A Busca Continua

4 A Batalha Na Escuridão


Não havia muito o que observar num túnel de metrô, principalmente quando não se via luz nenhuma nele, já que a lanterna iluminava muito pouco. Tudo o que havia à frente era a escuridão que, vez e outra, era entrecortada por uma parte iluminada: uma nova plataforma. Ricardo, em muito tempo, já passara por duas delas e se sentia de certa forma fatigado por ter ido tão pouco longe em tanto tempo. Já começava a refletir sobre a possibilidade de desistir do passeio e parar em alguma plataforma pra passar a noite e seguir com sua vida medíocre de matar zumbis e encontrar comida. Desistiu do pensamento assim que percebeu o quanto louco que ficaria se seguisse em frente com a ideia.

Já estava passando diante da terceira plataforma de uma estação de metrô – a Sé – e lembrou-se de que tinha que deixar aquele túnel. Uma vez que estivesse na estação que cruzava tanto a linha azul quanto a linha vermelha, ele precisava deixar uma linha para seguir pela outra. Ricardo não imaginava como fosse encontrar essa sobreposição ou esse encontro de linhas, mas percebeu que, na verdade, uma não ficava do lado da outra, e que ele teria que voltar à plataforma e subir algumas escadas rolantes – que não estavam rolando – para encontrar a outra linha. Fatigado e desanimado, assim ele fez, levando mais tempo para percorrer todo aquele caminho do que levaria em tempos comuns.

Já diante da escada que levava à linha vermelha, ele percebeu algo: estava com vontade de usar o banheiro. Por isso, desviou sua rota para a esquerda e, seguindo placas que apontavam o caminho, chegou a um banheiro que outrora era pago, mas que agora tinha as portas arrombadas, liberando a passagem para quem bem tivesse vontade. Ricardo entrou no banheiro masculino – mesmo que não existissem mais formalidades quanto à denominação de espaço numa cidade como aquela, Ricardo não se sentia à vontade o bastante para descobrir os mistérios de um banheiro feminino – e usou-o com não menos do que dois minutos. Caminhando em direção à saída, ele parou à porta, intrigado.

Havia um cano longo, grande como um braço, pousado a um canto, aparentemente sem utilidade. Devia pertencer ao banheiro desde muito tempo, pois estava muito enferrujado. Ricardo não viu problema em apanhá-lo a fim de usá-lo como arma. Se tinha alguma precaução importante que ele tinha deixado de tomar ao se aventurar naquela viagem era a de não ter arranjado uma arma para se defender de possíveis inimigos.

- Isso é para o caso de o dono daquele barulho voltar a me importunar – falou, jogando o bastão de uma mão para a outra. Deixou o banheiro, aliviado, e seguiu caminho.

Desceu a escada para a nova plataforma aos saltos. Já não estava mais apreensivo com o fato de que estava no subterrâneo de São Paulo e que isso parecia mais amedrontador do que devia. Seguir caminho por ali já não era algo mais tão chocante quanto fora de primeira. Àquela altura, Ricardo sentia até que poderia passar a usar o metrô todo dia para ir ao trabalho – se algum dia São Paulo voltasse a ser a mesma.

Saltou para o trilho do trem e tornou a caminhar. Acendeu sua lanterna e, caminhando descontraidamente, iluminava ocasionalmente os cantos do túnel. Apesar de estar seguro de sua caminhada, era como se imaginasse que, a qualquer momento, algo fosse surgir do nada para surpreendê-lo, como numa brincadeira sem graça. Contudo, depois de tanto tempo andando nas escuridões, era como se essa fosse uma possibilidade bastante remota e sem fundamento algum. No final, zumbis não sabiam entrar em metrôs e muito provavelmente não sobreviveriam muito tempo ali embaixo, onde quase nunca encontrariam alimento.

Ricardo apontava a lanterna de um lado para o outro no teto, indo da esquerda para a direita e de novo para a esquerda, seguindo esse padrão. Cantarolava uma música latina enquanto fazia isso, balançando a luz no mesmo ritmo. Numa dessas passadas, percebeu que a lanterna percorreu algo que não era apenas o teto do túnel. A imagem de uma fração de segundo foi muito pouco nítida para que ele tivesse certeza do que era, mas ainda assim Ricardo congelou no lugar.

E respirou fundo. As pernas tremiam de excitação.

Ricardo manteve a lanterna apontada na mesma direção durante um bom tempo, a luz tremulando como se fosse o farol de uma motocicleta dirigindo numa rua de péssimo estado. O homem não tinha coragem nenhuma de voltar a lanterna para o ponto em que vira aquela coisa, mas estava tão curioso para saber o que o aguardava – sim, porque ele tinha a impressão de que, o que quer que estivesse escondido na escuridão, ainda estava lá – que decidiu que não faria mal nenhum em levar o feixe de luz em direção ao objeto desconhecido.

