A Busca Continua
10 Em Frente À Fonte.
A Delegacia era grande demais para sua finalidade, mas Ricardo imaginava que só era assim porque devia ser algum tipo de matriz, onde a maioria dos processos e casos acabavam estacionando em algum momento. Tinha três andares, uma monumental porta de carvalho numa entrada que só podia ser acessada ao fim de uma grande escadaria. Havia pilastras no estilo da arquitetura romana sustentando um teto na frente da construção que muito provavelmente era usado por pessoas que tivessem esquecido o guarda-chuva em casa em dias chuvosos na região. Se não soubesse que era uma delegacia, Ricardo certamente que confundiria aquele lugar com algum tipo de museu ou universidade tradicionalista, uma vez que a arquitetura já era antiga, embora ainda estivesse preservada, mesmo depois de tanto tempo.
Kevin e Carlos tomaram a dianteira da situação, mas não liderariam o grupo. Jill só não estava à frente deles ainda porque tinha que entregar a pistola a Ricardo, a mesma que ele lançara na testa de Kevin. O homem, ainda cuidadoso ao segurar o objeto, manuseou-o jogando de uma mão para a outra e assentiu, confirmando que, mesmo que aquilo o assustasse bastante, ele conseguiria lidar com a situação. Só depois disso que Jill sacou a própria pistola e seguiu em frente na escadaria, ordenando que os demais a acompanhassem.
À frente da entrada principal, Jill pediu que seus companheiros aguardassem um instante, mas o fez com um gesto de mão que Ricardo só conhecia porque estava acostumado a assistir filmes policiais. Com cautela, a mulher aproximou o ouvido da porta, escutou por um instante e virou-se para a equipe, confirmando com o olhar que tudo parecia estar tranquilo. Como que em resposta a esse sinal, Kevin conseguiu alcançar a porta com três passos e, antes que Ricardo tivesse tempo de perceber o que o homem estava fazendo, ele levou um pé preciso no encontro da das duas fechaduras que formavam as portas duplas e escancarou-as como se fossem feitas de um material muito fraco. As duas portas se abriram para dentro e se chocaram fortemente contra a parede interior, ecoando dentro do ambiente.
Mesmo que odiasse Kevin com todas as suas forças, Ricardo confirmou para si, mesmo que em pensamento, que aquilo tinha sido muito legal e que ele não esperava que um brutamontes sem cérebro como ele seria capaz de fazer algo assim.
Jill foi a primeira a se jogar dentro do recinto e, como uma verdadeira policial, apontou sua pistola para todos os cantos, verificando se havia alguma ameaça que eles ainda não tinham previsto. Como não encontrou nada, voltou-se uma vez mais para a equipe e pronunciou a palavra “Limpo!” com bastante ênfase.
- Agora fechem as portas – ordenou em seguida e Carlos e Kevin se prontificaram em acatar o pedido. – E certifiquem-se de que ninguém mais poderá entrar aqui, a menos que bata forte o suficiente para chamar nossa atenção.
Assim que as portas foram fechadas, todo o lugar mergulhou numa escuridão com a qual Ricardo ainda não estava acostumado. Piscou uma vez e não percebeu diferença nenhuma entre estar com os olhos abertos ou fechados.
- Pegue aquelas correntes ali para mim, senhor! – Ricardo reconheceu Kevin pedir.
- Por favor – Carlos emendou quando percebeu que o pedido não seria acatado.
- Não sei de que correntes estão falan... – Antes que pudesse terminar a frase, Jill acendeu uma lanterna na direção do objeto, que estava a um canto, próximo a uma mesa de recepção.
- Obrigado – disse Carlos assim que Ricardo entregou as correntes.
- Acendam suas lanternas – Jill voltou a ordenar. – Comecemos a nossa busca.
Ricardo não tinha lanterna alguma, então apenas seguiu o trio, que eram os únicos detentores de alguma iluminação no local.
Ele nunca tinha entrado naquela delegacia, porque nunca precisara e nem tivera interesse, mas agora estava bem surpreso com o que havia encontrado. No centro de um amplo espaço, havia uma estátua de uma mulher segurando um jarro nos ombros, de onde, em dias normais, devia escorrer uma quantidade infinita de água, formando uma fonte. O enfeite era suficientemente grande para obrigar qualquer um que quisesse acessar as escadarias, que ficava na parede oposta à das portas, a ter que contorná-lo. Havia algumas portas nas demais paredes, mas, à distância, Ricardo não conseguia enxergar os dizeres que elas possuíam, então não sabia dizer que finalidade tinham.
Depois de uma rápida porém vasta vistoria, os três abaixaram as armas, seguidos por Ricardo, e pareceram ficar mais tranquilos. Todas as lanternas permaneceram voltadas para o chão.
