A Batida do Coração 3: O Acorde final

15 O Preço do Sucesso e o Choque de Duas Órbitas



​A semana pós-aniversário passou como um borrão elétrico na vida de Kayla Drake. Entre os ensaios finais no loft, as conversas animadas com Candy na garagem e a ansiedade que corroía seu estômago, ela quase não viu os dias passarem. Logan havia sido engolido por uma escala punitiva de plantões e cirurgias de emergência no Hospital Regional; eles não conseguiram se ver, trocando apenas mensagens esporádicas na madrugada, o que só fez acumular a tensão latente entre a guitarrista e o jovem médico.

​Mas a segunda-feira decisiva finalmente havia chegado.

​A Mesa de Vidro da Som Livre

​A sala de reuniões da diretoria da Som Livre, no coração da Barra da Tijuca, exalava o poder da indústria fonográfica. Através da imensa parede de vidro, a vista para a lagoa era deslumbrante, mas os olhos azuis de Kayla estavam fixos nas vias do calhamaço de papel sobre a mesa de mogno. Ao lado dela, Jace Drake mantinha uma postura protetora, e um advogado especializado em contratos artísticos revisava as cláusulas. Na cabeceira, Roberto Albuquerque sorria com a certeza de quem tinha o futuro nas mãos.

​— As bases estão lançadas, Kayla — Roberto disse, juntando as mãos sobre a mesa. — O contrato prevê o lançamento de um álbum de estreia com doze faixas, sendo oito das suas composições autorais que ouvimos no bar. O adiantamento e o salário mensal de exclusividade estão bem acima da média do mercado para estreantes. Você terá os melhores produtores do país à sua disposição.

​Kayla olhou para o pai, que deu um aceno sutil e orgulhoso com a cabeça. O advogado dela assentiu.

​— Até aqui, tudo impecável, Roberto — Kayla pontuou, a voz firme e cheia daquela audácia que herdara de sua linhagem. — E quanto à divulgação? Qual é o plano de estrada?

​Roberto Albuquerque mudou a postura, assumindo um tom ainda mais focado e ambicioso. Ele puxou uma lâmina de apresentação digital e a estendeu na direção dela.

​— É aqui que o jogo muda. Nós não queremos que você seja apenas mais uma artista local. O plano da gravadora é agressivo. Assim que o álbum for masterizado, nós vamos lançar você em uma turnê internacional de grande porte. Uma base de quase um ano na estrada, Kayla. Começando pelas capitais brasileiras, seguindo para a América Latina, Portugal e terminando com festivais independentes na Europa e nos Estados Unidos. É o passaporte definitivo para o topo.

​Um ano na estrada. Longe do Rio, longe do condomínio de lofts... longe de Logan. O pensamento cruzou a mente de Kayla como uma nota dissonante, mas o sangue dos Drake falou mais alto. O palco era o seu oxigênio. Ela não havia nascido para ser coadjuvante de nenhuma história.

​— Onde eu assino? — Kayla perguntou, a voz sem um milímetro de hesitação.

​— Kayla, tem certeza? Um ano longe de casa é um peso físico e mental bruto — Jace interveio, a voz grave carregada de uma preocupação real de quem conhecia o desgaste da estrada.

​— Eu tenho certeza absoluta, pai. Esse é o meu sonho — ela respondeu, olhando nos olhos do pai e depois nos de Roberto.

​Com uma caneta pesada de tinta preta, Kayla Drake assinou o seu nome na última folha. Ela agora era, oficialmente, a nova promessa da música nacional.

​O Reencontro e a Fome Acumulada

​No início da noite, Kayla usou a chave dourada para entrar na cobertura da Lúcio Costa. O apartamento estava na penumbra da maresia. Logan havia acabado de chegar do hospital; ele estava de pé na sala, jogando o jaleco sobre uma poltrona, e já estava com o celular na mão, prestes a discar o número dela.

​Quando ele ergueu os olhos escuros e a viu parada na entrada, a exaustão de trinta e seis horas de plantão evaporou.

​Eles não precisaram de palavras de introdução. Logan deu passos largos e a prensou contra a porta de entrada antes mesmo que ela pudesse largar a bolsa. Seus lábios se colaram em um beijo faminto, violento e urgente, sufocando qualquer saudade acumulada daquela semana de afastamento. A língua dele invadiu a boca de Kayla com uma posse avassaladoramente selvagem.

