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3 A Rota Pelo Metrô
Ricardo conhecia muito bem a Praça da República, sabia onde se localizava e quanto tempo demoraria a chegar até lá se fosse a pé, portanto também sabia que um ponto de referência como aquele era bastante genérico, lembrando-se que a Praça da República era circundada por muitos outros prédios e diversas ruas. Uma vez lá, ele teria que trabalhar muito e contar com a sorte para encontrar aquele bando de baderneiros em seu carro enorme. Mesmo assim, estava disposto a seguir em frente.
Fato era que Ricardo também estava na região do Centro de São Paulo, o que provavelmente significava que não teria dificuldade alguma para chegar a seu destino. O problema era que, assim com a Praça da República, o Centro em si era um ponto de encontro genérico, já que era uma região bem vasta e abrangente. Do ponto em que se encontrava, Ricardo calculava que demoraria pelo menos uma hora e meia em marcha lenta para chegar à República — percurso que, de carro, faria em quinze minutos em ocasiões comuns e em quarenta quando o trânsito estava intenso. Decidiu que faria essa caminhada naquela noite, aproveitando que ainda não se passara nem uma hora com o céu escuro. Movimentar-se sabendo que o inimigo estava andando por aí era bem mais fácil e seguro do que andar durante o dia e correr o risco de sofrer uma surpresa em algum corredor.
Para a viagem, Ricardo enumerou alguns itens de que precisaria. O primeiro deles era uma lanterna. A região em que ele se encontrava andava iluminada ultimamente, mas nem as luzes nos postes era uma certeza para quem vivia por ali. Depois que o apocalipse aconteceu, as noites de ruas escuras se tornaram muito comuns – as noites iluminadas foram se tornando raridades. Com uma lanterna, enfrentar a escuridão não seria um problema, muito embora a luz fosse capaz de chamar a atenção de muitos zumbis. Mesmo assim, ele não considerava isso um problema muito grande.
Outra coisa de que precisaria era água. Ele próprio tinha uma squeeze onde podia carregar no máximo meio litro de água por vez, e encontrar esse líquido tão importante não era tão difícil. Casas que podiam ser saqueadas ainda tinham suas caixas d’água abarrotadas de água, então tudo o que ele tinha que fazer era entrar na cozinha de uma e abrir a torneira. A squeeze, para isso, tinha sido de grande valia, contudo ele sentia que precisava de outra, no caso de se exercitar mais do que previa ou algo do tipo. Portanto, além da água, precisava encontrar outra garrafa, o que não prometia ser uma tarefa tão árdua assim.
Isso já parecia o suficiente, mas também existia outro fato: mudando de rotina, trocando a noite pelo dia, Ricardo passara a sentir fome quando a noite caía, e até aquele momento ele não tinha nem mesmo tomado seu “café da manhã”. Precisava encontrar alimento para comer antes de partir e algum outro para comer durante a viagem, pois, no caminho que ele planejava seguir, não havia muito o que ser saqueado.
Sim, porque Ricardo pensava em fazer seu caminho até a Praça da República utilizando os túneis do metrô.
- Eu sei que ideia parece estúpida – ele murmurou enquanto enchia sua garrafinha de água na primeira casa que encontrou disponível para saquear -, mas duvido que haja algum desses mongolóides andantes nos túneis. Seria impossível alcançar aquele patamar com os portões sempre trancados.
Ricardo terminou de encher a garrafa e fitou a escuridão do ambiente em que se encontrava. Estremeceu ao imaginar que tipo de inimigos encontraria nas sombras do metrô. Tentou varrer o pensamento da cabeça assim que percebeu que voltava a ficar paranóico.
Saiu da casa invadida com duas garrafinhas cheias de água, uma lanterna grande, que o dono da casa devia usar em noites de blecaute, e os bolsos cheios de bolachas doces e salgadas. Sentiu-se preparado o suficiente para seguir em frente com seu plano. Na calçada da rua, respirou fundo e deu o primeiro passo.
Procurou não pensar em desistir do plano, porque senão era bem provável que não mais voltasse a ver aquele grupo enquanto ainda estivesse vivo naquele lugar.
