Notas iniciais
Desculpem-me pela demora!

Batalha da Cidade

Capitulo 09

A sensação da vitória é maravilhosa. Nunca imaginei que fosse gostar tanto de batalhar com essas criaturas, mas quando venço, tenho a mesma sensação de quando estou esmurrando alguém. A vantagem é que ninguém pode repreender-me por isso. Se alguém me dissesse que Patrick Guerra seria aclamado por todos ao descer o sarrafo em alguém, eu diria que a pessoa estava enxergando-me em algum reformatório.

Lembro como se fosse ontem. Antes do ensino médio, nunca fui de brigas, mas um dia o idiota de um professor pegou minha prova e me acusou de colar. Disse que não estava colando e ele me revistou. Reclamei que não fez aquilo com os outros e a ideia agradou-o, revistou toda a sala. O resultado foi uma surra de quebrar ossos após a saída, de quase toda a turma. Até as meninas bateram-me.

Passei duas semanas no hospital e três em casa. Troquei de escola e meu pai me mandou descer a porrada no primeiro que mexesse comigo. Ele era um cara simples e duro. Não aceitava o que fizeram comigo, mas também não podia brigar com toda minha sala de crianças. Eu nunca fui uma pessoa obediente, então não obedeci ao meu pai. Mas, fazia o que ele pedia. Corria e exercitava-me para deixá-lo feliz. Ele morreu quando eu estava no ensino médio. Um dia depois do velório, um professor substituto apareceu para aplicar uma prova, já marcada. O titular havia me liberado da prova, mas o substituto não acreditou.

Eu ainda era submisso aos outros, mesmo no início do ensino médio. Abri a bolsa para pegar um lápis, o substituto caminhou pela sala gritando em minha direção para que eu parasse de tentar pegar cola na bolsa e que iria me revistar antes de começar a prova. Curioso como o mundo é pequeno. O professor do fundamental que provocou a minha surra agora estava na minha frente me obrigando a fazer uma prova da qual eu estava liberado. Acho que se ele tivesse ficado sentado, quieto na mesa do professor, eu jamais teria o reconhecido.

Como ele ousava fazer aquilo comigo de novo? Como ousava tripudiar durante minha dor? De repente eu vi meu pai ali, ao meu lado, dizendo que se eu tivesse feito algo naquele dia, contra aquele professor, hoje ele não estaria ali fazendo aquilo de novo. Olhava meu pai e a turma que possuía agora alunos com o dobro do meu tamanho. Certamente eu iria morrer se eles me surrassem.

O professor se aproximou e eu o empurrei ainda sentado. Ele caiu no chão, pois sequer esperava que alguém fizesse isso a ele em uma sala de aula. “Revistar? Revista a mochila!” Dei umas duas ‘mochiladas’ nele com a sala rindo da situação. “Reviste a cadeira, talvez eu tenha escrito algo nela.” Joguei minha cadeira contra ele. A sala parou de rir percebendo que era sério. Montei em cima dele dando socos mandando revistar meus punhos para ver se tinha algo escrito neles. O sangue dele se espalhou assim como os alunos assustados que saíam da sala.

Era a primeira vez que eu realmente batia em alguém e era engraçado que eu me sentia muito bem. Ver aquele sangue surgindo e a pessoa implorando para parar, sem ao menos conseguir mostrar metade do ímpeto prepotente e ameaçador que mostrava antes. Era o êxtase.

Não baixar a cabeça para ninguém e descer a porrada no primeiro que fizesse algo que eu não gostasse. Eu me sinto bem fazendo isso, em especial porque se eu não gosto de algo, eu resolvo e pronto. Para que aceitar as coisas como elas são, se eu não concordo com essas coisas?

Acabei transferido para o Colégio Estadual, após uma psicóloga da prefeitura alegar que eu estava sobre estresse pós-morte, me salvando de uma expulsão ou coisa pior. A notícia sobre eu ter espancado um professor chegou primeiro que minha pessoa ao colégio. Já cheguei sendo recepcionado pelos valentões que queriam mostrar quem mandava.

Apanhei e bati por duas horas. Ao final, os caras resolveram que era melhor me fazer um deles. Confesso que foi estranho, acabou que a surra serviu de iniciação ao bando. O grupo já era temido e comigo ficou ainda mais. A percepção deles foi que era melhor colocar-me no grupo para que eu não fosse alguém a abalar a estrutura de poder deles. O problema é que o restante da escola viu aquilo como fraqueza deles e aos poucos eu me tornei o líder da escola tirando-os de cena. O prazer de bater nos outros era o melhor e nada se comparava. Ninguém me desafiava, ninguém me vencia. Até mesmo os professores me temiam.

No entanto, um dia eu ia bater, por acaso, em um treinador júnior da escola. O que eu podia fazer? O cara simplesmente estava colando e quando o professor se aproximou jogou a cola na minha cadeira. O professor me acusou de colar e eu virei para o aluno que se borrou todo, em meio ao choro, ao perceber que iria apanhar. Ele admitiu a culpa, mas isso não o salvava de apanhar. Bateria nele no dia seguinte, ele fedia demais para apanhar naquele dia.

