A Assassina e o Agente.
20 Esquecer.
Notas iniciais
OLIVER.
Eu quero testá-la e ver até onde vai essa marra dela, ver até onde ela consegue resistir. Ela pode ter falado tudo aquilo na sala secreta, mas suas palavras não foram condizentes com o que os seus olhos diziam.
Felicity tenta esconder o que sente, e muitos podem acreditar que ela é apenas uma pessoa fria, calculista e amarga, mas eu conheço a verdadeira Felicity, e sei que aquela que todos veem é apenas um disfarce. A Felicity verdadeira é frágil e delicada, capa de ter sentimentos, eu sei disso.
Algo ruim deve ter acontecido a ela no passado, seu olhar sempre está indiferente e longe. Tem algo que a assombra e a deixa com medo, algo muito maior do que ela, que prende suas mãos e a desafia, e no fim ela não pode fazer nada para mudar. Eu não sei o que é, mas talvez, esse tempo que vamos trabalhar juntos me ajude a descobrir.
— Não vai ser fácil, Oliver. — murmura John, parando ao meu lado com os braços cruzados.
— É só invadir um presidio. — rebato.
— Não estou falando disso. — arqueio minhas sobrancelhas. John sorri. — Estou falando da loirinha. É ela não é? — Eu suspiro.
— Está tão na cara assim?
— Pela forma que você saiu da sala secreta, ela deve ter lhe falado algo definitivo que te deixou sem reação. E também tem a forma que você olha para ela. E, além disso, ela é uma assassina de Damien. Deduzi que ela é a garota que está perturbando seu sono.
— Como sabe que estávamos na sala secreta?
— Eu sou um agente, Oliver. Aprendi a ser bom observador. Só não estrague a missão, te conheço e sei que age de forma inconsequente.
— Tudo bem. Não vou proteger só a mim. — digo, e procuro por Felicity.
— Está mesmo caidinho por ela. — debocha.
— Costumo proteger todos os meus parceiros, não é assim com você? — retruco.
— Consegue ficar ainda mais chato quando está apaixonado. — reviro os olhos e dou de ombros. — Vá para casa e descanse, amanhã viajará cedo e precisa estar inteiro.
— Tudo bem. — Dig se retira. Arrumo minhas coisas e saio da base. Felicity nem percebe e eu também não quero mais importuna-la por hoje.
(...)
O dia seguinte chegou rápido, eu acabei dormindo muito pouco, pensar em Felicity está se tornando a merda de um hábito. E eu não gosto de pensar que estou tendo sentimentos por ela, isso nunca aconteceu comigo antes. E poderia ser com uma mulher normal e não uma assassina, ou uma pessoa menos complicada de entender.
Agora entendo o significado de simplesmente acontece. E odeio. Minha vida poderia ser menos complicada. Parece que estou em uma corda bamba, tenho que prender Ra's Al Ghul e agora a cia se aliou a um assassino, que também quer pegar Ra's. E o pior, tenho sentimentos pela filha de Damien Darhk outro assassino. Não estou exagerando.
Arrumei-me e fui direto para a base, sem tempo para me alongar e correr como faço todos os dias.
[...]
Quando cheguei na base encontrei apenas Trent e James. Os dois não estavam presentes ontem, então não devem saber da viagem e de todo o resto. Passo pelos dois e sigo para a sala secreta. Jogo minha mala sobre a mesa e abro o compartimento onde ficam guardadas as armas, escolho uma PT92 cromada com silenciador, uma das minhas preferidas. Guardo dentro da bolsa junto com 2 facas de combate ka-bar.
— Precisamos conversar. — sua voz enche meus ouvidos e imediatamente eu olho para ela. Meu coração acelera e a única vontade que tenho é beija-la. — Não podemos ficar de provocações se vamos fazer isso. Vamos esquecer o que aconteceu no seu apartamento. Vamos começar do início.
— Não! — exclamo. — Para você é fácil esquecer tudo que aconteceu entre nós? — ela fica em silêncio e eu insisto. — Você esqueceu Felicity em algum momento? À noite em Las Vegas, a noite no meu apartamento? Tudo isso foi apagado da sua memoria?
