A Batida do Coração 3: O Acorde final

35 A Rejeição do Metal e o Último Diagnóstico



​A turnê Coração Indomável foi desenhada para ser o maior espetáculo audiovisual do planeta. Durante dois anos consecutivos, Kayla Drake cruzou os continentes em um ritmo frenético, arrastando multidões por arenas e estádios na Europa, Ásia e Américas. Como acionista majoritária da Som Livre, ela ditava as suas próprias regras, mas o seu gênio Drake a impulsionava a ir sempre além do limite humano. Por fora, sob os refletores de última geração, ela parecia uma deusa mística: os cabelos negros enormes em camadas voando, os impressionantes olhos azuis fixos na massa e a Gibson vermelha solando com uma voltagem violenta. Por dentro, no entanto, a mecânica pélvica de Tóquio começava a cobrar a fatura final da biologia.

​O show de encerramento da turnê aconteceu em uma arena lotada em Los Angeles. Ao final da última música, com o suor frio escorrendo pelo pescoço e a respiração vinda em jatos curtos, Kayla caminhou até a beira do palco. Ela olhou para as oitenta mil pessoas que gritavam o seu nome, fechou os olhos e disse a frase que se tornara a sua marca registrada desde a noite de Copacabana:

​— Nada acontece por acaso. A vida agora é solitária... mas um dia, eu fui alguém muito amada.

​Assim que as luzes se apagaram abruptamente para o bis, Kayla Drake deu as costas para o público e, antes mesmo de alcançar os degraus dos bastidores, suas pernas travaram. O metal em seu quadril parou de responder e ela desabou desacordada no chão de madeira preta. O público, em êxtase na escuridão da arena, achou que era apenas o fim planejado do espetáculo.

​O Resgate nos Bastidores

​Diana Styles, a nova e competente empresária internacional que Kayla contratara após assumir o controle da gravadora, correu pelo corredor técnico ao ver a cena. Diana era uma mulher prática, elegante, mas o desespero tomou conta de seu rosto ao ver a maior estrela da música desfalecida.

​— CHAMEM A AMBULÂNCIA! AGORA! — Diana berrou para os seguranças, caindo de joelhos ao lado de Kayla e checando o pulso fraco da patroa. — Kayla, acorda! Por favor, fica comigo!

​O esquadrão de emergência agiu com rapidez médica e confidencial. Kayla foi colocada em uma maca e levada às pressas para o Cedars-Sinai Medical Center, uma das maiores e mais tecnológicas clínicas de Los Angeles, longe dos olhares da imprensa internacional.

​O Laudo de Los Angeles

​Na manhã seguinte, Kayla Drake acordou em uma suíte hospitalar de isolamento. O ambiente era silencioso, quebrado apenas pelo bipe compassado do monitor cardíaco. Ela vestia uma camisola branca do hospital e estava ligada a vários acessos de soro e morfina. Ela tentou se mexer, mas uma dor profunda, visceral e ardente emanava de sua cintura, algo que a prótese de titânio nunca deveria permitir.

​A porta do quarto abriu-se de forma mansa. O Doutor Richard Feffer, o renomado oncologista e cirurgião-chefe da clínica, entrou no quarto segurando uma pasta digital com exames de tomografia por emissão de pósitrons (PET-Scan). Ele era um homem de meia-idade, com um semblante sério, cansado e preenchido por uma gravidade que Kayla conhecia bem da época de Logan.

​Diana Styles estava em pé no canto do quarto, com os olhos vermelhos de tanto chorar.

​O Doutor Feffer aproximou-se do leito, olhou nos olhos azuis de Kayla e soltou um suspiro profundo.

​— Senhorita Drake... eu gostaria de ter notícias melhores para o fim da sua turnê — o Doutor Feffer começou, a voz saindo em um tom mansa, pausada e fria em inglês. — Nós refizemos toda a varredura da sua estrutura pélvica. A engenharia que fizeram no seu quadril no Japão foi perfeita para o movimento, mas o seu corpo desenvolveu uma reação imunológica tardia extremamente agressiva. O seu organismo começou a rejeitar as placas e os pinos de titânio.

​Kayla franziu o cenho, a voz saindo rouca. — Rejeição? Mas o metal é biocompatível, Doutor...

