A Batida do Coração 3: O Acorde final
36 A Luz de Los Angeles e o Jaleco do Passado
Os dias na suíte master do Cedars-Sinai Medical Center passavam em um ritmo arrastado, medido pelo gotejar contínuo da analgesia paliativa. Kayla Drake agora vivia reclusa naquela redoma de luxo na Califórnia. Para o mundo exterior, ela ainda era a intocável acionista majoritária da Som Livre; para si mesma, era uma estrutura em contagem regressiva.
Duas vezes por semana, ela ligava para o Itanhangá. Kayla sempre desviava a câmera do celular, usava filtros de imagem e forçava aquela velha voz audaciosa e despojada para falar com Jace e Rebekah. Ela inventava que estava estendendo as férias em Malibu, disfarçando a fraqueza crônica para poupar o coração dos pais. Quando as ligações terminavam, ela passava horas com o olhar totalmente perdido na imensa parede de vidro do quarto, observando o mar de luzes piscantes de Los Angeles misturar-se à escuridão da noite americana.
O notebook tornara-se o seu único elo com a realidade e o seu melhor amigo. Ali, Kayla gravava transmissões ao vivo e vídeos para o YouTube. Diana Styles trazia maquiadores de elite que cobriam com maestria a palidez de sua pele e as olheiras profundas. Vestindo roupas bonitas e segurando a Gibson vermelha estrategicamente sobre o colo para esconder os acessos venosos, ela sorria e cantava para milhões de internautas. Mas era uma farsa dolorosa. No segundo em que os minutos de live se encerravam e a tela do notebook ficava preta, a armadura caía. Kayla voltava a ficar completamente sozinha na penumbra, sentindo o peso do titânio e a queimação silenciosa da metástase em seu corpo.
A Visita Inesperada
Na tarde de uma sexta-feira de névoa, Kayla estava de pé junto à janela, apoiando o peso do corpo na moldura de alumínio. O silêncio do quarto foi quebrado pelo som suave da porta eletrônica se abrindo e por passos firmes de calçados médicos contra o piso emborrachado.
Pensando ser o Doutor Feffer com mais uma dose de morfina, Kayla não se virou imediatamente. Mas os passos pararam no meio do quarto, seguidos por um suspiro audível de puro choque.
— Meu Deus... Kayla? — a voz feminina, com um sotaque carioca límpido e familiar, ecoou pelo ambiente.
Kayla Drake girou o corpo devagar. Seus impressionantes olhos azuis focaram na mulher que usava o jaleco branco de visitante da ala internacional. Era a Doutora Marina.
Marina estava em Los Angeles fazendo um curso intensivo de especialização em trauma ortopédico no próprio Cedars-Sinai. Naquela manhã, ao revisar o banco de dados interno de patologias raras associadas a implantes pélvicos, ela havia esbarrado no nome civil de Kayla e na tarja vermelha de CONFIDENCIAL ao lado do registro. Sem hesitar, usando suas credenciais médicas, Marina subira até o andar de isolamento para ver a antiga amiga com os próprios olhos.
A médica estancou no lugar, com a pasta de anotações pressionada contra o peito. O choque em seu rosto foi brutal. A mulher de terno risca-de-giz que ela vira na TV do hospital do Rio de Janeiro semanas atrás havia sumido. Ali, sob a luz crua da janela, os cabelos negros enormes de Kayla estavam totalmente sem vida, opacos e desalinhados. A pele, antes dourada pelo sol da Barra, exibia uma brancura quase transparente, e seus olhos azuis estavam terrivelmente inchados e chorosos, carregando a densidade do fim.
O Desabafo na Penumbra
Kayla engoliu em seco, sentindo o peito subir e descer em um jato curto de ar. Ela deu um sorriso fraco, desprovido daquela velha soberba Drake.
— Oi, Marina... — Kayla pronunciou, a voz saindo rouca, arranhada pela secura da garganta. — O mundo é mesmo um palco pequeno, não é?
