A Batida do Coração 3: O Acorde final

17 O Asfalto e o Prontuário Oculto



​A tarde de terça-feira no Rio de Janeiro parecia seguir o fluxo de um compasso habitual, mas o destino já havia armado o seu próximo acorde dramático. Kayla Drake, que completara dezoito anos recentemente, havia usado parte do adiantamento do contrato com a Som Livre para realizar um desejo antigo: comprou uma motocicleta de alta cilindrada preta e tirou sua habilitação. Pilotar pela orla da Barra da Tijuca, sentindo o vento forte bater contra os cabelos negros enormes, era a única forma que ela encontrava de se sentir verdadeiramente livre da tensão sufocante que a separava de Logan.

​Naquela tarde, Kayla acelerou pela Avenida das Américas. O motor roncava alto sob o seu comando. De repente, em um cruzamento violento, um carro em alta velocidade cortou a preferencial. O impacto foi inevitável e brutal. A motocicleta foi atingida na lateral, e o corpo de Kayla foi arremessado a metros de distância, rolando pelo asfalto quente antes de ficar completamente estático.

​O Trauma na Ala Choque

​No Hospital Regional, o clima na emergência era de extrema correria. Logan Lâfrer estava de pé na central de enfermagem, assinando a liberação de uma alta, com a mente perdida em pensamentos. Ele olhava para o visor do celular, lutando contra o impulso de procurar notícias sobre os ensaios da turnê de Kayla.

​Wooo-wooo-wooo!

​A sirene alta e desesperada de uma ambulância avançada do SAMU cortou o pátio, e o alerta vermelho de trauma grave piscou no teto da ala de choque. Logan guardou o celular no bolso do jaleco, assumindo imediatamente a sua postura imponente e cirúrgica. Ele caminhou a passos largos em direção às portas duplas de vidro.

​A maca entrou às pressas, empurrada por dois paramédicos e pela médica socorrista da ambulância, que já vinha fazendo massagem cardíaca externa. O corpo na maca estava coberto por uma manta térmica, o rosto desfigurado por sangue e o pescoço estabilizado por um colar cervical rígido.

​— O que temos aqui, Doutora? — Logan perguntou com sua habitual frieza profissional, posicionando-se ao lado da maca enquanto corriam para a sala de estabilização.

​— Vítima de acidente moto versus auto, colisão lateral com projeção de aproximadamente seis metros — a médica do SAMU relatou rapidamente, a respiração curta pelo esforço. — Paciente jovem, sexo feminino, aproximadamente dezoito ou dezenove anos. Chegou a desmaiar no local, rebaixou o nível de consciência, escala de Glasgow em 7. Apresenta trauma cranioencefálico grave, fratura exposta de fêmur esquerdo e sinais nítidos de hemorragia interna progressiva no abdômen! Temos que intubar agora!

​Logan estendeu as mãos para ajudar a posicionar o corpo sob a luz cirúrgica central. No milésimo de segundo em que ele afastou a manta térmica e usou uma gaze para limpar o sangue que cobria a testa e os traços da paciente, seu sistema circulatório simplesmente congelou.

​A estrutura lógica do médico desmoronou por completo. Aqueles cabelos negros enormes, agora empastados de sangue, e as feições que ele conhecia melhor do que qualquer prontuário... era ela. Era a sua Kayla.

​— Kayla... — o nome escapou de seus lábios em um fio de voz desesperado, a máscara de frieza caindo por terra. As mãos longas e firmes de Logan começaram a tremer pela primeira vez em toda a sua carreira de hospital. — Não, não... Kayla, olha para mim! Reage!

​— Doutor Lâfrer? O senhor conhece a paciente? — a enfermeira perguntou, assustada com a reação inédita do médico.

​— Preparem o kit de intubação! — Logan berrou, a voz ecoando descontrolada pela sala de choque, os olhos escuros dilatados de puro pânico. Ele segurou o laringoscópio com uma força brutal. — Rápido! Expansão volêmica com duas bolsas de sangue O negativo agora! Eu vou conduzir o procedimento! Segura a cabeça dela!