A estação de metrô mais próxima era a de Tiradentes, linha azul. Ricardo entendia pouco ou quase nada das estações de metrô, já que sempre usava seu carro para fazer o menor dos percursos. No entanto, sabia que a estação de metrô da República não ficava naquela mesma linha, e sim na vermelha. Tecnicamente, ele teria que fazer baldeação de uma para a outra em determinado ponto do caminho. Tudo para encontrar ajuda, pensou mordendo o lábio, a fim de se convencer de que aquilo era sim uma boa ideia.
Havia uma entrada subterrânea para o metrô na calçada em que ele se encontrava, escadas que levavam para uma passagem muito mal iluminada por uma lâmpada que já precisava ser trocada. Não era possível ver em que ambiente ela dava, porque a escadaria fazia curva. Havia um portão de ferro preso por correntes porcamente enroladas a fim de evitar a passagem de alguém por ali. Não havia cadeado – uma falha terrível – então Ricardo não teve dificuldade em entrar.
Desceu as escadas com cautela, procurando não fazer muito barulho com os pés. Antes disso, tornou a enrolar as correntes nos portões, evitando que um convidado impertinente também adentrasse o lugar — ele sabia que zumbis abriam portões, mas que não sabiam lidar muito bem com quebra-cabeças como correntes enroladas. No fim da escadaria, encontrou um amplo espaço com muitas placas indicando direções. Ali também estava muito mal iluminado, mas a claridade foi suficiente para que ele percebesse que a escada rolante que devia tomar – uma que não funcionava – estava à esquerda. E por lá ele seguiu.
Descendo as escadas, a cada centímetro mais longe da superfície que Ricardo ficava, ele percebia que se sentia mais incomodado, quase com um sentimento claustrofóbico. Não tinha nenhum transtorno do tipo, mas, em circunstâncias como aquelas, era impossível não adquirir um. Terminou as escadas e encontrou as plataformas, vazias como se tivessem sido abandonadas há décadas. Ricardo nunca tinha usado o metrô, mas sabia, pelos noticiários, que as plataformas sempre eram mais cheias do que deviam ser, portanto uma atmosfera como aquela era bem estranha.
Ele caminhou, ainda com cautela, até o limite da primeira plataforma e olhou para os dois lados do túnel. Não havia nada além de uma grande quantidade de nada para ser enxergada naquela escuridão. Se fosse mesmo seguir por aquele caminho, era bem provável que tivesse grandes dificuldades. Uma lanterna como a que carregava até poderia ajudar, mas nada era capaz de substituir o poder de um conjunto de lâmpadas de teto.
Pare com esses pensamentos!, Ricardo tornou a pensar.
Depois de uma rápida consulta ao mapa metroviário, ele percebeu que tudo o que tinha que fazer era andar pela linha azul do metrô e alcançar a estação Sé, que permitia baldeação com a linha vermelha. Uma vez lá, ele só tinha que seguir em direção à Barra Funda e encontraria a República no meio do caminho. Não parecia muito difícil.
Certo disso, Ricardo saltou para os trilhos do metrô e seguiu na direção que julgava certa. Mergulhou-se em escuridão não muitos minutos depois, e foi quando acendeu a lanterna. Com quinze minutos de caminhada, percebeu-se apavorado demais para seguir em frente. Ainda assim, prosseguiu, mais uma vez motivado por seu objetivo. Olhou uma vez para trás, encontrando um ponto minúsculo e iluminado que era a plataforma por onde viera, e sentiu-se como um filho que tivesse abandonado a mãe.
- Puta merda, que porra de mundo é esse que esses governantes construíram! – exclamou alto o bastante para parecer um louco falando sozinho. Ricardo acreditava que os zumbis eram um plano do governo, portanto, que eram eles os responsáveis por toda aquela chacina.
Foi nesse momento que ele ouviu um silvo que não lhe parecia nem um pouco familiar. O barulho cortou o ar com tanta rapidez que arrepiou todos os pelos da coluna do homem, que parou, estático, no lugar.
- Mas que porra é essa?!
Como não ouviu nada nos muitos minutos em que ficou imóvel, decidiu que podia continuar sem correr o risco de ser perturbado por alguma aparição, e tornou seguir tranquilo.
Apenas por mais meia hora.
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