A Batida do Coração 3: O Acorde final

16 As Linhas Paralelas e o Gelo da Barra



​Os meses seguintes à grande briga na cobertura da Lúcio Costa transformaram a rotina de Kayla Drake e Logan Lâfrer em duas órbitas completamente distintas, que teimavam em não se cruzar, mesmo dividindo o mesmo teto do condomínio de lofts na Barra da Tijuca. A distância que antes era um jogo de provocações agora havia se tornado uma barreira de concreto e orgulho.

​O Isolamento do Estúdio

​Dentro do estúdio principal da Som Livre, o tempo corria em uma frequência frenética. Kayla passava mais de dez horas por dia trancada na cabine de gravação acústica, cercada por microfones de alta sensibilidade e sob o olhar atento dos produtores musicais atrás do vidro espelhado.

​Ela usava fones de ouvido enormes e mantinha a guitarra vermelha acoplada ao peito. Seus impressionantes olhos azuis ficavam semicerrados toda vez que ela soltava a voz. Ela estava gravando as faixas autorais do seu primeiro álbum, e a intensidade de sua interpretação assustava os técnicos. Toda a raiva, a frustração e a dor do término com Logan eram canalizadas nos microfones.

​— Vamos mais uma vez do segundo refrão, Kayla — o produtor comandou pelo sistema de som da cabine. — A sua voz está excelente, mas preciso daquela mesma agressividade de antes.

​— Entendido — Kayla respondeu, a voz saindo firme. Ela limpou o suor da testa e atacou as cordas da guitarra, cantando sobre promessas vazias e homens que tentavam trancar pássaros em gaiolas de vidro. Ela estava decidida a ser a estrela que nascera para ser, custasse o que custasse.

​O Autômato do Hospital

​Do outro lado da cidade, a vida de Logan Lâfrer operava no limite do esgotamento físico. Ele aceitava cada plantão extra, cada cirurgia de emergência e cada escala de madrugada que a chefia do Hospital Regional oferecia. Seu jaleco branco parecia uma armadura de frieza indestrutível. Ele costurava, diagnosticava e salvava vidas como um autômato de precisão cirúrgica, mas sua mente, nos raros segundos de silêncio, ainda guardava o eco das palavras duras que ela dissera antes de bater a porta.

​— O senhor precisa descansar, Doutor Lâfrer — a enfermeira-chefe comentou, entregando-lhe um prontuário na recepção. — O senhor já está no segundo plantão seguido sem ir para casa.

​— Eu estou ótimo — Logan respondeu, a voz grave saindo mais rouca e pausada que o normal, o maxilar rígido. — Traga o próximo paciente da triagem. Não temos tempo a perder.

​O Encontro Gelado no Sexto Andar

​Apesar da correria, o inevitável aconteceu em uma tarde de quinta-feira. Logan conseguiu uma liberação de quatro horas e desceu até o apartamento dos pais, no sexto andar, apenas para pegar algumas camisas limpas e dar um abraço em Lisa.

​Ele abriu a porta social com seus passos firmes de sempre. O loft estava silencioso, mas o som de risadas limpas e descontraídas vindo do corredor dos quartos quebrou a calmaria. Logan reconheceu a risada na mesma fração de segundo: era a vibração limpa e audaciosa de Kayla Drake, misturada à empolgação de Candy.

​Logan travou os passos por um instante no hall de entrada, ajeitando a gola da jaqueta escura. Ele respirou fundo, absorvendo o perfume de sândalo que parecia lutar contra o cheiro de maresia do ambiente, e caminhou em direção ao corredor.

​A porta do quarto de Candy estava totalmente aberta. Kayla estava sentada de pernas cruzadas em cima da cama da amiga, usando um short jeans desfiado e uma regata preta simples, com os cabelos negros enormes caindo em ondas bagunçadas pelos ombros. Ela segurava um caderno de composições e ria de algo que Candy mostrava no celular.

​Quando a silhueta alta e imponente de Logan cortou o batente da porta, o riso de Kayla morreu instantaneamente. Seus olhos azuis focaram no rosto dele, capturando as olheiras profundas e a postura rígida de pedra. O clima no quarto despencou para abaixo de zero em um segundo.

​Logan parou na entrada, com as mãos nos bolsos da jaqueta, mantendo o corpo ligeiramente virado de lado, recusando-se de forma deliberada a olhar na direção da cama onde Kayla estava. Seus olhos escuros fixaram-se apenas em Candy.

​— Oi, Candy — Logan quebrou o silêncio, a voz saindo gélida, cortante e profissional, como se estivesse falando com um estranho no corredor do hospital. — Vim apenas buscar as minhas roupas que estavam na lavanderia. A mãe está em casa?

​Candy olhou de Logan para Kayla, sentindo a eletricidade estática absurda que se instalou entre os dois. Ela engoliu em seco, tentando quebrar o gelo. — Oi, Log. A mãe foi ao mercado com a Tia Rebekah. As suas camisas estão passadas em cima da poltrona do seu antigo quarto.

​— Obrigado — ele respondeu de forma seca, dando um meio passo para trás para sair do campo de visão delas.

​Kayla Drake continuou estática na cabeceira da cama. Seu orgulho Drake latiu alto no peito diante da indiferença cirúrgica dele. Ela fechou o caderno de composições com um estalo seco, chamando a atenção do ambiente, e ergueu o queixo, sustentando uma expressão de pura altivez.

​— O plantão deve estar muito tranquilo para o Doutor ter tempo de vir buscar roupas de lavanderia — Kayla disparou, a voz saindo ácida, precisa e provocativa, quebrando o protocolo de silêncio para testar a barreira dele.

​Logan parou o movimento de retirada no corredor. Ele travou os ombros, mas não girou o corpo completamente. Ele apenas virou o rosto de lado, mantendo o olhar fixo na parede oposta do quarto de Candy, sem dar a Kayla o privilégio de um único milímetro de contato visual.

​— O meu tempo é otimizado para o que realmente tem relevância clínica e profissional, Kayla — ele rebateu, a voz rouca destilando uma frieza que parecia um bisturi. — Eu não perco minutos com futilidades de camarim. Candy, avise à mãe que eu volto no próximo domingo.

​Antes que Kayla pudesse formular a próxima resposta cortante, Logan deu as costas e caminhou com passos firmes e pesados pelo corredor da sala, fechando a porta principal do apartamento com um estalo seco e definitivo.

​Candy soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo, jogando as costas contra o travesseiro. — Meu Deus, amiga... dava para cortar o ar daqui de dentro com uma tesoura de cirurgia. Vocês dois são duas pedras de gelo.

​Kayla Drake abriu o caderno de composições novamente, os dedos apertando a caneta com tanta força que os nós ficaram brancos. Seus impressionantes olhos azuis faiscaram de raiva e de uma saudade dolorosa que ela jamais admitiria em voz alta.

​— Ele quer brincar de silêncio, Candy? Então ele vai ter o silêncio dele — Kayla sibilou, a voz trêmula de orgulho. — A turnê mundial começa em dois meses. Até lá, o Doutor Lâfrer vai ter que aprender a conviver com o fato de que o meu barulho vai estar tocando em todas as rádios do país, quer o prontuário dele permita ou não.