​Com o coração batendo em uma frequência cardíaca ensurdecedora, Logan lutou contra as próprias lágrimas para guiar o tubo endotraqueal pelas vias aéreas de Kayla, conectando-a ao respirador mecânico que passou a ditar o sopro de vida artificial para ela.

​O Diagnóstico da Perda

​Após a estabilização hemodinâmica inicial, Logan exigiu prioridade absoluta na ala de imagens. Ele mesmo empurrou a maca de Kayla pelos corredores até a sala de diagnóstico por imagem, onde ela foi submetida a uma tomografia computadorizada de crânio e a uma ressonância magnética do abdômen completo para avaliar a extensão dos danos internos.

​Logan entrou na sala de controle, com as mãos apoiadas na mesa de vidro, os olhos fixos nos monitores que revelavam as imagens em fatias do corpo de Kayla. O radiologista de plantão começou a analisar os contrastes.

​— O traumatismo craniano teve uma contusão hemorrágica pequena, Logan, o edema está sob controle e não vai precisar de cirurgia neurológica imediata — o radiologista explicou, movendo o cursor do mouse para a região pélvica e abdominal. — Mas a hemorragia interna veio de um trauma severo na região uterina... Espera um pouco. Olha esse eco aqui.

​Logan inclinou o corpo para a frente, a respiração travada. Seus olhos médicos capturaram a imagem antes mesmo que o colega digitasse o laudo. Havia um saco gestacional perfeitamente formado no útero de Kayla. Um feto de aproximadamente seis a sete semanas.

​Ela estava grávida. Grávida dele. O fruto daquela madrugada intensa na cobertura da Lúcio Costa estava ali, oculto até aquele momento.

​— Logan... — o radiologista continuou, o tom de voz descendo para uma nota lamentável. — O descolamento da placenta pelo impacto do asfalto foi completo. Não há batimentos cardíacos fetais. O bebê... ele não resistiu ao trauma do acidente. Sinto muito, meu amigo. Precisamos levar ela para a curetagem de urgência para salvar a vida da mãe.

​O mundo de Logan Lâfrer implodiu naquele monitor de vidro. A dor de descobrir que seria pai no mesmo segundo em que recebia o diagnóstico da perda do filho foi como um solo de bateria quebrando todas as suas estruturas. Ele cambaleou para trás, apoiando as costas na parede da sala de exames, cobrindo o rosto com as mãos trêmulas. O preço daquela briga orgulhosa havia sido cobrado com o sangue de sua menina e do filho que eles nunca chegariam a conhecer.

​A Vigília das Famílias na UTI

​Duas horas depois, o procedimento cirúrgico de emergência havia terminado. Kayla fora transferida para um leito isolado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neurológica. O ambiente era imerso em um silêncio sepulcral, quebrado apenas pelo bipe compassado do monitor e pelo sopro rítmico do ventilador mecânico que mantinha o peito dela subindo e descendo de forma artificial. Ela usava uma fita adesiva para prender o tubo na boca, tinha um acesso venoso central no pescoço e a perna esquerda estava imobilizada.

​Logan estava sentado na cadeira ao lado do leito. Ele havia tirado o jaleco, vestindo apenas a camisa escura amassada, e segurava a mão pequena e fria de Kayla entre as suas, colando-a contra a própria testa enquanto lágrimas silenciosas escorriam por seu rosto exausto.

​Portas de correr da UTI se abrindo com pressa.

​O silêncio do corredor foi quebrado pela chegada desesperada do clã Laurentis Drake e dos Lâfrer. Jace Drake entrou na frente, com os olhos escuros cheios de desespero, acompanhado por Rebekah, que chorava copiosamente amparada por Letícia e Derick. Os avós Anya e Guga traziam expressões envelhecidas pela dor, enquanto Garret e Candy vinham logo atrás, com rostos pálidos de choque.

