A Busca Continua
15 Ainda Há Lágrimas
- Isso foi bem inesperado – disse Jill após finalmente desviar a atenção de Chris, que ainda se mantinha estático. Seus olhos claros correram toda a extensão da sala até pousarem firmemente em Ricardo, que os recebeu com fúria, sem vacilar. Não vacilaria, estando como estava. Mas nem por isso Jill pareceu ficar intimidada, então nem mesmo pensou em deixar de falar quando sentiu vontade: — Pensei que, depois de te dar uma ajuda e ainda salvar a sua vida algumas vezes, eu pudesse ser tratada de maneira melhor, mas pelo visto...
- Me dar uma ajuda? – Ricardo repetiu e apertou os olhos, descrente. – De que tipo de ajuda está falando? Comida? Proteção? Esse era o tipo de coisa que eu já tinha conseguido sozinho há muito tempo, mesmo antes de encontrar vocês! A ajuda que eu procurava nenhum de vocês me concedeu, que é encontrar a minha mulher e a minha filha! Do contrário, tudo o que vocês fizeram foi ficar trepando por aí...
- Como é que é?!
-... como se os zumbis lá fora não fossem um problema realmente! Eu não me surpreenderia se recebesse a notícia de que a minha família morreu durante esses minutos que vocês usaram para brincadeirinhas sexuais!
- O que eu faço ou deixo de fazer é problema meu!
- Não quando se promete ajuda a alguém – Ricardo finalizou e não parecia mais irritado. Na verdade, agora que terminava de falar, percebia o quanto triste estava por estar longe de Linda e Emília. Elas não me julgariam desse jeito, pensou e chorou como uma criança, as lágrimas escorrendo vagarosamente pelo rosto. Elas me perdoariam, por mais que meu erro fosse grave...
Mas isso eu não posso perdoar, afinal, vocês não são tão importantes para ela quanto são para mim!
- Eu devia ter entendido... – prosseguiu, dando alguns passos para trás e colidindo com a bancada da recepção. – Eu nunca devia ter pedido ajuda. Eu estava bem sem vocês, fazia o que fazia e fazia muito bem. Mas agora... Tudo o que consegui foi uma grande quantidade de tempo perdido... – Ricardo fez uma pausa, porque teve que limpar as insistentes lágrimas, que já não o deixavam enxergar com clareza.
- Jill – disse Chris num sussurro. A julgar pela entonação usada, podia-se dizer que ele próprio estava bastante surpreso.
- Mas Chris... – Jill disse impaciente, sacudindo um braço no ar. – Isso não tem nada a ver com... Enfim...
- Então você é um grande pervertido, hein, senhor Ricardo? – Kevin provocou, um sorriso mais orgulhoso do que nervoso no rosto.
Ricardo não quis retrucar, não quando a mente estava ocupada com pensamentos mais importantes.
- O nosso reencontro não precisava ser assim, Chris – Jill tentou dizer, mas agora sua voz parecia hesitante. Não havia mais segurança no que ela falava. – O que eu fiz com o Kevin não tem relação nenhuma com o que viemos fazer aqui...
- O que vocês vieram fazer aqui? – Chris interrompeu.
- Viemos te procurar – ela respondeu prontamente. – Seguimos o protocolo, então viemos direto para cá.
- Vocês vieram aqui para trepar! – Ricardo finalmente retrucou.
- E por que vir atrás de mim? – Chris perguntou, confuso. — Há pessoas lá fora que precisam mais de ajuda do que eu, Jill. Eu sei me virar, você sabe disso. – A forma como ele olhou para Jill ao dizer a frase deu a entender que havia alguma história do passado entre os dois que remetia ao que ele falava. De qualquer forma, Ricardo estava irritado demais para querer descobrir que história era essa.
- Ajudar pessoas lá fora? Chris, somos um tipo bem diferente de polícia, e você sabe disso! Nossa missão nunca é salvar alguém, e sim investigar a causa de alguma catástrofe! Você foi enviado à São Paulo para averiguar os acontecimentos, mas não voltou mais! Isso preocupou os chefes, e é por isso que viemos aqui! Viemos te procurar e apenas!
- Eu sei das missões de um agente da S.T.A.R.S, Jill, e sei também o quanto é difícil desviar o foco para dar atenção a outro problema, mas há momentos em que precisamos ser mais humanos e deixar o protocolo de lado...
