A Batida do Coração 3: O Acorde final

33 A Coletiva do Império e o Eco no Hospital



​A manhã de segunda-feira amanheceu com o mercado fonográfico e a mídia nacional em estado de absoluto choque. Em todas as bancas de jornais, portais de fofocas e canais de televisão, as manchetes estampavam o mesmo tom de incredulidade e triunfo. O segredo que Kayla Drake guardara a sete chaves nas últimas semanas havia sido exposto da forma mais monumental possível.

​"A REVOLUÇÃO DO ROCK: KAYLA DRAKE COMPRA A SOM LIVRE E ASSUME O CONTROLE MAJORITÁRIO DA GRAVADORA"

​"DE ARTISTA A DONA DO IMPÉRIO: COM 51% DAS AÇÕES, DRAKE DEMITE DIRETORIA E PROMETE NOVA ERA NA MÚSICA"

​Os Holofotes da Verdade

​No auditório principal do luxuoso hotel Copacabana Palace, centenas de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas se acotovelavam. Os flashes das câmeras criavam uma tempestade de luz branca contra o painel escuro onde o novo logotipo da Som Livre estava estampado.

​Kayla Drake cruzou o palco da coletiva com uma postura que exalava uma soberba e uma segurança inabaláveis. Ela usava um terninho de alfaiataria risca-de-giz cinza-escuro, os cabelos negros enormes em camadas perfeitamente alinhados e os impressionantes olhos azuis fixos na massa de repórteres. Suas botas de cano curto batiam no tablado com uma precisão matemática. O titânio em seu quadril garantia que ela estivesse ali, firme, ereta e sem demonstrar um único milímetro de cansaço ou dor.

​Ela parou atrás da bancada repleta de microfones nacionais e internacionais, esperou o silêncio se instalar e começou a falar. Sua voz saiu mansa, pausada, mas carregada de uma densidade cortante que silenciou o auditório.

​— Bom dia a todos — Kayla começou, o queixo erguido. — Eu convoquei esta coletiva porque a história da música brasileira precisa ser reescrita a partir de hoje. Durante os últimos dez anos, o mundo inteiro me viu nos palcos de arenas lotadas, achando que eu tinha o controle do meu ritmo. Mas a verdade que as cláusulas de confidencialidade escondiam é que eu estive no meio de tubarões. Eu fui feita de fantoche por executivos que viam o meu talento e o meu próprio corpo apenas como números em um relatório de lucros.

​Um murmúrio geral correu pela plateia de jornalistas. Os flashes se intensificaram.

​— Eles me sugaram até o limite físico, me isolaram da minha família e acharam que o contrato deles me prenderia para sempre — Kayla continuou, os olhos azuis faiscando com uma intensidade maníaca e vitoriosa. — Mas o jogo mudou. Eu comprei a Som Livre não apenas para ser a dona das minhas músicas, mas para garantir uma alforria coletiva. Sob a minha gestão majoritária, as regras mudaram. Ninguém mais... nenhum jovem artista, nenhuma promessa que assinar com esta gravadora, será feito de fantoche nas mãos dos tubarões da Som Livre. O compasso agora pertence a quem faz a arte, não a quem assina o cheque.

​Kayla Drake deu um sorriso de canto — aquela audáciaDrake pura e indestrutível —, afastou-se do microfone e, antes de dar as costas para a imprensa, ergueu a mão direita e mandou um sinal de positivo firme diretamente para a lente da câmera principal. Ela havia vencido. Havia engolido o império.

​O Diagnóstico na Sala de Descanço

​A milhares de quilômetros dali, mas na mesma sintonia de imagem, a transmissão ao vivo da coletiva preenchia a tela de uma pequena TV de tubo fixada na parede da sala de descanso dos médicos, no subsolo do Hospital Regional da Barra.

​Logan Lâfrer estava sentado em uma das cadeiras de plástico, vestindo o seu jaleco de linho impecável de Médico-Chefe. Suas mãos longas seguravam uma xícara de café preta. Ele mantinha os olhos escuros fixos na tela, observando o sorriso vitorioso da ex-namorada e a forma exata como ela se movia. Como cirurgião, ele não via apenas a bilionária; sua mente lia as cicatrizes invisíveis e a blindagem mecânica que o relatório de Tóquio havia detalhado.

​Doutora Mariana, a ortopedista que cuidara da reabilitação inicial de Kayla após o acidente de moto, estava encostada na bancada de inox, com os braços cruzados, dividindo a atenção entre a TV e a expressão impenetrável de Logan.

​Quando Kayla sumiu do vídeo e os comerciais tomaram a tela, Mariana soltou um suspiro profundo e olhou para o amigo de longa data.

​— Ela conseguiu, Logan... — Mariana comentou, a voz saindo em um tom mansa e reflexiva. — Ela comprou a própria gaiola e expulsou os donos. A Kayla virou a mulher mais poderosa da indústria. Mas olhando daqui, com os meus olhos de ortopedista... a estrutura daquela bota que ela usa está compensando uma rigidez pélvica absurda. O Doutor Sato fez um milagre mecânico em Tóquio, mas o preço biológico foi devastador.

​Logan deu um gole lento em seu café preta, a postura ereta e o semblante totalmente gélido, sem que um único feixe muscular de seu rosto demonstrasse fraqueza.

​— Ela fez a escolha dela, Mariana — Logan respondeu, a voz saindo absurdamente grave, pausada e fria. — A Kayla nasceu para seguir sozinha. O orgulho Drake não aceita um compasso que não seja o dela mesma. Ela preferiu o metal e o controle da Som Livre à realidade de uma vida humana.

​Mariana caminhou até a mesa, sentando-se na cadeira ao lado de Logan. Ela o conhecia o suficiente para ver além da blindagem do cargo de Diretor Clínico. Ela colocou a mão sobre o braço dele.

​— Eu conheço você, Lâfrer. E conheço o tamanho do estrago que aquela garota fez na sua vida — Mariana disse, a voz descendo para uma nota de doçura e alerta. — Você pode usar esse jaleco de chefe e ditar as regras do hospital inteiro, mas eu notei o jeito que você olhou para a tela. Ainda há amor aí, Logan. No fundo dessa sua fortaleza de prontuários, você ainda sente a batida dela.

​Logan parou a xícara no ar. Seus olhos escuros fixaram-se nos de Mariana com uma seriedade gélida, uma maturidade cortante que não dava margem para contestações.

​— O amor não mantém um coração batendo se o paciente escolhe desligar os aparelhos, Mariana — Logan sentenciou, as palavras saindo precisas como um corte de bisturi. — Eu posso até guardar a memória da garota que eu recolhi daquele asfalto e que iluminava a minha sala... mas aquela garota não existe mais. A mulher que estava naquela TV é feita de titânio e de ações da bolsa de valores. Eu sou um passado que não tem o menor interesse em voltar ao presente. Eu prefiro o silêncio da minha cobertura e a exatidão das minhas cirurgias. Eu sigo sozinho.

​Mariana observou o amigo colocar a xícara vazia na mesa e se levantar, ajeitando o jaleco com a imponência habitual do Médico-Chefe que o Rio de Janeiro respeitava. Ela balançou a cabeça sutilmente, em silêncio. Como médica, ela sabia que Logan estava sendo sincero em sua recusa de voltar; mas como mulher, ela conseguira ler que o amor deles não havia morrido por falta de sentimento, mas sim porque a guerreira de titânio e o doutor da ala de trauma haviam se transformado em duas linhas paralelas perfeitas, belas e definitivas, que nunca mais encontrariam o mesmo acorde para tocar juntos.