​— Minha filha... meu Deus, Jace, a nossa menininha! — Rebekah soltou um soluço doloroso, correndo até o outro lado da cama para acariciar os cabelos negros enormes de Kayla, evitando os fios elétricos dos monitores.

​Jace Drake caminhou até a beira do leito, a postura firme do baterista desmoronando diante do visor da filha entubada. Ele olhou para Logan, capturando o estado de devastação completa do jovem médico.

​— Como ela está, Logan? Fala comigo, por favor... qual é o quadro real da minha filha? — Jace pediu, a voz grave embargada, a mão forte apoiando-se no ombro de Logan.

​Logan ergueu o rosto devagar, revelando os olhos escuros vermelhos de choro e uma expressão de pura derrota. Ele olhou para Jace, depois para Rebekah e, finalmente, para os próprios pais e para Candy, que chorava baixinho abraçada a Garret.

​— A parte neurológica está estável, Tio Jace... o edema do cérebro não cresceu e o respirador está fazendo o trabalho por ela até o efeito dos sedativos passar — Logan começou a explicar, a voz saindo falha, rouca e pausada pela dor profunda. Ele engoliu em seco, sentindo o peso do segredo rasgar sua garganta. — Mas... o impacto do carro causou uma complicação interna severa. Eu preciso ser transparente com vocês.

​Rebekah ergueu os olhos marejados. — Que complicação, Logan? O que aconteceu com a minha filha na mesa de cirurgia?

​Logan olhou para o rosto sereno e pálido de Kayla no travesseiro, apertando os dedos dela com força.

​— Os exames de imagem e a ressonância revelaram que... a Kayla estava grávida de quase dois meses — Logan soltou a verdade na UTI, fazendo a sala inteira prender a respiração em um choque uníssono. Candy cobriu a boca com as duas mãos, as lágrimas transbordando, sabendo exatamente quem era o pai. Jace e Rebekah travaram no lugar, os olhos arregalados. — Mas pelo impacto violento contra o asfalto... houve um descolamento uterino completo. O bebê... o nosso bebê não resisteu, Tio Jace. Nós perdemos o filho que ela estava esperando. Eu fiz a cirurgia de extração para conter a hemorragia e garantir que ela sobrevivesse.

​O pranto de Rebekah ecoou pelas paredes de azulejo da UTI, sendo acolhida pelos braços de Letícia e Derick. Anya abraçou Guga, que limpou uma lágrima pesada do rosto rústico.

​Jace Drake fixou os olhos em Logan. O baterista experiente uniu as peças do quebra-cabeça na mesma hora: as confidências no sofá de Angra, as fugas no elevador e a dor que a filha carregara no estúdio durante a semana. Jace não sentiu raiva; ele viu no rosto daquele médico de vinte e seis anos o mesmo desespero de um homem que acabara de ter o seu próprio mundo destruído. Jace deu dois passos, contornou a cama e puxou Logan para um abraço forte, apertando o ombro do rapaz enquanto ambos dividiam a dor daquela perda trágica.

​— Salva ela, Logan... — Jace sussurrou contra o ouvido do médico, a voz trêmula de pai. — O bebê se foi... mas traz a nossa estrela de volta para o palco. Não deixa o ritmo dela parar.

​— Eu vou cuidar dela com a minha própria vida, Tio Jace — Logan prometeu, a voz saindo em um voto sagrado, os olhos escuros fixos no monitor que continuava a bipar o compasso da sobrevivência de Kayla.

​A turnê mundial e o orgulho haviam sido completamente apagados pelo destino. Ali, naquela sala de UTI na Barra da Tijuca, o único arranjo que importava para Logan Lâfrer era garantir que os olhos azuis de sua menina se abrissem novamente para o mundo, para que eles pudessem, juntos, curar a cicatriz daquele acorde interrompido.