— Não. — murmura. — Mas devemos fingir que não aconteceu.
— Eu não vou fingir nada. — dou alguns passos e paro na sua frente. — Se você quer fazer isso, boa sorte. — pego minha mala e passo por ela.
— Oliver. — sussurra. — O que você quer de mim?
— Ainda não está claro? — continuo de costas para ela, esperando sua resposta.
— Não. — deixo a bolsa cair da minha mão e viro-me, ando ate ela e seguro seu rosto, fito seus olhos.
— Eu quero você. — digo e a beijo. Ela não luta, não me afasta, apenas retribui o beijo com a mesma urgência. Puxa meus cabelos e sua outra mão agarra meu pescoço.
Esse beijo é diferente dos outros, é mais intenso, urgente e voraz. É como se nós precisássemos dele, assim com o ar. Suas mãos descem até meu abdômen e me empurram. Ela afasta a boca da minha, poucos segundos se passam e sinto um leve roçar nos meus lábios, então meu corpo sente a falta dela. Abro meus olhos e Felicity está de costas para mim.
— Odeio você Oliver. — vira-se e fica me encarando. — Na verdade eu queria conseguir odiar você. Mas o que sinto é diferente.
— Está se declarando?
— Não. — diz. — Não quero sentir nada mais do que uma atração.
— É isso que você sente... uma atração?
— Sim.
— Acho que é o que sinto por você também. — digo.
— Podemos começar do início, e sermos apenas aliados.
— Se é isso que você quer. — dou de ombros. — Tudo bem. — pego minha mala e saio.
Ela acha mesmo que eu vou desistir. Talvez seja mesmo apenas atração, mas agora mais do que nunca eu quero descobrir o que é.
(...)
— A última vez que lhe vi pensativo como agora, você estava pensando em uma maneira de invadir a casa de um magnata, cercada com mais de 200 capangas. — diz Dig, sentando ao meu lado. — Não está pensando nisso agora, né?
— Não nesse contexto. — argumento. — Estou pensando em como acabar com certa proteção. Mas não são capangas.
— Está olhando para ela, chega ser patético, Oliver.
— Eu odeio isso, John. Odeio a forma como me sinto, odeio ter que olha-la, conviver com ela sem poder toca-la. Felicity consegue despertar um milhão de sentimentos em mim e eu nem sei como explicar isso. Queria conseguir arranca-la dos meus pensamentos, mas eu não consigo.
— É meu amigo, você está bem ferrado. — Diggle aperta meu ombro. — Mas olhe pelo lado bom, tem essa viagem, pode colocar as coisas em pratos limpos. Dizer como se sente.
— Não vou fazer isso. Quero saber até onde ela vai. Até quando vai resistir.
— Mudanças de plano. — Waller adentra a base de supetão. — John, você vai junto. Tem meia hora para se organizar. O jatinho está esperando já.
— Odeio Amanda Waller. — resmunga.
FELICITY.
Sou vulnerável a ele, perco todas as minhas defesas. Meu controle quando Oliver está por perto se esgota. Ele consegue me deixar fraca e indefesa. Não posso lutar contra ele quando meu coração fala o contrário da minha razão.
Meu desejo por Oliver só aumenta, e agora com ele por perto e com essa viagem eu não sei se consigo me manter afastada dele. Sinto-me totalmente desprotegida.
Eu não ia perguntar aquilo, mas depois de tudo que ele disse sobre não esquecer tudo que aconteceu em Las Vegas e na noite no apartamento dele, eu não consegui me controlar, e a resposta dele mexeu comigo de forma descomunal. Eu não lutei quando o senti tão perto e muito menos quando me beijou, eu queria aquilo. Como eu queria, e quero novamente.
Eu não posso me envolver com ele desse jeito, nossos mundos são tão diferentes. Eu corro riscos todos os dias, e ele também. Não quero me envolver e acabar o perdendo. Nem posso fingir que sou a pessoa certa para ele. Oliver merece alguém que esteja inteira para ele, que seja capaz de ter sentimentos reais. Não uma pessoa como Felicity, que é uma assassina.
