A Batida do Coração 3: O Acorde final

32 A Mesa dos Tubarões e a Nova Dona do Ritmo



​A notícia de que Kayla Drake havia se desligado da Som Livre correu pelos bastidores da indústria fonográfica como um rastreio de pólvora. No entanto, o que Ricardo Vance e a antiga bancada de diretores não sabiam era que a liberdade de Kayla não significava aposentadoria. O gênio Drake, agora blindado pelo titânio em seu corpo e munido de uma fortuna bilionária acumulada em uma década de turnês mundiais, operava com uma estratégia silenciosa e letal.

​Durante três semanas, Kayla trancou-se no escritório de sua nova mansão no Itanhangá. Cercada por telas de alta resolução, advogados corporativos e auditores financeiros de elite, ela pesquisou minuciosamente a estrutura fiscal da gravadora. Ela descobriu as brechas, as dívidas ocultas em subsidiárias estrangeiras e, principalmente, a insatisfação dos fundos de investimento que sustentavam as ações da empresa no mercado financeiro internacional. Com lances cirúrgicos e o uso de empresas de fachada em paraísos fiscais, Kayla comprou secretamente cada bloco de ações disponível na bolsa de valores. Ela não queria apenas sair; ela queria o controle do império que havia tentado moldá-la como um produto.

​A Invasão da Cúpula

​Na manhã de quinta-feira, a sala de reuniões do último andar da sede da Som Livre, no Rio de Janeiro, estava tensa. Roberto Albuquerque, o homem que dez anos antes havia dado o ultimato a Kayla, presidia a mesa de vidro fumê. Ele parecia envelhecido, com o semblante desgastado pelas crises financeiras recentes da gravadora. Ricardo Vance estava ao seu lado, de braços cruzados, irritado com a convocação de emergência feita pelo conselho de administração.

​— Alguém pode me explicar quem é o investidor misterioso que comprou o bloco majoritário das nossas ações em Nova York? — Albuquerque bateu com o punho na mesa, possessor de raiva. — Nós estamos prestes a perder o controle do comitê diretivo!

​A imensa porta de correr de vidro jateado abriu-se com um estalo suave.

​O silêncio que se instalou na sala foi absoluto e sufocante. Kayla Drake cruzou o batente. Ela vestia um terno de alfaiataria sob medida em tom azul-escuro, os cabelos negros enormes em camadas perfeitamente alinhados e os impressionantes olhos azuis totalmente desprovidos de maquiagem pesada, exibindo uma clareza cortante. O som de seus saltos contra o piso de granito era exato, firme e simétrico — a mecânica perfeita de seu quadril de titânio exalava poder. Atrás dela, três advogados de terno cinza carregavam pastas de couro pretas.

​— O investidor misterioso sou eu, Albuquerque — Kayla anunciou, a voz saindo mansa, pausada, mas com uma densidade que fez o ar sumir do ambiente.

​Albuquerque levantou-se da cadeira em um reflexo puramente defensivo, as mãos trêmulas apoiando-se na mesa. — Kayla?! Você... você não tem mais contrato aqui! O que significa essa palhaçada? Segurança!

​— Sente-se, Roberto — o advogado-chefe de Kayla, um homem de cabelos brancos e postura severa, interveio, jogando um calhamaço de documentos registrados na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) sobre a mesa. — A Senhora Drake não precisa de contrato de artista. Pelas últimas transações consolidadas na data de hoje, ela detém cinquenta e um por cento das ações ordinárias da Som Livre. Ela é, oficialmente, a acionista majoritária e a nova dona desta gravadora.

​O Acerto de Contas

​Ricardo Vance empalideceu, afundando na cadeira, enquanto Roberto Albuquerque olhava para os papéis com os olhos arregalados, o suor frio escorrendo por seu pescoço. O jogo havia virado de forma brutal. A garota de dezoito anos que eles haviam encurralado contra a parede agora controlava o destino de suas carreiras.

​Kayla caminhou lentamente até a cabeceira da mesa, o lugar que historicamente pertencera a Albuquerque. Ela apoiou as duas mãos na mesa de vidro, inclinando o corpo para a frente, fixando os olhos azuis diretamente no homem que a colocara na rota da destruição.

​— Dez anos atrás, nesta mesma sala, você me deu um ultimato, Roberto — Kayla começou, a voz descendo para uma nota gélida e pausada que cortou o ar como um bisturi. — Você bateu na mesa e disse que se eu não fizesse o show do jeito de vocês, eu perderia tudo. Disse que eu ia enterrar a minha carreira antes do primeiro refrão. Você e o Ricardo me blindaram, me mandaram para o Japão e assistiram o meu corpo ser fatiado e reconstruído com metal só para garantir que os patrocinadores internacionais continuassem assinando os cheques.

​— Kayla... nós fizemos o que era necessário para o mercado! Foi um investimento na sua estrutura! — Albuquerque tentou argumentar, a voz saindo gaga, em um tom de desespero patético.

​— O mercado agora sou eu — Kayla Drake sibilou, o queixo erguido com uma soberba inabalável. Ela ergueu a mão e fez um gesto curto para o seu advogado. — Ricardo Vance, você está demitido por justa causa a partir deste segundo. A auditoria encontrou os desvios que você fez nas contas de apoio da turnê asiática. Os seguranças vão te acompanhar até a calçada, e se você pisar neste quarteirão de novo, sai daqui algemado.

​Vance levantou-se, vermelho de raiva, mas ao ver os dois seguranças particulares de Kayla entrarem na sala, ele recolheu seus pertences em silêncio e cruzou a porta, derrotado.

​Kayla voltou-se novamente para Albuquerque, que continuava paralisado na cadeira.

​— E quanto a você, Roberto... — ela continuou, a voz mansa retornando. — Eu não vou te demitir. Seria misericordioso demais. Eu vou te manter no cargo de diretor operacional subordinado, mas com o salário reduzido ao piso da categoria. Você vai assinar cada relatório, vai organizar cada cronograma de ensaio e vai olhar para a minha assinatura em cada folha de pagamento deste império. Você tentou me transformar em uma máquina, mas acabou criando a dona do seu prontuário. A reunião está encerrada. Comece a limpar a gaveta da sala principal, porque aquela mesa agora é minha.

​O Novo Acorde do Império

​Os diretores restantes na mesa abaixaram as cabeças em um sinal claro de submissão à nova liderança. Kayla Drake deu as costas e caminhou em direção à imensa parede de vidro da diretoria, que exibia a vista aérea da cidade do Rio de Janeiro.

​Seus advogados começaram a recolher os papéis para iniciar a reestruturação da empresa. A partir daquele dia, nenhuma jovem promessa do rock seria dopada em camarins, e nenhum artista seria obrigado a sacrificar a sua biologia ou o seu ventre pelo capricho de uma cláusula contratual corporativa. Kayla havia comprado o silêncio de seus inimigos e garantido a sua alforria definitiva de forma monumental.

​Ela olhou para o próprio reflexo no vidro escuro. Ela estava bilionária, dona da maior gravadora do país e no topo absoluto do poder. O titânio em seu quadril garantia que ela continuasse de pé, inabalável e sem dor. Ela havia vencido a Som Livre do jeito mais Drake possível: engolindo-os por inteiro. No entanto, enquanto os advogados organizavam a nova ata, Kayla Drake sabia que, mesmo controlando o império da música, o preço daquela vitória continuaria sendo o silêncio definitivo do outro lado da Barra da Tijuca, onde o seu doutor continuava ditando as regras de uma realidade que nenhuma quantidade de ações na bolsa de valores conseguiria comprar de volta.