A Batida do Coração 3: O Acorde final

34 O Último Acorde sob o Céu de Copacabana



​A praia de Copacabana estava tomada por um mar de gente. Mais de um milhão de pessoas se espremiam nas areias claras, sob um céu noturno sem nuvens, para assistir ao show histórico de encerramento da turnê nacional de Kayla Drake. O palco monumental, erguido em frente ao hotel Copacabana Palace, brilhava com torres de luz que cortavam a escuridão do oceano. Kayla, agora dona de seu próprio destino e acionista majoritária da Som Livre, cantava com uma entrega visceral. Cada nota que saía de sua Gibson vermelha carregava um sentimento cru, como se ela estivesse rasgando a própria pele para o público.

​Perto do final do show, as luzes do palco diminuíram, tornando-se azuladas e mansas. Kayla aproximou-se do microfone. Os acordes que começaram a ecoar pelos imensos paredões de som eram diferentes de tudo o que ela já havia tocado; era uma balada melancólica, inédita e profundamente dolorosa. Ela cantava sobre o amor que havia perdido na beira daquela praia, sobre as amizades que destruíra em Nova York e sobre o fruto de um ventre que nunca mais poderia pulsar. Conforme a letra avançava, as lágrimas começaram a escorrer livremente por suas bochechas pálidas, brilhando sob os refletores.

​No meio da canção, a emoção pesou tanto que Kayla ergueu a mão esquerda, olhando em direção à mesa de som técnica.

​— Abaixa o som... — ela pediu, a voz saindo rouca e embargada. — Deixa só o instrumental de apoio. Por favor.

​O Discurso da Estrela Isolada

​O som da bateria e do baixo recuou, deixando apenas o dedilhar suave e solitário de uma guitarra acústica ao fundo. Kayla Drake ficou pensativa por alguns segundos, observando aquela multidão em silêncio. Ela respirou fundo, a postura perfeitamente ereta garantida pelas placas de titânio em seu quadril, mas seus impressionantes olhos azuis estavam completamente desarmados.

​— Muitas vezes, a gente passa a vida achando que o topo do mundo é o destino final — Kayla começou o seu discurso, a voz pausada ecoando por toda a extensão da praia de Copacabana. — Nós fazemos escolhas. Blindamos o nosso coração, batemos de frente com os limites do corpo e achamos que o orgulho nos torna indestrutíveis. Cada escolha que eu fiz... cada renúncia, cada estrada que peguei correndo atrás desse sucesso, me transformou exatamente na pessoa que eu sou hoje. Uma mulher bilionária. Dona de uma gravadora. Mas completamente sozinha. Sem o amor da minha vida. Sem os meus amigos de infância.

​A multidão assistia em um silêncio sepulcral, tocada pela vulnerabilidade da deusa do rock.

​— Eu carrego arrependimentos que o metal no meu corpo não consegue anestesiar — ela confessou, com um sorriso triste e as lágrimas molhando o microfone. — Mas eu sei que agora é tarde para reescrever o prontuário. A estrada cobrou o seu preço.

​Kayla fez uma pausa longa, fechou os olhos e puxou o ar com força. Quando os abriu, voltou a cantar os últimos versos da música com uma potência vocal que arrepiou a alma de cada pessoa na areia. Em seguida, ela cravou os dedos no braço da guitarra vermelha e iniciou um solo instrumental improvisado, choroso, onde cada corda parecia gritar a dor de sua solidão. No último acorde, com o som morrendo lentamente no ar da praia, ela sibilou a frase definitiva:

​— Nada acontece por acaso. A vida agora é solitária... mas um dia, eu fui alguém muito amada.

​As luzes do palco se apagaram abruptamente, mergulhando a estrutura na escuridão. Kayla deu as costas para o público e saiu de cena chorando copiosamente, com o corpo tremendo sob o peso daquela catarse.

​O Camarim dos Drake

​Ao cruzar a barreira dos bastidores e entrar em seu camarim de luxo, Kayla foi recebida pelo único porto seguro que lhe restara. Jace e Rebekah Drake estavam ali, com os olhos marejados pelo impacto do show, ladeados pelos avós Anya e Guga, que haviam viajado para apoiar a neta.

​Rebekah correu e envolveu a filha em um abraço caloroso, limpando as lágrimas do rosto de Kayla. — Parabéns, meu amor! Que entrega... Você foi gigante hoje. Você é a dona de tudo o que sempre quis conquistar.

​JaceDrake aproximou-se, colocando a mão forte no ombro da filha, dando-lhe aquele olhar rústico e orgulhoso de pai. — O mundo inteiro está gritando o seu nome lá fora, Kayla. Você engoliu essa indústria.

​Kayla Drake sentou-se na cadeira do camarim, o olhar completamente perdido no reflexo do espelho iluminado, a frieza do titânio em sua pelve contrastando com o peito dolorido.

​— Nem tudo, pai... — ela sussurrou, a voz saindo oca e cansada, enquanto apertava as próprias mãos. — Eu sou dona da música, mas perdi o compasso que me fazia real.

​O Silêncio da Lúcio Costa

​Enquanto isso, na cobertura escura da Avenida Lúcio Costa, o silêncio era absoluto. Logan Lâfrer estava deitado no sofá, com o braço sobre a testa. A tela de seu celular estava acesa, exibindo a transmissão ao vivo do show de Copacabana que um portal de notícias havia feito.

​Ele assistira a tudo. Vira o choro de Kayla, ouvira o discurso sobre a solidão e escutara a frase final que ela dedicara ao passado deles. Como Médico-Chefe e como o homem que um dia a amara com cada fibra de seu ser, Logan não sentia mais a raiva do egoísmo ou a crise de pânico que o atingira no shopping. O tempo e a maturidade haviam assentado a poeira de sua alma.

​Logan desligou a tela do celular, deixando o aparelho de lado, e olhou para o teto da sala, onde o som do mar de Copacabana chegava apenas como um sussurro distante através da varanda.

​— Acabou, Estrela... — Logan pronunciou baixinho na penumbra do quarto, a voz saindo mansa, pausada e preenchida por uma aceitação madura. — A nossa história finalmente encontrou o ponto final.

​Ele deu um suspiro profundo, sentindo que a ferida da juventude estava, de forma definitiva, selada. Kayla Drake continuaria sendo a deusa de titânio dos estádios mundiais, e ele continuaria sendo o doutor cirurgião que ditava as regras e salvava vidas nos plantões da Barra. Eles nunca mais voltariam, nunca mais dividiriam a mesma cama ou o sonho de um ventre preenchido; mas no livro de suas existências, o amor impetuoso que haviam vivido na juventude ficaria guardado como algo eterno, inabalável e inesquecível para todo o sempre.