O maior erro que pôde cometer foi justamente esse.

A lanterna percorreu vagarosamente metade do arco do túnel até pousar sua claridade sobre uma criatura que fez Ricardo perder o controle do próprio corpo e cair sentado com um baque no chão. Parecia um humano – parecia -, mas era como se não fosse. Primeiro, Ricardo pensou que fosse um homem de gatinhas, de cabeça pra baixo, segurando-se ao teto do túnel e observando-o. Não foram precisos muitos segundos mais para perceber que os detalhes eram mais sórdidos que isso.

A criatura não estava nua. Aquilo que a envolvia não era pele, e sim a falta dela. Ricardo contemplava com horror um monstro que tinha todos os músculos à mostra, por onde gotejava quantidades generosas de sangue e de uma substância aquosa que era impossível de se identificar. A aparência do seu corpo já era bastante horrível, mas chocante mesmo era o seu rosto. Quer dizer, não era possível divisar olhos ali, uma vez que o cérebro do monstro não tinha qualquer cobertura e ocupava grande parte de sua cabeça, como se só ele a fosse. Contudo, havia uma abertura nela que servia de boca – uma larga e grande boca, por onde uma língua de proporções gigantescas não demorou a romper e a sacudir no ar como uma serpente feita de músculos rosados.

Ricardo simulou ter dito um palavrão, mas não saiu voz de sua boca. Continuou a apontar a luz na direção do monstro e então o pior de tudo aconteceu.

O licker, nome que era dado ao monstro e que Ricardo desconhecia completamente, saltou do teto e avançou em cheio em direção ao homem, que não teve tempo de se desviar. Suas garras, grandes e pesadas, prenderam os braços de Ricardo ao chão – a essa altura, a lanterna estava longe demais para que ele pudesse alcançar – e sua língua, pegajosa, começou a percorrer o rosto da vítima, como se procurasse saboreá-la com aquilo. Ricardo sentiu vontade de vomitar, não só por conta da repulsa de estar sendo lambido, como também pelo cheiro que a criatura exalava, algo próximo do odor de um defunto.

Desesperado, ele levou um pé na direção de onde devia ser a genitália do licker e foi quando o monstro chiou, quase que o mesmo barulho que ele ouvira ao entrar no metrô. Sofrendo, o monstro jogou-se para o alto e liberou o corpo de Ricardo, que não levou mais do que três segundos para apanhar sua lanterna e o cano que planejava usar como arma. Pensou em enfrentar a criatura ali mesmo, pondo fim ao tormento, mas então considerou a ideia de que pudesse haver muitas mais ao redor, o que seria um problema. Feita a conclusão, ele disparou em uma corrida que pareceu nunca ter fim.

Mesmo correndo, Ricardo ainda conseguia ouvir os tec, tec, tec que eram as garras do licker batendo no chão, caminhando em sua direção. Ouvir esse barulho era o que motivava o homem a correr com ainda mais afinco. Sabia que poderia morrer nas garras de um monstro como aquele, já que sua aparência era suficientemente assustadora para significar que ele não era nem um pouco amistoso, então qualquer vacilo seria fatal.

A língua do monstro surpreendeu Ricardo ao acertá-lo em cheio nas pernas, entrelaçando-as e jogando-o no chão. O homem gritou um novo palavrão em resposta e instantaneamente começou a se sacudir para se livrar do animal – uma tentativa inútil. Não demorou muito e o licker se aproximou de sua presa, ele e seu cheiro fétido. Ricardo pressentiu a morte chegar e não demorou muito para agir a respeito: agarrou o cano enferrujado e, com força suprema, levou-o aonde imaginava que estava a cabeça do monstro.

Houve um novo silvo que ecoou pelo túnel inteiro, retumbante. Com um puxão, Ricardo soltou o cano de onde ele ficara preso – a cabeça do licker. A língua ao redor de suas pernas afrouxou, o que permitiu que ele se movimentasse melhor. Agarrando seus itens novamente, ele partiu uma última vez, certo de que não queria mais enfrentar túneis como aquele tão cedo.

Chegou à estação República poucos minutos depois, o coração saltando na garganta, a adrenalina à flor da pele. Saltou para a plataforma com pressa e seguiu para as escadas como um demônio que fugisse da cruz. Ricardo não via a hora de deixar aquela estação de metrô.

Estava apavorado demais.