A Batida do Coração 3: O Acorde final
14 O Despertar da Estrela e a Rotina do Doutor
A manhã de sábado na Barra da Tijuca trouxe uma luz dourada e forte, que refletia nas águas mansas da praia. Passava das oito horas quando Kayla Drake abriu a porta social do loft no sétimo andar. Ela usava a mesma roupa casual escura da madrugada, trazia a pequena bolsa tiracolo e os cabelos negros enormes estavam ligeiramente bagunçados, carregando o aroma sutil de sândalo e o calor dos lençóis da cobertura de Logan.
Ela girou a chave com o máximo de cuidado, tentando não fazer nenhum barulho, mas ao dar o primeiro passo para dentro da sala, estancou.
A Recepção dos Drake
Sentados lado a lado no sofá de linho cru, com os braços cruzados e expressões excessivamente sérias, estavam Jace Drake e Rebekah Laurentis. Jace mantinha os olhos escuros fixos nela, o maxilar rígido em uma imitação perfeita de um pai severo, enquanto Rebekah batia o pé levemente contra o tapete, segurando uma xícara de café vazia.
O silêncio durou cinco segundos, fazendo o estômago de Kayla dar uma leve reviravolta de nervoso.
— Bonito, hein, dona Kayla? — Jace quebrou o silêncio, a voz grave saindo pesada, imitando um tom de bronca que ele raramente usava. — Dezoito anos completos há menos de vinte e quatro horas e você já acha que a chave da porta da frente é só um enfeite? Sumiu a madrugada inteira sem dar um sinal de fumaça para a banda.
— Nós passamos a noite em claro, Kayla — Rebekah endossou, tentando manter a face rígida, embora o canto de seus lábios estivesse tremendo. — Uma ligação, uma mensagem dizendo que o compasso da noite ia se estender... era o mínimo.
Kayla engoliu em seco, dando um passo para trás, segurando a alça da bolsa com força. — Pai, mãe... eu sinto muito. Eu estava com... com os fones de ouvido e acabei perdendo a noção do tempo na praia e...
Antes que ela pudesse inventar a sua próxima desculpa clínica, Jace não aguentou. Uma gargalhada alta e rústica escapou de seu peito, quebrando toda a pose de pai bravo. Ele jogou a cabeça para trás, batendo a mão no joelho, enquanto Rebekah abria um sorriso radiante e cúmplice.
— Ah, relaxa, minha linda! Olha a sua cara de pânico! — Jace zombou, levantando-se do sofá e caminhando até a filha para puxá-la para um abraço de urso, apertando-a contra o peito. — Nós sabíamos exatamente que você ia curtir a sua maioridade. Só estávamos testando a sua capacidade de improviso no palco do estresse.
— Parabéns pela sua primeira noite oficial de saídas como dona do seu próprio nariz, meu amor — Rebekah disse, aproximando-se também para deixar um beijo carinhoso na bochecha corada da filha. — Nós confiamos em você. Só queríamos te dar um susto de boas-vindas ao mundo dos adultos.
Kayla soltou o ar pelos lábios, uma risada limpa e aliviada escapando de sua garganta enquanto se desvencilhava do abraço do pai. — Vocês são ridículos, sabiam? Eu quase tive uma parada cardíaca aqui no hall.
— Agora vai tomar um banho e descansar — Jace aconselhou, piscando com aquele olhar sábio de quem lia as entrelinhas. — O seu compasso está visivelmente lento. A noite deve ter sido longa.
Kayla não contestou. Ela sorriu de canto, pegou suas coisas e caminhou apressada pelo corredor. Ao trancar a porta do quarto, a realidade da madrugada voltou a inundar sua mente. Ela tomou um banho morno, vestiu uma camiseta oversized e jogou-se de costas na cama. Seus dedos tocaram os lábios, que ainda guardavam o calor de Logan. Perdida em pensamentos sobre a entrega, a pele dele e a doçura desconhecida daquela cobertura, Kayla Drake fechou os impressionantes olhos azuis e adormeceu profundamente, embalada pelo som distante do mar da Barra.
O Segredo Compartilhado
Passava das quatro da tarde quando o som de batidas rápidas e ritmadas na porta do quarto acordou Kayla. Ela se espreguiçou, os cabelos negros enormes espalhados pelo travesseiro, e levantou-se para abrir a fechadura.
Candy Lâfrer entrou no quarto como um furacão de energia, usando shorts jeans e segurando um copo de suco. Ela se jogou na ponta da cama de Kayla, cruzando as pernas.
— Até que enfim a bela adormecida acordou! — Candy exclamou, rindo. — Minha mãe disse que você chegou tarde do rodízio, mas eu liguei pro Logan e ele disse que o plantão dele na emergência foi um caos na madrugada. Enfim, vim ver as fotos do seu aniversário que a sua mãe tirou.
Kayla sentou-se na cabeceira da cama, puxando os joelhos contra o peito. O nome de Logan fez seu coração dar um solavanco violento. Ela olhou para a porta fechada do quarto e depois fixou os olhos azuis nos castanhos da melhor amiga. A urgência de desabafar com a sua única cúmplice superou qualquer orgulho.
— Candy... para de falar um segundo — Kayla pediu, a voz saindo mansa, séria e carregada de uma densidade nova. — Eu preciso te contar uma coisa. Uma coisa muito séria.
Candy franziu a testa, largando o copo de suco na mesa de cabeceira. A postura de Kayla a deixou em alerta. — O que foi, amiga? Você está com uma cara estranha. Aconteceu alguma coisa no rodízio?