No entanto, a polícia apareceu. Acho que ele temeu morrer na surra e avisou à polícia que poderia apanhar. Ganhei o privilégio de conversar com o delegado. “Quando se formar na escola, não passará de um homem que bate nas pessoas. O colégio se lembrará de você como o brigão, assim como seus amigos. Mas, e daí? Terá deixado um legado de terror. Infelizmente esse legado nunca beneficiará a ninguém e a partir de agora, você tem uma mancha em sua ficha e seu próximo ato o faz ser preso. Mas, faço um acordo, faça algo de bom por sua escola a ponto de o jovem a quem você fez se cagar de medo no meio da sala, retire as acusações.”

Minha mãe chorou por uma semana com a notícia. Ela sabia que eu jamais ficaria longe de uma briga. Ao contrário de meu pai, ela dizia que força nunca supera a inteligência. Eu seguia aquela ideia dela até meu pai morrer. Mas, a sorte nunca sorriu para mim nesse meio tempo. Hoje ela ainda não sorri, mas eu faço a minha sorte acontecer com os punhos. Mas, mesmo não seguindo a filosofia dela, eu a respeito e escutei-a indo conversar com o cagão.

Ele estava para mudar de cidade. A vergonha era grande e o medo que eu o fizesse mal era enorme, pensei. Mas, ele disse que iria mudar de cidade para tentar melhorar como treinador júnior. Eu xinguei e gritei mais do que me lembro. Ele iria sair da cidade e deixar minha ficha suja e eu não podia fazer nada para mudar aquilo. Meus punhos não podiam mudar nada. Ele era um treinador horrível pelo que eu escutava. Meus punhos não podiam transformá-lo em um treinador decente.

“Só ficaria aqui se o colégio ganhasse a Batalha da Cidade. Eu teria um treinador experiente me ensinando durante um ano.” Sonho de idiota. Mas, fiz um acordo, o Colégio Estadual ganharia a competição entre as escolas na Batalha da Cidade no ano seguinte. Ele iria reprovar devido à cola. Iria refazer o segundo ano enquanto eu iria para o terceiro. Quando ele estivesse no terceiro ano, ele teria seu professor de batalhas. Se eu conseguisse isso, ele tiraria as acusações.

Acordo idiota! Eu não sabia nada de pokemon e não sou o que se chama de estudioso. Resolvo as coisas no braço. Demorei duas semanas assistindo e lendo sobre essas batalhas e essa competição até perceber que vence o que fizer mais pontos e não o melhor. Para fazer mais pontos não precisa ser o melhor ou o mais inteligente, basta ser o mais forte. No caso das escolas, basta ter mais alunos do que as outras escolas, pois assim temos mais chances de conquistar pontos que os outros.

Tratar a Batalha da Cidade como uma guerra. Uma boa estratégia e homens. Habilidades levam vantagem, mas não contra um exército mais numeroso. A força venceria a inteligência!

Chamei a todos do colégio. Expliquei o que faríamos. Ameacei a maioria para que aceitassem, enquanto os outros pareciam ter escondido por anos a vontade serem treinadores. Lavamos carros. Fizemos festas. Vendemos balas, bolos e churrasquinho, assim como muito material reciclável. Cortamos grama. Passeamos com alguns cães e corremos de outros que nos odiavam. Fizemos rifas e bingos. Pedimos de porta em porta. Qualquer coisa que nos fornecesse alguns trocados para as inscrições da Batalha da Cidade, nós fizemos.

Recebemos o apoio dos professores que abraçaram a causa, inicialmente por medo, depois por ver que todos estavam empenhados e que aquilo significava manter os encrenqueiros focados em algo que não fosse bater no corpo discente e docente. O colégio estava unido. No final, conseguimos dinheiro para registrar o maior número de treinadores juniores que o Colégio Estadual já teve e começamos a treinar e perseguir os adversários.

Força bruta. Trabalho bruto. Era na raça, sem dom, qualidade ou habilidade alguma para a arte das batalhas. Só não esperava que eu tivesse a mesma sensação maravilhosa nas batalhas. Dando porrada eu me sinto bem, mas batalhando me sinto ainda melhor.

A sensação de vitória é maravilhosa. Vencer três ao mesmo tempo, sendo eles, supostamente, melhores do que eu, é ainda muito mais gostoso. Mas, vê-los com essas caras de decepcionados porque achavam que eu iria dizer algo sobre a irmã de um deles. Definitivamente, as pessoas não sabem quem eu sou.

—Eu não faço ideia do que vocês estão falando. Eu nem sabia que esse cara tinha uma irmã! Não podem me acusar de algo que eu não fiz.

Todos me olhavam desconfiados, não tinha nada a ver com aquilo. Ninguém sabia que o delegado iria me fichar se eu fizesse merda de novo, então era normal acharem que eu estava fazendo alguma loucura.

— Sequestro não faz parte do meu repertório, Tainá. — Falei para a baixinha irritada que parecia ter comandado todo aquele grupo maluco. Ela virou-se para mim olhando irritada.