- Eu sei que ele está aqui – Jill comentou de repente. – Posso sentir.
- Então quer dizer que, além de gostosa, você é sensitiva? – Kevin brincou.
- Não brinque comigo – Jill disse, séria. – E nem com os meus sentidos.
- Por que você acha isso, Jill? – Carlos quis saber.
- É bem simples, na verdade. Acontece que esse lugar se assemelha muito a um que freqüentamos há alguns anos atrás. A mansão em Raccoon City tinha essa exata arquitetura e organização dos cômodos, e eu e Chris passamos muitas de três horas dentro dela, tempo suficiente para nos familiarizarmos. Creio que ele se sentiria mais à vontade aqui do que em qualquer outro lugar.
- É uma suposição de certa forma vaga.
- Sempre acabamos vindo para cá, Carlos – ela prosseguiu. – Não se lembra de quando eu e você estivemos em Raccoon City? Nosso objetivo, no final das contas, não era chegar à Delegacia da S.T.A.R.S? E o mesmo não aconteceu à Claire Redfield e ao Leon Kennedy? – Como Carlos não respondeu, Jill continuou: — Por mais que tentemos fugir de lugares que lembrem o nosso trabalho, sempre voltamos, mais hora, menos hora. Eu sei que Chris está aqui em algum lugar, escondido, talvez esperando ajuda ou apenas se abrigando para voltar ao trabalho em algum momento. É o que um veterano faria.
Ricardo olhou de relance para Kevin e o percebeu a ponto de gargalhar, mas fazendo força para impedir que isso acontecesse. Sentiu ainda mais ódio pelo rapaz ao constatar isso.
- E como faremos a nossa busca, então? – Carlos voltou a perguntar.
- Esse lugar é imenso, então aconselho que a gente se separe em algum momento para cobrir mais espaço.
- Eu não quero andar sozinho por essa espelunca! – Ricardo não perdeu a oportunidade de dizer. – Está tudo muito escuro, eu tenho uma arma que sei usar, mas não tenho mira excelente, e sei que não conseguiria me virar sozinho! Posso morrer ao virar o corredor se vocês me abandonarem.
- Pare de agir como um maricas, doutor! – Kevin retrucou.
- Estou com uma pistola na mão de novo, quer que eu o acerte como da última vez?
- Sem drama, por favor... – Jill tentou interromper.
- Eu não vou andar sozinho num prédio como esse! – Ricardo insistiu. – Vocês resolveram me aceitar nisso, quiseram que eu os ajudasse, mas não podem me tratar como se eu fosse um lixo! Se querem me jogar aos monstros, que me abandonem agora, enquanto ainda estou perto da saída! E se sempre foi essa a intenção de vocês, grupinho de merda, deviam ter me ignorado assim que tiveram a oportunidade!
Jill caminhou lentamente até o homem, o seu rebolado facilmente perceptível, mesmo na escuridão, animando o local, e, quando ficou frente a frente com ele, pronunciou as seguintes palavras:
- Nós não vamos te abandonar, Ricardo.
Ricardo arregalou os olhos, não porque estivesse intimidado, mas sim porque nunca imaginou que aquela proximidade entre ele e ela fosse ser possível algum dia. Se Kevin ou Carlos não o estivessem observando, ele certamente que usaria suas duas mãos para aproximar o corpo da mulher com o seu e nem mesmo meio segundo depois seus lábios já estariam colados, se beijando, enquanto eles se preparavam para o sexo.
Tais pensamentos trouxeram uma ereção a Ricardo que ele jamais conseguiria controlar, mesmo se quisesse. Sentiu-se agradecido pela falta de luz ao redor, senão sabia que teria passado por um mau bocado.
- Um oficial da S.T.A.R.S jamais age assim – Jill prosseguiu e finalmente se afastou. Ricardo sentiu o ar preencher os pulmões uma vez mais. – Por mais idiota que ele seja, como o Kevin é – ela falou e sacudiu uma mão na direção do rapaz. – Agora deixem toda a ladainha de lado e vamos ao que interessa!
- E como a gente começa, então? – Carlos perguntou, visivelmente entediado com aquilo.
- Primeiro, procuramos um lugar como ponto de referência – ou como acampamento, se preferirem encarar dessa forma. Depois, seguimos em frente e separamos os times. Acho que tudo pode dar certo se fizermos assim.
- Acha?
- Sim. Não é possível ter certeza de nada quando há zumbis perambulando por aí – Jill finalizou e todos os olhares a acompanharam quando ela se dirigiu para a primeira porta que encontrou.
Fale com o autor