Kayla respirou fundo, puxando o ar com força para os pulmões antes de soltar a verdade de uma vez por todas:
— Eu não passei a madrugada na praia, Candy. E o plantão do seu irmão no hospital... foi uma mentira que ele inventou para os nossos pais.
Candy arregalou os olhos, inclinando-se para a frente. — Como assim? Do que você está falando?
— Eu fui para a cobertura nova dele na Lúcio Costa — Kayla confessou, as bochechas queimando em um tom vermelho vivo, mas o olhar firme. — Tudo o que aconteceu entre a gente no elevador, na cozinha de Angra, as alfinetadas na praia... Candy, aconteceu de verdade. Eu passei a noite com o Logan. Eu me entreguei para ele ontem à noite. Foi a minha primeira vez.
O quarto mergulhou em um silêncio absoluto por três segundos. Candy travou na mesma posição, a boca ligeiramente aberta, os olhos castanhos piscando de choque puro conforme processava a informação. A imagem de seu irmão mais velho — o médico engomado, frio e cheio de regras — com a sua melhor amiga, a guitarrista rebelde e dona do mundo, parecia um roteiro impossível.
— MIGA! EU ESTOU EM CHOQUE! — Candy finalmente berrou, mas controlou o tom de voz logo em seguida, cobrindo a boca com as mãos para não chamar a atenção de Jace na sala. Ela avançou pela cama, segurando as mãos de Kayla. — O Logan? O meu irmão careta? Vocês dois? Mentira!
— É a mais pura verdade — Kayla sorriu de canto, aliviada pela reação da amiga. — Ele me deu a chave na varanda do restaurante. Eu achei que não ia ter estrutura, mas... foi perfeito, Candy. Ele foi completamente diferente do que mostra para o mundo.
Candy soltou uma risada limpa, balançando a cabeça com uma felicidade genuína que varreu qualquer traço de estranhamento. — Olha, se fosse qualquer outra garota, eu estaria achando um absurdo. Mas você... Kayla, eu não ligo nem um pouco! Pelo contrário, eu estou muito feliz! O Logan é um chato puritano que precisava urgentemente de alguém com o seu ritmo para bagunçar aquele prontuário dele. E você... você merece o melhor. Só me promete que se ele for um ogro clínico com você, você quebra a guitarra na cabeça dele!
— Prometo — Kayla riu alto, jogando um travesseiro na amiga, sentindo o peso do segredo evaporar do quarto.
A Rotina e a Memória do Médico
Enquanto o sol começava a se pôr na Barra da Tijuca, a realidade no Hospital Regional do Rio de Janeiro operava em uma frequência totalmente diferente. O pronto-socorro estava um caos. Sirenes de ambulâncias ecoavam no pátio de entrada, macas cruzavam os corredores de linóleo e o som dos bipes dos monitores cardíacos ditava o compasso estressante do plantão de sábado.
Logan Lâfrer estava no centro da tempestade. Ele usava a calça escura e o jaleco branco bem ajustado, com o estetoscópio pendurado no pescoço. Suas mãos agiam com uma precisão cirúrgica e impecável. Ele acabou de suturar o ferimento de um paciente acidentado, dando nós firmes e rápidos com o fio de nylon, a postura imponente e o tom de voz calmo acalmando a equipe de enfermagem técnica.
— Limpeza feita, fechem o curativo e mandem o prontuário para a observação do quarto bloco — Logan comandou, afastando-se da maca e puxando as luvas de látex das mãos com um estalo seco, jogando-as no lixo hospitalar.
Ele caminhou até o lavatório do corredor, abrindo a torneira de sensor com o cotovelo. Enquanto a água fria corria por suas mãos e ele passava o antisséptico, o barulho do hospital pareceu silenciar por um breve segundo em sua mente.
Logan ergueu o olhar e encarou o próprio reflexo no espelho acima da pia. As olheiras do cansaço físico estavam lá, mas seus olhos escuros carregavam um brilho completamente novo. A memória da madrugada na cobertura da Lúcio Costa o atingiu como uma descarga de adrenalina pura. Ele visualizou perfeitamente a imagem de Kayla Drake deitada em seus lençóis escuros, com os cabelos negros enormes espalhados pelo travesseiro, os impressionantes olhos azuis dilatados de entrega e a maciez da pele dourada sob os seus dedos longos.
A sensação da inocência dela cedendo ao seu toque, os gemidos sôfregos contra a sua boca e a forma como ela o prendera em seu abraço fizeram o maxilar de Logan travar sutilmente, não de irritação, mas de um desejo possessivo que parecia crescer a cada hora longe dela.
— Doutor Lâfrer? A emergência da ala C precisa do senhor para um caso de trauma — a enfermeira-chefe chamou da porta, interrompendo seus pensamentos.
Logan fechou os olhos por um milésimo de segundo, guardando a imagem da sua menina — agora mulher — no canto mais protegido de sua mente lógica. Ele puxou uma folha de papel para secar as mãos, ajeitou as lapelas do jaleco branco e recuperou a sua armadura profissional.
— Estou a caminho — ele respondeu, a voz grave e firme ecoando pelo corredor do hospital.
Ele voltou para o caos do plantão, trabalhando com a eficiência de sempre, mas sabendo que, não importava quantos corpos ele salvasse naquele sábado, o diagnóstico definitivo de sua vida já havia sido assinado e selado no compasso do coração de Kayla Drake. A contagem regressiva havia terminado; agora, o ritmo era todo deles.
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