Antes de se dizer o que era, Ricardo correu, tendo que se apoiar com força na parede, em busca de algum amparo com isso. Somente depois disso seu cérebro conseguiu processar as imagens que recebera e tentaram associá-las a algo que pudesse ser entendido como real, por mais que Ricardo jamais tivesse visto algo parecido em vida.

A imagem que construiu foi baseada nos filmes com Frankenstein, pois tinha quase certeza de que a criatura que vira de relance se parecia com ela. Quer dizer, não tinha pregos presos à têmpora e nem parecia ter o corpo feito de remendos de outros corpos, mas a altura, tão grande que humano nenhum jamais conseguiria atingi-la, e o rosto sem expressão lembrava e muito o do Frankenstein que ele via n’A Família Addams quando criança. Os olhos não tinham pupilas, então eram apenas glóbulos brancos que se moviam a esmo. A pele era cinzenta, quase esverdeada, e provavelmente pútrida, pois qualquer que fosse aquela criatura já devia estar morta. Caminhava com a postura ereta, como um comandante, e vestia-se numa capa negra, que ele muito provavelmente já vestia desde antes de se tornar aquilo. Poderia ser confundindo com uma estátua se fosse deparado num corredor – uma bem assustadora, diga-se de passagem.

Ricardo só correu porque ainda se lembrava do som que aquela criatura fazia ao tentar passar pela porta que a prendera até minutos atrás, aquela no saguão de entrada. Tinha força subumana, é claro, senão seus pés não fariam tanto barulho no chão. Aliás, foi guiado por ele que Ricardo sabia dizer se devia se apressar mais ou não enquanto fugia do monstro às suas costas. Quanto mais altos os passos, maior o cuidado que ele devia ter, o que o obrigava abrir mais as pernas e avançar com mais desespero.

Contudo, por mais que corresse, parecia não haver porta que segurasse aquela criatura enquanto ela quisesse alcançar sua vítima. Ricardo já imaginava ter corrido por mais de quinze corredores e por mais de uma hora e ainda não conseguira tirar o monstro do seu encalço – claro que esse tempo era meramente mental, já que não fazia nem dez minutos desde que ele deixara o escritório onde Jill e Kevin se encontravam e passou a fugir. Mas estava tão cansado que era como se já fizesse isso há muito mais tempo.

Estava a ponto de desistir de fugir e se entregar à morte certa quando, ao entrar em uma sala, percebeu que os passos que o acompanhavam cessaram. Caminhando com calma pelo ambiente, que parecia outro escritório, mas voltado para um setor que tinha mais pessoas, Ricardo tentou escutar os barulhos que vinham do corredor. Não escutou nada por tempo suficiente para entender que, naquela sala, ele estava seguro. Decidiu, então, que daria uma olhada ao redor, em busca de algo que pudesse ajudá-lo.

Além das mesas e as separações de baias, com seus computadores desligados e papeis sem a menor importância espalhados por todo o lugar, havia também armários de metal naquela sala e um balcão com duas garrafas, uma de chá e outra de café, com bebidas que já deviam estar há muito frias e estragadas. Ricardo não se deu ao trabalho de verificar tais suposições, pois tinha medo de se surpreender de maneira negativa. Mas esses não eram os únicos objetos por ali.

Um chamou bastante a atenção de Ricardo por praticamente ser uma raridade: uma máquina de escrever. Posicionada de modo chamativo, em uma mesa de canto destinada apenas a ela, era negra e parecia boa o suficiente para ainda ser utilizada. Ricardo sorriu com nostalgia ao se lembrar de que, quando era criança, sempre quisera ter uma dessas, mesmo sem nunca tê-la tido realmente. Por mais que a situação fosse impertinente, uma vez que havia um monstro do outro lado da porta, aparentemente apenas aguardando o momento de atacar sua presa, ele procurou testá-la. Já havia uma folha de papel presa ali, embora estivesse um pouco suja. Com animação, Ricardo apertou a primeira tecla, a letra E, e o caractere foi instantaneamente marcado no papel, mas fraco, com pouca intensidade.

- Ela precisa de tinta – o homem sussurrou e circulou os olhos ao redor. Encontrou um círculo negro, do tamanho de um pão pequeno, e percebeu que ele encaixava perfeitamente na bobina que havia em cima da máquina de escrever. Havia os dizeres “Ink Ribbon” na embalagem. – Agora vai funcionar como deve.