- Você nunca ia me ajudar, não é mesmo? – Ricardo esbravejou, dirigindo-se a Jill, mas exigindo os olhares de todos. — É claro que não. Está escrito agora nessa sua face de vadia. – Se Jill tinha alguma coisa para dizer, guardou para si. Ricardo começou a se afastar do grupo, caminhando vagarosamente em direção à porta, quando concluiu: — Não tenho mais nada para fazer aqui.
E correu.
- RICARDO! – Chris gritou e até ameaçou correr para ajudá-lo, mas Kevin o impediu, sob a desculpa de que Ricardo era um homem crescido e que deixara bem claro que sabia se virar bem sozinho.
E foi por isso que, a partir daquele momento, Ricardo, de fato, voltou a andar sozinho.
Deixou a delegacia de polícia e o seu perímetro em poucos minutos. Ainda correndo, embrenhou-se por entre alguns prédios, postos de forma tão desorganizada no Centro de São Paulo, e logo se perdeu. Conhecia os caminhos feitos a carro, mas não sabia o que fazer se seu automóvel nunca tivesse entrado em uma viela. Pensou que a qualquer momento fosse chegar a algum lugar conhecido, já que o Centro, por maior que fosse, sempre era conhecido aos olhos de um paulistano.
E em nenhum momento ele se arrependeu de ter deixado os oficiais da S.T.A.R.S para trás.
Quer dizer, via Chris com bons olhos. Conversara pouco com ele, mas percebera que era um homem confiável e de boa conversa. Se tivesse que escolher entre alguém da equipe de Jill e Chris, ele certamente escolheria Chris para um guarda-vidas; mas agora isso não fazia mais sentido. Ele não podia deixar que suas expectativas fossem esmagadas como haviam acabado de ser, então, a fim de evitar isso, o melhor a se fazer era caminhar sozinho. De todas as suas memórias, ele não conseguia se lembrar sequer de uma em que se decepcionara por tomar uma decisão às próprias custas. Agora, se alguém resolvia se meter em assuntos que não lhe pertenciam, a decepção era sempre certa.
O problema era que, dessa vez, fora ele quem foi procurar ajuda, e não o contrário. O erro foi cometido assim que ele decidiu seguir o carro com os atiradores, que aniquilaram todos os zumbis da rua em que ele se encontrava.
Que ideia idiota!, pensou ao cruzar uma esquina suja, com cheiro de urina. Onde já se viu procurar ajuda com quem atira em zumbis por pura diversão e ainda toma uma cerveja depois disso?
Era por esse e por outros motivos que Ricardo agora concluía que não podia confiar em mais ninguém. Deveria ter percebido isso assim que sua amante deu com a língua nos dentes e deixou escapar para Linda que ele tinha um caso extraconjugal, só para vencer uma discussão de mulheres. A única confiança que se pode ter é em si próprio, concluiu e atravessou uma rua em direção a um viaduto.
Foi quando viu duas silhuetas ao longe, paradas e pousadas sobre a cerca do viaduto. Não pensou que fossem zumbis e era suficientemente inteligente para saber que zumbis não curtiam passar um tempo de reflexão olhando a vista de um viaduto. Estremeceu, tomado de emoção. Primeiro, sentiu felicidade percorrer-lhe o corpo, fazendo- o inclusive sorrir. Mas então tudo isso se foi.
Ricardo estava apreensivo sobre como seria reencontrar a esposa depois de tanto tempo.
Demorou menos de um minuto para caminhar até Linda e Emília, mas elas o perceberam ainda antes disso. Caso tivessem visto um zumbi no lugar, teriam corrido dali antes que a proximidade fosse possível. Frente a frente, homem e mulher se encararam durante um tempo, em silêncio, sérios, pensativos. Emília era a única que movimentava a cabeça de um lado para o outro, se perguntando o que podia significar aquilo.
Linda estava suja, da cabeça aos pés, assim como também o estava Ricardo. Tinha um aspecto de quem estava doente, mas na verdade só estava mais magra porque andara comendo menos. Ainda assim, Ricardo a achou linda. Queria poder beijá-la, mas, por mais que Linda não tentasse evitar qualquer aproximação, aquele não era um momento oportuno para um beijo.
Depois de alguns minutos, Ricardo finalmente conseguiu dizer:
- Senti sua falta. – Desceu os olhos da esposa para Emília. – Das duas.
Linda apenas assentiu.
- E agora, mais do que nunca, preciso da ajuda de vocês.
Linda assentiu novamente, mas dessa vez seus olhos brilhavam de um jeito diferente. Ela estava chorando.
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