A Busca Continua

14 Ele Está de Volta


Ricardo, apavorado, agachado, as mãos apoiadas no chão, só tinha como vista dois grandes pés calçados em botas de exército negras. Seu corpo tremia com nervosismo, mas não porque acabava de descobrir que estava de frente para Chris Redfield – O famoso Chris Redfield – e sim porque, mais uma vez, tivera uma experiência de vida que quase o levara à morte. Até então, para ele, enfrentar o Tyrant e outros zumbis tinha sido algo de certa forma agradável, já que ele já estava acostumado a lidar com ameaças desse tipo. Contudo, ao ser salvo por Chris, ele percebeu que a segurança que tinha de que nunca morreria pelas mãos de um inimigo se desfez, como se nunca tivesse existido. Antes ele já sabia que precisava da ajuda de Carlos para encontrar Chris naquele prédio, mas agora ele percebia que o que precisava era, na verdade, de um guarda-costas. Um salva-vidas.

Assim como Chris havia sido naquele momento.

O corpo do zumbi caiu às costas de Ricardo e o som de ossos sendo esmagados com a pancada entrou no ouvido do homem. Ele já ouvira aquele barulho antes, mas nunca com tanta intensidade e nem com tanto medo. Estremeceu e mordeu o lábio. Seus olhos estavam arregalados, assustados, formando uma careta horrível. Teria ficado por muito mais tempo assim, aguardando que tudo ficasse certo, mas então Chris abaixou-se e o agarrou pelo braço, erguendo-o.

- Ei – ele disse e teve que erguer o rosto de Ricardo, segurando-o pelo queixo, para que esse pudesse encará-lo. – Está tudo bem?

- Depende do ponto de vista – Ricardo disse e desviou seu olhar dos olhos negros de Chris. Foi obrigado a encará-lo mais uma vez quanto novamente a mão voltou girá-lo. – O que você quer?

- Tem certeza de que não precisa de ajuda?

- Se preciso de ajuda? – Ricardo riu. – E quem não precisa? Já deu uma olhada lá fora? Viu a situação em que a cidade onde cresci se encontra? Todos precisam de ajuda, inclusive você.

Chris mordeu o lábio, pensativo. Apertou os olhos, ainda encarando Ricardo, e disse:

- Eu vim para cá para ajudar. – Ricardo ensaiou um sorriso sarcástico. – Mas sei que preciso de ajuda também. Contudo, a julgar por como você se encontra, sei que não estou fazendo errado em afirmar que você precisa mais de ajuda do que eu.

- E isso quer dizer que você vai ficar aqui, olhando para a minha cara, atirando em cada zumbi que entrar no recinto, a fim de me ajudar?

Chris não replicou, parecendo mais uma vez pensativo.

- Você não é aquele tipo de polícia que só é acionada quando pessoas em massa precisam de ajuda? – Ricardo prosseguiu, visivelmente irritado. – Isto é, não seria uma imensa perda de tempo para você ter que ficar me seguindo ao invés de procurar pessoas que precisem mais de ajuda do que eu?

- Eu sei quem você é. – Ricardo revirou os olhos ao ouvir a frase. — Eu pensava desse jeito que você está dizendo, ignorando uma única pessoa para ir em busca de muitas outras. Na verdade, desde o princípio, essa foi a minha missão. Guiar e proteger uma vítima e fingir que não existem outras vai contra o que eu devia seguir. Mas algo me fez mudar de ideia.

- Deus?

- Não. Foram duas pessoas que você deve conhecer muito bem...

Ricardo arregalou ainda mais os olhos e sentiu náuseas. Contemplou em silêncio o rosto sério de Chris por uma grande parte de tempo, refletindo sobre o que ouvira, considerando as hipóteses que podiam ser consideradas, levando em conta as circunstâncias. Se tivesse entendido bem o que ouvira, não havia como se enganar quanto à conclusão a que chegara.

- Você sabe onde está Linda e Emília – ele falou. Não era uma pergunta.

- Sim e não.

- Como pode saber e não saber? Você sabe de quem estou falando! Você viu minha mulher e minha esposa! – Chris não esboçou nenhuma reação, o que obrigou Ricardo a agarrá-lo pelo colarinho, exigindo uma explicação. – O que você fez com elas, seu patife? O QUE VOCÊ FEZ COM ELAS?!

- Muitas coisas – Chris respondeu. Parecia estar se divertindo com o sofrimento do homem. – Mas nada que as tenha prejudicado.

- E por que não está com elas agora? – Ricardo soltou Chris, mas nem assim aparentou estar mais tranquilo. – Você as deixou morrer por aí? Foi isso?!