Com rapidez e mais familiarizado do que nunca com aquela máquina, ele digitou as seguintes palavras:

ESCRITÓRIO II, DELEGACIA DE POLÍCIA – RICARDO – 27/08/12 – 03:53 PM

Não sabia o porquê de ter digitado isso, mas mesmo assim deixou ali, gravado. Talvez algum dia alguém entrasse naquela sala, visse o texto e achasse interessante.

Também havia um baú, grande o suficiente para comportar até dois corpos humanos bem dobrados dentro. Era de ferro, enferrujado, e não parecia ter utilidade nenhuma numa sala como aquela. Mesmo assim, Ricardo se dirigiu até ele e, curioso, levantou a tampa dele, que rangeu em reclamação à ferrugem que tomara conta de suas dobradiças.

Parecia não haver nada no baú, além de uma grande quantidade de escuridão, mas uma mexida de cabeça foi determinante na hora de acordar a curiosidade de Ricardo a respeito de um brilho que ele enxergou por ali. Teve que dobrar o corpo e mergulhar um braço inteiro na direção do objeto, mesmo com todos os riscos que corria ao vasculhar algo que era imprevisível e perigoso, mas conseguiu apanhá-lo. Seus olhos brilharam ao descobrir o que era.

Era uma pistola, mas era notável que não uma pistola qualquer. Aquela, prateada, era diferente da de Jill. Ricardo conhecia pouco de armas, mas sabia que aquela devia ser ainda mais poderosa do que qualquer outra arma que os oficiais da S.T.A.R.S tivessem. Ele a apanhou e depois disso não se livrou dela por um bom tempo.

Armado, agora ele tinha coragem de enfrentar o monstro que o aguardava do outro lado da porta.

Abriu-a num chute e não demorou a encontrar a criatura. De fato, ela o esperava à porta, mas provavelmente não contava com o fato de que, agora, sua presa estaria armada, então agiu sem cautela nenhuma quando avançou na direção de Ricardo e recebeu um tiro bem no meio da testa, espirrando sangue para todos os lados. O homem que executou o disparo pensou que naquele momento a batalha tivesse acabado, mas estava enganado. Pelo que parecia, um tiro não seria o suficiente para aniquilar uma criatura como aquela, por mais potente que a arma fosse.

Ricardo correu pelo corredor, desceu uma leva de escadas e esperou que o monstro o acompanhasse. Quando o Tyrant, nome da criatura que o homem desconhecia completamente, surgiu no topo da escada, ele não hesitou e disparou mais duas vezes. O monstro vacilou no lugar e evitou seguir em frente, mas apenas por pouco tempo. Quando voltou a caminhar, Ricardo disparou mais uma vez e o Tyrant não teve como prosseguir seu caminho.

O imenso corpo da criatura desabou e rolou todos os degraus da escada até parar aos pés de Ricardo, em meio a toda a escuridão. O homem o observou de cima, com nojo e sem coragem nenhuma de tocá-lo, e decidiu que devia seguir em frente. A imagem era suficientemente perturbadora para que ele não quisesse mais vê-la.

Então ele avançou pela próxima porta que encontrou e deparou-se de frente para o corredor onde ele supunha que fosse encontrar Carlos. Mas o oficial não estava lá, mesmo que todos os zumbis aniquilados pelo chão fosse um sinal de que um dia ele passara por ali. Diante de tal imagem, o coração de Ricardo disparou, porque ele ainda não tinha trabalhado em nenhuma hipótese onde ele estivesse longe de Carlos, uma vez que esse era o seu protetor.

Carlos está morto, ele pensou com pessimismo e engoliu em seco. Achava uma péssima ideia seguir em meio a todos aqueles corpos, mas seguiu mesmo assim. Logo chegou à porta que dava para a recepção, onde toda aquela jornada havia começado.

E quando abriu a porta, um homem cujo rosto ele não conhecia exigiu que ele se abaixasse através de um brado. De maneira automática, Ricardo se abaixou.

Um disparo foi ouvido, seguido do tombo que sofrera o corpo do zumbi que o perseguia sem que ele sequer tivesse percebido isso.

E foi então que Ricardo notou que finalmente estava de frente para Chris Redfield, o homem que Jill tanto insistia em procurar.