— Cale a boca! Você não passa de um marginal! — Ela tinha uma língua afiada, eu não poderia negar.

— Graças a vocês eu não encontrei o primeiro colocado. — Bufei. — O Colégio Estadual será campeão, esse era meu objetivo. Mas, eu realmente queria enfrentar alguém que valesse a pena. — Preparei-me para sair, junto aos meus camaradas. — A sorte nunca sorri para pessoas como eu, de qualquer forma. -

— Rafael, aquela é a sua irmã?

O dia estava amanhecendo e reparei duas silhuetas caminhando em nossa direção. Uma das silhuetas era de um homem alto acompanhado de uma garotinha. Eles foram se aproximando e reparei que a garota tinha uma pele morena, cabelos longos cacheados e castanhos, mas o que mais me chamou atenção foram os olhos. A mesma cor e formato dos olhos de Rafael.

Olhei para o segundo colocado que olhava assustado. Ele saiu correndo em direção à garotinha abraçando-a com expressão aliviada. Falava coisas desconexas, que devido à distância eu não entendia. Fiz sinal para os meus camaradas ficarem onde estavam que eu iria conferir aquilo.

Meu grupo começava a se animar, sabiam que eu não era de deixar uma acusação daquelas barato e que certamente ia surrá-los. Mas, a verdade é que eu estava interessado no homem que havia chegado com a garotinha. Cheguei a tempo de ver Rafael se refazer e falar com o homem.

— Obrigado! Obrigado, Rogério! -

Rafael falava ao homem apertando a mão dele enquanto ele sorria sem graça. Mãos grandes, um rosto sisudo e músculos que passavam dos meus. O homem era um armário, mas não deixei de notar que ele tinha pokebolas no cinto. Ele chamara-me a atenção devido ao tamanho dele, mas agora estou curioso. Quem é esse cara?

— Rafael, diga-me que não me fez correr pela cidade de salto à toa ou eu te mato! — A patricinha ficou irritada com a situação. Realmente estava claro que o tal Rogério era conhecido de Rafael e que de alguma forma ele não estava preocupado em saber o que havia acontecido.

— Bem... — Rafael respirou. — Rogério Silva. — Ele apontou para o homem apresentando-o. — É meu vizinho. Pelo visto ele ficou com minha irmã todo esse tempo para protegê-la dos capangas do Patrick. -

O dedo de Rafael apontava para mim. O grupo me olhou rapidamente com desaprovação nos olhos, mas o olhar do Rogério era fuzilante. Ele deu uns passos em minha direção, analisando-me. Ele realmente não sabia quem eu era. Ele poderia ser grande, mas cairia com os meus punhos se quisesse.

— Rafael estava no mesmo ônibus que eu. — Disse Rogério me encarando — Mas, ele desceu correndo atrás do Marlon, o bicampeão da cidade, e nem percebeu que eu estava nele. — Ele meneou com a cabeça. Enquanto Rafael se lembrava da pessoa que havia segurado o ônibus para que ele pudesse fugir dos alunos do Estadual. Ele achou ter sido Marlon, mas agora percebia que ignorou completamente seu vizinho. — Eu também não me notaria ou me reconheceria todo sujo de cimento da obra em que trabalho. Sabia que ele não chegaria a tempo de buscar a irmã, já que os alunos do Colégio Estadual iriam persegui-lo novamente. Então passei no colégio e peguei a menina para ela não se envolver nisso e fomos para casa esperar Rafael voltar, mas ele não voltou. Resolvemos procurá-lo por aqui antes de seguir para a praça da cidade. -

— Meu irmão não iria perder a cerimônia de premiação da Batalha da Cidade — A garotinha falou enquanto os amigos de Rafael pareciam brigar com ele por não ter ido em casa primeiro antes de sair correndo pela cidade. Mas, acho que meus camaradas fingiram estar com a irmã dele para atraí-lo até aqui, seria a única explicação para acharem que eu estava com ela. No entanto, Rogério ficou me encarando como se eu tivesse feito algo para ele ou ele estivesse esperando por algo que viria de minha parte.

— O que foi? — Gritei para ele. — Não sabe quem eu sou? -

— Eu que te pergunto. Você colocou a cidade de cabeça para baixo para me achar. — Perplexo, desviei o olhar rapidamente para o grupo de Rafael que também parecia chocado. Olhei para o meu grupo que também não acreditava no que estava acontecendo. Faltando poucas horas para terminar a competição

— Você é o… — Parei de falar, sem acreditar realmente naquilo. Mas, o vi movimentar-se pegando uma pokebola da cintura, com a mão direita, e erguê-la em minha direção. Era um desafio. Ele pegou a pokeagenda, abrindo-a e exibindo seu nome e sua classificação no ranking.

— Sou quem você procurava. — Ele não sorriu. — O atual primeiro colocado da Batalha da Cidade, Rogério Silva. — Ele encarou-me mais intensamente. — E o desafio.

Notas finais
Caminhamos para um finalizar de história!