​— Você está me deixando louco, Drake... — Logan rosnou contra a boca dela, as mãos grandes descendo brutas pela cintura dela, puxando o corpo de Kayla contra a sua calça social.

​Eles se agarraram ali mesmo, no caminho entre o hall e o quarto, despindo-se em um rastro de roupas jogadas pelo piso de porcelanato. No quarto iluminado pelas luzes da orla, a entrega foi puramente carnal e intensa. Logan a jogou na cama de lençóis escuros, subindo por cima dela com uma virilidade possessiva. Suas mãos fortes mapeavam a pele dourada de Kayla com força, arrastando suspiros e gemidos sôfregos dos lábios dela.

​A intimidade deles foi consumada em um ritmo acelerado, quente e frenético, uma resposta física e desesperada ao tempo que haviam perdido. Kayla enterrou as unhas nas costas largas de Logan, arqueando o corpo, entregando-se por completo ao domínio daquele homem que fazia seu coração operar na frequência mais alta. Foi um sexo intenso, marcado pelo suor, por mordidas leves nos lábios e por uma sintonia que parecia amarrar seus destinos de forma definitiva.

​A Colisão de Dois Mundos

​Minutos após o clímax, enquanto as respirações ainda tentavam encontrar o compasso normal na penumbra do quarto, Kayla se sentou na cama, puxando o lençol até o peito. Seus cabelos negros enormes estavam bagunçados e os olhos azuis carregavam a seriedade do que precisava ser dito. Logan continuava deitado de lado, apoiando a cabeça na mão, observando-a com aquele olhar possessivo e satisfeito de cirurgião.

​— Eu assinei o contrato hoje à tarde, Logan — Kayla quebrou o silêncio, a voz saindo mansa, mas cortante.

​Logan abriu um sorriso de canto, orgulhoso. — Eu imaginei. Parabéns, Estrela. O Albuquerque sabe o que faz. Quando começam as gravações aqui no Rio?

​— As gravações começam no próximo mês... mas não é só isso — Kayla continuou, engolindo em seco, fixando o olhar nos olhos escuros dele. — O contrato prevê uma turnê de lançamento mundial. Eu vou passar quase um ano na estrada, Logan. Viajando pelo mundo, morando em hotéis, longe do Rio. Eu aceitei na hora.

​O sorriso no rosto de Logan morreu no mesmo milésimo de segundo. A expressão dele se transformou em uma máscara de pedra fria e rígida. Ele se sentou na cama abruptamente, a linha do maxilar travando com uma força perigosa.

​— Um ano? — Logan perguntou, a voz descendo para um tom gélido e pausado de hospital. — Você assinou um contrato para sumir do mapa por um ano, uma semana depois de deitar na minha cama e dizer que o nosso ritmo era perfeito? Você enlouqueceu, Kayla?

​— Eu não enlouqueci, Logan! Esse é o meu trabalho, é a minha vida! — ela rebateu, a audácia voltando como um escudo protetor contra a rigidez dele. — Eu passei a vida inteira me preparando para esse palco. Você achou que eu ia ficar trancada nesse apartamento esperando você voltar dos seus plantões?

​Logan soltou uma risada curta, rústica e cheia de uma raiva controlada. Ele se levantou da cama totalmente nu, caminhando até o closet para puxar uma calça de moletom, a postura exalando uma autoridade arrogante.

​— Você não precisa dessa droga de estrada, Kayla! Isso é futilidade de gravadora para sugar a sua energia! — Logan disparou, voltando para a beira da cama, apontando o dedo na direção dela, os olhos escuros faiscando de ciúme e posse. — Eu sou médico, eu tenho uma carreira estruturada. Eu posso sustentar você, posso cuidar de você, posso te dar a estrutura que você quiser aqui no Rio! Você não precisa se expor em hotéis e palcos pelo mundo para ter uma vida de verdade!

​As palavras dele atingiram Kayla como um tapa na cara. O gênio implacável de Anya e a altivez de Rebekah incendiaram o seu sangue. Ela jogou o lençol para o lado, levantando-se de frente para ele, sem se importar com a própria nudez.