Marina deu três passos rápidos, jogando a pasta em uma poltrona, os olhos castanhos inundados de uma preocupação genuína. — Kayla... o que aconteceu com você? Que lugar é esse? Por que você está internada na ala oncológica com uma tarja de segredo de Estado?
Sentindo os joelhos vacilarem sob o peso da exaustão, Kayla caminhou devagar e sentou-se na beira da cama hospitalar, abraçando o próprio corpo para conter um calafrio. Marina aproximou-se, sentando-se ao lado dela e segurando suas mãos longas — que estavam assustadoramente frias.
— O metal me rejeitou, Marina — Kayla confessou, os olhos azuis fixos no chão, deixando as lágrimas guardadas há dias finalmente transbordarem. — O Doutor Feffer me deu o laudo definitivo na semana passada. Toda aquela engenharia de Tóquio... as placas de titânio que eu escolhi para conseguir ficar de pé e manter a Som Livre sob as minhas botas... causaram uma inflamação crônica severa. Eu desenvolvi um sarcoma agressivo nos tecidos profundos do quadril.
Marina travou a mandíbula, o conhecimento clínico fazendo seu coração de amiga acelerar pelo horror. — Um tumor associado ao implante...? Kayla, nós podemos tentar uma remoção em bloco, uma quimioterapia de resgate... O Logan e eu conhecemos os melhores cirurgiões do Galeão...
— Não tem mais resgate, Marina — Kayla a cortou, a voz descendo para uma nota mansa, gélida e pausada pela aceitação do diagnóstico. Ela olhou bem no fundo dos olhos da médica. — Eu já estou com metástase avançada. O câncer subiu pela bacia, pegou a base da minha coluna e os meus pulmões. O Feffer me colocou em tratamento paliativo. Eu só tenho mais alguns meses de manejo de dor antes da última cortina cair.
Marina levou as mãos à boca, soltando um soluço trêmulo na penumbra do quarto luxuoso. A imagem da jovem cheia de vida que pulava com a guitarra vermelha parecia agora uma lembrança distante de outra vida.
— Kayla... os seus pais precisam saber disso. O Jace e a Rebekah não merecem viver nessa mentira de Malibu — Marina argumentou, a voz chorosa, apertando os dedos da amiga. — E o Logan... meu Deus, Kayla, o Logan é o Diretor Clínico do Regional. Ele precisa saber o que o titânio fez com você.
— NÃO! — Kayla Drake reagiu com uma rigidez cortante, o orgulho Drake faiscando por um último e desesperado segundo na suíte de Los Angeles. Ela agarrou os braços de Marina com força. — Você não vai vazar isso, Marina. Promete pela sua ética, promete pela nossa amizade de infância que isso não vai sair deste quarto! Eu gastei a minha alforria para me livrar dos tubarões da gravadora, eu não vou virar pauta de necrotério na mídia brasileira.
Ela abaixou a cabeça, o choro sôfrego ecoando pelo quarto tecnológico.
— O meu pai me perdoou no Itanhangá, e isso me deu paz para seguir. Eu quero que eles lembrem de mim como a dona da porcaria do império, não como um pedaço de carne doente em uma cama americana — Kayla sussurrou, a voz quebrando por completo. — E quanto ao Logan... eu passei por ele no shopping e vi o estrago que o meu perfume fez no peito dele. Eu causei pânico na vida daquele homem por dez anos, Marina. Ele me disse que o prontuário dele comigo estava arquivado, e ele está certo. Ele merece o silêncio e a paz do hospital dele. Não conta nada para ele. Deixa o Logan seguir sozinho.
Marina observou a fragilidade da guerreira de titânio, sentindo o peso daquela promessa esmagar os seus ombros. Ela limpou as próprias lágrimas, puxou Kayla para o seu peito e a envolveu em um abraço protetor e mansa, deixando que a cantora chorasse tudo o que guardara diante da janela de Los Angeles. O destino de Kayla Drake estava traçado pelas suas próprias escolhas do passado; e ali, no topo da colina da Califórnia, o silêncio do segredo começava a fechar o último e mais solitário arranjo da estrela de metal.
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