso de Wesker, procurando, com aquilo, aliviar a dor e tentar se livrar do aperto. Foram tentativas vãs.
- E você? Quem... é... você? – Wesker perguntou e franziu o cenho, tentando reconhecer o homem que segurava no ar. Por um instante, Ricardo viu um brilho avermelhado onde deviam estar os olhos do monstro.
Você não é desse mundo, ele pensou e engoliu em seco, tenso. Só aguardava o instante em que Wesker o atravessaria com aquelas mãos potentes, levando-o para a morte certa. Já estava inclusive conformado em deixar a vida, depois de um dia tão conturbado quanto aquele.
Mas Linda não deixaria isso acontecer.
Ricardo não viu, mas Emília, que até então estivera escondida a um canto, surgiu do nada, portando uma faca. Disse para a mãe que a havia encontrado no chão e que muito provavelmente devia pertencer a um dos oficiais abatidos. Pertencia a Chris e fora jogada ao chão assim que Wesker o lançou contra a parede. Emília entregou a faca a Linda e, inconscientemente, dirigiu um olhar na direção de Wesker, que estava de costas para elas. Linda entendeu o recado e, no momento, não chegou a se surpreender com a iniciativa da filha. Pegou a faca nas mãos e, depois de um segundo de hesitação, avançou na direção de Wesker, correndo enquanto o mundo parecia transcorrer em câmera lenta ao seu redor.
Foi nesse instante que Wesker percebeu que Ricardo era apenas um civil qualquer que merecia tanto a morte quanto qualquer um dos oficiais moribundos naquela sala.
E foi nesse momento que Linda, depois de um salto, cravou com força a faca no centro da cabeça de Wesker, enterrando-a até o cabo.
A mulher pousou no chão mesmo instante em que Ricardo foi solto pelas mãos que o seguravam. Ricardo pousou de maneira errada, batendo uma mão contra o assoalho, torcendo o pulso. Marido e mulher, assim como a filha, mas essa um pouco longe, fitaram o inimigo em pé à frente, estático, com olhares de expectativa.
Nenhum sangue foi jorrado. Wesker ficou em pé durante um tempo ainda, gastando o que ainda havia de energia em seu corpo, e só então despencou para o lado. O homem era tão grande que a queda levou um tempo para se concluída. Quando seu corpo colidiu com o chão, tábuas do assoalho se quebraram, tão forte que era o seu corpo. A partir da ruptura feita pela faca em seu crânio, sangue começou a gotejar, mas em pouca quantidade. De qualquer forma, aquilo já era suficiente para que qualquer um compreendesse que Wesker não mais estava vivo e que, se o único problema era ele, agora todos podiam ficar tranquilos.
Ricardo não conseguiria se levantar sozinho, então ofereceu uma mão na direção de Linda, a que estava sadia. Ela a agarrou e o puxou, ajudando-o a se levantar. Marido, mulher e filha, ofegantes, então contemplaram o serviço que haviam acabado de fazer, observando o corpo morto de Wesker no chão sem realmente pensar no que aquilo significava. Enquanto isso, Chris, Jill, Kevin e Carlos, que agora estava livre das amarras daqueles vermes, observavam aquela família com olhares espantados, mas com certa admiração. Não havia um oficial sequer naquela sala que não estivesse surpreso com o que acabava de acontecer.
E foi então que Jill percebeu que teria cometido um erro enorme se tivesse deixado Ricardo para trás quando ele pediu ajuda. Naquele instante, ela aprendia uma lição que jamais seria esquecida em sua vida.
Quando alguém pede ajuda, é preciso pensar duas vezes antes de dizer não.
Ricardo, Linda e Emília se voltaram para a única janela na sala, a que Kevin havia estraçalhado com o próprio corpo, no exato minuto em que o sol começava a surgir por entre as construções da cidade de São Paulo. Fazia tempo que não viam o nascer do sol sob aquela perspectiva, então acharam a imagem interessante.
A cidade lá fora continuava contaminada com aquela doença que transformava pessoas comuns em zumbis, mas a família que Ricardo construíra e destruíra com o tempo não parecia estar preocupada com isso. Estavam todos unidos e vivos, e isso era o que mais importava.
Notas finais
Mais uma vez, espero que gostem desse e dos demais capítulos que virão :]
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