​— Me sustentar? Cuidar de mim? — Kayla gritou, a voz subindo afinada e cheia de um veneno puro. — Quem você pensa que é, Logan Lâfrer? O meu dono? Você achou mesmo que o seu estetoscópio e a sua arrogância de hospital seriam suficientes para me calar? Eu nunca, escuta bem, nunca desistiria do meu sonho por homem nenhum! Muito menos por um engomado que tem medo de qualquer batida que saia do prontuário dele!

​— Isso não é medo, é realidade! — Logan rebateu, dando um passo à frente, diminuindo a distância, a voz grave ecoando pelas paredes da cobertura. — A estrada destrói as pessoas, Kayla! O que você acha que vai acontecer com a gente com você do outro lado do oceano? Você quer ser livre? Vai lá, seja livre! Mas não espere que eu fique sentado aqui assistindo você rebolar em palcos do mundo inteiro para outros caras verem!

​Palavras de Linha de Frente

​— Você é um egoísta, Logan! Um machista possessivo! — Kayla disparou, as lágrimas de raiva finalmente começando a queimar seus olhos azuis, embora ela se recusasse a desabar na frente dele.

​Ela caminhou até o chão do quarto, pegando o vestido de alcinha preto com movimentos bruscos e violentos. Ela o vestiu de qualquer jeito, sem sutiã, puxando o tecido com tanta força que quase rasgou as costuras. Logan permaneceu estático no centro do quarto, os braços cruzados, a respiração vinda em jatos curtos, assistindo à retirada dela com uma rigidez cortante.

​Kayla calçou as sandálias, pegou a bolsa e caminhou até a porta do quarto. Antes de sair, ela girou o corpo lentamente, as ondas dos cabelos negros enormes emoldurando um rosto transformado pelo ódio e pela dor.

​— Sabe o que eu descobri hoje, Doutor? — ela disse, a voz saindo ácida, precisa e fria como um corte cirúrgico. — O meu pai estava coberto de razão na praia. Você tem um coração estruturado demais para entender o que é arte. Você tentou colocar amarras em um espírito livre, mas a verdade é que você não tem tamanho para aguentar o meu ritmo. O nosso beijo no elevador foi o maior erro da minha vida. Fica com o silêncio do seu apartamento vazio, Logan. Ele combina muito mais com a sua covardia.

​— Suma da minha frente, Kayla Drake — Logan respondeu, a voz saindo em um sussurro gélido, o olhar escuro fixo nela com uma intensidade que parecia querer quebrar o vidro da janela. — Vá ser a sua estrela intocável. Depois não me venha pedir um diagnóstico para o seu isolamento.

​BAM!

​Kayla bateu a porta da frente da cobertura com uma força que fez os quadros do hall tremerem.

​A Estrada das Lágrimas

​O choro que ela prendeu no apartamento implodiu assim que ela entrou no elevador social. Kayla desabou, cobrindo o rosto com as duas mãos, as lágrimas borrando a maquiagem e escorrendo pelo pescoço conforme o elevador descia para o subsolo.

​No táxi de volta para o condomínio de lofts, ela encostou a cabeça no vidro frio da janela, olhando as luzes dos postes da Avenida das Américas passarem como borrões dourados. Seu peito doía, uma dor física, dilacerante, o gosto do beijo dele ainda misturado ao sal das lágrimas. Ela o amava de um jeito selvagem e confuso, mas o seu orgulho e o seu sonho eram inegociáveis.

​Ao entrar em seu quarto no sétimo andar, ela não acendeu as luzes. Trancou a porta, jogou-se na cama e chorou até o travesseiro ficar encharcado, sentindo o peso da maioridade cobrar o seu preço mais alto. Mas conforme a madrugada avançava e o choro cessava, os olhos azuis de Kayla Drake se abriram na escuridão, brilhando com uma frieza renovada. Ela olhou para a silhueta de sua guitarra vermelha no canto do quarto.

​Ela havia nascido para o palco. Havia nascido para brilhar sob os holofotes do mundo inteiro, sem amarras, sem donos e sem prontuários para ditar o seu compasso. Logan Lâfrer queria silêncio, mas Kayla Drake estava prestes a fazer o mundo inteiro ouvir o seu barulho.