​— Em noventa e nove por cento dos casos, sim — Feffer explicou, com uma seriedade dolorosa. — Mas o atrito constante dos sensores de carbono e a sobrecarga que você impôs ao corpo durante dez anos de shows consecutivos geraram uma inflamação crônica severa nos tecidos profundos ao redor da prótese. Essa inflamação celular crônica sofreu uma mutação maligna. Senhorita Drake, isso ocasionou um sarcoma associado a implante. Um câncer de tecidos moles altamente agressivo.

​Kayla Drake permaneceu em silêncio. Ela olhou para a janela do quarto, que exibia as palmeiras de Los Angeles sob o sol da Califórnia.

​— E qual é o tamanho do estrago, Doutor? — ela perguntou, a voz descendo para uma nota de indiferença cortante, sem o pânico comum dos pacientes.

​O Doutor Feffer baixou os olhos para a tela do tablet. — Na verdade... a senhora já deu entrada aqui com um quadro de metástase avançada. As células tumorais migraram pela corrente linfática da bacia. Há focos secundários nos pulmões e na base da coluna lombar. A cirurgia para remoção não é mais viável porque o tumor está impregnado na estrutura de titânio.

​Diana Styles cobriu o rosto com as mãos, soltando um soluço abafado no canto da sala.

​O Sorriso Sem Vida

​Ao ouvir o diagnóstico final de sua biologia, Kayla Drake não chorou. Pelo contrário, um sorriso fraco, opaco e completamente sem vida desenhou-se em seus lábios pálidos. Era o sorriso de quem finalmente compreendia o desfecho do roteiro que ela mesma havia escrito.

​— Um câncer de metal... — Kayla sussurrou, a voz carregada de uma ironia trágica. Ela olhou para as próprias mãos magras sobre o lençol. — Que poético. Finalmente... as minhas escolhas estão acabando comigo, Doutor. O Logan me avisou no hospital do Rio... ele disse que se eu escolhesse o palco e o pó para calar o corpo, a conta chegaria. O Japão me deu o titânio, mas o preço foi o meu útero. E agora, o próprio metal está me engolindo por inteiro.

​O Doutor Feffer deu um passo à frente, ajustando a dosagem da medicação no painel digital.

​— O protocolo agora, Kayla, é o tratamento paliativo — o médico explicou, a voz cheia de uma compaixão profissional. — Nós não vamos submeter o seu corpo a quimioterapias agressivas que só causariam sofrimento desnecessário. O foco é o manejo da dor. Nós vamos usar bloqueadores neurológicos e analgesia contínua para garantir que você tenha conforto. A estimativa de tempo é curta.

​Diana aproximou-se da cama, segurando a mão fria da guitarrista. — Kayla, eu vou ligar para o Brasil. Vou avisar o Jace, a Rebekah... nós podemos fretar um jato médico hoje mesmo para você voltar para o Rio de Janeiro, para perto da sua família, do hospital do seu ex-namorado...

​— NÃO! — Kayla cortou a empresária com uma firmeza cortante, os olhos azuis faiscando por um último instante de orgulho Drake. Ela puxou a respiração com dificuldade. — Eu prefiro não voltar mais para o Brasil, Diana. Eu não quero que meu pai assista à ruína da Drake que ele criou. E não quero que o Logan entre no meu quarto de hospital para me dar um diagnóstico de misericórdia. Ele me disse que o prontuário dele comigo estava arquivado, e eu vou respeitar o silêncio dele.

​Ela apertou a mão de Diana, olhando fixamente para a empresária.

​— Eu vou morrer aqui, nos Estados Unidos — Kayla Drake determinou, a voz descendo para uma nota mansa, pausada e definitiva. — Eu nasci para a estrada, Diana. E é na estrada que a música da guerreira de titânio vai terminar de tocar. Organiza os papéis da Som Livre. Deixa os meus pais como herdeiros de tudo. Mas o meu corpo fica aqui.

​O Doutor Feffer assentiu em silêncio, respeitando a autonomia da paciente mais famosa que já cruzara aquela clínica. As luzes da suíte em Los Angeles foram diminuídas, deixando Kayla Drake sozinha com o som compassado do monitor e com a certeza de que a sua turnê indomável havia alcançado, de forma definitiva, a sua última e mais dolorosa estrofe.