- Elas estão vivas – Chris assegurou. – Mas chegou um momento na nossa jornada em que tive que me separar delas.

Ricardo permaneceu quieto por um instante. Chris continuou a encará-lo com expectativa, tentando prever que atitude teria aquele homem nos próximos segundos, mas nenhum de seus pensamentos esteve certo. O que ele viu no rosto de Ricardo foram lágrimas. Lágrimas de quê?, perguntou-se e franziu o cenho. A resposta veio logo a seguir.

Essas são lágrimas de um homem que se arrependeu.

- C-Como elas estão? – Ricardo perguntou, minutos depois, quando ele e Chris decidiram se sentar na recepção. Chris carregava consigo garrafas de cerveja desde algum tempo, quando saqueara um supermercado em busca de alimentos, então oferecera uma ao seu novo companheiro e abriu uma para si. Dizia que só conseguia manter o raciocínio sempre alerta quando bebia, e Ricardo compreendia isso.

- Estão bem – Chris respondeu, girando a garrafa de uma mão para outra. – Linda estava muito abalada no início, quando tudo começou. Acho que tive um grande papel na reconstrução mental dela. Ficaria insana se andasse sozinha por aí, mesmo que isso jamais fosse acontecer se eu não a tivesse salvado quando os zumbis começaram a andar pelas ruas. — Houve uma pausa. – Ela precisava de ajuda.

- Linda sempre foi uma mulher forte.

- Ela é quando é preciso – Chris corrigiu. – Quando a conheci, era apenas uma mulher cheia de medos e desesperada. Não duraria nem dois minutos fora de quatro paredes com inimigos como esses que temos enfrentado. Ainda assim, percebi que ela tinha vontade de ser melhor, e foi apenas por isso que ela conseguiu. É uma pessoa admirável.

Ricardo engoliu em seco antes de perguntar:

- E... E elas estão procurando por mim?

Foi então que Chris hesitou.

- Elas não estão – Ricardo observou e assentiu com um gole de cerveja.

- Não ouvi muitas coisas boas a seu respeito, Ricardo.

- Aquela vadia...

- Mas não acho que foram observações sem fundamento. – Agora foi a vez de Chris beber. – Ela vê você como um mau marido, como um traidor. A julgar pelo que me foi contado, você de fato agiu como um, então, para mim, é culpado das acusações. Ela se sente abandonada por você e pensa que nunca foi importante. Estava em busca da filha porque muito provavelmente sabia que cuidar de Emília era algo que faria com que sua vida tivesse sentido. Do contrário, já teria se deixado levar pela goela de um morto-vivo.

- Eu não a traí sem nenhuma razão.

- E eu acredito nisso. Linda está magoada, mas também não deve ter sido a única inocente.

- Você entende como nós, homens, somos, não é mesmo?

Chris vacilou novamente.

- Entendo.

- Você sabe onde elas estão?

- Não, sinto muito. Desde que explodi o Almirante do Vale, onde sua filha e mais um monte de outras crianças estavam, a tempo de Linda poder salvar não só ela como também todos os outros reféns, eu nunca mais a vi. A explosão nos guiou para caminhos diferentes. – Ricardo não pareceu ficar muito animado com o que ouviu. – Mas tenho certeza de que elas estão mais próximas do que podemos imaginar.

- Isso se ainda estiverem vivas.

- Elas vão estar – Chris afirmou e deu dois tapas de leve no ombro de Ricardo. – Linda aprendeu rápido a como sobreviver nesse novo mundo...

Chris interrompeu sua fala quando ouviu um barulho vindo pela porta que dava acesso ao Hall de entrada. A julgar pelo ritmo, só podiam ser passos, e não estava enganado. Pondo-se de pé, ele ergueu uma mão armada à frente e pousou a outra, que segurava uma lanterna, sobre essa, apontando tudo em direção à porta. Ricardo estava pronto para encarar outro zumbi quando percebeu que, na verdade, as pessoas que vinham por aquela abertura eram Jill e Kevin, na verdade.

Chris manteve-se estático, silencioso, como se tivesse sido petrificado. A julgar pela expressão de Jill, assustada, estupefata, a boca aberta num O, Ricardo pôde prever como que o homem à sua frente também estava. Para Jill e Chris, aquele devia estar sendo um momento importante.

Mas nem tal constatação foi forte o bastante para impedir Ricardo de se levantar de onde estava sentado e insultar Jill da maneira como queria fazer há algum tempo.

- SUA PUTA! – foi o que gritou, soltando saliva no ar.

Notas finais
Houve um atraso de atualização? Sim, houve. Tive um bloqueio mental ~daqueles nos últimos dias, e não queria escrever nada que não considerasse bom. Espero que gostem desse capítulo :)