— Falou com ele? — pergunta Sara.
— Sim. — suspiro. — E aconteceu de novo, perdi todas as minhas defesas.
— Está na hora de viver algo real, Felicity. Pare de achar que não é capaz de sentir ou de fazer alguém feliz. O que aconteceu com Donna lhe deixou cicatrizes, mas está na hora de esquecê-las e viver a sua história. Perdi meus pais e minha irmã em um acidente de carro, eu fui à única sobrevivente. Passei por vários abrigos, até Ra's Al Ghul me encontrar e colocar uma liga inteira para me treinar. Antes de conhecer Nyssa pensei que seria incapaz de amar novamente, mas estava enganada.
— Por que nunca me falou isso?
— Porque eu esqueci, foi melhor assim. Estou vivendo minha vida ao lado de quem amo, as cicatrizes ainda existem, mas não têm o mesmo efeito de antes. Pense nisso. — ela se afasta. Procuro por Oliver e ele está conversando com o Diggle.
— Mudanças de plano. — Waller entra de rompante na base. Não consigo gostar dessa mulher e acho que poucos gostam dela. Ou ninguém. — John, você irá junto, tem meia hora para se organizar, o jatinho já aguarda vocês.
Ótimo, talvez ele coloque juízo na cabeça do Oliver.
(...)
Eu adoro o clima frio de Moscou, mas ele é péssimo caso você tenha que se infiltrar uma prisão feminina de segurança máxima. Esse era o plano, eu entro e saio com Tália. Tenho 10 minutos para atravessar toda a cadeia, que é o tempo que Diggle e Oliver vão levar para explodir a entrada.
Oliver não quer que eu faça isso, não consigo entender o porquê, ele já bateu o pé com Diggle e ligou para Amanda, mas nada adiantou. E eu já disse para ele que para o plano dar certo temos que cooperar, ele ficou calado. Mas a cada cinco minutos ele pergunta se eu quero mesmo fazer isso.
— Isso é seu. — entregou-me a bolsa abarrotada de drogas. — Deve usar isso também. — seu humor não era dos melhores, estava visível. — Tome cuidado.
— Por que está agindo dessa forma? — resmunguei, enquanto vestia o sobretudo com o explosivo.
— Por quê? — arqueou as sobrancelhas. — Porque eu me..
— Está na hora. — Diggle entrou de supetão no quarto, fazendo Oliver recuar. — Está tudo bem?
— Sim. — respondeu Oliver.
— Um guarda vai ajudar você, Felicity. Mas vai precisar estar na solitária. — assinto. — O general do exercito russo devia um favor a Waller e acabou de pagar, nos disponibilizando um blindado. Você sabe o que fazer, não é?
— Sim. — respondo.
— Boa sorte. — diz. Pego a bolsa com drogas e me dirijo para fora do quarto do hotel onde estamos hospedados. Aperto o botão do elevador e as portas se abrem.
— Felicity. — giro e encontro Oliver com uma expressão aflita. — Por favor, tome cuidado.
— Você está parecendo meu pai.
— Mas eu não sou o seu pai. — dá um passo a frente. — Só me prometa que vai tomar cuidado.
— Eu prometo. — murmuro.
— Tudo bem, nos vemos mais tarde. — assinto e entro no elevador, as portas se fecham. Eu prometi, mas Oliver continuou aflito. Ele se preocupa comigo de verdade, está ficando cada vez mais difícil enganar a mim mesma que ele não mexe comigo.
(...)
Eu sempre quis aprender Russo, mas não tive a oportunidade. E agora estou em um local onde não entendo nada do que falam. O plano estava dando certo, meu casaco foi guardado pelos guardas e eu estava dentro da prisão. Um guarda me empurrava rumo a minha cela.
A porta de aço emitiu um estrondo alto e a guarda me empurrou com força para dentro da sala. Uma mulher deitada na parte de baixo do beliche se sobressaltou e me olhou assustada. Depois esfregou os olhos e sentou-se na cama.
— Estava tão bom aqui sozinha. — murmurou.
— Não pretendo ficar muito tempo aqui. — falei. As bochechas dela ganharam um tom avermelhado e ela sorriu amarelo.
— Pensei que fosse Russa, ou brasileira, sei lá. Menos americana. — explicou.
— Tudo bem, não me importa. — subo as escadas para o segundo beliche e deito, fito o teto. Algo me diz que as horas vão passar como tartarugas.
— Por que está aqui?
— Heroína, êxtase, cocaína, e metanfetamina. — respondo. — E você?
— Matei um russo de merda, trabalhava em um bar e ele pensou que eu fazia programa. Mas teve o que merecia. — sua voz não demonstra arrependimento algum. — Você já matou alguém? — suspiro. As imagens das minhas últimas vítimas aparecem bem à frente dos meus olhos.
— Sim.
— As horas aqui não passam, então acho melhor você ir se acostumando. E vão pegar muito no seu pé.
— Só tenho que aguentar até a noite.
— O que foi que disse?
— Nada não. — respondo, e fecho meus olhos. A imagem de Oliver preocupado comigo ronda meus pensamentos.
Eu sei que Darhk, Cait, Sara e Nyssa se preocupam comigo, mas nunca ninguém além deles se preocupou. Claro que já teve a minha mãe, mas agora, ela nem sabe o que acontece comigo, não faz a mínima ideia do que eu faço. Ter outra pessoa zelando por minha vida é bom, eu me sinto bem com isso. Mas ao mesmo tempo é muito ruim.
(...)
Acordo mais tarde com o barulho estridente da porta de metal batendo no concreto. Logo dois guardas entram, rugindo como feras. Não entendo nada do que eles falam, olho para minha colega de cela e ela sinaliza com a cabeça apontando para a porta. Não sei quanto tempo dormi, mas agora deve ser a hora do jantar.
— Prepare-se, vai entrar num ninho de ratos agora. — murmura. — Você é carne nova, e bonita desse jeito, vai atrair as ratazanas.
— Estou contando com isso. — digo.
Seguimos por um corredor sujo e fedido, as luzes piscam e o lugar é úmido. Os guardas abrem duas portas e adentramos o refeitório. Algumas detentas me olham e cochicham com as outras. Mas o grupo do canto me chama a atenção. Presto atenção numa mulher coberta de tatuagens e piercings, ela me encara da cabeça aos pés, tem o lado da cabeça raspada e os músculos dos seus braços se sobressaem. Ela deve ser a líder desse lugar. Acho que terei problemas.
Alicia é o nome da minha colega de quarto, ela me guia até as bandejas usadas para nos alimentarmos, eu me sirvo de uma gororoba que não sei identificar o que é, mas sua cara e cheiro não são bons. Sentamo-nos em uma mesa no canto do salão. Olho para trás por breves segundos e a mulher cheia de tatuagens continua com os olhos fixos em mim.
— Sasha. — diz Alicia. — Ninguém mexe com ela por aqui.
— O que ela fez?
— Chefe de gangue. Drogas, assassinatos, roubos. Essas coisas. Acho que ela não gostou de você e isso é um mau sinal.
Dou de ombros e encaro a comida intragável a minha frente.
— Hey Americana. — giro e Sasha está parada atrás de mim. Para uma russa seu inglês é muito bom. — Será minha nova vadia.
— Não tenho tanta certeza disso. — retruco e ela corre em minha direção, apenas lhe dou um chute na canela fazendo-a cair no chão. Esse pequeno tumulto chamou a atenção dos guardas. Logo um deles agarrou meu braço e apertou com força.
— Solitária. — murmurou em um inglês fajuto.
Arrastou-me para fora do refeitório e quando passei pela porta recebi um leve aceno de cabeça do guarda que Diggle disse que me ajudaria. Percorremos um extenso corredor e no fim eu fui jogada em um cubículo iluminado por uma luz bem fraquinha. Olhei ao redor e outra detenta estava deitada no canto sujo da sala. Ela acordou e afastou os cabelos do rosto.
— Você. — seus lábios se curvaram em um sorriso debochado.
— Você. — repeti.
Fale com o autor